Bem estar e produção animal

Bem estar e produção animal

(Parte 1 de 3)

BEM-ESTAR E PRODUÇÃO ANIMAL Luís Fernando Dias Medeiros

Seropédica, RJ Maio de 2009

Simultaneamente ao aumento das criações intensivas, surgiram os defensores do Bemestar animal, os quais protestam contra a retirada dos animais do seu meio para áreas reduzidas, onde em muitos casos eles acreditam estar havendo crueldade com os animais. Por outro lado há os que defendem que os animais em confinamento estão com seu bem-estar assegurado, pois este sistema de criação fornece o que o animal necessita para suas necessidades e que isto se comprova no desempenho dos animais em confinamento e que se os animais estivessem estressados não produziriam bem e não haveria retorno econômico.

No meio destas discussões encontram-se os produtores que devem prover um ambiente adequado aos animais para propiciar seu Bem-estar e um bom retorno econômico. Porém, falta muito para se conhecer o comportamento dos animais, para que se possa afirmar que estes estão em ambiente adequado.

O objetivo da apostila é fazer uma reflexão sobre o paradigma “bem-estar e a produção animal”.

1 – Razão para se Estudar o Comportamento dos Animais de Produção

REVISÃO DE LITERATURA a) Intensificação da produção – confinamento – estresse - ↓ bem estar animal - ↓ produção b) Alto grau de seleção genética dos animais (seleção unilateral) c) Estresse térmico nos trópicos.

a) Confinamento Estresse - ↑↑↑↑ Taxa de Glicocorticosteróide no Plasma Sangüíneo.

O glicocorticosteróide – regula o metabolismo das proteínas, carboidratos e lipídeos, induzindo a formação de glicose, pela mobilização de proteínas e gorduras, resultando no aumento da concentração de açúcar no sangue.

O glicocorticosteróide induz a formação de glicose para o sangue/células – fonte de energia para combater o elemento estressor. Tem efeito antiinflamatório e antialérgico, além de catabólico sobre os tecidos ósseos, conjuntivos e órgãos linfáticos.

OBS: A longo tempo  ↓ resistência orgânica  ↓ sistema imune (imunossupressão)
de leite e sanidade dos animais

Em resumo: ACTH (hormônio adrenocorticotrófico) – na corrente sangüínea – estimula a córtex adrenal – produzir e secretar glicocorticosteróide, por um determinado tempo, afetando: crescimento e engorda, qualidade da carne e carcaça, fertilidade, produção b) Alto Grau de Seleção Genética dos Animais para uma Função Produtiva. Figura 1. Secreção hormonal da hipófise em caso de seleção adequada.

ACTH Princípios etológicos

Figura 2. Secreção hormonal da hipófise em animais selecionados unilateralmente para carne.

Fonte: Medeiros (2007), adaptado de Encarnação (1989).

Conseqüências da Seleção Unilateral.

Ação indireta diminuição da resistência orgânica, afetando o comportamento do animal. Ação direta alterações comportamentais, já que o comportamento é uma programação genética.

c) Estresse Térmico nos Trópicos. Efeito deletério no desempenho reprodutivo, produtivo, sanitário e comportamental dos animais, notadamente os aspectos reprodutivos e de conformação (tamanho).

ESTRESSE é o estado do organismo, o qual, após a atuação de agente de qualquer natureza, responde com uma série de reações não específicas de adaptação, entre as quais está em primeiro plano uma hipertrofia do córtex adrenal com conseqüente aumento da secreção de seus hormônios. A todo fator exógeno que provoca um estresse é denominado estressor

(calor, frio, umidade, fome, sede, infecções, esforços corporais, infestações parasitárias, dor, poluição sonora, elevada densidade populacional, isolamento, medo, ansiedade etc.). A interação entre estímulo (estressor) e resposta ao estímulo (somatório das reações não específicas ao estressor), manifesta-se na forma de uma síndrome

(SÍNDROME DE ADAPTAÇÃO GERAL), com o qual o organismo tenta evitar ou reduzir os efeitos do estressor.

De um modo geral, o termo estresse caracteriza uma tensão física ou mental.

Fisiologicamente significa a soma dos mecanismos de defesa do animal em um estímulo provocado por um agente estressor. Selye (1955 e 1976) caracterizou a Síndrome de Adaptação Geral em 3 fases:

1) Fase de reação de alarme; 2) Fase de resistência;

3) Fase de exaustão. Na fase de alarme o organismo mostra as alterações características da primeira exposição a um estressor, Ao mesmo tempo, sua resistência diminui e, se o estressor é intenso a morte pode ocorrer.

A fase de resistência se estabelece em seguida se uma exposição contínua ao estressor é compatível com a adaptação. Os sinais de alarme desaparecem e a resistência aumenta acima do normal.

Durante a fase de exaustão, após uma longa e contínua ao estressor ao qual o organismo havia se ajustado, a energia de adaptação pode se esgotar. Os sinais de alarme reaparecem, porém agora são irreversíveis e o indivíduo morre (Quadro 1).

Quadro 1. Fases da síndrome da adaptação geral

AB C

nível normal de resistência

Segundo Fraser et al. (1975), um animal está em estado de estresse quando necessita alterar de maneira extrema sua fisiologia ou comportamento para adaptar-se a aspectos adversos do seu ambiente e manejo. Essa adaptação envolve uma série de respostas neuroendócrinas. Fisiológicas e comportamentais que funcionam para manter o equilíbrio (Barnett & Hemsworth, 1990; Von Borrel, 1995). De acordo com Von Borrel (1995), o estresse é um termo geral que implica em uma ameaça à qual o corpo precisa de ajuda.

Huntingford (1984) comenta que uma das aplicações das pesquisas etológicas é identificar e quantificar os sinais de sofrimento dos animais criados e explorados pelo homem e determinar as condições que induzam a esse estado, encontrando meios para reduzir ou remover tal situação.

Os animais freqüentemente apresentam inúmeras mudanças fisiológicas quando expostos a uma série de situações nocivas, desde a possibilidade de agressão física até exposições prolongadas a condições adversas (Val Ferreira & Duarte, 2007). Segundo Huntingford (1984), estas mudanças ocasionam um aumento na atividade autônoma e na produção de hormônios, que são ditas resultantes do estresse. Uma vez que estas respostas fisiológicas apresentam-se em situações onde, potencial ou efetivamente, o animal ou a integridade de suas funções esteja em perigo, é razoável supor que algo o esteja desagradando e poder-se-ia assim, proporcionar uma maneira de detectar o quanto o animal está sofrendo. Contudo, muitas técnicas para detecção destas mudanças são um tanto invasivas, muito caras e impraticáveis dependendo da espécie, do número de animais em questão etc; além do fato de que tais reações podem significar que as defesas e a própria saúde do animal estão funcionando bem (Val Ferreira & Duarte, 2007).

Adaptabilidade a um meio específico é tão importante quanto a seleção para a realização das medições subjetivas (características métricas) e da avaliação visual (aparência). As leis físicas da natureza ditam os limites dentro dos quais as diversas partes do corpo (tamanho) e a função fisiológica (reprodução) podem variar (Bonsma, 2002).

Assim, animais submetidos a condições mais próximas dos limites estabelecidos pelas leis físicas da natureza, tendem a serem menos desenvolvidos. Os animais menos estressados pelo meio ambiente são mais adaptados, sendo aqueles que produzem melhor para aquele ambiente específico.

Obs: A característica adaptação apresenta uma resposta baixa com a seleção; negativa com a endogamia e alta com a exogamia.

DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE ESTRESSE: A – São fatores do ambiente prejudicando, perturbando o animal.

B – É a resposta fisiológica a estes fatores. C – Seria o problema psicológico na qual o animal seria incapaz de lidar com estes fatores

Algumas definições incluem certos padrões comportamentais que podem ajudar a restaurar a homeostase e, assim, facilitar as adaptações fisiológicas ao estresse.

O estresse é inevitável. É difícil pensar em um ambiente sem estressor (o estresse é inerente à própria atividade de viver). O estresse não representa algo anormal no cotidiano de um indivíduo, sendo ele, pois, uma parte essencial da vida. Os sistemas biológicos sofisticados sofreram evolução para ajudar a conviver com ele.

Em estresse, há dois termos importantes: Controle e Previsão. Dependendo do grau em que o estressor pode ser controlado ou previsto, teremos maior ou menor gravidade dos sintomas de estresse, portanto a gravidade não depende somente do estressor.

conflitos são curtos e de intensidade exagerada

O estresse pode ser dividido em: Agudo ou Crônico. O estresse agudo – é o estado em que um organismo se apresenta após uma diminuição súbita na previsão e/ou controle de alterações relevantes. Nesse caso, os

O estresse crônico – é o estado de um organismo quando alterações relevantes têm baixa previsão e/ou não se muito bem controladas por um longo período de tempo. Em geral, desenvolvem-se quando os conflitos não podem ser resolvidos e são de naturezas mais constantes.

Pode controlar ou não uma situação de estresse depende dos mecanismos dos quais o animal dispõe para lidar com o desafio, e da atitude que cada indivíduo tem sobre a situação. Quando a situação for considerada de perigo para a Homeostase, são ativados mecanismos para controlar ou conviver com a mesma. Os mecanismos de adaptação são vários e não só a reação a um estressor pode variar, como também o tipo de reação pode diferir entre os indivíduos.

Há dois tipos de reação: 1) ATIVA caracterizada por tentar controlar ativamente a situação;

2) PASSIVA caracterizada por uma aceitação passiva da situação.

PRINCIPAIS FATORES QUE INFLUENCIAM A RESPOSTA AO ESTRESSE: A) Meio Ambiente;

B) Predisposição Genética; C) Sensibilidade individual.

Ao se diagnosticar o estresse, é óbvio que se deve primeiramente estudar um dos três meios que o animal possui para responder a uma situação estressante, a seguir:

1) Comportamental, 2) Ativação do Sistema Nervoso Autônomo e

3) Ativação do Sistema Neuroendócrino.

A reposta comportamental é a mais simples e, provavelmente, é a reação biológica mais econômica ao estresse. Um animal pode se livrar de uma situação estressante simplesmente trocando de lugar. Se não for suficiente, ele pode apresentar outros tipos de comportamento, desde a vocalização até a expressão de comportamentos estereotipados.

Certamente que alterações comportamentais são sugestivas de que está ocorrendo estresse, mas isso não significa que esse estresse seja prejudicial, com exceção de casos extremos, como o de automutilação. Quando a resposta comportamental não alivia o estresse, o animal necessita, alterar seu estado biológico, evocando os dois sistemas que respondem ao estresse, sistema nervoso autônomo e sistema neuroendócrino.

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