Neuroanatomia

Neuroanatomia

(Parte 1 de 6)

Universidade do Estado do Pará

Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Laboratório de Anatomia Humana

Laboratório de Anatomia da UEPA

Curso Teórico-prático de Neuroanatomia

1. Conceitos Básicos de Neuroanatomia3
2. Embriologia do Sistema Nervoso6
3. Tronco Encefálico17
4. Diencéfalo20
5. Telencéfalo2
6. Hipocampo29
7. Cerebelo37
8. Motricidade voluntária48
9. Sensibilidade57

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• Substância cinzenta: tecido nervoso constituído de neuróglia, corpos de neurônios e fibras predominantemente amielínicas.

• Substância branca: tecido nervoso formado de neuróglia e fibras predominantemente mielínicas.

• Núcleo: massa de substância cinzenta (principalmente corpos de neurônios) dentro de substância branca, ou grupo delimitado de neurônios com aproximadamente a mesma estrutura e mesma função.

• Córtex: substância cinzenta que se dispõe em uma camada fina na superfície do cérebro e do cerebelo.

• Tracto: feixe de fibras nervosas com aproximadamente a mesma origem, mesma função e mesmo destino. As fibras podem ser mielínicas ou amielínicas. • Fascículo: usualmente o termo se refere a um tracto mais compacto.

• Lemnisco: feixe em forma de fita.

• Funículo: o termo é usado para a substância branca da medula; um funículo contém vários tractos ou fascículos.

• Decussação: formação constituída por fibras nervosas que cruzam obliquamente o plano mediano e que têm aproximadamente a mesma direção.

• Fibras de projeção: são fibras que partem de uma determinada área para outras regiões

• Comissura: As comissuras são estruturas formadas por fibras que cruzam perpendicularmente o plano mediano, interligando regiões anatomicamente correspondentes e contralaterais. • Fibras de associação: são fibras que associam pontos mais ou menos distantes de uma área ou órgão, entretanto, sem abandoná-lo.

Considerações gerais

O tecido nervoso é composto por neurônios e células da glia. O neurônio é a célula responsável pelo processamento e formação dos impulsos necessários para a comunicação tanto entre esses tipos de células, como as células-alvo, células musculares e glandulares. Os neurônios possuem propriedades de excitabilidade e são divididos em dendritos, que são estruturas formadas por inúmeras ramificações que são responsáveis pela recepção do estímulo; corpo celular, também chamado de pericário, sendo que nessa porção encontra-se toda a estrutura necessária para o metabolismo do neurônio, sendo considerado o centro nervoso; e os axônios, que são os prolongamentos celulares que levam os estímulos gerados no pericário para as outras células.

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As células da glia são cerca de dez vezes a quantidade de neurônios, porém, devido a seu tamanho, elas ocupam a metade do volume no tecido nervoso. Elas estão envolvidas no apoio ao tecido nervoso: suportando, isolando, e nutrindo os neurônios, mas as células da glia não apresentam excitabilidade. As células da glia são compostas pelos oligodendrócitos, astrócitos, células ependimárias e microglias.

A transmissão do impulso de um neurônio para o outro depende de uma estrutura muito especializada, as sinapses. Elas podem ser divididas em química e elétrica. Na primeira, há um espaço estreito entre as membranas das duas células nervosas, a fenda sináptica, onde são liberados os neurotransmissores e delimitada pelas membranas pré-sináptica (do terminal axônico) e póssináptica ( de um dendrito, pericário, axônio ou célula efetora). Nas sinapses elétricas, os neurônios unem-se através de junções comunicantes, o que permite a transferência de íons de uma célula para outra, mas esses tipos de sinapses são incomuns nos mamíferos.

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Em cortes do sistema nervoso central podemos individualizar duas regiões: as substâncias branca e cinzenta. A primeira é formada por células gliais e fibras mielínicas, o que permite a coloração clara; e a segunda é constituída por corpos de neurônios, fibras amielínicas, algumas fibras mielínicas, astrócitos e oligodendrócitos e micróglia. A disposição das duas substâncias varia de acordo com a região do sistema nervoso, como, por exemplo, a medula, que possui internamente a substância cinzenta e a substância branca na porção periférica, enquanto que no córtex a disposição é invertida.

O sistema nervoso é dividido anatomicamente em sistema nervoso central e sistema nervoso periférico. O primeiro encontra-se protegido pelo arcabouço ósseo, formado pela coluna vertebral e o crânio, sendo constituído de encéfalo (cérebro, cerebelo e tronco encefálico) e medula espinhal; enquanto que o segundo é composto pelos nervos e gânglios nervosos.

O sistema nervoso pode ser dividido segundo critérios embriológicos em:

Prosencéfalo: Telencélafo (córtex e núcleos da base) e o diencéfalo (tálamo e hipotálamo). Essas estruturas formam o cérebro Mesencéfalo Rombencéfalo: Metencéfalo (Cerebelo e ponte) e mielencéfalo (bulbo).

Na divisão fisiológica, o sistema nervoso somático corresponde a integração entre o organismo e o meio externo, para isso esse sistema é composto por uma porção aferente, relacionada aos impulsos gerados a partir de estímulos do ambiente, e uma eferente, responsável pela transmissão à musculatura esquelética, promovendo a execução da movimentação voluntária. O sistema nervoso visceral é o responsável pela homeostase do organismo, funcionando de maneira inconsciente e involuntária, sendo constituído de via aferente, onde transitam os impulsos originados das vísceras (visceroceptores), e a via eferente, que é a porção por onde os comandos dos centros nervosos enviam para os seus alvos, glândulas, músculo liso ou cardíaco. É importante destacar que essa porção eferente do sistema nervoso visceral é também chamado de sistema nervoso autônomo, o qual é subdividido em simpático e parassimpático.

Funções do Sistema Nervoso

*Função Sensitiva e Sensorial: As diversas informações relativas ao corpo e a seu ambiente chegam até os centros nervosos, onde são reagrupadas, associadas, classificadas e arquivadas; Os receptores>>>> nervos>>>>>centros nervosos Os receptores (tato, visão, olfato, audição e paladar). *Função motora: comando dos músculos, órgãos, secreção glandulares, digestivas etc.

* Função: as idéias, as funções intelectuais, pensamentos e emoções são gerados e a memória é formada e armazenada.

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Introdução

A neuroanatomia tem sido um desafio para gerações de estudantes, e por um bom motivo: o encéfalo humano é extremamente complexo. No entanto, nosso encéfalo é uma mera variação de uma estrutura comum aos encéfalos de todos os mamíferos. O encéfalo humano parece complexo porque ele é deformado em decorrência de um crescimento excessivo de algumas de suas partes dentro dos limites rígidos do crânio. Porém, uma vez entendida a estrutura básica nos mamíferos, estas especializações do encéfalo humano serão compreendidas com mais facilidade.

O sistema nervoso de todos os mamíferos apresenta duas divisões: o sistema nervoso central

(SNC) e o sistema nervoso periférico (SNP). O SNC inteiro é derivado das paredes de um tubo que se formou em um estágio inicial do desenvolvimento embrionário. O tubo irá se transformar no sistema ventricular no adulto. Assim, examinando como esse tubo se modifica durante o desenvolvimento fetal, podemos compreender como o encéfalo se organiza e como as diferentes partes se reúnem.

Formação do Tubo Neural

No início, o embrião é um disco plano formado por três camadas celulares chamadas de endoderma, mesoderma e ectoderma. O endoderma origina, em última instância, o revestimento de múltiplos órgãos (vísceras). Do mesoderma originam-se os ossos do esqueleto e os músculos. O sistema nervoso e a pele (epiderme) derivam-se inteiramente do ectoderma.

A região do ectoderma a ser focalizada aqui, é aquela que origina o sistema nervoso: a placa neural. Nos estágios iniciais (cerca de três semanas de gestação em humanos), o encéfalo está formado apenas por uma camada pavimentosa de células. A próxima etapa de interesse é a formação de um sulco na placa neural, o sulco neural, que a percorre no sentido céfalo-caudal. As paredes do sulco, as pregas neurais, movimentam-se conjuntamente e fundem-se dorsalmente constituindo o tubo neural. A totalidade do sistema nervoso central desenvolve-se a partir das paredes do tubo neural. Quando as pregas neurais juntam-se, algum ectoderma neural desprende-se, indo localizar-se lateralmente ao tubo neural. Este tecido é a crista neural. Todos os neurônios com os corpos neuronais no sistema nervoso periférico serão derivados da crista neural.

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FIGURA – Os desenhos de cima são vistas dorsais do embrião e os de baixo, secções coronais.

A crista neural desenvolve-se em íntima associação com o mesoderma adjacente. O mesoderma, neste estágio do desenvolvimento, forma proeminentes protuberâncias em cada lado do tubo neural, chamadas de somitos. A partir destes somitos desenvolvem-se as 3 vértebras da coluna vertebral e os músculos esqueléticos relacionados. Os nervos que inervam estes músculos esqueléticos serão posteriormente chamados de nervos motores somáticos.

O processo pelo qual a placa neural se transformará em tubo neural chama-se de neurulação, que ocorre muito precocemente no desenvolvimento embrionário, ao redor dos 2 dias após a fecundação em humanos.

As Três Vesículas Encefálicas Primárias

O processo pelo qual as estruturas tornam-se mais elaboradas e especializadas durante o desenvolvimento é chamado de diferenciação. O primeiro passo na diferenciação do encéfalo é o desenvolvimento, na porção rostral do tubo neural, de três dilatações denominadas vesículas primárias. O encéfalo, em sua totalidade, deriva das três vesículas primárias do tubo neural.

A vesícula mais rostral chama-se prosencéfalo, também chamado de encéfalo anterior.

Detrás do prosencéfalo encontra-se outra vesícula chamada de mesencéfalo ou encéfalo médio. Caudalmente a esta, situa-se a terceira vesícula primária, o rombencéfalo, ou encéfalo posterior. O rombencéfalo conecta-se ao tubo neural caudal, o qual origina a medula.

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FIGURA - A porção mais rostral do tubo neural diferenciam-se três vesículas que originarão todo o telencéfalo.

1. Diferenciação do Prosencéfalo:

O próximo passo significativo no desenvolvimento do cérebro anterior é o surgimento de vesículas secundárias em ambos os lados do prosencéfalo. As vesículas secundárias são as vesículas ópticas e as telencefálicas. A estrutura que permanece ímpar, logo após o “brotamento” das vesículas secundárias, chama-se diencéfalo. Assim, o prosencéfalo, neste estágio, é formado por duas vesículas ópticas, duas vesículas telencefálicas e o diencéfalo.

As vesículas ópticas crescem e invaginam-se para formar o pedúnculo (ou talo) óptico e o cálice óptico, que originarão, por fim, os nervos ópticos e as duas retinas do adulto. O ponto a assimilar é que a retina, na zona posterior do olho e os nervos ópticos que conectam o olho ao diencéfalo, são parte integrante do encéfalo e não do SNP.

FIGURA - O prosencéfalo diferencia-se no diencéfalo nas vesículas telencefálicas pareadas e nas vesículas ópticas.

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1.1. Diferenciação do Telencéfalo e Diencéfalo:

As vesículas telencefálicas, juntas, formam o telencéfalo, ou “encéfalo distante” que está formado pelas duas vesículas telencefálicas. O telencéfalo continua a desenvolver-se, ocorrendo quatro eventos: (1) As vesículas telencefálicas crescem posteriormente, situando-se dorsal e lateralmente ao diencéfalo. (2) outro par de vesículas surge da superfície ventral dos hemisférios cerebrais, dando origem aos bulbos olfatórios e estruturas relacionadas que participam do olfato. (3) As células da parede do telencéfalo dividem-se e se diferenciam em várias estruturas. (4) A substância branca desenvolve-se, carreando axônios dos e para os neurônios telencefálicos.

FIGURA - À medida que o desenvolvimento prossegue, os hemisférios cerebrais dilatam-se e crescem, laterais e posteriormente, envolvendo o diencéfalo. Os bulbos olfatórios emergem da superfície ventral de cada vesícula telencefálica.

A Figura abaixo mostra uma secção coronal do prosencéfalo primitivo de mamífero, ilustrando como as diferentes porções do telencéfalo e do diencéfalo se diferenciam e se adaptam conjuntamente. Note que os dois hemisférios cerebrais situam-se acima e em cada lado do diencéfalo, além de a superfície ventral medial dos hemisférios fundir-se com as superfícies laterais do diencéfalo.

Os espaços dentro dos hemisférios cerebrais são chamados de ventrículos laterais, e o espaço no centro do diencéfalo denomina-se de terceiro ventrículo. Os ventrículos laterais pareados são um ponto de referencia-chave no encéfalo adulto: sempre que você observar ventrículos pareados em uma secção de cérebro, saberá que o tecido que os circunda é o telencéfalo. O aspecto de fenda alongada do terceiro ventrículo em cortes coronais é um aspecto importante para verificar o diencéfalo.

Observe na Figura abaixo, que as paredes das vesículas telencefálicas parecem dilatadas devido à proliferação neuronal. Estes neurônios formam dois tipos de substância cinzenta no telencéfalo: o córtex cerebral e o telencéfalo basal. Igualmente, o diencéfalo diferencia-se em duas estruturas: o tálamo e o hipotálamo. O tálamo,

Curso Teórico-prático de Neuroanatomia localizado profundamente dentro do prosencéfalo, possui este nome que, em grego, significa “leito”.

Os neurônios do encéfalo em desenvolvimento estendem seus axônios para comunicar-se com outras partes do sistema nervoso. Estes feixes axonais juntam-se para formar o principal sistema de substância branca: a substância branca cortical, o corpo caloso e a cápsula interna. A substância branca cortical possui todos os axônios que vão de um neurônio a outro no córtex cerebral. O corpo caloso continua com a substância branca cortical e forma uma ponte axonal que une neurônios corticais dos dois hemisférios cerebrais. A substância branca cortical também se continua com a cápsula interna, que une o córtex com o tronco encefálico, particularmente com o tálamo.

FIGURA - (a) secção coronal através do prosencéfalo primitivo, mostrando as duas divisões principais: o telencéfalo e o diencéfalo.(b) Ventrículos do prosencéfalo.(c) Substância cinzenta do prosencéfalo.(d) Substância branca do prosencéfalo.

1.2. Relações entre Estruturas e Função do Telencéfalo:

O prosencéfalo é o local das percepções conscientes, da cognição e da ação voluntária. Tudo isto depende de amplas interconexões com os neurônios sensoriais e motores do tronco encefálico e da medula espinhal.

Indiscutivelmente, a estrutura mais importante do prosencéfalo é o córtex cerebral que recebem informações sensoriais, constroem as percepções do mundo exterior e comandam os movimentos voluntários.

Os neurônios do bulbo olfatório recebem informações de células que percebem substâncias químicas (odores) e enviam esta informação a uma parte caudal do córtex cerebral para posterior análise. Informações que provêm dos olhos, dos ouvidos e da pele são também levadas ao córtex cerebral para serem analisadas. Todas as vias sensoriais relacionadas com a visão, audição e sensações somáticas, no entanto, fazem

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