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os computadores e seu uso nos negócios foram inovações radicais do século X, mudando o mundo e criando possibilidades que, processando dados à mão, eram impensáveis. mas toda inovação é incompleta, imperfeita e impermanente, e sempre chega, de novo, a hora de inovar. não que informática tenha se tornado commodity e qualquer um, em qualquer lugar, possa provê-la. mas, lá atrás, energia se tornou eletricidade, disponível na tomada, e não queremos saber como nos chega. usamos, pagamos e pronto.

da mesma forma, processamento de informação vira informaticidade: interfaces especificadas e entendidas, escondendo funções e procedimentos que queremos, sim, saber o que fazem. suas propriedades são mais complexas do que os fluxos de corrente (da “energia elétrica”) que produzem calor, luz e movimento. mas, uma vez a par dos significados por trás das interfaces e tendo acesso remoto, confiável, de alta performance e barato, não precisamos, para usar tal informaticidade, de departamentos de tecnologia do lado de cá da rede.

e isso é uma boa notícia para todos. primeiro, para o pessoal “de tecnologia”, que vai trabalhar onde os problemas “tecnológicos” estão, e onde é mais interessante e divertido estar: lugares como amazon s3 [armazenamento on-line], netvibes.com [ecologia de informação] e salesforce.com [cadeia de valor de processos de automação de negócios]. todos são exemplos de informaticidade, atrás do conector, sem que o usuário pense em segurança, performance, updates, backup… problemas lá do pessoal “de tecnologia”.

software-como-serviço é outro nome que se dá a informaticidade; mas esta é bem mais que aquela: inclui hardware-como-serviço, rede-como-serviço e, quase de brincadeira, serviço-como-serviço, quando não temos que fazer o serviço que deveríamos, pois tal poderia ser realizado compondo outros, já disponíveis na rede.

por outro lado, quem ficar do lado de cá do conector terá que se concentrar no que é essencial para o negócio: informação. durante muito tempo -quase todos estes sessenta anos- os interesses informacionais dos negócios estiveram subjugados às competências, humores e modismos de seu pessoal de “tecnologia”. apesar do chefe, lá, atender pelo título de chief information officer, que significava, de fato, chief information technology officer. com a tecnologia escondida na informaticidade, o pessoal “de tecnologia” que restar será o que der conta, enfim, da informação.

a agenda dos “novos” cios, nos negócios, será pautada na criação, manutenção, implantação e operação de políticas e estratégias de informação, cobrindo o ciclo de vida de informação no negócio, de criação ou captura até terminação, passando por processamento, armazenamento, preservação, apresentação… para o que precisarão desenhar sistemas de informação, parte da funcionalidade dos quais, breve, será provida pela informaticidade da rede, através da composição de funções disponíveis em muitos fornecedores. e o resto, que tivermos que definir e escrever nós mesmos, será em boa parte complementos e conexões de coisas que outros irão nos fornecer como serviço.

em algum lugar, lá atrás, estarão, a suportar tudo, as tecnologias de informação. gozando pela primeira vez, em sua curta história, da imunidade do anonimato. algo me diz que, neste novo mundo, as coisas serão muito mais calmas e que, por isso mesmo, poderemos inovar muito mais.

tal conjunto de conceitos deixa bastante claro que informaticidade é algo bem mais amplo do que computação ubíqua, "cloud computing", software como serviço ou qualquer outro subconjunto do que queremos ver -e ter- como a infra-estrutura prá lá e nós pra cá, usando a máquina de inovar que é a internet como plataforma universal de criatividade e empreendedorismo e não como foco de nossas preocupações e atenções, como se fosse fundamental, para cada um, saber como funciona um proxy, o que é um servidor de DNS e coisas do tipo. não, não é.

enquanto for… a quinta e mais importante parte da visão de kleinrock sobre o futuro da internet [visto a partir de 1969!...] não terá sido realizada. e isso vai continuar lembrando que o nosso principal papel, na engenharia e interfaces de rede, será a de continuar transformando nossa infra-estutura de conexão e interação para que sua implementação e uso venham a ser, no futuro, tão simples como foi pensada lá no começo.

por isso que é mais que claro que nenhuma revolução fundamental vai ocorrer na internet na próxima década, como o PIP descobriu. pode até ser que novos sistemas de computação e comunicação, novos protocolos e novas interfaces se tornem realidade. mas serão apenas meios para se atingir uma visão simples e ao mesmo tempo genial que, depois de quarenta anos, ainda estamos implementando.

silvio meira, nascido em taperoá, paraíba (em '5), é formado em engenharia eletrônica pelo ITA ('7), mestre em informática pela ufpe ('81) e phd em computação pela university of kent at canterbury, uk ('85). casado com kátia betmann, é pai de cecília, diana e pedro. autor de mais de duzentos artigos científicos e tecnológicos publicados em congressos e revistas acadêmicas e de centenas de textos sobre tecnologias da informação e seu impacto na sociedade, publicados na imprensa leiga e de tecnologias da informação, meira já supervisionou (desde 1985) mais de sessenta teses e dissertações de doutorado e mestrado em computação.

silvio meira foi pesquisador do cnpq por mais de 15 anos; concebeu e coordenou o programa temático multi-institucional em ciência da computação (protem-c) do cnpq; criou e coordenou o programa de doutoramento em ciência da computação da ufpe; foi assessor da secretaria de política de informática do ministério de ciência e tecnologia; foi membro do primeiro comitê gestor da internet/Br, da comissão nacional de avaliação da educação superior (conaes), e presidente da sociedade brasileira de computação; foi consultor do world bank (programa infodev) e do united nations development program; foi um dos criadores e primeiro presidente do c.e.s.a.r, centro de estudos e sistemas avançados do recife, um dos criadores do porto digital, ecossistema urbano de informática no recife antigo, um dos três cientistas que criaram o engenho de busca radix.com e um dos arquitetos da newstorm.com. foi colunista do diário de Pernambuco, jornal da tarde, agência estado e da revista eletrônica NO. e recebeu, da presidência da república, as comendas da ordem nacional do mérito científico (1999) e da ordem de rio branco (2001). em 2006, recebeu do governo de pernambuco a mais alta comenda do estado, a ordem do mérito dos guararapes. em 2008, recebeu a medalha do conhecimento do ministério do desenvolvimento, indústria e comércio.

atualmente, é professor titular de engenharia de software do centro de informática da ufpe, recife, onde leciona disciplinas de engenharia de software e de história e futuro da computação, e cientista-chefe do c.e.s.a.r, onde coordena o grupo de inovação e os esforços de gestão de conhecimento e redes sociais, reuso em engenharia de software (w.rise.com.br), métricas e estimativas em projetos de software e compartilhamento de informação P2P. meira é presidente do conselho de administração do portodigital, membro do conselho da philips latin america, do comitê assessor de tecnologias da informação do mct, parceiro da rede AVINA, do conselho editorial da revista do serviço público e de inteligência empresarial, e colunista do terramagazine, onde escreve quase diariamente sobre tecnologias da informação e comunicação e seu impacto político, econômico e social.

meira é consultor independente de políticas e estratégias de informação, informática e inovação. em 2005, silvio meira foi eleito, pela revista info, um dos três mais importantes evangelistas de tecnologias da informação do brasil. em 2007, foi eleito um dos 100 mais influentes brasileiros, pela revista época. em 2009, foi uma das entrevistas do “pensamento nacional” da HSM management e entrevistado do mês de janeiro da revista marie claire.

silvio meira é batuqueiro de maracatu: não aceita convites para nenhuma outra coisa, em janeiro e fevereiro, que não tenha caixas, abês, alfaias, gonguês e reis, rainhas e damas de passo nas ladeiras de olinda e no bairro do recife antigo, n’acabralada e no maracatu nação pernambuco.

políticas e estratégias de informação, motivação

brasil e mundo afora, silvio meira faz palestras sobre inovação, TICs e seus impactos sociais e econômicos, sociedade da informação, entre em contato com silvio@cesar.org.br ou ligue para socorro no (81) 3425 4714, socorro@cesar.org.br

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