Bibliotecário

Bibliotecário

Marta Alves de Souza, CRB-8/5199* Maria Aparecida Pardini, CRB-8/494**

Maricy Favaro Braga, CRB-8/1622***

RESUMO: O texto aborda a mudanças que estão ocorrendo na profissão de bibliotecário e de como este tem se posicionado frente à estas mudanças. Reflete sobre a polivalência dessa profissão que possibilita à este profissional um leque amplo de atuação no mercado de trabalho.

Palavras-chave: profissional bibliotecário; perfil do bibliotecário; Biblioteconomia; mercado de trabalho.

De “O Nome da Rosa” à “Assédio Sexual”muita coisa mudou

Cada vez que temos que escrever sobre o profissional bibliotecário, ficamos pensando em quanto fica difícil prever o futuro, a exemplo do que afirma DRUCKER “Não é assim tão difícil prever o futuro”, porém esse autor acrescenta “só que é inútil.. o que é sempre muito mais importante são as mudanças fundamentais que aconteceram sem que ninguém as tivesse previsto, ou pudesse mesmo tê-las previsto”. Na verdade o mundo está cheio de futurólogos de plantão que se aventuram a fazer mil previsões acerca de tudo e na área da

Documentação UNESP – Campus de Bauru *** Bibliotecária da Seção Técnica de Referência, Atendimento ao Usuário e Documentação da Divisão Técnica de Biblioteca e Documentação UNESP – Campus de Bauru – Especialista em Uso Estratégico das Novas Tecnologias em Informação biblioteconomia então? Nessa todos se aventuram à algum tipo de previsão.

Mas, é claro que tem sempre alguém que acerta alguma coisa e isso já aconteceu com vários. Um bom exemplo foi o sociólogo canadense Mac Luhan, que foi ironizado ao prever a mundialização da comunicação, quando falava de “Aldeia Global” no que acertou e, é exatamente isso que se tem hoje, uma aldeia global e os profissionais bibliotecários inseridos exatamente dentro dessa aldeia global e se adaptando à ela. Falar de nossa profissão hoje, é falar de um profissional que está deixando de lado os estereótipos arraigados há muito tempo na figura da pessoa de óculos e coque que pedia silêncio na biblioteca, na imagem de um profissional que era um guardião de livros e que tinha a biblioteca como “sua”, é sair de “O Nome da Rosa” para caminhar para o modelo de recuperação da informação mostrado em “Assédio Sexual”, quem assistiu a ambos sabe do que estamos falando. No primeiro temos os monges copistas com a informação totalmente inacessível para os demais e no segundo temos um modelo de informação, totalmente recuperável via ambiente virtual, embora também de certa forma inacessível para alguns, pois tem que ter senha que permita invadir esse ambiente. Mas a analogia aqui feita serve para mostrar como o mundo caminhou com relação às formas de acesso e transmissão das informações e mostrar também o tipo de profissionais de um ambiente e do outro. O profissional encontrado no segundo ambiente com certeza não se parece em nada com o primeiro, afinal no primeiro exemplo nem poderíamos chamá-lo de profissional uma vez que (nós permitimos designá-lo dessa forma) ele era só um instrumento da igreja. No segundo exemplo, o profissional que recupera a informação é um típico representante de uma “aldeia global”, de um mundo globalizado e informatizado, e neste cabe perfeitamente a figura do bibliotecário, e como cabe!

O bibliotecário atual, esse mesmo, o profissional que temos nos deparado nas bibliotecas, nos centros de documentação, em eventos de classe (e até em outros eventos que não necessariamente são de biblioteconomia ou ciência da informação) tem se mostrado como alguém que está fazendo a diferença, está se movendo para a frente na carreira e não ficando para trás confinado aos patamares inferiores do mercado de trabalho.

A difícil questão de ser bibliotecário em tempos de bits

Insistir em restringir o ser bibliotecário ao fazer comum de uma biblioteca hoje parece ser fazê-lo caminhar para uma armadilha. A profissão tem se tornado diante de todas as possibilidades apontadas pelas tecnologias e pela globalização como uma profissão de futuro. Se alguém lhe pergunta o que você faz, provavelmente você vai dizer “eu sou bibliotecária”, mas e se você responder “eu estou” e complementar dizendo “nesse momento eu estou envolvida com um curso ou com um projeto de implantação de uma biblioteca e outras coisas mais”, poderá ser percebido nessa resposta o quanto você está além de ser só um simples bibliotecário e nem precisa mudar o nome da profissão, afinal inúmeras tentativas de fazê-lo já ocorreram e o bibliotecário continua em voga e ousamos afirmar que cada vez melhor, melhor porque ele está saindo de seu universo pequeno que se restringia somente à biblioteca e está alçando outros vôos.

O bibliotecário hoje é um profissional atuante em várias áreas no mercado, ele ministra cursos, cursos que não necessariamente são só voltados para bibliotecários mas para profissionais de outras áreas, ele presta consultorias em sua área, está entrando no mercado como um profissional autônomo e multifacetado.

Ser bibliotecário hoje é sinônimo de uma infinidade de possibilidades profissionais, o bibliotecário tem se transformado no diaa-dia em um profissional cada vez mais completo e com um leque amplo para atuar profissionalmente, ao contrário de alguns anos atrás onde esse profissional se limitava a atuar somente em bibliotecas.

Se os tempos são de globalização, e a Internet está aí exatamente para provar que são, o bibliotecário parece estar entrando nessa onda também.

Hoje, analisando o que é pertinente a essa profissão, é possível ver o quanto ela está avançando.

Vejamos o que diz o fazer bibliotecário: “O profissional de Biblioteconomia e Ciência da Informação exerce sua atividade profissional sem estar necessariamente subordinado a uma instituição ou a um empregador. O caráter liberal da profissão também pressupõe a realização de serviços de ordem predominantemente intelectual.”

A regulamentação da profissão é assegurada pela lei 4.084, promulgada a 30 de junho de 1962 e regulamentada pelo Decreto no.

56.725 de 16 de agosto de 1965.

Conforme artigo 6o. desta lei, "são atribuições dos bacharéis em

Biblioteconomia: Ø a organização direção e execução dos serviços técnicos de repartições públicas federais, estaduais, municipais e autárquicas e empresas privadas concernentes às matérias e atividades seguintes: a) o ensino da biblioteconomia; b) a fiscalização de estabelecimentos de ensino de biblioteconomia reconhecidos, equiparados ou em via de equiparação; c) a administração e direção de bibliotecas; d) a organização e direção dos serviços de documentação; e) a execução dos serviços de catalogação e de manuscritos e de livros raros e preciosos, de mapotecas, de publicações oficiais e seriadas, de bibliografia e referência."

O que está colocado acima é exatamente o que podemos encontrar quando falamos da regulamentação da profissão, são essas atribuições que lhe são pertinentes, atribuições essas que já vêm de longa data. Mas hoje o ser bibliotecário é muito mais abrangente do que o explicitado em suas atribuições legais. O profissional da informação (o fazer já começa alterado aí, afinal não é mais somente bibliotecário, mas profissional da informação) vai muito mais além.

Esse profissional está atendendo às exigências de mercado que vão muito além do básico na relação profissional colocada em suas atribuições, ele está se relacionando no universo dos “chips”, na verdade podemos ousar afirmar que ele está se tornando digital e o que é melhor aprendendo a pensar digitalmente.

Não existem dúvidas que a era digital, essa nossa era, provocou e está provocando uma revolução na forma como as pessoas interagem com a informação, se comunicam e disseminam essa mesma informação, e o bibliotecário tem percebido que não adianta pensar que alguém ou alguma carreira vai estar imune a essa revolução.

Diante disso esse profissional tem buscado entender a tecnologia digital e o que significa o uso dessa mesma tecnologia para o acesso à informação. Ninguém hoje é mais valorizado pela informação que retém como no passado, atualmente se é valorizado exatamente pela forma como o profissional a disponibiliza e cria condições de acesso à um número cada vez maior de pessoas à essa informação, afinal estamos vivendo a era da democratização da informação, se ela é efetiva ou não, não nos cabe aqui a discussão (talvez em outro momento) mas o seu discurso corre dessa forma.

Felizmente (e felizmente mesmo!!!) o bibliotecário tem cada vez mais rompido barreiras e mostrado a sua “cara” a que veio.

Nicolas Negroponte, autor do livro A Vida Digital e fundador do

Massachusetts Institute of Technology que estuda a comunicação, o lazer e a educação do futuro, levantou a questão pertinente aos bits e aos átomos. Em uma clássica definição afirma que a distinção fundamental na nova economia é entre átomos e bits. Sugere que cada pessoa comece a avaliar quais trabalhos realiza que envolvem átomos (papel, caneta, pessoas ou qualquer coisa tangível, formada por nêutrons e elétrons) e quais trabalhos envolvem bits (e-mail, e-comércio, e-comunicação, etc.). Através dessa avaliação Negroponte afirma que a pessoa terá uma idéia do quanto está distante ou próxima da era digital, ou seja se seu trabalho e suas habilidades profissionais estão restritas ao universo dos átomos ou ao dos bits.

Cremos que esta avaliação é totalmente cabível ao ser bibliotecário e acreditamos que nos surpreenderemos com o quanto estamos sendo digitais. Pense sobre isso!

Será que falta alguma coisa?

A pergunta acima sugere alguma coisa? Bem, ela pode até não sugerir em um primeiro momento absolutamente nada, mas a intenção é que nos leve a refletir, afinal o cerco não está fechado, nada nunca está completo. O fazer vai se completando e nunca chegará ao fim, dessa forma precisamos sempre ficar atentos à tudo que nos cerca, principalmente em tempos de chips, bits e cabos de fibras óticas.

O profissional bibliotecário no que tange à peculiaridade do objeto de seu trabalho sempre precisará ficar atualizado e engajado, pois a informação sempre vai existir, alguém sempre estará buscando e tentando recuperar informações, e esse é o objeto de trabalho desse profissional.

Informações não são estanques, sabemos que o volume aumenta exponencialmente e vertiginosamente, portanto ao que parece sempre vai haver alguém em busca de um bom profissional que o auxilie nessa tarefa. O mercado para os bibliotecários sempre estará aí, mas ele precisará ficar atento, afinal vivemos num mundo baseado na inovação e o que vai segurar esse profissional no mercado é o conhecimento do trabalho desenvolvido, o profissionalismo, a atualização profissional

(sempre) e interesse em desenvolver novas tarefas. Afinal nada é estanque.

Diante disso, não é que falta alguma coisa, mas pode vir a faltar, na medida em que houver o comodismo e a estagnação. O profissional bibliotecário deverá sempre estar antenado para os acontecimentos à sua volta e principalmente para as novas possibilidades que despontam a cada dia no mercado de trabalho.

Estar sempre preparado para a evolução das tecnologias trabalhando com qualidade. Agindo dessa forma nunca ficará faltando nada, tem que haver sempre um empreendimento pessoal, pois não se chega ao longe ficando parado no mesmo lugar. Cada um tem que ser seu projeto pessoal, isso mesmo, a colocação é essa “SER SEU”.

Se o profissional bibliotecário deseja ter o que fazer no futuro tem que aprender a ter seu projeto pessoal, aprender a agregar valor a sim mesmo, ao seu desempenho profissional e isso é ter um projeto. Na verdade, ousamos dizer que é: ser um projeto pessoal profissional a cada dia, dessa forma estaremos deixando um legado e abraçando a porção que “nos cabe neste latifúndio”.

Considerações Finais

Mudamos e mudamos para melhor, os profissionais bibliotecários reconheceram a existência do fenômeno do mundo dos bits e estão enfrentando-o, hoje a realidade que se avilta é outra, é possível dizer que o que estamos vivendo não são mudanças cosméticas, estamos falando de tecnologias, de chips, bits, bytes e globalização, é esse o mundo que nos cerca hoje e é nesse mundo que os bibliotecários estão engajados.

Percebemos que de “O Nome da Rosa” para “Assédio Sexual” o mundo é outro, estamos mudando nossa postura profissional.

Muitos talvez dirão que não é bem assim, cremos que devemos responder a essa afirmativa com a seguinte colocação: Sabemos que as dificuldades são grandes e que nem todos estão engajados no mundo tecnológico, mas felizmente essa realidade está mudando, basta olhar ao redor e ver que tipo de profissionais você tem encontrado no mercado, que tipo de profissionais você tem encontrado nos eventos (congressos, simpósios, etc.) e principalmente, que tipo de profissionais você tem encontrado no mercado de trabalho, com certeza seu perfil é outro, já não é mais aquele profissional de alguns anos atrás. Podemos concluir que o profissional que temos hoje é bem diferenciado, mais dinâmico e não está restrito ao universo de quatro paredes de uma biblioteca (mesmo porque as bibliotecas na forma convencional também já estão diferentes, mas isso é discussão para outro momento), esse profissional atua na área da ciência da informação e em áreas afins, em síntese podemos afirmar que ele está tomando posse do quinhão que lhe cabe no mercado de trabalho e isso não nos parece ser uma visão simplista e otimista da profissão, acreditamos que é uma realidade cada vez mais em evidência, como dissermos acima, basta olhar dos lados.

E parafraseando Peter Drucker “A melhor forma de prever o futuro é criá-lo.”

Referências Bibliográficas DRUCKER, Peter F. A gestão numa época de grande mudança.

Lisboa: Difusão cultural, 1996.

NEGROPONTE, Nicolas. A vida digital. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 231p.

O profissional e o mercado de trabalho: bibliotecário, documentalista, biblioteconomista, cientista da informação, analista da informação,

enfim o profissional da informaçãolegislação.

http://www.ufscar.br/~dci/index.htm

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