nuevomundo - 1500 - monica

nuevomundo - 1500 - monica

(Parte 1 de 3)

Nuevo Mundo Mundos

Nuevos Debates, 2006

Monica Pimenta Velloso

As modernas sensibilidades brasileiras

Uma leitura das revistas literárias e de humor na Primeira República.

Avertissement Le contenu de ce site relève de la législation française sur la propriété intellectuelle et est la propriété exclusive de l'éditeur. Les œuvres figurant sur ce site peuvent être consultées et reproduites sur un support papier ou numérique sous réserve qu'elles soient strictement réservées à un usage soit personnel, soit scientifique ou pédagogique excluant toute exploitation commerciale. La reproduction devra obligatoirement mentionner l'éditeur, le nom de la revue, l'auteur et la référence du document. Toute autre reproduction est interdite sauf accord préalable de l'éditeur, en dehors des cas prévus par la législation en vigueur en France.

Revues.org est un portail de revues en sciences humaines et sociales développé par le CLEO, Centre pour l'édition électronique ouverte (CNRS, EHESS, UP, UAPV).

Referencia electrónica Monica Pimenta Velloso, « As modernas sensibilidades brasileiras », Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En línea], Debates, 2006, Puesto en línea el 28 janvier 2006. URL : http://nuevomundo.revues.org/index1500.html DOI : en cours d'attribution

Éditeur : EHESS http://nuevomundo.revues.org http://www.revues.org

Document accessible en ligne à l'adresse suivante : http://nuevomundo.revues.org/index1500.html Document généré automatiquement le 04 octobre 2009. © Tous droits réservés

As modernas sensibilidades brasileiras 2

Nuevo Mundo Mundos Nuevos

Monica Pimenta Velloso

As modernas sensibilidades brasileiras Uma leitura das revistas literárias e de humor na Primeira República.

As revistas como objeto de reflexão historiográfica

1 A reflexão sobre as revistas vem ocupando espaço significativo na produção historiográfica brasileira, mostrando-se, no entanto, ainda lacunar no campo da história cultural. Entender como as pessoas liam, construiam e transmitiam significados, através da imprensa, é entender a sensibilidade e historicidade de uma época.Ao ampliar-se a própria idéia de documento, ampliaram-se os usos, à ele atribuídos.

2 Esse artigo toma as revistas como expressão de práticas e de lógicas integrantes de um sistema cultural (Boutier, 1998), buscando iluminar a relação entre o texto, a linguagem e o campo social da recepção. Essa questão foi tematizada anteriomente em O Modernismo no Rio de Janeiro (1996), mostrando-se como, nas crônicas e caricaturas das revistas de humor, esboçavam-se distintas receptividades em relação ao moderno. Trilhando esse caminho de buscar as configurações do moderno, a partir da recepção, nesse artigo, pretendo analisar as diferentes apropriações e usos que as revistas literárias e as semanais ilustradas estão fazendo em relação à idéia do moderno brasileiro.

3 Na história da imprensa, o contexto da Primeira República (1889-1930) destaca-se como particularmente expressivo. É nesse momento, em que se inicia, mesmo que em bases precárias, o processo da moderna comunicação de massa e formação de uma opinião pública. As revistas desempenham aí papel estratégico e de grande impacto social. Articuladas ao cotidiano, elas tem uma capacidade de intervenção mais rápida e eficaz, caracterizando-se, sobretudo, como “obra em movimento”(Pluet-Despatin, 1992).

4 Com o surgimento das primeiras revistas semanais de grande tiragem, modifica-se sensivelmente a dinâmica do campo cultural e a própria inserção intelectual. Percebendo o lugar estratégico dessas publicações na articulação de projetos político-culturais, parte expressiva da intelectualidade envolve-se na dinâmica do mercado editorial. É o caso, por exemplo, de Paulo Prado que, em 1923, torna-se co-editor da Revista do Brasil. Industrial de renome, vivamente interessado em estabelecer a sintonia da cultura brasileira com as vanguardas européias, Prado torna-se um mecenas, editando obras e incentivando discussões. Em 1926, inicia-se a fase carioca da publicação; Assis Chateaubriand entrega à Rodrigo de Mello Franco Andrade a direção, Prudente de Moraes Netto torna-se secretário e Sérgio

Buarque colaborador de ponta. (Eulálio, 2001).

5 Essa articulação entre as elites empresariais e intelectuais, revela o papel estratégico exercido pelas revistas como lugar de estruturação das redes de sociabilidade, conformando um microcosmo específico de organização e de atuação em relação ao livro.(Pluet-Despatin, 1992). No contexto entre 1900-1920, os intelectuais e artistas vão criar novas formas de expressão e de linguagens, difundindo-as através dos experimentos poéticos, das crônicas literárias, das caricaturas, das gravuras, dos designers e da propaganda publicitária. Eles vão se mostrar, cada vez mais atentos para a “escuta” do público leitor.

6 É de particular relevância a reflexão que autores como Robert Darnton (1986, 1989, 1998) e Roger Chartier (1992, 2002, 2006) vem desenvolvendo em relação à história da leitura. Reforçando o papel das práticas culturais e mostrando a leitura como elaboração ativa de significados entre os diferentes grupos sociais, busca-se recapturar o passado na sua própria experiência dinâmica. O que significa entender que as pessoas, nem sempre, leram como o fazemos hoje. Interessa mostrar, portanto, esses distintos modos de leitura que implicam em práticas traduzidas em gestos, espaços e costumes.

As modernas sensibilidades brasileiras 3

Nuevo Mundo Mundos Nuevos

7 É justamentente, nesse espaço “fora do texto” que Jean-Marie Goulemot (2001), sugere que

se busque, as distintas formas históricas que moldam a leitura, produzindo sentidos. Essas abarcam atitudes corporais, lugares e situações de leitura, processo de memorização social e a própria intertextualidade e dialogismo. Deve-se sempre considerar que aos sentidos já adquiridos vem se somar o atual. Essa reflexão traz um aspecto de fundamental importância em relação à própria natureza do fazer historiográfico: os documentos não devem ser considerados apenas pelas informações que nos fornecem. Desloca-se, assim, o seu estatuto de supremacia e a idéia de verdade, abrindo-se para a dinâmica da multiplicidade e das invenções. As revistas devem ser estudadas em si mesmas articulando-se os seus aspectos materiais e discursivos,

suas condições de produção, utilizações estratégicas e recepção.

8 Elas passam a ser pensadas, aqui, na sua dupla dimensão: como fonte e como objeto

de análise. Perspectiva essa que possibilita percebê-las na sua complexa historicidade e articulações específicas que estabelecem em relação ao moderno.

9 Na dinâmica modernista brasileira, o sentido do moderno mostra-se bastante polêmico,

impondo-se pelo seu caráter polissêmico. Se de um lado, ele é prontamente associado à materialidade das conquistas científico-tecnológicas e ao desenvolvimento do processo urbano-industrial, de outro, é marcante a sua vinculação à esfera das idéias e das representações, enfatizando-se a urgência de construir um “modo de ser nacional”, capaz de traduzir o pensamento brasileiro e o lugar desse no contexto civilizatório internacional. As revistas apresentam-se como órgão de ponta na construção, veiculação e difusão do ideário moderno. São elas que ajudam a forjar a moderna sensibilidade brasileira, abrindo-se para diferentes leituras e sentidos.

10 Os estudos da história cultural vem inspirando as suas abordagens com base em duas ordens distintas de significado atribuídos ao termo cultura. A primeira designa as obras e gestos que, numa determinada sociedade, preferencialmente se subtraem às urgências do cotidiano,

submetendo-se à juízos estéticos ou intelectuais. A segunda visaria as práticas vulgares através das quais uma comunidade vive e reflete a sua relação com o mundo , com os outros e consigo própria.(Chartier, 2006). As revistas literárias e as de humor permitem contemplar essa dupla dimensão da cultura, configurando a complexidade simbólica que estrutura a sociedade brasileira na sua relação dialógica com o moderno.

1 A minha proposta de análise é a de analisar essas duas modalidades e tipos de revista,

percebendo-as como expressão das diferentes articulações do moderno brasileiro. Tais revistas fornecem, de um lado, instruções, conselhos, sugestões, colocando-se como verdadeiras cúmplices dos leitores, de outro, veiculam percepções e conceitos intelectuais, procurando equacionar a inteligibilidade dos termos brasilidade -modernidade.

12 Vamos enfocar, portanto, duas modalidades distintas de revistas, estabelecendo-se tal distinção em função do público leitor. As revistas semanais ilustradas, destinadas ao grande público, preferencialmente operacionalizam a idéia do moderno na vida cotidiana, buscando familiarizar os leitores com as novas coordenadas espacio -temporais. É o caso das revistas de grande circulação como O Malho, Fon-Fon e Para todos, publicações essas que tiveram longa vida editorial ou ampla receptividade junto ao público.

13 Já as revistas literárias, de perfil mais especializado, localizam o moderno brasileiro no universo filosófico-conceitual, detendo-se na discussão sobre os significados da arte, da estética e do pensamento modernos em consonância com a brasilidade. Serão foco de análise as revistas Estética(1924/25) e Revista do Brasil (1926), pelo fato de ocuparem a sua direção intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes Netto, que considero figuras de fundamental importância no modernismo do Rio de Janeiro, estabelecendo interlocução com os intelectuais paulistas e de outros estados.

As modernas sensibilidades brasileiras 4

Nuevo Mundo Mundos Nuevos

Mutações do moderno

14 Na condição de “obra em movimento”, as revistas literárias se apresentam como suporte

altamente receptivo para a construção do pensamento modernista brasileiro que, após 1924, aparece como detentor de uma temporalidade própria. É na sessão da crítica literária, espaço conceitual-filosófico por excelência, que vão se expressar as polêmicas sobre o moderno brasileiro. Escrita forjada no calor da hora, comentando obras recém lançadas no mercado editorial brasileiro, as críticas literárias manifestam fina sintonia com o processo de atualização cultural. Esboçam idéias inovadoras, polemizam, propondo conceitos e visões. Freqüentemente funcionam como termômetro do debate social, permitindo o mapeamento e configuração do campo intelectual.

15 Sérgio Buarque de Holanda observa que a revista Estética (1924/25) conseguira romper

com "unidade fictícia” do modernismo brasileiro, ao mostrar as divergências internas do seu

pensamento.

16 Nessa polêmica sobre o moderno, destaca-se o seu artigo : “O lado oposto e os outros lados”(Revista do Brasil, out.1926). Nele, o Sérgio Buarque faz ressalvas ao termo modernismo, argumentando que ser moderno não significava mais ser modernista. Cabe notar que o termo modernista, todas as vezes em que mencionado no texto, aparecia em itálico ou entre aspas. O fato deixa claro a necessária acuidade visual do historiador frente a determinados sinais gráficos que, frequentemente, visam colocar em questão práticas culturais ou apontar para uma discussão conceitual de relevância (Chartier, 2002). Ao colocar aspas no termo modernismo, Sérgio chamava a atenção para a historicidade conceitual a que deveria ser submetido o termo. O modernismo, em 1926, deixava de ser uma idéia consenso no campo intelectual brasileiro.

17 No artigo, o autor posicionava-se contra ideologia do construtivismo em arte que pressupunha a explicitação dos pressupostos teóricos e críticos da produção artística. Sérgio Buarque recusava a arte e a brasilidade como construção sistemática, resultante da vontade e da programação intelectual. Entendia que a sistematização do pensamento brasileiro ainda era prematura, devendo ser privilegiado, nesse momento, o experimentalismo1 .

18 O jovem Sérgio, então, na impetuosidade dos seus 20 anos, indignava-se com os intelectuais que denominava “modernistas academizantes”. Segundo ele, o equívoco desses intelectuais era o de considerar que a expressão nacional estaria, desde já, “pronta no cérebro”. Para Sérgio Buarque, esse procedimento estreitava o campo de possibilidades do experimento, tendo consequências altamente comprometedoras para o pensamento brasileiro: "Pedimos um aumento do nosso império e eles nos oferecem uma amputação (...). O que idealizam, em suma, é a criação de uma elite de homens inteligentes e sábios, embora, sem grande contato com a terra e com o povo(...) ( Revista do Brasil, out. 1926)

19 Esse ponto é importante : a inserção do Brasil, no contexto moderno, só poderá ocorrer a partir da necessária mediação do popular. Tal idéia, que vai se constituir em pedra angular no conjunto da obra de Sérgio Buarque, começaria a ser formulada na sua “teoria do homem americano”, ao longo da década de 1920. Dialogando com o acervo das tradições ocidentais, o autor buscava entendê-las na sua articulação com o moderno contexto brasileiro. Encontra, na obra de François Rabelais não apenas uma expressão da sensibilidade moderna mas, sobretudo, a tradução de um “mundo novo”. Interpretando o movimento político da Renascença e o advento do indivíduo, Rabelais viria configurar “o homem novo, sem raízes, sem tradição”. Conclui que é dessa “canalha rabelaisiana” que sairiam as elites intelectuais e políticas do novo mundo(Estética, [1924]. 1974 p. 32)

20 Cabe notar que esse artigo fora escrito num contexto em que Sérgio Buarque (e os demais modernistas) buscava justificar a modernidade do pensamento de Graça Aranha, intelectual da “velha guarda”mas que se apresentava como uma das lideranças do movimento modernista brasileiro. Dois anos depois, em outubro de 1926, Sérgio não o reconhecia mais como

As modernas sensibilidades brasileiras 5

Nuevo Mundo Mundos Nuevos moderno. Postulava que a modernidade brasileira não era mais modernista mas moderna. No ano de 1926, ser moderno significava manter-se em contato “com a terra e o povo”, atitude que exigia apreço ao passado histórico, recusa à estabilidade das velhas civilizações e, sobretudo, abertura à percepção do experimento. Esse era exatamente o ponto da divergência entre os intelectuais modernistas: a mediação da brasilidade.

21 O artigo de Sérgio Buarque, escrito em outubro de 1926, na Revista do Brasil , era uma crítica literária à obra de Ronald de Carvalho Toda a América.Tal crítica, acabou configurando uma verdadeira cisão no campo intelectual brasileiro. Em torno de Graça Aranha- que foi considerado um “modernista acadêmico”- agruparam-se Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida e Renato de Almeida. Já Sérgio Buarque de Holanda recebe o apoio incondicional de Prudente Moraes Netto. Em artigo publicado no jornal A Manhã, em 30/10/1926, Prudente reforçava a necessidade da percepção do experimento no modernismo brasileiro, combatendo as plataformas e programas intelectuais. Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Alcântara

Machado identificam-se com essa perspectiva.

2 Para entendermos, o sentido dessa polêmica é necessário contextualizá-la , na perspectiva de marcar a sua historicidade. Tanto a revista Estética(1924/25) quanto a Revista do Brasil (1926), integraram o denominado “segundo tempo modernista”, em que, passada a fase da atualização cultural, marcada pelo consenso, partiu-se para a compreensão do fenômeno da brasilidade. Surgiriam, a partir daí, polêmicas que vão dar margem à pluralidade de leituras sobre a brasilidade modernista.

(Parte 1 de 3)

Comentários