Livro DEUS É INOCENTE

Livro DEUS É INOCENTE

(Parte 1 de 4)

© 2007 by Zeca Martins São Paulo, Brasil

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Zeca Martins

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Advertência: sob hipótese alguma este livro deverá ser lido por praticantes de leitura dinâmica.

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‘Mas era um sonho tão brilhante e demente que só posso afirmar, e não com Segurança, ter ouvido três frases, na Luz daquele instante de balanço e Inventário, de escolha e de Mudança (se é que tudo não foi somente um novo sonho incrustado no sonho do Mundo flamejante e no sonho da vida, Escarlate e punido): - Passe a língua no ferro! – disse a voz da mulher - tem gosto de Ferrugem ou sangue Envelhecido! A voz do Macho então soou, escusa e Só: - A Mulher está grávida e, andando pela Estrada, cruzou o curvo Rastro de uma Cobra Coral: o Filho que nascer vai rastejar no Pó! Então soou a Voz sagrada, em tom pungente, E disse sem qualquer Entonação pessoal: - Deus é inocente!’

Excerto do poema O Reino, de Ariano Suassuna.

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PREFÁCIO I. SOBRE COMUNICAÇÃO EM GERAL 1.COMUNICAÇÃO: A CONQUISTA FUNDAMENTAL 2.PEOPLE SHOULD THINK 3.ETIMOLOGIA: A DINÂMICA DA COMUNICAÇÃO 4.ADEUS, E-MAIL, ADEUS! 5.O JARGÃO 6.ESTE LIVRO E AS REDES NEURAIS 7.DEUS É INOCENTE: O FATO E A VERSÃO 8.VOCÊ É O QUE VOCÊ ENTENDE 9.O PODER DA PALAVRA IMPRESSA 10.A IMPORTÂNCIA DAS IDeiaS E A MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO 1.CENSURA 12.COMO VEJO O ENSINO DE COMUNICAÇÃO

I. SOBRE PROPAGANDA 13.CIGARROS: NA COMUNICAÇÃO, O MINISTÉRIO DA SAÚDE PERDE 14.MCDONALD’S E O JOGO DOS SETE ERROS 15. PROPAGANDA ENGANADA 16. AUDIÊNCIA (DES)QUALIFICADA 17.O QUE É PRECISO PARA LEVAR UM CLIENTE PARA SUA AGÊNCIA? 18.É O MELHOR DE QUE VOCÊ É CAPAZ? 19.UMA EXPERIÊNCIA EDIFICANTE 20.UM SAPO IMITA A ARTE 21.A CANTADA VIA DISCURSO / OUTRA CANTADA VIA ANÚNCIO 2.O CLIENTE

I.THE END 23.MORAL DA HISTÓRIA 24. BIBLIOGRAFIA

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Publicitários em geral, e nós redatores, em particular, temos, por força do ofício, o hábito de observar o universo da comunicação humana: onde ela se dá, quais os interlocutores e seus propósitos e, acima de tudo, em quais circunstâncias ela efetivamente se realiza, afastando-se do que eu poderia chamar de síndrome de Torre de Babel, com vários ‘idiomas’ falados ao mesmo tempo, e mensagens emitidas sabe-se lá por quem para seja lá quem for.

Acredito que, a despeito de toda sua engenhosidade, é a imensa capacidade de se comunicar que fez do ser humano um animal muito diferente dos demais. Pois todos os animais têm, de acordo com suas características biológicas, algum meio de se comunicar, mas nenhum desenvolveu tamanho conjunto de códigos e signos como nós.

O mais importante código com que pode contar um grupo social é seu idioma. Mas não é o único, porque as nuanças culturais afetam profundamente o entendimento deste código em sua totalidade: mesmas palavras, mesmas expressões, e significados tão diferentes. No caso brasileiro, isto é patente diante da grande variedade, diferentemente de dialetos, de ‘sub-idiomas’ praticados por aqui (permitam-me a licença linguistas e filólogos).

É aí que mora o perigo. Curiosamente, empresas do ramo da comunicação, como as de imprensa em geral e, no que me diz mais respeito, anunciantes e agências de propaganda, ansiosos por resultados imediatos de caráter mais quantitativo que qualitativo, transgridem incessantemente os códigos idiomático e cultural (a moral, em última análise), seja por descuido, despreparo ou intenção. Estas entidades muitas vezes fazem, guardadas as diferenças e proporções, algo parecido com o que os bárbaros fizeram com a arte grega. Imagino que a deficiência crônica da Educação no país seja um importante coadjuvante a ser considerado no processo.

Mas, ficassem os prejuízos apenas refletidos em fluxos de caixa menos positivos para estas instituições, nada importaria fazer. Acontece que o prejuízo acaba sendo meu e seu; aí, sim, devemos fazer alguma coisa.

Não me refiro, aqui, à preservação gramatical, pois, para isto, existe quem de direito. Refiro-me à preservação da qualidade da comunicação que se pratica. Por isso, resolvi selecionar alguns artigos que fiz sobre comunicação, há maior ou menor tempo.

Este livro não trata especificamente de comunicação empresarial ou comunicação interpessoal. Penso na comunicação que você faz e à qual você se expõe diariamente. Trato, apenas (e de leve), de comunicação e do que temos feito com ela. Há um milhão de coisas que podem ser ditas; falo de apenas umas poucas.

Resolvi apresentar, como primeiro capítulo, um texto que fiz para o portfolio de uma agência de propaganda de São Paulo. Porque, com ele, faço uma declaração de amor a esta nossa magnífica capacidade de nos comunicarmos e de sonharmos com o dia em que a comunicação será usada exclusivamente em benefício do engrandecimento de cada um de nós.

Convém informar também que não gosto, definitivamente, de frescuras dialéticas e formais (alguns dos artigos finais não estão lá por acaso). Daí, eu não ver inconveniente nenhum em incluir uns textos que são pura diversão minha, e torço para que também sejam sua.

Outra coisa: para meu primeiro livro, Propaganda É Isso Aí!, tive a sorte de contar com o apoio de Washington Olivetto e Roberto Duailibi, e, como convém a um iniciante, com a orientação do bom mestre Roberto Menna Barreto.

Neste livro que você, leitor, agora tem em mãos, faço meu primeiro voo solo, guiado apenas pelos instrumentos da minha consciência e dos meus limitados conhecimentos.

Espero pousar em segurança.

Zeca Martins São Paulo, julho de 2001.

Nota a esta edição: li e reli algumas vezes este livrinho, procurando onde fazer eventuais atualizações, uma vez que a edição original, impressa, data de 2001 e esta, revisada, de 2007. Embora em seis anos muitos novos casos e exemplos tenham surgido no dia-a-dia da comunicação, a essência das coisas permaneceu, obviamente, a mesma; o máximo que eu conseguiria, ao atualizar os exemplos, seria trocar seis por meia dúzia. Mantive, portanto, o texto original e integral.

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O Homo Sapiens existe há, pelo menos, uns cem mil anos. Sua viagem pelo tempo envolveu toda sorte de conquistas.

Ao atingir mil séculos de jornada, o mundo até então dominado começou a parecer pequeno demais. Repentinamente, o Homo Sapiens traz à tona toda sua engenhosidade acumulada e, numa explosão de criatividade, faz deste milésimo século — ou vigésimo, na contagem cristã — o símbolo de sua determinação conquistadora.

Eternamente insatisfeito, desenvolve meios impensados para investigar do micro ao macrocosmo, porque sua sede de ir além é interminável. O Homo Sapiens parece predestinado a alcançar — quem sabe? — os limites do universo.

E o século 20 marca o início da segunda etapa da longa viagem. Uma viagem de mais mil séculos.

Conquistas Do Século X.

Quase ao final do primeiro ano do novo século, no dia 12 de dezembro de 1901, pontualmente 12 horas no meridiano de Greenwich, o físico italiano Guglielmo Marconi recebe, no Canadá, a primeira transmissão telegráfica emitida por ondas de rádio a partir da Inglaterra. A longa viagem da humanidade acabava de receber impulso fundamental, porque a eterna conquista do Homo Sapiens sempre foi baseada na sua capacidade de comunicação. Num ensaio daquilo que hoje chamamos virtual, o rádio eliminou as distâncias, unindo virtualmente todos os confins da Terra.

Ao mesmo tempo em que a inquieta natureza do homem o faz olhar com atenção para o céu, ela também o leva a buscar seu interior mais profundo. Num mesmo ano, 1903, o cientista russo Konstantin Tsiolkovsky publica um trabalho surpreendentemente avançado que lançaria as bases para a construção de foguetes espaciais, e o casal de cientistas franceses Pierre e Marie Curie recebe o prêmio Nobel por suas pesquisas relativas ao raio-X. A então incipiente ciência do século 20, com estas e tantas outras descobertas, começou a perceber a necessidade de reduzir ou eliminar as distâncias que separavam as diversas fontes do conhecimento. A comunicação rápida e eficaz passava a ser imprescindível para a aceleração das conquistas do saber. Não sem razão, no ano seguinte surge a válvula eletrônica que traz avanços significativos ao rádio, por permitir o envio de sons, além dos sinais telegráficos em código Morse.

Enquanto os foguetes ainda se resumiam ao plano teórico, o espírito conquistador dava asas literais aos irmãos Wright, norteamericanos, e ao brasileiro Alberto Santos Dumont que, com suas engenhocas voadoras, assombravam o mundo nos primeiros anos do século. Em 1908, quando aviões ainda eram conhecidos por poucos e mais pareciam assunto de ficção, Henry Ford apresentava seu automóvel modelo T ao grande público. Se o cidadão comum ainda não podia voar, ao menos já poderia locomover-se com maior conforto e, o que é mais importante, com maior velocidade. Reduzindo-se os tempos de percurso, reduziam-se as distâncias.

No mesmo ritmo com que a engenhosidade humana produzia maravilhas mecânicas e elétricas, a capacidade dedutiva, de observação científica e a eterna curiosidade do homem o levam a prospectar ainda mais profundamente seu interior e o de todos os seres vivos. 1909 é o ano do anúncio da existência do gene, a unidade elementar da hereditariedade. Mais dois anos e o princípio dos supercondutores e a teoria geral do átomo são apresentados. Como quem prepara as malas para uma longa viagem, a humanidade começa a recolher subsídios técnicos e científicos numa escala sem precedentes.

O salto que Johannes Guttenberg, inventor da imprensa, dera à difusão da informação 450 anos antes, multiplicava-se infinitamente em potencialidade com o rádio, os novos meios de impressão dos jornais e as pesquisas científicas primordiais para tudo aquilo que, mais tarde, viria a se configurar na moderna comunicação.

O advento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) não iria mudar apenas a configuração geopolítica da Europa; alteraria o comportamento de toda humanidade pois, ao par dos horrores causados, a guerra exigia velocidade no desenvolvimento tecnológico, particularmente nos meios de transporte e nas comunicações, itens tão estratégicos.

O grande tropeço bélico não impediu, contudo, que o homem continuasse a sonhar com a conquista que realmente importava. No ano em que eclode a guerra, Robert Goddard, um obscuro físico norte-americano patenteava os conceitos básicos da moderna tecnologia de foguetes, sonhando, segundo ele, em ‘fazer um dispositivo que chegasse até Marte’.

Em 25 de janeiro de 1915 a primeira ligação telefônica transcontinental percorre mais de 4 mil quilômetros de fios suspensos por 130 mil postes, para que Alexander Graham Bell pudesse, de Nova York, conversar com seu assistente em São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos. Desnecessário relatar o que o telefone representou a partir daí.

A grande conquista humana dá um de seus maiores passos com a publicação, em 1916, da Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein. Desde então, o olhar humano enxergaria o cosmo de modo completamente diferente e com muito maior interesse.

Os anos 20 marcam o apogeu da comunicação. Com o surgimento da cultura de massa, o homem passou a conviver com a troca de informações num volume e numa velocidade jamais sonhados. A comunicação leva o lazer e o entretenimento. A música escapa das salas de concerto e invade os lares dos cidadãos comuns. A notícia é instantânea. O cinema amadurece ao ponto de até começar a falar, em O Cantor De Jazz, com Al Jolson, em 1927. E ganha cores, com Toll Of The Sea, primeiro longa-metragem rodado em Technicolor. Multidões se comprimem nas portas das salas de exibição para sonhar com seus astros e se informar com os documentários apresentados. Pela primeira vez se podia acompanhar os fatos do mundo com som e imagens em movimento. Nunca ideias e conhecimento transitaram com tamanha intensidade. A comunicação mostrava que o mundo estava realmente ficando menor. E o ardor da grande conquista humana, muito maior.

Como se não bastasse, foi nos anos 20 que se viu nascer a televisão. Em 1925, o escocês John Logie Baird já havia transmitido a imagem da silhueta de um jovem amigo de um recinto para outro em sua casa. Faltavam poucos anos para que seu invento rudimentar tomasse as proporções de mais importante meio de comunicação jamais criado. Com a televisão, o mundo ficaria incrivelmente menor do que se poderia imaginar à época.

Até o final da primeira metade do século já estariam lançadas as bases do desenvolvimento que experimentamos hoje. A segunda guerra mundial, a despeito de todos seus estragos e carnificina, trouxe novidades como radares bastante aperfeiçoados e muitas melhorias nos sistemas de comunicações que viriam a ser incorporadas ao dia-adia das pessoas comuns. 1946 é o ano em que cientistas da Universidade da Pensilvânia constróem o primeiro ‘cérebro eletrônico’, o ENIAC, um amontoado de 18 mil válvulas e 30 toneladas, que consegue a façanha de realizar espantosas 5 mil operações matemáticas por segundo. A partir dele, muita coisa iria se transformar radicalmente. Mas a ansiedade pela conquista era tanta que bastou só mais um ano para as válvulas ficarem obsoletas, com a invenção do transistor pelos laboratórios Bell.

Em poucos anos, meios de comunicação como o rádio e a televisão passariam a ser portáteis e, mais uma vez, a comunicação entre os homens se expande. A televisão conquista definitivamente os lares do mundo todo e, simultaneamente, o homem começa a materializar a conquista do espaço. As teorias de Konstantin Tsiolkovsky e Robert Goddard são resgatadas e aplicadas na corrida espacial. Os soviéticos dão o primeiro passo, com o lançamento, em 1957, do satélite Sputnik e, logo a seguir, com Yuri Gagarin, primeiro homem no espaço; alguns anos mais tarde os norte-americanos revidam, com Neil Armstrong fincando sua bandeira em solo lunar. Este último feito, aliás, apresentado ao vivo para os televisores de todo o planeta. Hoje, a televisão nos leva confortável e instantaneamente aos principais eventos do planeta, do esporte às guerras. Quem não se lembra das últimas finais de copas do mundo, ou de Peter Arnett, da CNN, cobrindo ‘ao vivo’ a Guerra do Golfo?

E quando, há poucos anos, acreditávamos haver alcançado o máximo em comunicação, surge a Internet. Não apenas assistimos aos espetáculos; participamos deles. Reportagens sobre o Museu do Louvre são substituídas pelas visitas virtuais. Em breve, uma carta com envelope e selo será reduzida a uma boa lembrança: o e-mail transformou o selo num clique, e a correspondência chega imediatamente a qualquer ponto da Terra. Com a Internet, cientistas do mundo todo cooperam entre si em torno de um mesmo projeto científico reduzindo espantosamente o prazo para a obtenção de resultados. Graças também à ajuda deste novo meio de comunicação o genoma humano foi decodificado, e estamos em vias de conhecer detalhadamente o DNA. Conquistamos o microcosmo com a mesma velocidade com que as sondas espaciais rumam ao exterior do sistema solar.

Iniciamos este provável milésimo primeiro século — ou vigésimo primeiro, considerando novamente a contagem da cristandade — com uma bagagem que o passado nunca conseguiu conceber, mas com que sempre sonhou: Leonardo da Vinci, com o helicóptero e outras máquinas; Júlio Verne, com o submarino Nautilus; tantos foram os sonhos e os sonhadores. A ciência de agora já desenvolve modelos teóricos buscando realmente alcançar a velocidade de dobra, algo só imaginado nas aventuras do capitão Kirk e do sr. Spock em sua nave Enterprise de Jornada nas Estrelas. De um certo modo, a história se repete: cientistas criam e trocam informações avançadas, comunicam-se, olhando para o cosmo com as mesmas dúvidas e ansiedades com que nossos antepassados sonharam, certo dia, com o além-mar.

Produzimos e distribuímos volumes incalculáveis de informação através dos nossos admiráveis meios de comunicação. Atualmente, uma pessoa comum aprende em um único dia o que seu ascendente de há mil séculos não conseguia aprender em toda uma vida. Simplesmente porque tem informação em abundância ao seu alcance, e, claro, os meios de fazê-la transitar com rapidez.

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