A teoria queer e a sociologia

A teoria queer e a sociologia

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SOCIOLOGIAS150 Sociologias, Porto Alegre, ano 1, nº 21, jan./jun. 2009, p. 150-182

A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização

Resumo

Originada a partir dos Estudos Culturais norte-americanos, a Teoria Queer ganhou notoriedade como contraponto crítico aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais e à política identitária dos movimentos sociais. Baseada em uma aplicação criativa da filosofia pós-estruturalista para a compreensão da forma como a sexualidade estrutura a ordem social contemporânea, há mais de uma década debatem-se suas afinidades e tensões com relação às ciências sociais e, em particular, com a Sociologia. Este artigo se insere no debate, analisa as similaridades e distinções entre as duas e, por fim, expõe um panorama do diálogo presente que aponta para a convergência possível no projeto queer de criar uma analítica da normalização.

Palavras-chave: Teoria Queer. Sociologia. Sexualidade. Diferenças. Michel Foucault. Analítica da normalização.

Teoria Queer emergiu nos Estados Unidos em fins da década de 1980, em oposição crítica aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais e gênero. Surgida em departamentos normalmente não associados às investigações sociais - como os de Filosofia e crítica literária - essa corrente teórica ganhou reconhecimento a partir de algumas conferências em Universidades da Ivy League, nas quais foi exposto seu objeto de análise: a dinâmica

* Professor do Departamento de Sociologia da UFSCar. Doutor em Sociologia pela USP.

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1 Refiro-me aqui à coletânea editada pelo sociólogo Steven Seidman para a coleção Twentieth- Century Social Theory. Malden, Blackwell, 1996.

2 Durante a década de 1990, a Sociologia canônica começaria a valorizar o estudo da sexualidade a partir de obras como As Transformações da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (1992) de Anthony Giddens e A Dominação Masculina (1998) de Pierre Bourdieu. Não por acaso, estas obras buscam reorganizar toda uma bibliografia externa à disciplina, a partir dos edifícios teóricos de cada um dos autores. Ao invés de inovação, revelam-se tentativas de recuperar o passo perdido no estudo da sexualidade, mas sem necessariamente reconhecer sua centralidade para a análise sociológica.

da sexualidade e do desejo na organização das relações sociais. A tensão crítica com relação às ciências sociais impulsionou o empreendimento queer e o estabelecimento de um diálogo que já era patente quando, em uma coleção de livros sobre teoria social contemporânea, figurou o título Queer Theory/Sociology (1996).1

O diálogo entre a Teoria Queer e a Sociologia foi marcado pelo estranhamento, mas também pela afinidade na compreensão da sexualidade como construção social e histórica. O estranhamento queer com relação à teoria social derivava do fato de que, ao menos até a década de 1990, as ciências sociais tratavam a ordem social como sinônimo de heterossexualidade. O pressuposto heterossexista do pensamento sociológico era patente até nas investigações sobre sexualidades não-hegemônicas. A despeito de suas boas intenções, os estudos sobre minorias terminavam por manter e naturalizar a norma heterossexual.

Os primeiros teóricos queer rejeitaram a lógica minorizante dos estudos socioantropológicos em favor de uma teoria que questionasse os pressupostos normalizadores que marcavam a Sociologia canônica.2 A escolha do termo queer para se autodenominar, ou seja, um xingamento que denotava anormalidade, perversão e desvio, servia para destacar o compromisso em desenvolver uma analítica da normalização que, naquele momento, era focada na sexualidade. Foi em uma conferência na Califórnia, em fevereiro de 1990, que Teresa de Lauretis empregou a denominação Queer Theory

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3 O termo inglês queer é muito antigo e tinha, originalmente, uma conotação negativa e agressiva contra aqueles que rompiam normas de gênero e sexualidade. Consulte Jagose, 1996.

4 No que concerne aos movimentos sociais identitários, as análises queer apontam para o fato de que eles operam a partir das representações sociais vigentes e expressam a demanda de sujeitos por reconhecimento. Isto contrasta claramente com a proposta teórica queer de apontar as fraturas nos sujeitos, seu caráter efêmero e contextual, mas o papel do queer não é desqualificar os movimentos identitários, antes apontar as armadilhas do hegemônico em que se inserem e permitir alianças estratégicas entre os movimentos que apontem como objetivo comum a crítica e contestação dos regimes normalizadores que criam tanto as identidades quanto sua posição subordinada no social. Sobre movimentos sociais na perspectiva queer veja Gamson, 1996 e Miskolci, 2007.

5 Para uma análise desse processo de rompimento com o sujeito cartesiano consulte Hall, 2006.

para contrastar o empreendimento queer com os estudos gays e lésbicos.3 Em termos políticos, não tardou para que ele denotasse uma alternativa crítica aos movimentos assimilacionistas.4

Teórica e metodologicamente, os estudos queer surgiram do encontro entre uma corrente da Filosofia e dos Estudos Culturais norte-americanos com o pós-estruturalismo francês, que problematizou concepções clássicas de sujeito, identidade, agência e identificação. Central foi o rompimento com a concepção cartesiana (ou Iluminista) do sujeito como base de uma ontologia e de uma epistemologia. Ainda que haja variações entre os diversos autores, é possível afirmar que o sujeito no pós-estruturalismo é sempre encarado como provisório, circunstancial e cindido.5

Teóricos queer encontraram nas obras de Michel Foucault e Jacques

Derrida conceitos e métodos para uma empreitada teórica mais ambiciosa do que a empreendida até então pelas ciências sociais. De forma geral, as duas obras filosóficas que forneceram suas bases foram História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976) e Gramatologia (1967), ambas publicadas em inglês na segunda metade da década de 1970.

O primeiro volume de História da Sexualidade rompeu com a hipótese repressiva que marcava a maioria dos estudos até meados da década de 1970. Segundo Foucault, vivemos em uma sociedade que, há mais de um século, “fala prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não diz; denuncia os poderes que exerce e promete libertar-se das leis

Sociologias, Porto Alegre, ano 1, nº 21, jan./jun. 2009, p. 150-182 SOCIOLOGIAS 153 que a fazem funcionar”. (FOUCAULT, 2005, p.14) Em outras palavras, o filósofo afirmou que a sexualidade não é proibida, antes produzida por meio de discursos. Ao expor e analisar a invenção do homossexual, ele mostrou que identidades sociais são efeitos da forma como o conhecimento é organizado e que tal produção social de identidades é “naturalizada” nos saberes dominantes. A sexualidade tornou-se objeto de sexólogos, psiquiatras, psicanalistas, educadores, de forma a ser descrita e, ao mesmo tempo, regulada, saneada, normalizada por meio da delimitação de suas formas em aceitáveis e perversas. Daí a importância daquelas invenções do século XIX, a homossexualidade e o sujeito homossexual, para os processos sociais de regulação e normalização.6

A contribuição de Jacques Derrida para a Teoria Queer pode ser resumida a seu conceito de suplementaridade e à perspectiva metodológica da desconstrução. A suplementaridade mostra que significados são organizados por meio de diferenças em uma dinâmica de presença e ausência, ou seja, o que parece estar fora de um sistema já está dentro dele e o que parece natural é histórico. Na perspectiva de Derrida, a heterossexualidade precisa da homossexualidade para sua própria definição, de forma que um homem homofóbico pode-se definir apenas em oposição àquilo que ele não é: um homem gay.7 Este procedimento analítico que mostra o implícito dentro de uma oposição binária costuma ser chamado de desconstrução. Desconstruir é explicitar o jogo entre presença e ausência, e a

6 A analítica foucaultiana do poder foi esboçada no curso oferecido em 1975 com o título de Os Anormais, Nele, o dispositivo de sexualidade e o regime disciplinar surgem entrelaçados. No ano seguinte, Foucault publicaria, em separado, História da Sexualidade I e Vigiar e Punir. Não por acaso, sua tese sobre o poder disciplinar teve acolhida mais ampla do que a obra devotada ao dispositivo da sexualidade.

7 O conceito de suplementaridade de Derrida é exemplificado a partir de uma extensa análise crítica da forma como Claude Lévi-Strauss justapõe natureza e cultura em Tristes Trópicos. A forma como o antropólogo opõe natureza e escrita mantém uma visão etnocêntrica. Segundo Derrida, a verdadeira oposição é entre discurso e escrita, sendo que, no discurso, já estão presentes racionalização e classificação.

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Sociologias, Porto Alegre, ano 1, nº 21, jan./jun. 2009, p. 150-182 suplementaridade é o efeito da interpretação porque oposições binárias como a de hetero/homossexualidade, são reatualizadas e reforçadas em todo ato de significação, de forma que estamos sempre dentro de uma lógica binária que, toda vez que tentamos quebrar, terminamos por reinscrever em suas próprias bases. 8

A partir das contribuições acima, teóricos como Eve K. Sedgwick, David

M. Halperin, Judith Butler e Michael Warner começaram a empreender análises sociais que retomavam a proposta de Foucault, ao estudar a sexualidade como um dispositivo histórico do poder que marca as sociedades ocidentais modernas e se caracteriza pela inserção do sexo em sistemas de unidade e regulação social (FOUCAULT, 2005, p.9-100).9 Os estudos “queer” sublinham a centralidade dos mecanismos sociais relacionados à operação do binarismo hetero/homossexual para a organização da vida social contemporânea, dando mais atenção crítica a uma política do conhecimento e da diferença. Nas palavras do sociólogo Steven Seidman, o queer seria o estudo “daqueles conhecimentos e daquelas práticas sociais que organizam a ‘sociedade’ como um todo, sexualizando – heterossexualizando ou homossexualizando – corpos, desejos atos, identidades, relações sociais, conhecimentos, cultura e instituições sociais”. (SEIDMAN, 1996, p.13)

Os teóricos queer compreendem a sexualidade como um dispositivo histórico do poder.10 Um dispositivo é um conjunto heterogêneo de discursos

8 Em sintonia com as reflexões de Derrida encontra-se um dos trechos fundadores da reflexão queer na afirmação foucaultiana: “Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é dirigida a uns e outros. Não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os discursos”. (FOUCAULT, 2005, p.30)

9 A lista de teóricos queer é extensa e há nomes difíceis de situar, como é o caso da antropóloga cultural Gayle Rubin. Seu texto Thinking Sex (1984) é uma das referências queer, mas a autora se distancia de objetos de análise textual e de vários procedimentos metodológicos a eles associados. Seu posicionamento crítico com relação ao queer é perceptível na entrevista concedida a Butler (2003).

10 Segundo Foucault: “A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que

Sociologias, Porto Alegre, ano 1, nº 21, jan./jun. 2009, p. 150-182 SOCIOLOGIAS 155 a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder”. (2005:100)

1 Dispositivo é: “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos”. (FOUCAULT, 2006, p.244) e práticas sociais, uma verdadeira rede que se estabelece entre elementos tão diversos como a literatura, enunciados científicos, instituições e proposições morais.1 Oriundos predominantemente dos Estudos Culturais, os teóricos queer deram maior atenção à análise discursiva de obras fílmicas, artísticas e midiáticas em geral.

A investigação da emergência da forma contemporânea como lidamos com a sexualidade foi empreendida por Eve Kosofsky Sedgwick em seu livro Between Men: English Literature and Male Homosocial Desire (1985), obra em que o autor não se prendia a uma discussão de gênero (marcada pelo heterossexismo da oposição homens versus mulheres) nem a uma perspectiva dos estudos de minorias (gays e lésbicas). Sua proposta era mais ambiciosa: demonstrar que a dominação das mulheres é associada à rejeição das relações amorosas entre homens. A misoginia e a homofobia se revelam interdepentendes. Ao estudar os triângulos amorosos nos romances ingleses do século XIX, a díade homo/heterossexualidade emergiu não mais como uma oposição excludente, antes como necessariamente relacionada. Sedgwick afirmou que certas formas de dominação homossocial, em especial a do presente, dependem do repúdio a laços eróticos entre homens e na projeção deles em uma figura estigmatizada: o homossexual.

Uma reflexão da pesquisadora feminista Joan W. Scott resume bem a descoberta de Sedgwick:

Não apenas a homossexualidade define a heterossexualidade especificando seus limites negativos, e não

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12 A primeira teórica a empregar o termo foi a feminista norte-americana Adrienne Rich em um ensaio de 1980 publicado em 1986 com o título “Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence”.

apenas a fronteira entre ambas é mutável, mas ambas operam dentro das estruturas da mesma ‘economia fálica’ – uma economia cujos fundamentos não são levados em consideração pelos estudos que procuram apenas tornar a experiência homossexual visível. [...] Teorizado desta forma, homossexualidade e heterossexualidade trabalham de acordo com a mesma economia, suas instituições sociais espelhando uma à outra. [...] Na medida em que esse sistema constrói sujeitos de desejo (legítimos ou não), simultaneamente estabelece-os, e a si mesmos, como dados e fora do tempo, do modo como as coisas funcionam, com o modo que inevitavelmente são. (SCOTT, 1998, p.303-304)

Sedgwick deu o pontapé inicial para a compreensão de que a ordem social contemporânea não difere de uma ordem sexual. Sua estrutura está no dualismo hetero/homo, mas de forma a priorizar a heterossexualidade por meio de um dispositivo que a naturaliza e, ao mesmo tempo, torna-a compulsória. Em resumo, a ordem social do presente tem como fundamento o que Michael Warner denominaria, em 1991, de heteronormatividade. O dispositivo de sexualidade tão bem descrito por Foucault em sua gênese ganha, nas análises queer, um nome que esclarece tanto a que ele direciona à ordem social como seus procedimentos neste sentido.

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