Geografia Física, Geossistemas e Se

Geografia Física, Geossistemas e Se

(Parte 2 de 4)

Geofácies G. VI Planície flúvio-marinha do Rio Ceará -

Geótopo G.VII

Salina desativada, encostas, ravinas ou outros elementos bem particulares -

Fonte: Adaptado de Bertrand (op. cit). Nota: (*) G = Grandeza. As grandezas entre as unidades são muito aproximativas e dadas somente a título de exemplo. Conforme A. Cailleux e J. Tricart; M. Sorre; R. Brunet.

Quadro 1 - Classificação das Paisagens por Bertrand

As unidades inferiores são trabalhadas numa escala socioeconômica, ou seja, onde é bem nítida a intervenção social. Nesta escala se encontra a maior parte dos fenômenos da paisagem e é onde evoluem as combinações dialéticas da paisagem as mais interessantes ao geógrafo. Em seus níveis superiores só importam o relevo, o clima e as grandes massas vegetais. Contudo, os geossistemas constituem uma boa base aos estudos geográficos por estarem numa escala compatível à humana.

Os sistemas ambientais físicos possuem uma expressão espacial na superfície terrestre, representando um sistema composto por elementos, funcionado por meio dos fluxos de energia e matéria, dominante numa interação real. As combinações de energia e massa, no controle energético, podem criar heterogeneidade interna no geossistema, expressando-se em mosaicos paisagísticos caracterizados como geofácies ou geótopos. Pela grandeza territorial, os geossistemas necessitam ser caracterizados espacialmente. É preciso estudar analiticamente a morfologia e funcionamento de suas unidades. Por serem sistemas abertos, precisam ser estudados os demais sistemas em suas interações. E o estado atual dos geossistemas deriva de respostas num continuum evolutivo, à escala temporal de sua sucessão.

O estudo de sua dinâmica deve ser considerado em determinada escala de grandeza temporal, pois reflete os ajustes internos à magnitude dos eventos, mantendo sua integridade funcional ou se reajustando em busca de mudanças adaptativas às novas condições de fluxo. Desta feita, pode-se dizer que são importantes os conceitos de equilíbrio, funcionamento e evolução geossistêmica.

O geossistema corresponde aos dados ecológicos relativamente estáveis. Resulta do potencial ecológico, mormente: clima – temperatura e precipitação; fatores geomorfológicos – natureza das rochas, dos mantos superficiais, declive, dinâmica das vertentes e fatores hidrológicos (lençóis subterrâneos, nascentes, pH das águas, tempo de ressecamento do solo...).

Usualmente, “a passagem de um geossistema a outro é marcada por uma descontinuidade de ordem ecológica” (AB’SABER, 1974). O geossistema define-se, então, por certo tipo de exploração biológica no espaço.

Por esta dinâmica, ele não apresenta necessariamente homogeneidade funcional ou fisionômica. Compõe-se geralmente de diversos estágios de evolução paisagística, ou seja, possuem alguns traços comuns de uma mesma filogênese geográfica. Tais paisagens imbricam-se através de uma série dinâmica que tende, teoricamente, ao clímax. Quando estas unidades se unem numa mesma família geográfica (setores espaciais homogêneos), chamam-se de geofácies, e quando se espacializam pontual ou localmente podem ser chamados de geótopos. Com efeito, segundo Cavalcanti et al. (1997), o geossistema natural tem um caráter policêntrico, sendo concebido como uma expressão objetiva e material do meio ambiente, como seu suporte físico.

Contudo, cabe destacar que a entrada do termo geossistema no Brasil dá-se mais marcadamente por Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, através do Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo. Esse fato deve-se, por exemplo, a sua participação como membro da União Geográfica Internacional, na década de 1970. Este professor esteve em muitas oportunidades em contato com Sotchava e sua equipe, quando participou de várias discussões e trabalhos em diferentes partes do globo. E de outro lado, foi influenciado pelas visitas constante de franceses ao nosso país para execução de trabalhos e/ou participação em congressos.

Monteiro, ao analisar Bertrand, teve dúvidas entre suas abordagens e a do russo Sotchava. Mas conseguiu perceber a diferença básica entre ambos. O último trata as formações biogeográficas, enquanto o francês Bertrand relaciona sua tipologia às ordens taxionômicas do relevo usando os Alpes Pirineus como exemplo. A Biogeografia foi tratada com ênfase no geossistema de Sotchava pelo fato de abordar as planícies siberianas; por isto seu maior apoio teve revestimento biótico – animal e vegetal. Isto prova que, no caso, a diferença entre a abordagem russa e a francesa acentuava-se mais pela área de trabalho e principalmente pela perspectiva espaçotemporal do que por outro fator.

Destarte, a intervenção humana na paisagem foi destacada por Bertrand no momento em que sua proposta taxionômica hierarquiza as unidades ambientais a partir da dinâmica da paisagem à luz da teoria aqui discutida.

No interior de um geossistema, o geofácies corresponde a um setor homogêneo fisionomicamente, desenvolvendo uma mesma fase de evolução geral do geossistema. Os geofácies situam-se na 6a grandeza, compreendendo algumas centenas de km² (conforme mostra o Quadro 1). Em seu âmbito, a exploração biológica é determinada e repercute na evolução do potencial ecológico. Representa ainda uma pequena malha de paisagem em cadeia sucessiva no tempo e no espaço do geossistema e traduz fielmente os detalhes ecológicos e as pulsações de ordem biológica.

Uma análise em nível de microformas, na escala do m² ou dm² quadrado (7a grandeza do

Quadro 1), por exemplo, uma cabeceira de nascente, um fundo de vale nunca atingido pelo sol, uma face montanhosa, são refúgios de biocenoses originais, por vezes endêmicas ou reliquiais, isto é, a menor unidade geográfica homogênea diretamente discernível no terreno é chamado de geótopo.

A subdivisão dos geossistemas possibilita estudar unidades de paisagens classificando-as e correlacionando-as ao potencial de uso e à interferência social no ambiente. De fato, uma classficação geossistêmica mais pormenorizada, indicando sua tendência à estabilidade ambiental, em busca de um clímax ecológico, de estabilidade ou regressivo, envolve a biostasia ou resistasia, mediante paroxismos ou as formas de manejo das paisagens.

Os geossistemas em biostasia, por exemplo, são paisagens onde a morfogênese é quase fraca ou inexistente. O potencial ecológico é mais ou menos fraco. No sistema de evolução predominam os agentes e processos bioquímicos: pedogênese, concorrência entre espécies etc. A intervenção humana pode provocar uma dinâmica regressiva da vegetação e dos solos. Amiúde, podem ser divididos em:

- Geossistemas climácicos: correspondem à paisagem onde o clímax é mais ou menos bem conservado. Exemplo: uma vertente montanhosa sombreada com “cobertura viva”, contínua e estável, formada por floresta de topos colinosos em planossolos, onde a intervenção humana limitada não compromete o equilíbrio de conjunto do geossistema. Num desmatamento, acidente natural ou em paroxismos, rapidamente há uma reconstituição da cobertura vegetal e dos solos; o potencial ecológico não parece modificado.

- Geossistemas paraclimácicos: aparecem no decorrer de uma evolução regressiva, geralmente desencadeada por tensores socioeconômicos, logo que se opera um bloqueio relativamente longo ligado a uma modificação parcial do potencial ecológico ou de exploração biológica. Como exemplo têm-se os desmatamentos florestais onde a fenologia vegetacional não prossegue senão artificialmente (florestamento e reflorestamento) para outra forma de clímax.

- Geossistemas degradados, com dinâmica progressiva: são freqüentes em montanhas úmidas submetidas a cultivos e que são abandonadas. Pode ocorrer um retorno à fase florestal, mas diferente da floresta clímax.

- Geossistemas degradados, com dinâmica regressiva: sem modificação importante do potencial ecológico, representam as paisagens fortemente humanizadas, com forte pressão social. Geralmente em serras com contínua atividade agropastoril, a vegetação é modificada ou destruída, os solos transformados pelas práticas agrícolas e pelo pisoteio que acarreta sua compactação.

Vale salientar que nos geossistemas em biostasia os estágios de equilíbrio ecológico não são rompidos, de vez que a capacidade de sustentação do meio detém poder de resiliência mínima para uma auto-manutenção.

Nos geossistemas em resistasia, por seu turno, a geomorfogênese domina a dinâmica global das paisagens. A erosão, o transporte, a acumulação de detritos de toda sorte mobilizam as vertentes e modificam o potencial ecológico. Sem esquecermos que a morfogênese contraria a pedogênese e a sucessão vegetal, conforme Bertrand (op. cit.).

Nos casos de resistasia verdadeira, ligados à crise morfoclimática modificadora do relevo, pode ocorrer a erosão epidérmica, ou mesmo a destruição pedológica e da vegetação pode ser completa. É um fenômeno freqüente nas margens das regiões áridas, porque muitas vezes é acelerado pela relação dicotomizadora sociedade x natureza.

Contudo, este esboço deve ser considerado numa dupla perspectiva, num lapso de tempo e em uma dimensão espacial. No primeiro devem-se cautelar as heranças. Geralmente são de ordem pedológica e geomorfológica, como também florística e humana. Por isso, é preciso reconstituir historicamente a cadeia evolutiva do geossistema, mormente considerando-se a alternância e a duração das respectivas fases de equilíbrio biológico.

No espaço, a justaposição dos geossistemas é um fato geral. Entretanto, nas zonas temperadas, tropicais úmidas e regiões de planícies, predominam os geossistemas com equilíbrio biológico. Nas altas montanhas e regiões áridas estão compreendidos os geossistemas com grande atividade geomorfogenética.

Todavia, a natureza rege-se de forma interativa, indissociável e dinâmica. Assim o geógrafo defronta-se com o problema da abordagem dos geossistemas contemplando seus anseios com visão mais horizontal que vertical das paisagens. Desta forma, a compreensão do funcionamento dos geossistemas requer generalizações. Fica difícil sua compreensão ao ampliar demasiadamente seu nível de detalhamento. O ideal é o estabelecimento de sua grandeza e escala de significância espacial em função de seus fluxos dinâmicos que o classificam como unidade global.

Independente da escala, seja a dos reagentes químicos intempéricos, seja dos processos orgânicos, ou mesmo das bacias de drenagem e vertentes, o mais importante é o estabelecimento da classificação de Bertrand em uma escala que torne possível a identificação das estruturas, bem como os processos inerentes ao seu estabelecimento dos geossistemas, que, quando modificados, materializem mudanças perceptíveis na paisagem em observação.

Para a abordagem geossistêmica é indispensável, contudo, uma série de medidas as quais facilitam os estudos geográficos; surgem então indagações e sugestões, tais como:

- delimitar os elementos componentes; - identificar a estrutura, o arranjo espacial e distribuição dos elementos;

- observar as características dimensionais;

- saber quais as relações entre os diversos elementos;

- estudar os fluxos de energia e matéria em sua saída e saber dos fluxos internos entre as unidades; - verificar sua estabilização ou transformação;

- saber o grau de importância para a sociedade;

- verificar o grau de interferência das atividades humanas.

Os geossistemas, ratifique-se, são ambientes naturais, mas configuram-se com a interferência da sociedade humana, através dos fatores culturais, sociais e econômicos em geral. Por isto assinalou Sotchava (1977 apud CHRISTOFOLETTI, 1985) que a Geografia Física estuda a interação sociedade-natureza, averiguando os sistemas de retroalimentação.

A Geografia Física desponta como aplicadora de conceitos e critérios adequados relacionados à análise sistêmica. Esta análise também relaciona os tipos e comportamentos dos sistemas, e de suas propriedades, servindo de base metodológica caso se queira analisar as unidades, comportamentos, estruturas, fronteiras e o próprio meio ambiente dos sistemas. Ainda, são fornecidos os conceitos e subsídios para se estudar a eqüifinalidade, fechamento, entropia, hierarquias, equilíbrio, readaptação etc., quando de uma análise mais acurada.

A análise sistêmica nos processos socioambientais no bojo geográfico é fundamental, mesmo com as limitações metodológicas. Para tanto, é possível subdividir conjuntos dos mais complexos em subconjuntos (subsistemas) para investigação dos estímulos externos recebidos por determinado sistema ou em dadas condições ambientais, procurando as relações de causa e efeito entre entrada e saída, compreendendo a dinâmica interna. Isto para se conhecer o funcionamento do sistema sob diversas condições.

A análise de sistemas é considerada como o domínio de aplicabilidade e da operacionalização, em busca da compreensão do sistema, enquanto a Teoria Geral dos Sistemas se encontra em nível genérico e teórico-conceitual.

No entanto, apesar de vários casos descritivos na questão das fluentes reações humanas diante de vários ambientes, ou usando as técnicas adaptativas supridoras dos problemas básicos das adversidades ambientais, não há como mensurar com precisão o grau de interferências de um sistema natural sobre a sociedade. Porém, sendo o objeto da Geografia o estudo das organizações espaciais, a partir das relações sociedade x natureza, a perspectiva analítica sistêmica, como prega sua linha teórico-metodológica, classifica o problema contribuindo para o seu entendimento e/ou elucidação em nível geossistêmico, como já mencionado.

Talvez a maior dificuldade da abordagem de escala geossistêmica seja a adoção das categorias Geócoros e Geômeros, devido à magnitude de suas escalas, com difícil associação com a escala socioeconômica, isto é, onde não é bem nítida a intervenção social, pois os Geômeros encontram-se em escalas zonais climáticas e os Geócoros se dão em escala regional. Dizem respeito aos níveis de escala na ordenação e organização espacial dentro da análise geossistêmica.

O elemento mais sedutor dos geossistemas é a possibilidade de se fazer prognósticos, o que também é bastante criticado, de vez que pode tratar-se de uma visão determinista, baseada em modelos quantitativistas.

O pesquisador russo Sotchava (1973, p. 15) reconhece as limitações do termo geossistema, mas já no ano de 1973 semeava boas expectativas:

Ainda não foram criadas as possibilidades, nem atingidas as condições necessárias para a organização de pesquisas experimentais sobre geossistemas. Todos esses ainda entravados estudos preditivos, bem como as experiências práticas em previsão, permanecem em estado embrionário, embora neles se depositem grandes esperanças.

Entrementes, as dificuldades marcantes perduraram na estruturação geossistêmica no decorrer das décadas de 1970 e 1980, apesar de bastantes experiências dos russos, bem como dos próprios franceses, como destacou uma comissão científica da época, mencionada por Monteiro (op. cit). Ela afirmou que conceito de geossistema era uma teoria integradora que faltava à Geografia Física na França. Porém sua abordagem é tarefa árdua, pois implica uma reflexão holística através de trabalhos multidisciplinares em que os geógrafos têm um papel salutar.

Monteiro (op. cit:), apesar de adepto dos geossistemas, ratifica esta questão falando sobre a dificuldade do uso corrente do termo geossistema, destacando que até o final do século X, ainda não fora atingido um consenso para a adoção do esperado paradigma que seja mais válido para uma almejada integração inter e transdisciliplinar da ciência geográfica, bem como aglutinador de suas duas faces, a humana e física; os trabalhos, na maioria, são mais analíticos das partes do que sintetizam o todo. Por fim, acredita o autor que não há uma formulação cabal do conceito de geossistema, sendo ainda abstrato e irreal, disputando lugar com vários outros congêneres: ecossistema, geoecossistema, paisagem, unidade espacial homogênea etc.

Da mesma forma, Sales (1993) faz coro com Monteiro, tecendo críticas sobre a abordagem geossistêmica, sendo que de forma mais contundente, questionando, por exemplo, as similitudes entre ação antrópica x ação social. Neste caso, ação antrópica é apenas um elemento do geossistema. Ademais, dever-se-ia considerar também, segundo a autora, que a ação do homem, enquanto ação social, se dá no bojo das classes sociais, conseqüentes das relações sociais de produção dinamizadas pelo sistema produtivo: economia, mercado, consumo etc.

Critica também a focalização dos sistemas, que é feita de forma subjetiva. Afirma que o tempo geológico para os sistemas é indicador irrelevante, porque o futuro, na análise sistêmica, é preditivo, pré-conhecido.

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