Livro - a enfermagem no sistema penitenciário

Livro - a enfermagem no sistema penitenciário

(Parte 1 de 4)

José Ricardo Camargo Xavier

Por Dr. José Ricardo Camargo Xavier

Enfermeiro Especialista em Saúde Pública, Administração de

Serviços de Saúde,

UTI - Unidade de Terapia Intensiva

Nefrologia

Doenças Infecto - Contagiosas, Traumatismos Raquimedulares,

Auditorias, Analises e Gestão de Riscos de Saúde, Home Care

– Internação Domiciliar

Auditoria Ambiental entre outras Especializações. Em 30 anos de atividades profissionais

Compilação de dados e fatos no período de 1990 a 2004

Dedico este trabalho e conhecimento à minhas

Filhas: Alyne, Daniele, Michele, e minha neta...

Gabriele, que sempre foram à razão de meu empenho em saber e querer viver com sabedoria, conhecimento e honestidade.

Em especial, Aos meus Pais, que com dedicação,

honestidade e desprendimento, mantiveram a missão de repassar os conhecimentos por eles adquiridos e sofridos a todos os seus filhos.

A minha esposa, que com amor, paixão, paciência e dedicação, me aturou neste tempo de provação.

Prefácio

Ao escrever este livro, o autor procurou, com relatos sinceros, às vezes impressionantes, preencher uma lacuna no campo editorial, pois é inédita no mundo uma referência sobre a temática por ele elaborada.

Procura assim, com fatos corriqueiros no ambiente escolhido, ou seja, no Sistema Penitenciário, que muito embora sejam, às vezes, explorados pela mídia, não chegam, todavia esta, apresentar um cunho verdadeiro e detalhado, pois sabemos que certos acontecimentos são sempre motivos de censura e não condizem com os objetivos dos veículos de comunicação.

Nestas condições o autor neste livro, relata fatos que, se são ignorados pelos homens responsáveis por aquele setor, não deixam de ser importantes no cenário deste Enfermeiro profissional gabaritado que trás com minúcias, momentos vividos por ele próprio, dentro do ambiente, muitas vezes com risco de, não só sofrer represálias, como até podendo ser atacado, colocando em jogo a própria vida, como de fato o foi.

Percebe se que durante o longo período em que o autor serviu e serve no ambiente penitenciário como Enfermeiro, fazendo muitas vezes o papel de médico ou Doutor como particularmente são estes profissionais chamados pelos detentos, ora merecido.

Onde observam a falta que se faria de uma descrição mais detalhada, do que acontece ou pode acontecer àqueles dedicados funcionários, que profissionais como são, arriscam sua integridade física, mental e moral para atender àqueles infelizes que cumprem penas por erros cometidos.

Como relata o próprio autor, seu objetivo não é agredir ou denegrir pessoas ou instituições, mas trazer aos interessados em seguir a profissão de Enfermeiro no Sistema Penitenciário, um relato completo e verdadeiro, vivido em sua própria carne, aos seus colegas de Enfermagem, quando adentrarem ao interior de uma instituição prisional.

Pois são fatos que são comentados detalhadamente, por segurança e que, naturalmente, venham parecerem absurdos se reproduzidos na mídia sensacionalista que é diariamente apresentada em nossa imprensa escrita, falada e televisionada.

É um compilado de observações e instruções úteis e necessárias que vem, portanto preencher aquela lacuna que referimos no início deste prefácio.

Sinto me honrado pela lembrança do autor e amigo que me convidou para prefaciar este trabalho, que me foi de grande importância e valia diante do papel público que exerço.

Parabéns ao Amigo.

SALVADOR KHURIYEH Deputado Estadual

07 de junho de 2002. 5

Comentário do Autor:

Este livro não tem a intenção de agredir ou de denegrir nenhuma pessoa ou imagens das Instituições aqui relatadas, mas de refletir o que realmente se passa no interior destas instituições, que são mantidas pela população recolhendo seus impostos, querendo ver as verbas enviadas ao Estado; dinheiro este recebido ser aplicado de forma correta e em situações que sabemos serem de utilidade pública, como manda a lei. Utopia da vontade popular.

Também não tenho a pretensão política de se ver estes dados serem aproveitados para qualquer destes fins ou desta natureza, até porque já sabemos destes fatos pelos meios de comunicação e já se tornou até um pouco maçante e poucos querem na verdade discuti los, pelo simples fato de preocupações de outras origens são mais patentes e vertentes para a nossa população já tão descrente do que aí esta.

Os fatos aqui narrados são verdadeiros e facilmente apurados se assim o quiserem as autoridades constituídas, pois têm eles todos os documentos em mãos bem guardadas e seus respectivos responsáveis sabem onde estão.

Minha primária intenção o que pode e deve ser sentida ao discorrer na leitura,é apenas levar e esclarecer através destas informações, nossos colegas de Enfermagem, e quem mais se interessar, o que enfrentarão ao adentrarem o interior de uma instituição prisional de qualquer nível de segurança, seus meandros e fatos que não devem ser comentados, por “origem de segurança” ou por serem absurdos e ilegais se forem reproduzidos, passível de punição administrativa e coercitiva, o que me reservo o direito de deixá los bem guardados para minha segurança pessoal.

Espero que possa este compilado servir de alguma maneira aos fins propostos, que é de apenas servir de informativo.

O autor

Nós Enfermeiros e os outros

A equipe de enfermagem, que em nível estrutural é formada por atendentes de enfermagem, auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, estes, em nível de segundo graus. E, em nível universitário, teremos o enfermeiro (a), que em sua grande maioria aloja se nos Hospitais e Clinicas, sendo assalariados; ou atuando como autônomos profissionais liberais que o são, e enfrentando o mercado de trabalho competitivo com suas próprias forças e dedicação, em Clínicas de Home Care, Consultórios ou afins.

Há profissionais de enfermagem que desempenham as suas funções fora deste nível de atuação, e optam por outros caminhos, entre eles o serviço público e no que nos interessa no momento, o trabalho destes profissionais no Sistema Prisional.

Por uma questão própria de ser do sistema prisional, são parcos os profissionais de enfermagem que lá estão a desenvolver suas atividades, e quando as instituições os têm, são em poucos funcionários, que são sobrecarregados, negligenciados tanto em nível de atitudes e de função como enquanto pessoas, pois o sistema como um todo está viciado em atos desta natureza agressiva de ser.

Para a grande maioria dos funcionários do sistema prisional, profissional de enfermagem não passa de um fazedor de curativos e um aplicador de injeções, isso por ignorar as atividades e os conhecimentos específicos e gerais de quem trabalha nesta área, lidando com a vida humana e suas nuances. E não há interesse destes em conhecer. Desconsideram completamente e comumente, até a pessoa humana que exerce a função de enfermeiro (a), fato este que tentamos tornar o menos agressivo possível. É difícil.

Lamentável esta ignorância proposital por parte de pessoas que certamente um dia, precisaram de cuidados e seremos nós, a equipe de enfermagem, que estaremos lá.

Não raro ver que, apesar dos esforços de encaminhar ou buscar soluções dentro dos recursos físicos e humanos disponíveis, por parte dos colegas de profissão, Enfermeiros, existe a manipulação de atos a se subestimar condutas e procedimentos, levando se em conta os interesses “maiores” que regem a área de segurança. Isto não parte de uma área isolada, mas do sistema como um todo e de seus profissionais, cada um achando que sua função não pode ser diminuída por qualquer um que não faça parte do “esquema deles”, isto salvo um ou outro colega de trabalho mais lúcido e inteligente.

Apesar das dificuldades enfrentadas, é com a paciência que nos forjamos nesta particularidade e que mostramos com técnicas e atos objetivos direcionados ao bem comum, apesar de fazê lo em um ambiente “medieval” tanto em nível de mentalidades da população alvo e outros que se deixam contaminar – os funcionários, quanto de toda a estrutura que nos rodeiam, e tornamos e buscamos os parcos recursos materiais e os escassos medicamentos, às vezes ao extremo, em algo que possa ser utilizado, como leva los nós mesmos a servir a população alvo e estes desafetos gratuitos. Não somos como eles.

Inexistentes e/ou subestimados estes recursos, em nível amplo e estrito, tentando transformar o que é um local para a guarda de reclusos em um reservatório de novas idéias no trato com esta população específica, que bem sabemos não recupera ninguém, ao contrário, vê, degenera o que resta de humano em todos.

Qualquer indivíduo que trabalha no sistema é transformado em semi irracional – pois há o resgate de instintos escondidos e reservados em cada um de nós, fato este que a psiquiatria explica com propriedade.

Sendo o sistema prisional um refugo animalesco da ação e reação sem raciocínios lógicos, e se o fazem são para interesses próprios, em tom individualista, não há de ter um objetivo de recuperar ou conduzir a melhoras, mas de servir de manipulação de poderes, quais estes mandatários conhecem bem.

Neste espaço a narrativa pode ser em tom mais contundente, mas são pontos de partida verdadeiros, pois existe o menosprezo dos ASPs – agentes de seguranças penitenciários, e dos internos, nossa população alvo, e uns pelos outros, o que já irá criar um clima belicoso, um sendo inimigo do outro apesar dos esforços para ser ao contrário, em seu início de trabalho, de ambos os lados. E nós estamos no meio disso.

Há um estudo pormenorizado das atitudes como se estivessem em um campo de batalha, havendo espiões de ambos os lados, inclusive os infiltrados, conforme as ofertas e vantagens oferecidas, materialmente, claro.

E não poderia deixar de nos atingir, pois lá também estamos, e com certeza atingem todos que lá trabalham, afetando de uma forma ou de outra a postura mental, intelectual e social que carregamos reflexo das vontades escusas e inconseqüentes.

Os profissionais da área da saúde, não por acaso, são forjados a saber entender as razões que movem determinadas atitudes, em especial quando afeta e nos é mostrado ou apresentado; sensibilidade, intuição e uma dose de sabedoria na observação, parte inerente dos currículos escolares e desenvolvidos na prática diária, e que nos traz condições de elaborar um diagnóstico de que a “coisa” não anda nada bem, sofrendo de um colapso de múltiplos órgãos, mas enquanto há vida, a esperança é nossa pedra angular.

Acreditamos ainda nisso.

Sabemos fazer perguntas e ouvir respostas. O problema é o que fazer e o que não fazer para ser um bom ouvinte, mas dar boas respostas sob um padrão de boa educação, coisa rara nestes ambientes ; estimular o bom senso geral, não o do bom senso de pouca produtividade , voltado para interesses de pouco. Mostrar empatia, não condenar, menos ainda discutir ou assumir ares de superioridade; isso nos é patente tanto em nível de comportamento quando não nos deixamos influenciar por “contaminações”, o que já sabemos como fazer por técnicas aprendidas nos bancos escolares, mas mostrar a todos que nossa missão é fazer cumprir a assistência àqueles que dela necessitam. Fazemos parte de uma equipe e esta deve ser respeitada tanto em nível individual como no coletivo.

Temos olhos a serem usados para saber ver e ouvidos para saber como ouvir.

Devemos ser os olhos e ouvidos, mas não podemos esquecer que também deveremos saber falar, não em tom invasivo, apenas aprendendo, a saber, ler as pessoas que buscam uma orientação e atendê las dentro de nossas capacidades pessoais e profissionais.

Deveremos ser humanos em evolução e com mentalidade aberta ao aprendizado para não cairmos em mesmices. Não somos melhor que ninguém.

Há um ditado do irlandês Edmund Burke (1729 a 1797), que foi político e orador que cita:

“Um rei pode conceder um título de nobreza, mas não pode fazer um cavalheiro”..,

E “assim tentamos agir, quando não somos atingidos por decretos, vontades políticas, ou desconcertos decréptos administrativos”. A enfermagem enquanto profissão torna se missionária em qualquer lugar que esteja, mas não precisamos perder nossa dignidade, independente do local em que ela seja exercida.

O Concurso Público

Após a espera de editais que abrem a perspectiva de exercer o ofício em nível público, esses não especificam em que situações deverão exercer as atividades, em especial quando se trata de lidar com um público tão específico e com vícios tão declarados, mas certamente não sabidos e nem entendidos.

Citarei aqui algumas situações já vistas e sentidas dentro do sistema prisional como um todo, e certamente não fomos preparados para enfrentar e mesmo em nível pessoal nunca a tenhamos vivido.

A enfermagem torna se um elo de comunicação, como se anjo da guarda fosse, isso em todos os lugares dentro do sistema prisional, talvez pelo fato de usar branco e assim serem vistos, mas isto não é uma regra.

Pode ser até exceção em alguns locais, dependendo das posturas apresentadas e das posições administrativas pertinentes.

Na visão dos internos/presos, todos que vestem branco são “doutores”, e não os chamam assim por acharem que o são, mas como forma de elevar a figura do profissional; elevar para poderem pedir favores especiais ou como âncora para alguma situação particular.

Ficar em posição de inferioridade trás algumas vantagens em situações específicas de necessidades.

Em 2001 a Resolução COFEN Nº 256/2001, de 12 de junho de 2001, autoriza os Enfermeiros a usarem o título de Doutor.

Infelizmente, mesmo entre os profissionais de enfermagem, graduados ou não, encontramos muita resistência à idéia, ao direito de uso do título de Doutor, pois a subserviência está enraizada mentalmente, como forma de submissão inconteste.

O fato é que aquele romantismo de exercer a medicina, e consequentemente o título de Doutor, caiu em decadência pelo atual despreparo destes profissionais, constatado pelo fato de não mais se exercer função de medico com aquele desprendimento de outrora, quando estes profissionais, filhos de pais ricos e de renomes, já tinham heranças que podiam lhes dar o sustento, e, sua prática era voltada a caridade e desprendimento.

Lembremos da época que recebíamos os médicos em casa e este profissional fazia parte de nosso cotidiano, havendo respeito e afeto pela pessoa e profissional que lá estava.

Houve evolução em todas as áreas, e com esta, o afastamento das pessoas,tornando os atendimentos de hoje 15 impessoais e distanciados do dia a dia do paciente, apenas voltado a doença daquele momento e não mais da vida dos pacientes/clientes.

E com isso, seus problemas inerentes aos tempos e as mudanças de mentalidades dos homens que assim o acompanham.

Estas situações – embutidas na forma mental e social, refletem no interno/preso por estarem sofrendo alguma ameaça como fuga e proteção.

Mas não falarão a verdade, ou serão dedos duros, e isto em um ambiente prisional pode significar mutilações, isolamentos ou até a morte; este fato não é tolerado nem pelos ASPs, que deles se esperava orientação e mesmo proteção e menos ainda pelos seus iguais.

Isto são alguns exemplos de composições belicosas que podem e com certeza ocorrerem e continuarão a ocorrer, que em nível profissional da área de saúde não é explicitado.

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