Analize de restrições - 04

Analize de restrições - 04

(Parte 1 de 4)

I Simpósio Brasileiro de Gestão e Economia da Construção I SIBRAGEC UFSCar, São Carlos, SP - 16 a 19 de setembro de 2003

CODINHOTO, Ricardo (1); MINOZZO, Diego Luis (2); HOMRICH, Maria Carolina (3); FORMOSO, Carlos Torres (4)

(1) Arquiteto, Mestrando do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da UFRGS – Av. Osvaldo

Aranha, n. 9 3o andar – Porto Alegre. CEP 90035-190 – e-mail: codinhoto@cpgec.ufrgs.br (2) Graduando em Engenharia Civil, auxiliar de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da UFRGS – e-mail: diegomzom@yahoo.com.br

(3) Graduando em Engenharia Civil, auxiliar de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da UFRGS – e-mail: m.carolina@terra.com.br (4) PhD, Professor e Pesquisador do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil da UFRGS – e- mail: formoso@vortex.ufrgs.br

Desde a sua concepção, o modelo de PCP/NORIE (planejamento e controle da produção/Núcleo

Orientado para Inovação da Edificação) vem sendo aprimorado por diversos pesquisadores. Este modelo fundamenta-se na redução das incertezas do processo de produção através da hierarquização do planejamento em níveis de longo, médio e curto prazo. O planejamento de médio prazo tem como funções: planejar atividades para uma janela de tempo superior a de curto prazo e identificar as restrições à execução dessas. A identificação e remoção de restrições no tempo adequado são meios utilizados para proteger a produção das incertezas desse processo. Sendo este o foco do trabalho, o objetivo do mesmo é propor uma definição para restrições e um método de cálculo de remoção das mesmas. O método de pesquisa envolveu a realização de um estudo de caso em uma construtora de Porto Alegre – RS e constituiu-se do acompanhamento de reuniões de planejamento de médio prazo, coleta de planos, de listas de restrições e do cálculo do Índice de Remoção de Restrições (IRR). Os resultados mostraram que o monitoramento da remoção das restrições proporcionou o aumento do comprometimento com o planejamento de médio prazo. Como contribuição teórica ao modelo de PCP foi proposta uma definição de restrição.

Constraints must be identified at the look ahead planning level and their removal is necessary to to create a window of reliability for the production system. Such constraints must be thoroughly identified and monitored. The aim of this paper is to propose a concept for look ahead planning constraints and to suggest a performance indicator for the effectiveness of constraint removal. It is based on the preliminary results of an exploratory case study carried out in medium size construction company form the state of Rio Grande Sul - Brazil. One of the main conclusions of the study is that monitoring the removal of constraints has increased the commitment and effectiveness at the look ahead planning.

Palavras chave: Planejamento e Controle da Produção, Planejamento de Médio Prazo, Restrições.

Keyword: Production Management and Control, Look Ahead Planning, Constraints.

1 INTRODUÇÃO

A maior causa das falhas em concluir as metas do plano de curto prazo é a não remoção de restrições (Ballard, 2000). Restrições são atividades gerenciais, necessidades físicas, financeiras e de informações de projeto que se não disponibilizadas no momento, na quantidade e especificação corretas, impedem a programação dos pacotes1 de trabalho relacionados às mesmas. Necessitam de um responsável por removê-las, uma data limite para a remoção e uma tarefa a ser executada atribuída a elas. São exemplos de restrição: entrega de materiais, treinamento, contratação de mão de obra e envio de projeto para produção.

A identificação e remoção das restrições são atividades gerenciais realizadas conjuntamente com o planejamento de médio prazo que requerem controle para serem eficazes. No entanto, os gerentes têm negligenciado o monitoramento na realização da identificação e remoção das restrições.

Desse modo, buscando contribuir para o aumento da eficiência e eficácia do planejamento e controle da produção, nesse artigo são propostas diretrizes para a identificação e monitoramento das restrições e um indicador de desempenho para a avaliação da eficácia no controle da remoção das restrições. Esse indicador foi implementado durante a execução de um empreendimento industrial realizada por uma empresa construtora de médio porte de Porto Alegre. Como contribuição adicional, foram desenvolvidas planilhas eletrônicas para facilitar a coleta, manipulação e a divulgação dos dados.

Planejamento e Controle da Produção

Desde sua concepção, o modelo de PCP do NORIE/UFRGS vem sendo estudado e aprimorado por diversos pesquisadores (Ballard e Howell, 1997; Ballard, 2000; Bernardes, 2001). Segundo Formoso et al. (1999), o modelo de PCP está fundamentado na redução das incertezas através da hierarquização dos planos. Neste modelo é proposta a divisão do planejamento e controle da produção em três níveis hierárquicos: longo, médio e curto prazo.

O planejamento de longo prazo ou master plan consiste no primeiro nível de planejamento ao qual cabe o estabelecimento das metas de longo prazo do empreendimento a serem alcançadas. Nesse nível, são estabelecidos os ritmos dos processos, o plano de ataque da obra e as atividades a serem executadas minimamente detalhadas.

O plano de médio prazo, também denominado de look ahead, tem a função de vincular as metas fixadas no longo prazo com aquelas designadas no curto prazo (Formoso et al.

1999). Cabe a esse nível, o planejamento das atividades a serem executadas algumas semanas à frente, sendo possível identificar e remover as restrições à execução destas tarefas antecipadamente.

A análise de restrições é realizada nesse nível de planejamento, porém, de acordo com o prazo de execução da obra, essa análise pode ser realizada também no longo prazo para recursos com longo lead time de aquisição. Segundo Bernardes (2001), a análise de restrições permite um aumento na continuidade das operações no canteiro, aumentando a eficácia do planejamento.

1 Conjunto de tarefas similares a serem realizadas, freqüentemente em uma área bem definida, utilizando

Por fim, o plano de curto prazo tem o papel de orientar a execução da obra. Nesse plano são programadas as atividades para um horizonte de planejamento inferior ao horizonte de médio prazo (habitualmente uma semana). Depois de planejados os pacotes, estes são consensados entre o gerente de planejamento o responsável pela execução do pacote planejado. Para que as atividades programadas no plano de médio prazo sejam incluídas no plano de curto prazo é necessário que as mesmas tenham suas restrições eliminadas (Formoso et al. 1999).

Uso de Indicadores de Desempenho no Planejamento e Controle da Produção

A medição de desempenho tem sido utilizada como fonte de dados que auxiliam o processo de tomada de decisão, ao mesmo tempo em que proporciona dados e informações necessárias para o controle do processo de planejamento (Formoso & Lantelme, 2000). De acordo com Alarcón (1997), é pelo uso de indicadores que se avalia o desempenho do sistema de produção e se estabelecem padrões que, se implementados, podem melhorar a qualidade da informação disponível para a tomada de decisão.

A esse respeito, os indicadores de desempenho devem obedecer alguns critérios fundamentais para assegurar a disponibilidade dos dados e dos resultados obtidos no processo de medição. De acordo com Lantelme (1994), os critérios para o estabelecimento de indicadores são:

· ser de formulação simples, passível de entendimento e compreensão por todas as pessoas envolvidas no processo;

• apresentar um grau satisfatório de representatividade das atividades e resultados gerados;

• ser calculados com dados disponíveis ou facilmente obtidos e, principalmente confiáveis.

Para o modelo de PCP são vários os indicadores de medição de desempenho. Um dos principais indicadores utilizado em nível de curto prazo é o Percentual de Pacotes

Completos (PPC), que é obtido através do quociente entre o total de atividades de produção integralmente executadas e o total de atividades programadas. Segundo

Oliveira outras medidas podem ser utilizadas, tais como: Percentual do Planejamento Concluído por Subempreiteiro (PPC/S), Projeção de Prazo da Obra (PPO), Desvio de

Ritmo (DR), Percentual de solicitações irregulares de material (Psem), Percentual de entregas irregulares de material (Pmat), Percentual de atividades iniciadas no prazo (PAP), Percentual de atividades completadas na duração prevista (PDP) (Oliveira, 1999) e Índice de Remoção das Restrições (IRR), proposto neste trabalho.

2 MÉTODO DE PESQUISA

Para este estudo foi adotada a estratégia de estudo de caso com intervenção, no qual o objeto de análise foi a execução de um empreendimento industrial e a unidade de análise foi o planejamento de médio prazo de produção, em específico a análise de restrições.

De acordo com Yin (1994), o estudo de caso é uma estratégia aplicada quando o pesquisador se defronta com questões do tipo “como” e “por que”, quando tem pouco controle sobre os eventos e o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real.

O presente estudo foi composto pela revisão bibliográfica referente ao tema e pela realização de um estudo empírico. A revisão bibliográfica, realizada durante o estudo empírico, investigou tópicos relacionados ao planejamento e controle da produção e à análise de restrições. O objetivo da revisão foi levantar práticas e problemas encontrados na remoção de restrições. O estudo empírico teve como objetivo analisar as causas do não cumprimento dos planos de curto prazo de produção, a remoção das restrições no plano de médio prazo, e a implementação do IRR e o horizonte de planejamento verificado no médio prazo. As fontes de evidência relacionadas ao planejamento de médio prazo de produção foram os planos de médio prazo, as listas de restrições, o registro do processo realizado pelos pesquisadores e o caderno de campo.

No curto prazo, utilizou-se as planilhas de planejamento de curto prazo. Este estudo foi composto de três etapas, sendo elas denominadas planejamento, desenvolvimento e análise, descritas a seguir.

A etapa de planejamento envolveu o levantamento de dados pertinentes ao empreendimento para a caracterização do contexto no qual o estudo foi desenvolvido.

Foram levantados dados referentes à relação de profissionais contratados pela construtora e pelo cliente, tipo e escopo de contratação, desenho do sistema de planejamento e controle adotado e ainda informações gerais acerca do próprio empreendimento. Esses dados serviram de suporte à elaboração da modelagem do processo de planejamento e da adequação da intervenção proposta para a pesquisa.

A etapa de desenvolvimento teve como objetivo a coleta de dados, avaliação e análise preliminar dos resultados. As informações e fontes de evidência utilizadas foram coletadas a partir da observação participante, observação direta e coleta de documentos.

Por último, em apoio à etapa de análise, foram realizadas algumas discussões entre os membros do grupo de gerenciamento do NORIE/UFRGS. Nessas discussões foram apresentados os resultados e uma definição para restrições. Esse modo de condução do estudo teve como objetivo aumentar a confiabilidade dos resultados que dependiam da interpretação dos pesquisadores.

A construtora Porto2, fundada em 1983, é uma empresa de médio porte de Porto Alegre que atua no mercado de obras rápidas, em geral contratadas pela iniciativa privada dos setores industrial, hospitalar e comercial. Essa empresa tem realizado nos últimos anos diversos trabalhos com o Grupo de Gerenciamento e Economia da Construção do

NORIE/UFRGS. Dentre as intervenções realizadas na construtora, destaca-se a implementação do modelo de Planejamento e Controle da Produção proposto por

Formoso et al. (1999). Este modelo vem sendo implementado na empresa desde 1999 e tem sido alvo de vários estudos que visam ao seu aprimoramento e manutenção.

A forma de atuação da construtora Porto no mercado da construção civil tem permitido aos pesquisadores do NORIE amplas possibilidades de investigação sobre o PCP. Devido aos arranjos contratuais que a empresa estabelece com seus clientes finais e seus parceiros, bem como a forma como realiza suas obras, é possível o acompanhamento dos empreendimentos em curto espaço de tempo. Dada a velocidade com que acontecem as atividades nestas obras, é possível para os pesquisadores avaliar diferentes questões de pesquisa e interagir de forma intensa com os principais envolvidos no empreendimento em estudo.

2 Os nomes das empresas envolvidas, assim como dos empreendimentos são fictícios.

3 ESTUDO DE CASO

A primeira reunião relativa ao estudo foi realizada em junho de 2001 e contou com a participação de um dos diretores da empresa, do gerente de planejamento, do engenheiro da produção e de um grupo de pesquisadores do NORIE. Nessa ocasião, o diretor da construtora Porto expôs o histórico da contratação da construtora para a realização de dois laboratórios para a Plano Petroquímica (cliente final), denominados laboratório Catal e laboratório Poli. Devido as características inerentes ao estudo, apenas o empreendimento Poli foi estudado.

O empreendimento Poli era composto da reforma de uma edificação existente com cerca de 830m2 e da ampliação desta em mais 1600m2. Nesse empreendimento havia requisitos relacionados à concepção que aumentavam a complexidade do produto. São exemplos desses requisitos, o controle rigoroso de temperatura e umidade e a execução de uma torre com dezesseis metros de pé direito.

Este empreendimento foi objeto de uma concorrência entre várias empresas construtoras. Para a realização das propostas de orçamento e cronograma, essas empresas receberam do cliente final, além do estudo preliminar de arquitetura, a determinação de um prazo para a execução do empreendimento. A Plano Petroquímica solicitou à construtora Porto várias revisões de orçamento e, por fim, a contratação foi realizada em maio de 2001. O prazo para execução do empreendimento foi de seis meses e incluía o desenvolvimento do projeto arquitetônico e complementares.

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