Manual dos formadores de cuidadores de pessoas idosas

Manual dos formadores de cuidadores de pessoas idosas

(Parte 7 de 14)

Conhecer-se não é fácil, pois isso geralmente nos coloca diante de questões que não queremos ou com as quais não gostamos de nos confrontar. Tememos ser rejeitados, julgados, cobrados, pegos em situações desfavoráveis, correr riscos ou falhar e ter de admitir as falhas. Tememos, sobretudo, tomar consciência de nosso verdadeiro “eu” e descobrir que é preciso mudar nosso comportamento e nossa vida. Somente com esse conhecimento pessoal podemos compreender o outro e, então, tentar estabelecer uma relação de ajuda. É fundamental entender que ajudar é “dar de si”, já que envolve doação (de tempo, competência, saber, interesse), capacidade de escuta e compreensão.

Situações de emergência que possam pôr em risco a vida da pessoa idosa e mesmo as situações de substituição, na qual o cuidador faz pelo idoso o que ele está temporária ou permanentemente incapacitado de realizar, são exemplos de ações que não estão em conformidade com a definição e finalidades da relação de ajuda.

Nas relações de ajuda, auxiliamos as pessoas idosas a enfrentar e a superar uma situação de crise com os recursos de que elas dispõem. Tais situações manifestam-se de diferentes maneiras, mais ou menos explícitas e/ou penosas. a capacidade e o limite de cada idoso são inerentes ao próprio idoso e construídos durante suas experiências pessoais, cabendo ao cuidador a habilidade de reconhecê-los.

embora toda relação de ajuda envolva comunicação, nem toda comunicação é obrigatoriamente uma relação de ajuda. Quando o cuidador pergunta à pessoa idosa sobre dados precisos (quantas vezes urinou no dia, se tomou café pela manhã etc.), ela vai lhe dar uma resposta precisa (desde que tenha capacidade de ouvir e compreender). Nesse caso, ambos apenas circulam informações.

a segunda consideração a ser feita é a compreensão de que, em uma relação de ajuda, o idoso é o principal detentor dos recursos para a resolução das dificuldades ou demandas apresentadas. o estabelecimento de uma relação de ajuda possibilita a ele identificar, sentir, saber, escolher e decidir sobre suas ações (autonomia). ao profissional cuidador cabe auxiliá-lo a descobrir ou redescobrir capacidades e potencialidades próprias, redirecionando suas energias para um novo olhar sobre si mesmo, que, diante das circunstâncias, pode não existir ou estar muito deteriorado.

a principal ênfase da relação de ajuda é a dimensão afetiva do problema, pois muitas das desadaptações não ocorrem por falta de conhecimento, e sim por insatisfações emocionais. ela busca auxiliar a pessoa idosa a compreender-se, a fazer escolhas de forma independente e significativa e a fazer com que suas relações lhe sejam mais satisfatórias. essa relação visa, sobretudo, à melhoria da autoestima, ao alcance da autorrealização, à promoção de conforto psicológico e ao fornecimento do apoio necessário para se confrontar com as próprias dificuldades existenciais.

Dessa forma, a relação de ajuda visa a auxiliar a pessoa idosa a: ultrapassar uma situação-limite.• resolver uma situação atual ou potencial.• encontrar um funcionamento pessoal mais satisfatório, aumentan-• do sua autoestima e seu sentimento de segurança e diminuindo sua ansiedade ao mínimo.

Desenvolver atitudes • positivas perante suas (in)capacidades.

Nas relações de ajuda, auxiliamos as pessoas idosas a enfrentar e a superar uma situação de crise com os recursos de que elas dispõem.

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A construção de umA relAção de AjudA melhorar sua capacidade de comunicação e suas relações com os • outros. identificar o sentido para sua existência.• manter um ambiente estimulante no que se refere aos níveis bio-• psicossociais.

Para desenvolver uma relação de ajuda, é fundamental que o cuidador seja: Preciso e objetivo no que lhe diz respeito e no que diz respeito aos • outros.

Capaz de respeitar-se e de respeitar os outros.• Congruente consigo mesmo e com a pessoa de quem cuida.• empático.• Capaz de confrontar-se.•

É importante destacar que, para ser um cuidador, a pessoa deve: reconhecer seus valores pessoais; ser capaz de analisar as próprias emoções; estar apta a servir de modelo e a influenciar outros; ser altruísta; desenvolver alto senso de responsabilidade em relação a si mesma e aos outros; ser ética. essas características auxiliarão a formação de interações mais abertas entre cuidador e idosos, mantendo atitudes positivas com o objetivo de alcançar a autonomia em vez de controle.

No estabelecimento de uma relação de ajuda, é necessário definir os objetivos das duas partes envolvidas – cuidador e pessoa idosa. Cabe ao cuidador: identificar com clareza os problemas • vivenciados pelo idoso. estabelecer conjuntamente com • idoso/família os objetivos concretos e pertinentes.

avaliar com o idoso suas capacidades e suas limitações.• escolher os meios para ajudá-lo a atingir seus objetivos levando em • conta o sistema de valores do cliente.

Cabe à pessoa idosa/família: Participar ativamente na definição dos objetivos.• Trabalhar um elemento de cada vez.• iniciar pelo problema atual.•

Características necessárias para construir uma relação de ajuda

Capacidade de escuta

“escutar” não é sinônimo de “ouvir”. escutar é constatar por meio do estímulo do sistema auditivo; é um processo ativo e voluntário em que o indivíduo permite-se impregnar pelo conjunto de suas percepções externas e internas. Na relação de ajuda, escutar representa um instrumento para compreender a pessoa idosa de forma a poder determinar com precisão as intervenções necessárias. ao escutar a pessoa idosa, o cuidador pretende: mostrar-lhe sua importância; permitir que o idoso identifique suas emoções; auxiliá-lo na identificação de suas necessidades e na elaboração de um planejamento objetivo e eficaz para atender a elas. Para escutar de modo eficiente, o cuidador deve: Desejar estabelecer uma relação mais estreita com a pessoa idosa.• escolher um local calmo que propicie a escuta.• manter-se a uma distância confortável do idoso, mas que permita • boa visualização de ambos.

Procurar compreender não só a linguagem verbal, mas principal-• mente a não verbal da pessoa idosa. evitar julgamentos com base em valores pessoais.•

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A construção de umA relAção de AjudA reformular com o idoso, porém com as próprias palavras, o que ele • lhe referiu, validando sua compreensão. respeitar, compreender e interpretar o silêncio da pessoa idosa. • o silêncio pode traduzir a intensidade da procura da resposta considerando tudo o que a precedeu; pode significar o medo ou o sofrimento que impedem a elaboração de palavras ou, ao contrário, uma alegria tão intensa que também não pode ser traduzida por palavras. É a escuta do silêncio que exige a presença mais intensa e mais verdadeira do cuidador, pois isso pode levá-lo ao encontro real do que o outro vive de mais profundo. Silêncio não é sinônimo de vazio nem ausência de relação; costuma ser rico em significados. Para ser traduzido e transformado em instrumento de ajuda, deve ser compreendido, respeitado, acolhido e nunca prematuramente interrompido.

escutar não é memorizar as palavras emitidas pela pessoa idosa; é com preendê-la, ver, apreender e sentir o contexto e os sentimentos relacionados com o conteúdo das mensagens emitidas. exige grande empenho, vigilância sensorial, intelectual e emocional, o que consome muita energia e requer preparo e amadurecimento. o cuidador que de fato escuta o idoso reflete atentamente sobre o significado de suas mensagens (verbais e não verbais), buscando o estabelecimento de intervenções apropriadas às necessidades identificadas.

Escutas que não ajudam Escuta inadequada• – o cuidador está mais atento às próprias reflexões que às do idoso, está distraído, tem “pressa” em responder a ele ou identifica a situação descrita como familiar e faz um processo de transferência.

Escuta apreciativa• – o cuidador faz juízos de valor durante a escuta. embora normal, essa atitude pode ser nociva. Para evitar isso, o cuidador precisa desenvolver a habilidade de aceitar os idosos e escutá-los objetivamente.

Escuta filtrada• – relaciona-se a nossa defesa pessoal, ou seja, selecionamos de modo inconsciente o que permitimos ou não entrar em contato conosco e criamos barreiras que, mesmo involuntariamente, deformam nossa capacidade de escutar. isso pode ser evitado com o desenvolvimento de um profundo autoconhecimento.

Escuta compassiva• – refere-se ao sentimento de compaixão desenvolvido pelo cuidador em relação ao idoso que assiste. Tal atitude pode deturpar a percepção dos fatos, gerando ações inadequadas.

Capacidade de clarificar

“Clarificar” quer dizer tornar claro, limpo ou puro. Na relação de ajuda, significa ser capaz de delimitar mais precisamente o problema em si e os envolvidos de maneira concreta e realista. Para tanto, o cuidador deve ser capaz de auxiliar o idoso a refletir sobre seus problemas e a descrevê-los em toda a sua extensão, intensidade e complexidade. após escutá-lo, deve repetir com suas palavras a mesma questão, permitindo, assim, sua reinterpretação.

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A construção de umA relAção de AjudA as perguntas “Quem?”, “o quê?”, “onde?”, Como?” e “Por quê?” auxiliam na clarificação, mas o uso indiscriminado do “por quê?” pode despertar no idoso a necessidade de se justificar, geralmente defendendo-se. Cada pergunta deve ter por objetivo auxiliar o idoso a perceber com maior clareza o problema ou suas soluções.

a utilização, pelo cuidador, de generalizações, abstrações ou termos imprecisos pode estar relacionada ao medo de enfrentar o problema. agindo dessa forma, o problema se torna maior. o cuidador não deve usar linguagem intelectual, abstrata, impessoal e/ou vaga, pois isso não auxilia a pessoa idosa a clarificar e precisar seu pensamento.

Capacidade de respeitar-se e de respeitar o idoso

o respeito é uma necessidade humana, uma qualidade, um valor, uma atitude básica expressada pelo comportamento. respeitar alguém significa acreditar em sua unicidade, em sua capacidade de viver de forma satisfatória. respeitar-se significa ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros. respeitar o idoso significa comunicar-lhe que procuramos compreendê-lo como pessoa, com sua experiência, seus valores e a situação que está vivenciando de acordo com seu ponto de vista. Significa ainda identificar suas capacidades e seu potencial remanescente e auxiliá-lo a reconhecê-los e a utilizá-los para lidar com essas situações, dando-lhe condições de resgatar o máximo de autonomia. Será o idoso, no entanto, que decidirá utilizá-la ou não, quer dizer, a palavra final é dele, e respeitá-lo significa compreender e aceitar essa decisão mesmo que ela não corresponda à expectativa do cuidador.

o respeito se manifesta por meio de atitudes e comportamentos, ativos ou passivos. estar com o idoso, querer ajudá-lo e preocupar-se com seu bem-estar; considerá-lo como ser único, independentemente de suas doenças ou limitações; acreditar que ele é capaz de decidir sobre o próprio destino e acreditar em sua boa vontade são exemplos de atitudes.

os comportamentos expressam o significado e o valor do idoso para o cuidador. Ser capaz de estabelecer uma relação que envolva escuta e presença física atentas; aceitar o idoso incondicionalmente, evitando juízos críticos; demonstrar empatia, afeto e cordialidade; auxiliá-lo a desenvolver seus recursos pessoais, encorajando-o, motivando-o e apoiando-o e não agindo por ele; manifestar compreensão e dedicação são exemplos de comportamentos respeitosos.

enumeramos, a seguir, alguns exemplos de como o cuidador pode demonstrar respeito pelo idoso: mostrar que o aprecia como pessoa, respeitando sua idade e sua • personalidade.

Não utilizar linguagem infantilizante ou demasiadamente familiar.• Chamá-lo pelo nome (nome próprio ou apelido, desde que tenha • autorização para tanto) e tratá-lo por senhor ou senhora.

Cumprimentá-lo ao chegar e sempre que ele adentrar o recinto em • que o cuidador estiver.

Dedicar-se inteiramente a ele quando da execução de algum cuida-• do, procurando não se distrair com outros estímulos (televisão, rádio etc.) e evitando interrupções por telefone. evitar demonstrar compaixão. a piedade não é sinal de respeito e • não ajuda, sobretudo os idosos. mostrar-se confiante no potencial e nas capacidades do idoso, va-• lorizando-as de forma construtiva e realista.

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