paisagem bertrand

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BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global

R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR147 vertentes...), climáticos (precipitações, temperatura...) e hidrológicos (lençóis freáticos epidérmicos e nascentes, pH das águas, tempos de ressecamento do solo...). É o “potencial ecológico” do geosistema. Ele é estudado por si mesmo e não sob o aspecto limitado de um simples “lugar”. Para uma soalheira calcária da média montanha pirenaica, por exemplo, as paredes talhadas no calcário urgoniano-aptiano da bacia de “Tarascon-Ariège”, o potencial ecológico corresponde a vertentes recobertas de camadas de fragmentos rochosos, a uma insolação e a um aquecimento do substrato, superiores à média regional, enfim, à ausência de fontes e mesmo de todo o escoamento epidérmico. Pode-se admitir que existe, na escala considerada, uma sorte de “contínuo” ecológico no interior de um mesmo geosistema, enquanto que a passagem de um geosistema ao outro é marcada por uma descontinuidade de ordem ecológica.

odorata,Melia como a flor, etcem equilíbrio com solos

O geosistema se define em seguida por um certo tipo de exploração biológica do espaço. A vertente Norte da Montanha Negra (SW do Maciço central), bem servida por chuvas, fresca e nebulosa, é colonizada por uma floresta de faia montanhosa com urzes, Asperula brunos florestais de vertentes. Há uma relação evidente entre o potencial ecológico e a valorização biológica. No entanto, esta última depende também muito estreitamente do estoque florístico regional. Por exemplo, se o pinheiro pectíneo fosse espontâneo na Montanha Negra, a floresta de faia seria naturalmente substituída, seja por uma floresta de faia e pinheiro, seja mesmo por uma floresta de pinheiro pura, com Prenanthes purpurea em solos lixiviados ou em solos podzólicos.

O geosistema está em estado de clímax quando há um equilíbrio entre o potencial ecológico e a exploração biológica. A floresta de faia já citada realiza este equilíbrio. O potencial ecológico está de qualquer maneira “saturado” e o geosistema caracteriza-se por uma boa estabilidade de conjunto. Mas é um caso relativamente raro.

Com efeito, o geosistema é um complexo essencialmente dinâmico mesmo em um espaço-tempo muito breve, por exemplo, de tipo histórico. O “clímax” está longe de ser sempre realizado. O potencial ecológico e a ocupação biológica são dados instáveis que variam tanto no tempo como no espaço. A mobilidade biológica é bem conhecida (dinâmica natural da vegetação e dos solos, intervenções antrópicas, etc.). De outro lado, parece que os naturalistas se interessaram pouco pela evolução própria do potencial ecológico que precede, acompanha ou segue as modificações de ordem biológica. Por exemplo, a destruição de uma floresta pode contribuir para a elevação do lençol freático ou desencadear erosões susceptíveis de transformar radicalmente as condições ecológicas. As noções de “fator – limitante” e de “mobilidade ecológica” merecem um exame aprofundado da parte do geógrafo advertido dos fenômenos de geomorfogênese e de degradação antrópica.18

Por essa dinâmica interna, o geosistema não apresenta necessariamente uma grande homogeneidade fisionômica. Na maior parte do tempo, ele é formado de paisagens diferentes que representam os diversos estágios da evolução do geosistema. Realmente, estas paisagens bem circunscritas são ligadas umas às outras por meio de uma série dinâmica que tende, ao menos teoricamente, para um mesmo clímax. Estas unidades fisionômicas se unem então em uma mesma família geográfica. São os geofácies (pl. VII A e B). b) O geofácies e o geótopo: no interior de um mesmo geosistema, o geofácies corresponde então a um setor fisionomicamente homogêneo onde se desenvolve uma mesma fase de evolução geral do geosistema. Em relação à superfície coberta, algumas centenas de Km2 em média, o geofácies se situa na 6a grandeza de escalas de A. Cailleux e J. Tricart.

Assim como para o geosistema, pode-se distinguir em cada geofácies um potencial ecológico e uma exploração biológica. Nessa escala, é muitas vezes esta última que vem a ser determinação e que repercute diretamente na evolução do potencial ecológico. O geofácies representa assim uma malha na cadeia das paisagens que se sucedem no tempo e no espaço no interior de um mesmo geosistema. Pode-se falar de cadeias progressivas e de cadeias regressivas de geofácies, como também de um “geofácies-clímax” que constitui um estágio final da evolução natural do geosistema. Na superfície de um geosistema, os geofácies desenham um mosaico mutante cuja estrutura e dinâmica traduzem fielmente os detalhes ecológicos e as pulsações de ordem biológica. O estudo dos geofácies deve sempre ser recolocado nessa perspectiva dinâmica.

Às vezes é indispensável conduzir a análise ao nível das microformas, na escala do metro quadrado ou mesmo do decímetro quadrado (7a grandeza). Uma diáclase alargada pela dissolução (Pr. VIII, B), uma

18Sur la notion de “mobilité écologique”, cf. BERTRAND, G. Pour une étude géographique de la végétation R.G.P.S. – O., 1966, fasc. 2, p. 129-143.

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R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR148 cabeceira de nascente, um fundo de vale que o sol nunca atinge, uma face montanhosa, constituem igualmente biótopos cujas condições ecológicas são muitas vezes muito diferentes das do geosistema e do geofácies dentro das quais eles se acham. É o refúgio de biocenoses originais, às vezes relictuais ou endêmicas. Este complexo biótopo-biocenose, bem conhecido dos biogeógrafos, corresponde ao “geótopo”, isto é, a menor unidade geográfica homogênea diretamente discernível no terreno; os elementos inferiores precisam da análise fracionada de laboratório.

A tabela 1 resume a classificação sintética das paisagens. De um lado, ela dá a escala e o lugar relativo de cada unidade global na hierarquia das paisagens como também os encadeamentos entre as diversas unidades. De outro, ela situa a série geosistemageofácies-geótopo em relação a um certo número de unidades e de classificação elementares.

Considerando a paisagem como uma entidade global, admite-se implicitamente que os elementos que a constituem participam de uma dinâmica comum que não corresponde obrigatoriamente à evolução de cada um dentre eles tomados separadamente. Somos levados então a procurar os mecanismos gerais da paisagem, em particular no nível dos geosistema e dos geofácies. O “sistema de erosão” de A. CHOLLEY inspirou diretamente esta ordem metodológica. Por que não alargar o conceito de “sistema de erosão” no conjunto da paisagem? Passar-se-ia assim de um fato estritamente geomorfológicos à noção mais vasta, mais completa e, sobretudo mais geográfica, de “sistema geral de evolução” da paisagem. 1- O exemplo de geosistema “mediterrâneo” da

Baixa Liebana e do geosistema hiperoceânico das Sierras Planas (domínio cantábrico, região dos Picos de Europa).19 Os ravinamentos e os desnudamentos das vertentes são freqüentes na Baixa Liebana. As causas são primeiramente geomorfológicas (possante dissecção plio-quarternária nos xistos tenros, mantos superficiais espessos e instáveis) e fitogeográficos (tapete vegetal ralo e frágil de tipo relictual, isto é, em desequilíbrio bioclimático). A situação é agravada pelo sistema de valorização antrópica que multiplica os desmatamentos, os incêndios e a degradação das florestas claras, dos “maquis” e das “garrigues”. Os solos são descontínuos e mal evoluídos (tipos

“rankeriformes”). A geomorfogênese condiciona então a dinâmica de conjunto desse geosistema e domina o “sistema de evolução” da paisagem. Nas Sierras Planas os pastores asturianos destruíram a floresta para aumentar as áreas de pastoreio. Eles desencadearam uma cascata de processos pedológicos (podzolização, formação de turfa, hidromorfização) botânicos (extensão das “landes” ácidas) e às vezes mesmo geomorfológicos (movi-mentação dos mantos arenosos já pedogeneizados). A pedogênese tem aí um papel essencial e bloqueia atualmente a dinâmica geral da paisagem. Cada um desses geosistemas possui então um sistema de evolução diferente. 2- O sistema de evolução de uma unidade de paisagem, de um geosistema, por exemplo, reúne todas as formas de energia, complementares ou antagônicas que, reagindo dialeticamente umas em relação às outras, determinam a evolução geral dessa paisagem. Para as necessidades da análise, pode-se isolar três conjuntos diferentes no interior de um mesmo sistema de evolução. Com efeito, eles estão estreitamente solidários e se entrecruzam largamente:

vegetais, etccom prolongamentos no

-o sistema geomorfogenético tal qual o compreendem os geomorfologistas modernos que insistem no seu caráter “dinâmico” e “bioclimático” (J. TRICART); -a dinâmica biológica que intervém ao nível do tapete vegetal e dos solos. Ela é determinada por toda a cadeia de reações ecofisiológicas que se manifestam por meio dos fenômenos de adaptação (ecótipos), de plasticidade, de disseminação, de concorrência entre as espécies ou as formações nível dos solos; -o sistema de exploração antrópica que tem muitas vezes um papel determinante, seja ativando ou desencadeando erosões, seja somente modificando a vegetação ou solo (desmatamento, reflorestamento...).

3 - O sistema de evolução se define por uma série de agentes e de processos mais ou menos bem hierarquizados. Sem querer desenvolver aqui essa questão, podem ser distinguidos agentes naturais (climáticos, biológicos, etc...) que determinam processos naturais (ravinamentos, pedogênese, dinâmica ecofisiológica...) e agentes antrópicos (sociedades agropastoris, florestais...) dos quais dependem os processos antrópicos (desmatamento, incêndio, reflorestamento).

19 G. BERTRAND, op. cit., 1966, note 18, p. 236-248.

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Se não é nunca fácil apreciar a importância de determinado agente ou de determinado processo isolado, é no entanto possível classificar os sistemas de evolução em função do ou dos fatores dominantes (geomorgenético, antrópico...). É já um primeiro esboço de classificação das paisagens.

Antes de classificar os geosistemas, é preciso darlhes nomes. Trata-se de definir, o mais breve possível, combinações ricas, muitas vezes únicas, que escapam às terminologias tradicionais. Na verdade, não são evitadas perífrases complicadas que a despeito de serem carregadas, não são sempre explícitas. A solução mais fácil consiste em designar o geosistema pela vegetação correspondente que representa muitas vezes a melhor síntese do meio. Como o nome de uma espécie não é suficiente, pode-se reter o da formação vegetal clímax e seu traço ecológico essencial (geosistema das florestas de carvalho atlântica acidófila, geosistema da floresta de faia montanhosa higrófila...). Todavia, não se pode fazer disso uma regra geral porque o tapete vegetal não é sempre o elemento dominante ou característico da combinação (por exemplo, para certos geosistemas de alta montanha ou das regiões áridas). Daí parece preferível reter o traço ou a associação geográfica característica, qualquer que seja sua natureza. Para maior precisão, acrescenta-se o nome do conjunto regional ao qual pertence o geosistema. Citemos a título de exemplo: para o vertente Norte do maciço Cantábrico Central, o geosistema hiperoceânico das Sierras Planas, o geosistema da montanha média oceânica silicosa da Sierra de Cuera, o geosistema do setor das gargantas calcárias com lenhosas, submediterrânea, o geosistema da alta montanha cárstica dos Picos de Europa. Para a montanha Negra ocidental: o geosistema das garupas super-florestadas da alta Montanha Negra, o geosistema sub-mediterrâneo acidófilo do “Cabardes”...

seslerieteaA denominação dos geótopos obedece aos

Os geofácies se definem facilmente no interior de cada geosistema porque eles correspondem sempre à uma combinação característica. Nesta escala, a vegetação fornece os melhores critérios, em particular sob a forma de agrupamentos fitosociológicos, com a condição de completar as definições com a ajuda dos outros elementos geográficos: geofácies das paredes calcárias de montanha com Potencialletalia caulescentis, geofácies do prado calcícola pastoril com Elynomesmos princípios: cabeça de nascentes com Osmunda regalis, tufas de Androsace em “auto-solo” húmico, turfeira com Sphagnum...

A relativa complexidade desse esboço taxonômico sublinha perfeitamente os problemas que aparecem na classificação global das paisagens. A dificuldade é menos de chegar a uma definição sintética do que adaptar o sistema de classificação ao fato de que a estrutura e a dinâmica das diferentes unidades mudam com a escala.

concorrência entre as espécies vegetais, etcA interven-

As tipologias estritamente fisionômicas (vertente florestal, planalto calcário com “garrigue”) ou ecológicas (geosistema mediterrâneo, atlântico, montanhês...) não deram os resultados esperados. Elas são cômodas, mas carecem de rigor e sua generalização é difícil. A escolha caiu numa “tipologia dinâmica” que classifica os geosistema em função de sua evolução e que engloba por meio disso todos os aspectos das paisagens. Ela leva em conta três elementos: o sistema de evolução, o estágio atingindo em relação ao “clímax”, o sentido geral da dinâmica (progressiva, regressiva, estabilidade). Esta tipologia se inspira portanto na teoria de biorestasia de H. ERHART. Foram distinguidos 7 tipos de geosistemas reagrupados em 2 conjuntos dinâmicos diferentes. 1- Os geosistemas em biostasia – trata-se de paisagens onde a atividade geomorfogenética é fraca ou nula. O potencial ecológico é, no caso, mais ou menos estável. O sistema de evolução é dominado pelos agentes e os processos bio-químicos: pedogênese, ção antrópica pode provocar uma dinâmica regressiva da vegetação e dos solos, mas ela nunca compromete gravemente o equilíbrio entre o potencial ecológico e a exploração biológica. Esses geosistemas em estado de biostasia classificam-se de acordo com sua maior ou menor estabilidade: 1a. Os geosistemas “climácicos”, “plesioclimácicos” ou “subclimácicos” correspondem a paisagens onde o clímax é mais ou menos bem conservado, por exemplo, uma vertente montanhosa sombreada com “cobertura viva” (P. Birot) contínua e estável, formada por uma floresta de faia em solos brunos florestais “Mul- Moder”. A intervenção humana de caráter limitado, não compromete o equilibrilio de conjunto de geosistema. No caso de um desmatamento ou mesmo de um acidente “natural” (corrida de lama), observa-se bem rapidamente uma reconstituição da cobertura vegetal e dos solos; o potencial ecológico não parece modificado. 1b. Os geosistemas “paraclimácicos” aparecem no decorrer de uma evolução regressiva, geralmente de origem antrópica, logo que se opera um bloqueamento relativamente longo ligado a uma modificação parcial do potencial ecológico ou da exploração biológica. O melhor exemplo é o do geosistema hiperoceânico das Sierras Planas onde a floresta de carvalho destruída foi substituída por uma

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“lande” empobrecida em equilíbrio com os podzóis. A base aqui é de origem pedológica. A podzolização interdita todo retorno espontâneo do clímax florestal. A evolução não pode prosseguir senão artificialmente para uma outra forma de clímax (reflorestamento com resinosas após aração profunda). 1c. Os geosistemas degradados com dinâmica progressiva são bem freqüentes nas montanhas temperadas úmidas submetidas ao êxodo rural. Os territórios rurais cultivados passam ao abandono, com “landes”, capoeiras e retorno a um estado florestal que é, na maior parte dos casos, diferente da floresta-clímax. É o caso de certas áreas declivosas dos territórios rurais pirenaicos do andar do carvalho séssil, que se cobrem de mata de tronco fino como aveleiras, bétulas, castanheiras e carvalhos diversos que não constituem obrigatoriamente a frente pioneira da floresta de carvalho-clímax anteriormente destruída. 1d. Os geosistemas degradados com dinâmica regressiva sem modificação importante do potencial ecológico representam as paisagens fortemente humanizadas onde a pressão humana não afrouxou ainda (montanhas cantábricas com economia agropastoril). A vegetação é modificada ou destruída, os solos são transformados pelas práticas culturais e o percurso dos animais. No entanto, o equilíbrio ecológico não é rompido malgrado um início de “ressecamento ecológico”. As erosões mecânicas, sempre muito localizadas, guardam um caráter excepcional (por exemplo, ao longo dos caminhos vicinais). 2 – Os geosistemas em resistasia - A geomorfogênese domina a dinâmica global das paisagens. A erosão, o transporte e a acumulação dos detritos de toda a sorte (húmus, detritos vegetais, horizontes pedológicos, mantos superficiais e fragmentos de rochain loco) levam a uma mobilidade das vertentes e a uma modificação mais ou menos possante do potencial ecológico. A geomorfogênese contraria a pedogênese e a colonização vegetal. No entanto, é preciso distinguir os 2 níveis de intensidade: -de um lado, os casos de “resistasia verdadeira” ligados a uma crise geomorfoclimática capaz de modificar o modelado e o relevo. O sistema de evolução das paisagens se reduz então ao sistema de erosão clássico. A destruição da vegetação e do solo pode nesse caso ser total. Criase um geosistema inteiramente novo. Este fenômeno é freqüente nas margens das regiões áridas onde ele é muitas vezes acelerado pela exploração antrópica (“terras más” do Oeste dos E.U.). Pode tratar-se também de uma ruptura de equilíbrio “catastrófica”, (por exemplo lava torrencial em montanha);

-por outro lado, os casos de “resistasia limitada” à “cobertura viva” da vertente, isto é, à parte superficial das vertentes: vegetação, restos vegetais, húmus, solos e, às vezes, manto superficial e lençóis freáticos epidérmicos. Esta evolução ainda não interessou suficientemente os geógrafos e os biogeógrafos. É certo que ela é quase negligenciável do ponto de vista geomorfológico porque ela não cria relevos, mesmo que anuncie às vezes os inícios de uma crise geomorfológica. No entanto, seu interesse é capital do ponto de vista biogeográfico porque ela mobiliza toda a parte biologicamente ativa da vertente. Pode-se qualificar esta erosão de “epidérmica” para bem distingui-la da erosão verdadeira ou “geomorfológica” e para evitar as confusões e as discussões inúteis que durante um certo tempo puseram em oposição os contra e a favor da erosão sob cobertura vegetal: eles não falavam do mesmo tipo de erosão nem de mesma cobertura vegetal e não se situavam na mesma escala. A erosão epidérmica tinha já sido definida sob o nome de erosão “biológica”,20 mas este qualificativo era uma fonte de confusão. A tipologia dos geosistemas em resistência deve levar em conta todos esses fatos.

2a. Os geosistemas com geomorfogênese “natural”. Nas regiões áridas e semi-áridas, assim como na alta montanha, a erosão faz parte do “clímax”, isto é, ela contribui a limitar naturalmente o desenvolvimento da vegetação e dos solos (vertente montanhosa com talude de detritos móvel, superfície de um “glacis” de erosão alimentado por escoamento anastomosado de “oued”). 2b. Os geosistemas regressivos com geomorfogênese ligada à ação antrópica. Já se insistiu longamente sobre este aspecto da dinâmica das paisagens. É preciso encarar 3 casos: primeiro, os geosistemas em resistasia bioclimática cuja geomorfogênese é ativa pelo homem. Em seguida, os geosistemas marginais em “mosaico”, isto é, com geofácies em resistasia e

20 (BERTRAND, G. op. cit., note 19, p. 140-143).

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R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR151 com geofácies em biostasia, caracterizados por um certo desequilíbrio e uma certa fragilidade natural. O exemplo típico é o do domínio mediterrâneo cuja degradação não está ligada somente ao fator antrópico. Enfim, os geosistemas regressivos e com potencial ecológico degradado que se desenvolvem por intervenção antrópica no seio das paisagens em plena biostasia (certas culturas de “plantation” em economia colonial).

Este esboço tipológico deve ser sumariamente colocado na dupla perspectiva do tempo e do espaço.

“No tempo”, o problema mais delicado é considerar a parte das heranças. Com efeito, essas não são somente geomorfológicas e pedológicas, mas também florísticas e antrópicas. Seria preciso reconstituir a cadeia histórica dos geosistemas, sobretudo levando em conta a alternância e a duração respectiva das fases de equilíbrio biológico e das fases de atividade geomorfogenética. Os resultados combinados da análise de pólen, do exame dos depósitos superficiais e dos paleosolos, do estudo da ação humana, desde os inícios da vida pastoril e da agricultura, permitem às vezes obterse uma idéia precisa da dinâmica recente das paisagens. A região cantábrica se presta bem a essa pesquisa graças aos trabalhos dos pré-historiadores, dos palinólogos e dos fitosociólogos.

“No espaço”, a justaposição dos geosistemas é um fato geral. No entanto, os geosistemas com equilíbrio biológico ocorrem, sobretudo, nas zonas temperadas e tropicais úmidas, assim como em certas regiões de planície. A alta montanha e as diagonais áridas abrigam, sobretudo, os geosistemas com mais ou menos grande atividade geomorfogenética. A exploração antrópica está em vias de perturbar esta distribuição essencialmente bioclimática estendendo os geosistemas em desequilíbrio biológico. Mas a erosão “geomorfológica”, muitas vezes rápida e espetacular, não se exerce senão em superfícies reduzidas. Em compensação, o verdadeiro perigo do ponto de vista da organização do espaço é a erosão “epidérmica” que, de forma às vezes insidiosa, arranha a película viva das vertentes em setores extensos sem que se preste a ela uma real atenção. O estudo da distribuição espacial dos geosistemas é pois um problema de geografia “ativa” que vem reforçar o interesse da pesquisa cartográfica.

A representação cartográfica das paisagens exige um inventário geográfico completo e relativamente detalhado. A análise deve ao menos descer até o nível dos geofácies mesmo se eles não devem figurar na carta. O essencial do trabalho se efetua no terreno: levantamentos geomorfológicos, pedológicos e fitogeográficos, exame das águas superficiais, observações meteorológicas elementares, inquéritos sobre o sistema de valorização econômica (gestão florestal, percursos pastoris, direitos de uso, etc...). Essas informações e levantamentos temáticos são completados pelos trabalhos de arquivos e inquéritos diversos (cadastro, serviços administrativos, etc...). A consulta da bibliografia especializada é, bem entendido, indispensável, mas ela é muitas vezes difícil de ser utilizada por causa da diferença de ponto de vista. Para orientar toda essa documentação volumosa e disparatada, é preciso escolher uma linha mestra. Ela é fornecida pelo tapete vegetal cujo levantamento sistemático a 1/50.0, segundo um método simplificado, intermediário entre o do Serviço da Carta da Vegetação a 1/200.0 da França e o da Carta da Vegetação a 1/100.0 dos Alpes de P. Ozenda, serve de base à cartografia global das paisagens. A interpretação das fotografias aéreas constitui um apoio precioso porque ela fornece uma visão sintética e instantânea das paisagens. Ensaios cartográficos foram realizados em diversas escalas (contentemo-nos em lembrar aqui o método seguido e os resultados obtidos no curso das pesquisas de tese e de direção de mestrados).

Na escala média (1/100.0 e 1/200.0) podese cartografar os geosistemas de maneira satisfatória com a condição de renunciar à acumulação dos sinais analíticos e de escolher uma representação sintética. Cada geosistema corresponde a um lugar cuja cor e respectiva trama são escolhidas em função da dinâmica do geosistema, (exemplo: azul para os geosistemas climácicos, verde para os geosistemas paraclimácicos, amarelo para os geosistemas regressivos com degradação antrópica dominante, vermelho para os geosistemas com evolução essencialmente geomorfológica). Os jogos de trama permitem variar essa tipologia. Na carta 1/200.0 das montanhas cantábricas centrais (cobrindo mais ou menos 6.0 Km2) foram determinados 32 geosistemas.21

Na escala grande 1/20.0, pode-se facilmente cartografar os geofácies no interior dos geosistemas. A cor ou a variação na cor de cada geosistemas indica a situação dinâmica em relação ao clímax (geofáciesclimax em azul, geofácies degradado em amarelo ou em vermelho). Pode-se assim escolher um tema, por exemplo, como as relações entre a cobertura vegetal e a erosão “epidérmica”.

21 Esta carta a 1/200.0 em 7 cores existe sob forma de maquete e deverá estar terminada em 1968.

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A geografia física global não está destinada a substituir, nem mesmo a concorrer com os estudos especializados tradicionais dos quais, aliás, ela se nutre. Ela constitui uma pesquisa paralela que aproxima, confronta e completa os dados da análise e que coloca cada elemento no seu complexo de origem, estudando mais especialmente as combinações geográficas e sua dinâmica global. Sua função essencial é, portanto, de “redescobrir” a geografia física tradicional e de fazer diretamente apelo às ciências biológicas e às ciências humanas. Mas ainda, dando o meio de descrever, de explicar e de classificar cientificamente as paisagens, ela se abre naturalmente para os problemas de organização do espaço não urbanizado. Mas este estudo global dos meios naturais não pode ser conduzido somente pelos geógrafos. Ele não pode expandir-se senão na pesquisa e na reflexão interdisciplinar.

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