artigo multiculturalismo

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DESAFIO: MULTICULTURALISMO

Lucas Moura De Araújo

Estudante de Ciências Biológicas da UnP

lucasmoura_10@unp.br

Rubenis Antunes Branco Bezerra

rubenis.antunes@unp.br

Estudante de Ciências Biológicas da UnP

Rosângela Lopes Dias

Professora de Prática de Ensino em Biologia II.

rosangelald@unp.br

O presente artigo discute a temática do multiculturalismo como movimento teórico e como prática social que contesta preconceitos e discriminações a indivíduos e grupos culturais historicamente submetidos a processos de rejeição ou silenciamento por sua condição de pertencimento identitário distinto dos padrões definidos como válidos e aceitáveis, seja no espaço escolar ou no contexto social mais amplo. O argumento central é o de que pensar e viver no mundo atual passa pelo reconhecimento da pluralidade e diversidade de sujeitos e de culturas com base no respeito e tolerância recíproca, concebendo as diferenças culturais não como sinônimo de inferioridade ou desigualdade, mas equivalente a plural e diverso. Desta forma, propõe-se situar o cenário histórico do mundo atual, bem como o multiculturalismo e suas origens, seus significados e concepções teóricas, como forma de evidenciar o sentido políticocultural de se educar as atuais e as novas gerações a partir de uma visão multicultural crítica, que leve em conta, no processo formativo dos sujeitos, a necessidade e importância de se reconhecer, valorizar e acolher identidades plurais sem representar ameaças ou quaisquer formas de naturalização do preconceito e desrespeito à vida humana, independente de sexo, cor, gênero, credo, etnia, nacionalidade. Busca-se, com isso, superar mecanismos discriminatórios ou silenciadores da diversidade cultural, em nome de uma sociedade baseada na justiça social. O presente estudo analisou o conhecimento dos alunos do 7º período da Universidade Potiguar – UnP, sobre o tema multiculturalismo. O tema foi abordado em forma de questionário para que os alunos respondessem de maneira objetiva/subjetiva e direta do assunto. Os estudos relacionados a esse tema enfocaram o conhecimento e de como poderia ser trabalhado dentro do curso de Ciências Biológicas. O desenvolvimento desse trabalho veio da necessidade das pessoas em geral terem conhecimento e consequentemente repassá-los adiante em sua carreira profissional. O trabalho de pesquisa foi realizado na Universidade Potiguar – UnP com alunos do 7º período do curso de Ciências Biológicas.Trabalhamos o tema em forma de questioonário para avaliar o conhecimento adquirido por esses alunos durante sua vida acadêmica. Diante disso realizamos um levantamento das respostas do questionário aplicado na sala de aula, que inclui perguntas diretas sobre o tema exposto, e tem como objetivo fornecer dados mais consistentes sobre educação e multiculturalismo.

Palavras-chave: Multiculturalismo; Educação; Diversidade cultural.

Abstract

This article discusses the issue of multiculturalism as a theoretical movement and a social practice that challenges prejudice and discrimination to individuals and cultural groups historically subject to processes of rejection or silencing by their condition of membership identity distinct from the standards defined as valid and acceptable, either in the school or the wider social context. The central argument is that thinking and living in the world today includes the recognition of plurality and diversity of subjects and cultures based on mutual respect and tolerance, by designing the cultural differences not as a synonym of inferiority or inequality, but the equivalent and plural diverse. Thus, it is proposed to situate the historical backdrop of the current world, as well as multiculturalism and its origins, meanings and theoretical concepts as a way to highlight the sense políticcultural to educate current and future generations from a multicultural vision criticism that takes into account in the training of the subjects, the need and importance of recognizing, valuing and accommodating plural identities without threats or any form of naturalization of prejudice and disrespect for human life, regardless of sex, color, gender, creed, ethnicity, nationality. Search to thereby overcome the mechanisms of discrimination or silencers of cultural diversity in the name of a society based on social justice. This study analyzed the students' knowledge of the 7 th University Potiguar - UnP on the subject of multiculturalism. The theme was addressed in a questionnaire for students to respond in an objective / subjective and straightforward matter. The studies related to this theme focused on the knowledge and how it could be worked into the course in Biological Sciences. The development of this work came from the need of people in general have the knowledge and thus pass them ahead in your career. The research was conducted at the University Potiguar - UnP with students from the 7th period of the course the theme of Sciences Biologics. Worked shaped questionary to assess the knowledge acquired by these students during their academic life. Given that we did a survey of responses from the questionnaire applied in the classroom, which includes direct questions on the topic above, and aims to provide more consistent data on education and multiculturalism.

Keywords:

Multiculturalism; Education; Cultural diversity.

INTRODUÇÃO

O multiculturalismo emerge em território estadunidense não apenas como movimento social em defesa das lutas dos grupos culturais negros e outras “minorias”, mas também, como abordagem curricular contrária a toda forma de preconceito e discriminação no espaço escolar.

Nos dias 28 e 29 de abril de 2010, realizamos na Universidade Potiguar a aplicação de um questionário, onde tivemos por tema multiculturalismo. A partir daí, deu-se início às pesquisas para posterior exposição.

As pesquisas foram feitas em livros e internet, e depois de concluídas, demos início aos preparativos do material que seria usado na confecção desse artigo.

A proposta foi tratar o tema Multiculturalismo na Universidade Potiguar para os alunos do 7º período do curso de Ciências Biológicas, onde o esse tema poderia ser abordado a qualquer momento e em qualquer disciplina. E que os alunos tratassem as questões do multiculturalismo na vida profissional futura, onde é necessário que o profissional participe de um processo amplo e aprofundado de formação, tanto em termos de conhecimento quanto de uma metodologia adequada.

A escola de hoje está deixando um pouco de lado a construção moral e a educação ética, atribuí-se prioridades a outros assuntos como o vestibular, a mensalidade escolar, mas esquece que a formação do indivíduo é a mais importante, e que permeará por toda a sua vida.

O destaque da relevância e aplicabilidade da ética na vida cotidiana, não pode deixar de ser relacionado à educação. A educação, ao objetivar a formação de cidadãos baseando-se em princípios e ideais de liberdade, solidariedade e respeito às diferenças, deve tornar a ética o cerne do convívio escolar, resgatando-a do nível do discurso e levando para a prática do cotidiano.

A discriminação a qualquer título são abomináveis aos olhos daqueles que vivem a verdadeira humanidade e que tratam aos outros com igualdade, respeito e amor independente da cor, da raça, do sexo, da idade, da profissão. O preconceito algo que é uma indisposição, um julgamento prévio negativo que deve ser combatido por todos nós cidadãos. Nunca se intimide diante dos crimes de discriminação, pois isso incentiva aqueles que apostam na impunidade. Faça ou estimule reflexões sobre a qualquer tipo de discriminação que existe e seus efeitos em qualquer ambiente, principalmente na escola.

Na escola que, talvez inconscientemente, se encontrem atitudes discriminatórias na relação entre professores, alunos e funcionários. Em relação à prática profissional o professor pode auxiliar a alteração da imagem negativa da criança vulnerável, valorizando e elogiando-a, bem como cuidar da linguagem verbal cotidiana, representada por colocações desagradáveis e apelidos. O professor também deve estar atento a incidentes "aparentemente sem importância”, como por exemplo, uma criança não querer dar a mão para outra por preconceito ou não.

A escola como instituição social insere-se sempre num contexto concreto e historicamente definido. Deste modo, a relação escola versus sociedade deve ser considerada, tanto na análise das suas práticas pedagógicas, quanto nas considerações sobre o seu papel e as suas funções na sociedade. A experiência escolar amplia e intensifica a socialização dos indivíduos. A instituição e o processo escolar foram reorganizados de forma tal que as salas de aula se converteram no lugar apropriado para se acostumar às relações sociais do processo de produção capitalista, no espaço institucional adequado para preparar as crianças e os jovens para o trabalho. Mas não é isso que queremos,o que realmente queremos é a emancipação da educação como princípio educativo e a formação de um cidadão para que vivam de forma mais digna na sociedade.

Pensar sobre multiculturalismo e educação pressupõe analisar concepções e experiências pedagógicas baseadas nesse movimento teórico que se inicia em meados do século XX nos Estados Unidos e que se difunde no mundo ocidental como forma de enfrentamento dos conflitos gerados em função das questões econômicas, políticas, e, mormente, étnicoculturais, na tentativa de combater discriminações e preconceitos, haja vista as dificuldades de indivíduos e grupos de acolher e conviver com a pluralidade e as diferenças culturais. Sobre isso Valente (1999) argumenta: “Aceitar as diferenças e enriquecer-se com elas continua a ser um problema que hoje ninguém sabe resolver porque supõe o reconhecimento da alteridade (...)”.

Diante dessa circunstância, considera-se relevante situar a realidade sócio-histórica e cultural atual, marcada pelos processos de reestruturação produtiva do sistema capitalista em escala mundial, que resulta na chamada universalização do capital, bem como marcada pelo crescimento dos intercâmbios culturais, que evidenciam diferenças e acirram conflitos, despertando cada vez mais os sujeitos e os grupos alvos de discriminação para lutar em defesa das formas plurais e diversas de ser e de viver.

Culturalmente, com o vertiginoso avanço da tecnologia, media, informática e a diluição de fronteiras geográficas, tem-se acelerado o intercâmbio cultural. O mundo assume, definitivamente, as feições e as marcas da multiculturalidade, da diversidade cultural, fazendo-nos crer que estamos “condenados” a pensar a unidade humana na base de sua diversidade cultural e nos desafiando a desenvolver a capacidade de conviver com as diferenças.

Pressupondo que não há como refrear a suposta homogeneidade cultural pseudoconstruída ao longo do desenvolvimento da humanidade pelos diversos grupos étnicoculturais, e, haja vista que a heterogeneidade tem-se constituído na marca predominante da sociedade contemporânea, há que se reconhecer que muitas são as dificuldades que se anunciam perante essa realidade irrevogável e irreversível.

Olhando sob esse ângulo, um dos obstáculos que se interpõe na busca da convivência pacífica e tolerante relaciona-se à visão de que, não raro, a diferença é associada à inferioridade e desigualdade, e o “outro” - que é diferente porque diverso e plural - torna-se inferior e passa a representar uma ameaça aos padrões euroamericanos de ser e de viver. Tais padrões, assentados nas culturas ocidentais brancas, letradas, masculinas, heterossexuais e cristãs, estão arraigados no imaginário social e naturalizados cotidianamente nos diversos espaços de convivência humana, afetando tanto os chamados grupos minoritários quanto os pertencentes às esferas hegemônicas. Ademais, são padrões culturais definidos arbitrariamente e impostos de modo sutil ou arrogante e hostil, peculiar das culturas e identidades autoproclamadas “superiores”, o que contribui para reforçar e difundir a chamada ideologia do branqueamento, segundo a qual os grupos ocidentais brancos se dizem mais capazes e melhores que os demais existentes, tornando-os alvos de exclusão, discriminação, preconceito etc.

Salienta-se que a ideologia do branqueamento está centrada numa visão etnocêntrica de mundo, isto é, na cultura do próprio grupo como a única aceitável e correta, conforme as imagens projetadas de si mesmo e reproduzidas como uma espécie de narcisismo coletivo anestesiante, afetando a vivência social de todos os grupos culturais, sejam os ditos superiores ou inferiores.

Por conta disso, torna-se difícil, muitas vezes, situar quem é quem no jogo das diferenças, nas relações de poder desiguais, isto é, quem se posiciona na condição de dominante ou de dominado, uma vez que em todos os grupos culturais há aqueles que são a, um só tempo, discriminados e discriminadores, vítimas e algozes. Podemos mencionar, a título de exemplificação, o caso de um sujeito negro que é discriminado por outro branco, mas, maltrata a mulher em casa; ou um praticante do candomblé que é alvo de preconceito dos católicos, porém, combate com veemência os evangélicos ou a união estável entre pessoas do mesmo sexo; ou mesmo o caso de um gay ou lésbica que sofre na pele o preconceito pela sua condição sexual, mas não deixa de assumir posição racista diante de uma pessoa negra etc.

Outro entrave à convivência plural é que temos caminhado a passos lentos no sentido de acolher a diversidade cultural, sobretudo quando se considera a rapidez com que assumimos práticas preconceituosas, racistas, estereotipadas ou xenofóbicas diante do “outro”. E, o mais importante, apesar das conquistas alcançadas em todos os países do mundo ocidental, tais como o Brasil, as ações efetivas têm sido tímidas na maioria das instituições formadoras (incluindo as escolas e universidades) com vistas a uma educação multicultural capaz de ensinar e aprender a lidar com práticas discriminatórias. Quando muito, sobressai-se a retórica vazia de sentido político, sem grandes repercussões concretas.

Tendo em vista, portanto, de um lado, que nas sociedades contemporâneas ocidentais as lutas pelo poder não se desenrolam somente no espaço político e econômico, porém, ampliam-se para o terreno cultural, e, de outro, que o cenário de interdependência global e de intercâmbios culturais contribui para promover discriminações, racismos, xenofobias, extremismos religiosos, exclusão social, econômica e étnica etc., atingindo sobremaneira os grupos economicamente mais fragilizados, vai se tornando urgente e inadiável a mobilização de esforços no sentido de solucionar e combater a opressão ou, em última instância, aliviar as tensões, conter a propagação dos racismos, bem como reafirmar os direitos humanos, garantindo o direito à pluralidade e às diferenças culturais, a fim de evitar abalos mais profundos nos alicerces da ordem vigente.

Por meio desses eventos “estimulam” os Estados-Nação, dentre eles o Brasil, assumir o compromisso de reformular os discursos e implementar reformas nos sistemas educacionais e curriculares oficiais, articulando princípios da ideologia neoliberal e, contraditoriamente, de “educação para a tolerância”, “cultura da paz” e “respeito às diferenças culturais” entre povos, etnias, nações (LOPES, 1999).

Nesse sentido, levar em conta a pluralidade cultural no âmbito da educação implica pensar formas de reconhecer, valorizar e incorporar as identidades plurais em políticas e práticas curriculares. Significa, ainda, refletir sobre mecanismos discriminatórios que tanto negam voz a diferentes identidades culturais, silenciando manifestações e conflitos culturais, bem como buscando homogeneizá-las numa perspectiva monocultural.

Tais reflexões constituem o alicerce para se situar o multiculturalismo no terreno educacional. Porém, o que é o multiculturalismo? Quais as suas origens históricas? De que multiculturalismo se fala ou, melhor, quais as concepções teóricas existentes? Quais as vertentes mais conhecidas? Veremos esses assuntos a seguir.

Inicialmente, constitui-se desvinculado dos sistemas de ensino, incorporado na sua maioria pelos movimentos sociais, especialmente os grupos culturais negros. O eixo orientador do movimento é o combate ao racismo e as lutas por direitos civis. GONÇALVES e SILVA (1998) situam o início do movimento no final do século XIX, com as lutas dos afro-descendentes, que buscavam a igualdade de exercício dos direitos civis e o combate à discriminação racial no País.

Os precursores do multiculturalismo foram professores doutores afro-americanos, docentes universitários na área dos Estudos Sociais que trouxeram, por meio de suas obras, questões sociais, políticas e culturais de interesse para os afro-descendentes. Entre esses estudiosos destacam-se George W. Williams, Carter G. Woodson, W. E. B. Dubois, Charles H. Wesley, St. Claire Drake. Baseando-se em argumentos científicos procuravam preparar as populações segregadas para exigir igualdade de direitos, estimulando a auto-estima desses grupos e apoiando o debate intelectual sobre questões relativas à discriminação e exclusão social.

Para Gonçalves e Silva (1998), os trabalhos acadêmicos desses estudiosos, embora ignorados pela sociedade em geral, foram divulgados em escolas, igrejas e associações afro-estadunidenses, consistindo em pesquisas histórico-sociais e em elaboração de materiais didáticos e novas metodologias para os diversos níveis de ensino, fundamentados em um novo conhecimento da história dos negros. Partindo da reflexão desses precursores, novos estudos serão realizados ao longo do século XX, contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas e práticas pedagógicas, que insistem na idéia de se repensar a educação em uma perspectiva multicultural.

Todas essas mudanças contribuíram para amenizar o chamado dilema racial na década de 70 nos Estados Unidos, sobretudo entre a juventude negra. Para Glazer (citado por GONÇALVES E SILVA, 1998),

se antes, eles estavam preocupados na integração, ignorando sua própria cultura e sua história, é porque queriam ser exatamente como os brancos; hoje, eles se debruçam sobre a própria herança, buscando dialogar com o seu passado, para descobrir a própria identidade”.

A partir dos anos 70, há um relativo avanço nas lutas multiculturalistas, à proporção que os Estados Unidos instituem, à custa das pressões populares, políticas públicas em todas as esferas de poder público (federal, estadual e municipal), visando garantir igualdade de oportunidades educacionais, de integração e justiça social a grupos culturais diversos, tais como os não-brancos, do sexo feminino, deficientes, alunos de baixa renda etc.

Nos anos 80 e, especialmente, nos anos 90, são fortalecidos os estudos sobre o multiculturalismo em decorrência da ampliação da influência pós-moderna no discurso curricular, que valoriza a mistura e o hibridismo de culturas, a pluralidade e as diferenças culturais. A celebração da diferença se constitui uma de suas idéias básicas. É nessa época também que se acentuam os estudos relacionando cultura/ educação escolar nas sociedades contemporâneas.

Moreira (1999), ciente de que a base da dinâmica social vigente é a opressão econômica e social, ressalta a crescente importância da questão cultural no mundo contemporâneo. A cultura é vista como esfera de lutas e de relações de poder desiguais, constituindo-se na fonte fundamental de conflitos mundiais no cenário atual. Tais conflitos se originam das divergências de interesses entre diferentes grupos e das tentativas de imposição dos significados de determinados grupos em relação a outros, com o objetivo de exercer a hegemonia cultural.

Esse cenário de abordagem sobre o multiculturalismo, iniciada nos Estados Unidos vai ultrapassando territórios e fronteiras, chegando também ao Brasil. Assim como nos Estados Unidos, o multiculturalismo no País nasce nas primeiras décadas do século XX sob a iniciativa dos movimentos negros. Mas, diferentemente do que ocorreu em território norte-americano, os debates não contaram inicialmente com a adesão das universidades, o que vem a ocorrer somente a partir dos anos 80 e, sobretudo, dos anos 90 em diante.

A propósito, a ONU e suas agências especializadas, sobretudo a UNESCO, impulsionarão os países-membros a elaborar garantias jurídico-institucionais para proteger as vidas de grupos culturalmente dominados.

Malgrado os interesses subjacentes a esses organismos internacionais na tentativa de assegurar o controle da política mundial, existe um aspecto a ser destacado: ao financiar pesquisas visando evitar a propagação do racismo no mundo acabam contribuindo para desmistificar sociedades supostamente democráticas. É o caso do Brasil, acostumado a representar-se com a imagem de paraíso racial, de “harmoniosa” convivência inter-racial, quando na verdade sempre escondeu ou omitiu as dores e sofrimentos de grupos culturais como os negros e indígenas, vítimas da miséria e da opressão branca.

Já na década de 80, com a redemocratização política cresce o interesse pelo enfoque multiculturalista na educação e no currículo das escolas. Além da influência exercida pelas teorias criticas e pós-críticas, as próprias organizações internacionais de defesa dos direitos humanos firmam o compromisso de promover uma educação para a cidadania baseada no respeito à diversidade cultural, visando à superação das discriminações e do preconceito. Candau (1997) menciona a Conferência Mundial sobre Políticas Culturais, promovida pela UNESCO em 1982, no México, cujo papel é o de contribuir para a aproximação entre os povos e uma melhor compreensão entre as pessoas.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN - (BRASIL, 1997) consta que, no plano internacional, o Brasil tem participado de eventos importantes, como a Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien, na Tailândia, em 1990, convocada por organizações como UNESCO, UNICEF e Banco Mundial. O País também é signatário da Declaração de Nova Delhi - assinada pelos nove países em desenvolvimento de maior contingente populacional - em que se reconhece a educação como instrumento proeminente de promoção dos valores humanos universais, da qualidade dos recursos humanos e do respeito pela diversidade cultural.

Na visão do discurso oficial, a educação para a cidadania implica a capacidade de convivência com a cultura do outro. Ao incluir a Pluralidade Cultural como Tema Transversal os Parâmetros (BRASIL, 1998) avançam um passo importante em prol de uma proposta educacional e curricular multiculturalista, na medida em que reconhece o valor da pluralidade e a diversidade cultural, bem como a necessidade da formar para a cidadania com base no respeito às diferenças.

Todavia, apoiando-nos em vários estudos (MOREIRA, 1996, 1998; CANDAU; 1997; LOPES, 1999) defendemos o argumento que não basta propor nos PCN a importância da convivência pacífica entre grupos culturais plurais e diversos. A sensibilidade para o outro não acontece por meio de propostas impostas. Em termos de educação multicultural isso requer a corporificação no currículo daquilo que CONNEL (1998) chama de justiça curricular, fundamentada em três princípios:

  1. Os interesses dos grupos em desvantagem, sem que isso venha a constituir guetos curriculares;

  2. A participação e a escolarização resultam comuns, o que implica efetivar a democracia como um processo coletivo de tomada de decisões;

  3. A produção de igualdade, em que a cidadania participante e os critérios contrahegemônicos são vistos como elementos de um mesmo processo histórico.

Tratando sobre os estudos multiculturais nas instituições universitárias Candau (1997) reafirma o crescimento, nos últimos anos, de encontros, seminários e congressos abordando temas relativos à globalização, pluralismo cultural, identidades sociais e culturais etc. O marco para o início dos debates nos foros educacionais universitários deu-se numa das reuniões anuais da ANPEd. Ela relata que,

(...) em 1995, pela primeira vez, foi realizada uma sessão especial sobre o tema multiculturalismo e universidade. Os participantes fomos testemunhas das reticências e reservas que o tema suscitou no debate” (Ibid.: 241).

Gonçalves e Silva (1998) revelam que, embora desde o final dos anos 80 algumas universidades brasileiras venham realizando abordagens curriculares numa perspectiva multiculturalista, é nos anos 90 que ocorre um crescimento da produção acadêmica, visando ao aprofundamento da temática. Destacam, ainda, vários estudos promovidos nos programas de pós-graduação em Educação, enfocando questões tais como: educação e gênero, educação e diversidade, educação e relações raciais, educação indígena. Tais estudos vêm conquistando maior adesão nos anos iniciais do século XXI, conforme se pode confirmar na literatura educacional disponível sobre o assunto, inclusive em sites eletrônicos na internet.

Assim como Kincheloe e Steinberg (citados por MOREIRA, 1999) acreditamos que não se pode falar em multiculturalismo sem se especificar com clareza o sentido atribuído ao termo bem como as concepções teóricas que o fundamentam.

Para começar, o multiculturalismo é uma estratégia política de reconhecimento e representação da diversidade cultural, não podendo ser concebido dissociado dos contextos das lutas dos grupos culturalmente oprimidos. Politicamente, o movimento reflete sobre a necessidade de redefinir conceitos como cidadania e democracia, relacionando-os à afirmação e à representação política das identidades culturais subordinadas. Como corpo teórico questiona os conhecimentos produzidos e transmitidos pelas instituições escolares, evidenciando etnocentrismos e estereótipos criados pelos grupos sociais dominantes, silenciadores de outras visões de mundo. Busca, ainda, construir e conquistar espaços para que essas vozes se manifestem, recuperando histórias e desafiando a lógica dos discursos culturais hegemônicos. Os estudos sobre os fenômenos culturais partem da necessidade de compreensão dos mecanismos de poder que regulam e autorizam certos discursos e outros não, contribuindo para fortalecer certas identidades culturais em detrimento de outras.

Na visão de Silva (1999) os Estudos Culturais se diferenciam das disciplinas tradicionais pelo seu envolvimento explicitamente político, sem qualquer pretensão de neutralidade ou imparcialidade, tomando claramente o partido dos grupos em desvantagem nas relações de poder.

O multiculturalismo se destaca como uma das preocupações dos Estudos Culturais. A multiplicidade de culturas e a pluralidade de identidades, em face de relações de poder assimétricas, geram a necessidade de questionar e desafiar práticas silenciadoras de identidades culturais. Particularmente, as questões de racismos, machismos, preconceitos e discriminações, tão importantes para a escola e o currículo, só podem ser analisadas produtivamente sob uma perspectiva que leve em conta as contribuições dos Estudos Culturais.

No Brasil vem aumentando o interesse pela abordagem culturalista e multiculturalista, na medida em que as orientações e reformulações por que passam o sistema educacional e a revisão teórica sobre essas questões apontam para uma concepção escolar que considere o caráter pluriétnico e pluricultural da sociedade.

Para evidenciar as posições multiculturalistas existentes nos reportamos à obra de Peter McLaren, Multiculturalismo Crítico (1997), referência e marco histórico da questão. O seu esquema indica quatro vertentes: conservadora ou empresarial, humanista liberal, liberal de esquerda, crítica e de resistência.

Os estudos sobre multiculturalismo desenvolvidos por McLaren provocaram impacto em autores(as), críticos(as) em solo europeu, norte-americano e latino americano, incluindo o Brasil, contribuindo para impulsionar mudanças no campo educacional e curricular desses países. Assim, outros problemas passaram a modelar as diretrizes curriculares, com análises sobre as possibilidades de redefinição investigativa do campo, antes orientadas por perspectivas mais tradicionais e tecnocráticas.

METODOLOGIA

O trabalho foi realizado na Universidade Potiguar - UnP, tendo como publico alvo os alunos do 7º período dos turnos matutino e noturno.

O tema abordado no questionário foi multiculturalismo com perguntas diretas objetivas e subjetivas, para que os alunos mostrassem todo ou algum conhecimento sobre o tema, se ele tem algum impacto das diferenças culturais na Educação e o que achariam da possibilidade desse tema ser trabalhado dentro do curso de Ciências Biológicas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com o questionário aplicado a 30 alunos foi possível observar todo o conhecimento sobre o assunto em questão.

O que você entende por multiculturalismo?

De acordo com o que foi perguntado sobre o conhecimento do tema em questão foi possível constatar que os graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Potiguar – UnP tinham uma noção geral sobre o tema exposto, apresentando 100% de conhecimento.

Dentro do curso de Ciências Biológicas você trabalhou a temática de multiculturalismo em alguma disciplina?

Com relação a esse questionamento, da totalidade dos alunos 40% informou já trabalhou esse tema no curso e 60% não trabalhou.

A multiculturalidade pode ser uma ferramenta facilitadora da Biologia?

Em se tratando de se tratando de ferramenta facilitadora da Biologia 90% dos alunos que sim e 10% que não.

Qual o impacto das diferenças culturais na Educação?

A maioria, em torno de 70% dos alunos questionados, informou que o maior impacto está no preconceito racial, sexual e social dentro de uma Universidade ou escola.

Quais dos temas abaixo estão ligados a multiculturalidade?

Saúde — 5 alunos optaram por esse tema

Sexualidade30 alunos optaram por esse tema

Religião — 26 alunos optaram por esse tema

Política — 30 alunos optarm por esse tema

Meio Ambiente — 5 alunos optaram por esse tema

Filosofia — 23 alunos optaram por esse tema

Sociedade — 30 alunos optaram por esse tema

Como você acha que o tema multiculturalismo deve ser trabalhado dentro do curso de Ciências Biológicas?

Dentre os alunos questionados, 85% sugerem que em forma de seminários, palestras tanto em sala de aula como em oficinas de ações comunitárias para discussão do tema proposto, para tentar assim conhecer um pouco mais sobre o assunto e tentar ver esse tema com naturalidade respeitando todas as faces do multiculturalismo.

CONSIDERAÇÕES

O artigo teve como objetivo analisar o estigma e a discriminação de grupos vulneráveis no processo educacional inserido no contexto sócio-político e cultural vigente, respaldando-se nos fundamentos da ética como forma de compreender e transformar a própria condição de vulnerabilidade. Portanto, este artigo faz uma reflexão sobre o processo de estigmatização durante os contatos sociais presentes no cotidiano escolar. Evidencia, em conseqüência disso, a falta de uma abordagem ética durante as situações de tensão geradas pela existência dos estigmas. Nesse sentido, a escola, como colaboradora no processo de construção de identidade de cada um de seus estudantes, torna-se o espaço ideal para a efetiva prática de valores éticos, haja vista a necessidade de enfrentamento e busca de soluções para os conflitos gerados no contato com o outro.

Ao longo das últimas quatro décadas, o multiculturalismo como movimento teórico e social engajado na defesa da diversidade cultural vem tomando espaço nas discussões sobre a educação, dentro de perspectivas e vertentes as mais diversas, levando em conta que o sentido dessas discussões e suas saídas dependem, necessariamente, de uma visão global e articulada, capaz de integrar todos esses aspectos ao mesmo tempo, políticos, econômicos, sociais, culturais e educacionais.

Tal movimento nos ensina que conceber e conviver com as diferenças requer o reconhecimento de que existem indivíduos e grupos distintos entre si, mas que não se anulam ou se excluem em termos de direitos iguais e de oportunidades correlatas que garantam a afirmação de suas identidades e da existência com dignidade humana.

Entendemos, portanto, que as propostas associando multiculturalismo e educação devem se situar em um contexto mais amplo do que as urgências políticas têm imposto, pois, ao contrário de propiciar uma formação adequada, pode-se simplesmente, privilegiar uma formação sem nenhum compromisso político, social e cultural com a diversidade. Dessa forma, é importante estar ciente que, se a educação no País continuar negligenciando e/ou desprezando a multiculturalidade como condição de vida na sociedade a qual a escola faz parte, toda e qualquer formação corre o sério risco de continuar sem dar conta das demandas e exigências sociais, bem como de não cumprir o papel de formar sujeitos históricos, ativos, criativos e interessados na emancipação humana como finalidade última de todo processo formativo.

Apoiando-nos em MCLAREN (1997) defendemos o multiculturalismo crítico, para quem as diferenças não têm um fim em si, mas situam-se num contexto de lutas por mudança social, contrapondo-se ao ideário neoliberal e à globalização econômica e cultural vigente, como expressões legítimas do modelo capitalista opressor.

O multiculturalismo crítico levanta a bandeira da pluralidade de identidades culturais, a heterogeneidade como marca de cada grupo e opõe-se à padronização e uniformização definidas e impostas pelos grupos dominantes. Celebrar o direito à diferença nas relações sociais como forma de assegurar a convivência pacífica e tolerante entre os indivíduos caracteriza o compromisso com a democracia e a justiça social, em meio às relações de poder em que tais diferenças são construídas. Conceber, enfim, o multiculturalismo numa perspectiva crítica e de resistência pode contribuir para desencadear e fortalecer ações articuladas a uma prática social cotidiana em defesa da diversidade cultural, da vida humana, acima de qualquer forma discriminatória, preconceituosa ou excludente.

REFERÊNCIAS

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