(Parte 4 de 5)

mas vamos olhar também o outro lado da previsão, que tem a ver com a interface cada vez mais difusa entre o tempo pessoal e o do trabalho. para isso, vamos partir do princípio de que estamos e estaremos vivendo em uma sociedade que, cada vez mais, será da informação e do conhecimento. ou seja: no médio prazo, quem ainda tiver alguma função sócio-econômica que convenhamos relacionar às noções atuais de trabalho e emprego [e renda] estará quase que certamente trabalhando em e com conhecimento.

quando seu trabalho é de conhecimento, seu tempo pessoal, já hoje, não se separa de seu tempo de trabalho. você, na prática, não desliga a parte de seu cérebro que resolve os problemas do trabalho quando, por exemplo, está na praia. aliás, é bem provável que na praia, separado do seu "local" de trabalho, pegando onda em maracaípe, lhe venha alguma idéia sobre como tratar um dos "problemas" do trampo.

e o melhor é que isso não deveria ser nenhuma novidade. imagine um nativo, numa selva ideal, intocada por invasores. de quantas fontes de informação depende, a qualquer momento, a sobrevivência daquele indivíduo e seu grupo? ele sai para caçar e, ao contrário do que pensamos, não está absolutamente concentrado no macaco, no topo da árvore, que ao ser acertado por uma flechada será a proteína do almoço de amanhã. há um amplo contexto ao redor do nosso caçador: sua atenção tem que ser dividida entre uma multitude de sinais, desde pássaros agitados por causa de algum predador [a onça que pode estar atrás] até os estalos, à frente, que podem se transformar num bote mortal de serpente em poucos segundos.

o caçador tem que dispensar ao seu alvo o que passamos a chamar, há pouco tempo, de atenção parcial contínua. o alvo e um monte de outras coisas têm que estar no foco, o tempo todo, um pouquinho de cada vez e simultaneamente. isso vem a ser a base do que a revista TIME denominou da "geração multi-tarefa" e que o professor de educação da ufba, nelson pretto, chama da "geração alt+tab", se referindo ao mecanismo padrão de troca de foco entre as janelas de windows. mão na direção outra na marcha, um ouvido no rádio do carro, juca kfouri -e nós- torcendo pela queda do ricardo teixeira, outro na rua, um olho no trânsito e outro no celular -pra ver quem está chamando- e olha que o sinal vai fechar… nós somos, sempre fomos, multi-tarefa.

mas não é só: a extensão -ou virtualização, usando a rede- dos locais físicos de trabalho, que vai acabar levando à extinção dos locais de trabalho nos casos em que as ferramentas possam ser informatizadas e providas à distância, vai fazer com que o tempo pessoal deixe de ser compartimentalizado em horas "de repouso", versus horas "de trabalho", onde alguém bate ponto e tem sua capacidade de trabalho alugada, por alguma instituição, por hora.

vamos voltar, paulatinamente -e 2020 está antes da metade do caminho- a uma situação em que seremos remunerados por resolver problemas e não por hora de aluguel de nossas capacidades. o trabalho escravo, no passado, obrigava o indivíduo a estar disponível o tempo inteiro, a vida inteira. o trabalho "de ponto" a que nos obriga a legislação trabalhista brasileira em quase todos os casos, reduz tal disponibilidade a cerca de um terço do dia, garantindo férias e mais um bocado de coisas. e, na maioria dos casos, desacopla o empregado do risco e do sucesso do empreendimento.

bater "o ponto" e trabalhar num "local de trabalho" está diretamente associado à escassez das ferramentas com as quais o trabalho é feito e ainda fará sentido, no futuro próximo, para um certo número de profissionais. mesmo quando ambientes são essenciais para o trabalho. olhe para os cirurgiões: a maioria já não "bate ponto", resolve problemas e é remunerado por isso. da mesma forma, não há nenhuma razão para que o professor [sempre] dê aulas "na escola", se houver disponibilidade de ferramentas e infra-estrutura de conexão que integre comunidades de aprendizes, tenho experimentado, na última meia década, trabalhar de qualquer cidade ou prédio com gente em muitos outros lugares e prédios. às vezes, de um hotel em são paulo, entro em contato, via skype, nimbuzz, emeio, blog, rede social, twitter… com dezenas de pessoas, para resolver problemas, entre 1 da noite de 2 da manhã. e a maioria dos emeios que sai do meu laptop, no hotel, foi composta no vôo recife-guarulhos, que ainda é uma das poucas três horas em que ninguém consegue me encontrar online. por enquanto: vem aí cobertura 3G dentro dos aviões, coisa antecipada por este blog muitos meses atrás.

dá pra notar que os dois temas deste texto estão conectados: quanto mais nos virtualizamos, mais difusa se torna a separação entre os tempos do trabalho e pessoal. isso é bom ou ruim? como tudo na vida, depende… em 2020, as cidades estarão muito mais conectadas entre si e, dentro delas, seus bairros e prédios estarão mais conectados. será muito mais fácil trabalhar sem ir até o local de trabalho… e você e eu não precisaremos jogar fora quatro horas, por dia, no trânsito, para ir até o lugar onde, no passado, estavam as ferramentas necessárias para realizar nossa tarefa. empresas que continuarem insistindo em trazer as pessoas para um local de trabalho singular poderão ser forçadas a pagar impostos mais altos por isso, para compensar o custo logístico que infligirão à região onde estão situadas.

mas, alguém diria… você pode ficar viciado em trabalho e trabalhar o tempo inteiro, exatamente porque os meios estarão com você [em casa ou perto dela] ou em você [no longo prazo, implantados em você...]. sim, você pode ficar viciado em trabalho. isso pode fazer muito bem à sua empresa, por um tempo, e a você, também por um tempo. mas pode virar um vício radical, uma neurose, daquelas que precisa ser levada a sério e tratada. muita gente pode ficar viciada em trabalho, num cenário como o descrito acima. mas será que isso faria mais mal à sociedade do que as doenças de trabalho causadas pelo trânsito que se enfrenta pra ir trabalhar ou, pior, pelas mazelas pessoais e sociais advindas de práticas de "trabalho" em que uma parte dos empregados bate ponto e não faz nada, gastando o expediente, na sua "repartição", a ver navios e contaminando os companheiros?… é muito provável que não. mais virtualização, com uma separação bem menor entre o abstrato e o concreto, fundindo ambos em uma [quase] só realidade, tornará possível levar o trabalho às pessoas e não as pessoas ao trabalho. esta é uma parte inevitável do futuro. parte dela já acontece agora e muito mais vai estar rolando daqui a doze anos. neste cenário, e pra quem está começando agora, é bom olhar pro futuro com olhos virtuais e pensar em como se remunerar, num mundo em rede, resolvendo problemas, estejam onde estiverem. este vai ser o jeito do futuro. e já pra muito mais gente e em muito maior parte, daqui a meros doze anos.

pra terminar, uma recomendação de leitura sobre o virtual e os nossos tempos, num futuro mais próximo do que talvez se possa imaginar : idoru, novela escrita por william gibson em 1996. idoru é o japonês para ídolo, que os americanos acham que veio de idol, mas deve ter vindo mesmo de ídolo, em português. o ponto alto da história é o casamento de uma estrela de rock, rez, com um idoru, rei toei, nada mais nada menos do que uma construção virtual, um ídolo sintético ideal que existe na realidade mas que não é… concreto.

a novela deixa claro que todos os ídolos são construções e que tanto faz, mantida uma certa distância, se são concretos ou abstratos. rei toei, um virtual, não separa trabalho e lazer, move montanhas e mundos, tem legiões de fãs e, ainda por cima, vai se casar com alguém de… verdade.

rei toei guarda uma semelhança com as bandas de adolescentes que espocam aqui e ali, onde os participantes saem de uma linha de montagem operada por empresários e produtores [e mídia] e são, quase sempre, vazios. isso não impede que sejam adorados de forma frenética por multidões de outros adolescentes que gostariam muito de estar em seu lugar ou… casar com eles. neste presente, nosso e bem real, já padecemos de uma certa confusão entre estes concretos e abstratos.

o passo à frente de gibson é criar uma celebridade abstrata, idolatrada, capaz de levar um dos maiores roqueiros [digamos] concretos do planeta a querer se casar com ela. ou seria, apenas, uma conjunção de interesses manipulada pelos gestores de ambos os lados? é o futuro, diria um dos personagens, e não vou revelar aqui… vá ler o original. vale a pena.

internet em 2020 [6]: o futuro da infra-estrutura

Tags:2020, futuro, infra-estrutura, internet, pew, previsões, tendências – 2.01.2009 relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado no fim do ano passado, chegou a seis conclusões. para tal, mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede foram consultados. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE, o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA, o terceiro sobre o futuro das INTERFACES, o quarto sobre PROPRIEDADE INTELECTUAL e o quinto sobre as REALIDADES [física e virtual] e os TEMPOS [do trabalho e pessoal], em tempos de rede.

das tecnologias da rede. o PIP prevê queNext-generation engineering of the network to

este é o último capítulo desta série, onde vamos considerar a previsão do PIP sobre a evolução improve the current internet architecture is more likely than an effort to rebuild the architecture from scratch: é mais provável que as próximas gerações de engenharia de redes melhorem as bases da internet atual do que reconstruam a rede a partir do zero.

pra entender porque tal previsão faz muito sentido, é preciso considerar qual foi o ponto de partida da internet [em 1968!...] e o que, de lá pra cá, foi feito pra implementar a rede como imaginada pelos visionários de conectividade lá no começo dos tempos. leonard kleinrock, cuja tese de doutoramento no MIT estabeleceu alguns dos fundamentos das modernas redes de comunicação e que foi responsável pela primeira conexão entre computadores numa forma em que hoje reconheceríamos como internet, relembrou, em um artigo publicado em 2003 [An Internet vision: the invisible global infrastrucutre] que sua visão original da internet envolvia cinco princípios: 1. The Internet technology will be everywhere; 2. It will be always accessible; 3. It will be always on; 4. Anyone will be able to plug in from any location with any device at any time; 5. It will be invisible.

em bom português, 1. a tecnologia de internet vai estar em todo lugar; 2. o acesso à rede será permanente; 3. a rede vai estar sempre ligada; 4. qualquer um vai poder entrar na rede a partir de qualquer lugar, com qualquer tipo de dispositivo, a qualquer hora e 5. a rede será invisível. segundo o próprio kleinrock [e qualquer um de nós pode comprovar isso] os princípios 1-3 estão sendo implementados paulatinamente, apesar de sua distribuição na sociedade e na geografia não ser exatamente uma beleza. mas os padrões de internet se tornaram universais e a prefeitura de taperoá, se quiser cobrir a cidade com wi-fi, sabe exatamente como fazê-lo. e, bem feito, vai ficar tão bom quanto em san francisco e será "a mesma" internet.

claro que a gente pode reclamar muito, ainda, do "sempre ligada": meus dois provedores de rede não parecem ter lido o artigo de kleinrock e, muito menos, terem ouvido falar em direitos dos usuários ou acordo de nível de serviço. se me fornecem mais banda, tenho que pagar mais; se passam 10% do mês fora do ar, me cobram a mesma coisa… mas o bicho pega, do ponto de vista da separação entre visão e realidade, quando se considera os itens 4 e 5 da visão de kleinrock. conectar qualquer coisa, a partir de qualquer lugar, a qualquer hora, décadas atrás, significava conectar terminais e computadores, que estavam dentro de centros de computação, uns aos outros. hoje, usando uma infra-estrutura que herdou muitas características da original, tenta-se conectar literalmente tudo à rede, de brinquedos, geladeiras, fechaduras de portas, automóveis e aviões até sensores implantados em seres humanos. tudo passou a ser tudo mesmo e qualquer lugar e hora passaram a ser tratados literalmente: são qualquer lugar do planete [e fora dele] e 24×7x365.

isso é muito bom, porque passamos todos a usar, como meio de troca de informação, a mesma plataforma de rede, seu hardware, seus processos, seus protocolos. o problema é que a rede, como pensada originalmente, não previa que um dos seus principais usos seria servir de base para outras redes, como é o caso das comunidades P2P criadas sobre a infra-estutura de internet. estes "outros usos" forçam os limites da rede até pontos de ruptura, como é o caso quando provedores americanos constragem tráfego de certos tipos [P2P, VOIP...] para garantir serviços que consideram essenciais…

ou pior: sempre se tratou a casa do usuário como sendo um lugar para onde iam dados e de onde, com muito menor intensidade, vinham dados. na hora em que a audiência, conceitual e praticamente, se transformou em comunidade, os usuários podem ser, em um número cada vez mais frequente de situações, o lugar de onde os dados estão vindo. e aí, como a infra-estrutura não aguenta, começam nossos conflitos com os provedores. quanto mais fora do centro da rede você está, maior a chance de não haver banda suficiente para você ser parte da comunidade e ter seu papel restrito [se tanto] a audiência.

mas o ideal está ainda mais longe da realidade quando se considera o item 5 da visão de kleinrock: a rede será invisível. disso ainda estamos tão distantes que, quando a rede nos der tal tipo de experiência, vamos achar que estamos usando a "próxima" geração da internet. invisível, neste caso, poderia ser qualificado como, por exemplo, tão invisível como no caso da eletricidade. lá, você transfere toda a complexidade do sistema para a geração e distribuição e na sua casa há nada mais que tomadas e interruptores. se tudo correr bem, você só lembra que

internettudo depende dela] quando falta. e isso ocorre com uma frequência cada vez menor.

vive completamente imerso em eletricidade [água, esgoto, telefone, iluminação, elevador, a invisibilidade da rede [e da infra-estrutura de informação, como um todo] é parte do que eu venho chamando, há algum tempo, de informaticidade, como no texto que se segue, de 2006:

a era da informação, segundo peter drucker, não começou com a internet, mas bem antes, ao fim da segunda guerra mundial. até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. as palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. o domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deu um ar de fim-da-história ao mundo da energia. a partir daí, os processos biológicos passaram a ser a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de inforrmação e seu processamento.

temos meio século, pois, de era da informação, o que coincide com a idade das máquinas computacionais, digamos, modernas, inauguradas com o eniac em 1946. os primeiros processadores eletrônicos de informação eram tão complexos que as organizações que os tinham em casa foram obrigadas a criar departamentos de tecnologia, populados por gente que entendia de sistemas computacionais -os computadores propriamente ditos e sua infra-estrutura de software-, capaz de fazer as “máquinas” produzirem os “resultados” exigidos pelos negócios. da mesma forma como, no princípio dos tempos da energia, as indústrias de sucesso tinham seu próprio departamento de energia [e algumas o têm até hoje], os negócios mais inovadores destes sessenta anos de era da informação foram aqueles que melhor souberam tirar proveito dos computadores, usando para isso a competência tecnológica interna e de tantos parceiros quantos foi possível.

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