A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso

A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso

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Roney Salina de Souza - A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso: o caso de Dourados

Revista História em Reflexão: Vol. 1 n. 1 – UFGD - Dourados Jan/Jun 2007

A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso: o caso de Dourados (1914 – 1960)

Roney Salina de Souza Mestrando em História - UFGD

Resumo:

Analisamos os fatores políticos e econômicos da emigração de sírios e libaneses da Grande Síria, no Oriente Médio, para o interior do Brasil, no antigo Sul de Mato Grosso, na cidade de Dourados. No início do século X, Dourados apresentou mudanças nos meios de transporte e nos centros de abastecimento do comércio circunscrito, que passavam por Aquidauana, Campo Grande e depois ao oeste de São Paulo. Iniciavam com o trabalho móvel de mascates, depois fixam residências e casas comerciais já no início dos anos 1920. Com a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados – CAND, 1943, a cidade acelerou seu processo de urbanização, aumentando a população e tornando-se um espaço promissor de maiores relações comerciais atraindo mais ainda imigrantes sírios e libaneses, os quais ajudaram a compor as diferentes identidades locais.

Palavras-chave: Sírios – Libaneses – Sul de Mato Grosso.

Abstract:

We have analized the economical and factors of immigration of Syrian and Lebanon people from the Big Syria, in the Middle East to the inland of Brazil, in the ancient south of Mato Grosso in the city of Dourados. At the beginning of the X century, Dourados showed changings in the means of transportation and in the centres of supplying of the local commerce, whiche moves, first, from Aquidauana, Campo Grande and the west of São Paulo. They started as peddlers and the beginning of 1920 they have houses and shops. With the introduction of Colônia Agrícola Nacional de Dourados – CAND, in 1943, the city sped up its urbanization process, increasing its population and become a promising space of bigger bussines relationship, attracting more and more Syrian immigrants and Lebanon people who help us to compose the different local identities.

Keywords: Syrian – Lebanon people – South Mato Grosso.

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A Revolução Industrial1 do século XIX inicia um novo processo econômico que se espalharia pelo mundo, caracterizado pela rápida produção, desenvolvimento de novas tecnologias e com forte espírito de lucro. Com a evolução do capitalismo ocorre uma crise neste sistema em 1873, conhecido como “Depressão”, a qual eliminou as empresas menores, com isso as de maior porte racionalizaram a produção e o capitalismo entrou em um período monopolista conhecido como Imperialismo (HOBSBAWM, 1981: 62).

Nesta fase imperialista o efeito mais forte foi a expansão colonialista do século

XIX. A grande concentração de capitais que foram gerados a partir de monopólios internacionais partilhou grandes áreas do mundo entre as principais potências. Estes países ricos que passaram pela Revolução Industrial necessitavam de matéria-prima barata e acessível, alimentos e mercados consumidores nas áreas periféricas da América, Ásia, Oceania e África. Sobre estes locais, investiram seus capitais disponíveis, construindo, por exemplo, ferrovias para escoarem com maior facilidade as mercadorias coloniais (HOBSBAWM, 1981: 62).

A Ásia se tornou uma zona de influência para os interesses dos industriais ingleses e franceses. Por outro lado, já no Oriente Médio, em 1916, com os Acordos de Sykes-Picot dividiram a região da “Grande Síria”, que englobava Palestina, Síria e Líbano. Esta região ficou sob o mandato da França (MASSOULIÉ, 1994: 20). As transformações geradas pela industrialização vão atingir o cotidiano das comunidades aldeãs do Oriente Médio:

A melhoria dos transportes marítimos e terrestres minando a produção local de artesãos independentes; o crescimento urbano também ensejou uma produção agrícola comercial de maior escala, que deslocou as plantações de subsistência. A indústria têxtil, em boa parte de caráter doméstico, não resistiu à competição de produtos importados (TRUZZI, 2000: 316).

Observou-se também a questão demográfica: aumentou a população jovem que não via na agricultura diluída e nos solos semidesérticos uma possibilidade de maior qualidade de vida (TRUZZI, 2000: 317).

No campo político os muitos Estados Nacionais que atualmente compõem o mapa do Oriente Médio não existiam e seus habitantes estavam submetidos ao Império Otomano dos turcos. Esta dominação política também foi um dos fatores que impulsionaram

1 Este artigo é um breve resumo do tema da monografia de Iniciação Científica intitulada A presença dos imigrantes sírios e libaneses no povoamento e nas relações comerciais da região de Dourados (1920-1960), desenvolvida por mim no período de 2002 a 2003 na UFMS/Dourados, financiada por PIBIC/CNPq/UFMS e orientada pelo Profº. Drº. Paulo Roberto Cimó Queiroz.

Roney Salina de Souza - A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso: o caso de Dourados Revista História em Reflexão: Vol. 1 n. 1 – UFGD - Dourados Jan/Jun 2007 a emigração no Líbano, por exemplo, e obrigou as pessoas a buscarem exílio em outros países. Com a Primeira Guerra Mundial iniciou-se o processo de libertação política. Os otomanos apoiaram os países do Eixo, enquanto os sírios, libaneses e outros aliados árabes juntam-se à Inglaterra acreditando na promessa de independência pós-guerra. Esta liberdade só viria com a Segunda Grande Guerra, “que acrescentou a Síria e o Líbano à lista de Estados árabes soberanos” (LEWIS, 1996: 315), foram então criadas a República do

Líbano e a República Árabe Síria2 . Por fim, questões de natureza religiosa também influenciaram a independência das regiões, mas numa proporção menor (SALÉM, 1969: 39- 67).

Diante dos fatores acima mencionados, a saída encontrada pelas famílias, frente aos novos tempos que se apresentavam, foi o envio de seus jovens para a América, principalmente. A América atraia os imigrantes, pois tinha uma relação de terra-trabalho atrativa em relação à outros continentes. Na Europa, por exemplo, “a terra era cara e a mão-de-obra, barata. Na América, a terra era abundante e estava disponível. Entretanto, a mão-de-obra era escassa; portanto cara”. Assim, o fato de se conseguir uma propriedade rural em curto prazo chamava a atenção de trabalhadores sem terra (KLEIN, 2000: 15-16).

O desejo dos emigrantes era ir e ficar um breve período, enviar dinheiro e retornar. Mas não se tratava de uma simples aventura apenas. Os que estavam ficando dependiam dos que iam emigrar, estes deveriam enviar remessas de dinheiro, ou mesmo uma quantia para a passagem a fim de que outros viajassem também. O envio de dinheiro significava um recomeço: a família adquiriria mais terras e tecnologia, aumentando a propriedade, o cultivo e o “status” familiar, além, é claro de fazer nascer o desejo de migrar outros conterrâneos (TRUZZI, 2000: 317). “Fazer a América”, esse era a máxima do emigrante (KLEIN, 2000: 24).

No Oriente Médio, nos diferentes momentos em que a indústria foi chegando ela impulsionou os mercados locais; para o emigrante ficou mais difícil obter passaportes e cruzar as fronteiras dos novos Estados Nacionais formados após as duas Guerras Mundiais. O crescimento demográfico diminuiu. Também, a exemplo dos Estados Unidos, os outros países da América começaram a criar leis mais sérias com relação à imigração (KLEIN, 2000: 26).

2 Com esta consolidação esses povos foram reconhecidos como sírios e como libaneses e não mais da maneira como eram freqüentemente tratados (como ocorreu também no Brasil), ou seja, como “turcos”, “turco-árabes” ou “turco-asiáticos”; estes nomes englobavam não só sírios e libaneses mas curdos, sauditas, jordanianos, enfim o primeiro termo, “turco”, é que se popularizou, nome esse que carregavam por estarem sob o jugo do Império Otomano - ÁRABES: gente como a gente, Qual é o assunto? São Paulo,ano 1, nº 1, p.18-24. [2002] p. 2.

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Desde o período da Colonização Portuguesa observamos a presença do elemento sírio-libanês, mas esta vai se acentuar nos fins do século XIX, quando tem início a migração regular no Brasil apoiada, inclusive, pelo Estado, assim “vieram sírios, libaneses, italianos, alemães, poloneses, russos, suíços, austríacos, ingleses, chineses, sem prejuízo da continuidade dos franceses, judeus e portugueses. Negros forros e escravos também ingressaram na mascateação” (GOULART, 1967: 165).

O período principal da imigração sírio-libanesa para o Brasil, de acordo com

Truzzi, se dá de 1908 a 1939; neste período teriam entrado no país cerca de 47.361 emigrantes, mas teriam saído 21.323 (45%) de pessoas, o que vem a confirmar também os fortes laços familiares com os que haviam ficado nas terras de origem (TRUZZI, 1997: 30).

Sírios e libaneses eram praticantes da agricultura, porém, ao contrário do que se esperava, não se ocuparam desta prática econômica. Isto se deu por não terem se adaptado à forma de produção agrícola nacional, concentrada no grande latifúndio, que era diferente da do Oriente Médio, fixada em pequenas propriedades administradas por famílias. Além disso, a maioria veio sem recursos econômicos, dificultando a posse da terra, e, ainda se fossem colonos, levariam cerca de duas gerações para possuírem uma propriedade rural (TRUZZI, 1997: 45). Uma segunda opção profissional foi a de comerciante, e foi essa que prevaleceu para as primeiras gerações desde o final do século XIX.

O objetivo dos imigrantes era bem claro: fazer dinheiro. As coisas se encaixavam: estavam num outro lugar, logo, se quisessem sobreviver tinham que se adaptar; ser mascate exigia pouco, apenas mercadorias não muito difíceis de transportar (botões, roupas, agulhas, bijuterias, lenços e outras coisas leves), e, além disso, havia mercado consumidor, principalmente no meio rural. Temos então três fatores importantes para o sucesso dos sírio-libaneses como comerciantes: necessidade, flexibilidade material e mercado consumidor.

Isto contrariava o projeto de imigração das elites brasileiras, que desenvolveram uma política para suprir a mão-de-obra ausente, após o fim do tráfico negreiro, externo e interno, nas lavouras de café do oeste paulista. A articulação comercial dos sírios e libaneses não resolvia “o problema do braço agrícola, não era conveniente ao país. A imigração síria está nestas condições e é preciso dizê-lo sem reservas, pois as idéias não se misturam com interesses e conveniências”, posto que as mencionadas elites defendiam trabalhadores brancos europeus, na lógica do darwinismo social sendo os árabes considerados indesejados (AMARÍLIO JÚNIOR, 1935: 39).

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O antigo sul de Mato Grosso – SMT3 , no início do século X, dispunha de vias de comunicação que o colocavam em contato principalmente com o sudeste brasileiro (São Paulo e Minas Gerais), o Paraguai e o estuário do Rio da Prata (QUEIROZ, 1999: 449).

Para o Rio do Prata, utilizava-se a via fluvial, pelos rios Paraguai e Paraná. O principal pólo comercial do SMT, nessa época, era Corumbá, situada às margens do rio Paraguai, que, em sua condição de entreposto do comércio de importação e exportação, possibilitava um relevante poder econômico sob a forma de casas comerciais (BERTRAN, 1988: 62).

Corumbá tornou-se um pólo distribuidor de mercadorias para localidades ao sul, leste e centro do SMT, enviadas por via fluvial até onde fosse possível – como era o caso de Miranda (acessível pelo rio Miranda) e Coxim (acessível pelo rio Taquari) – e continuando o trajeto por estradas de terra.

De Miranda prosseguia-se por terra para a cidade de Nioaque, Campo Grande e a região dos Campos de Vacaria. Em finais do século XIX, já com certa concentração de pessoas fixas, destaca-se o povoado de Aquidauana, às margens do rio Aquidauana, com acesso fluvial direto a Corumbá. Em 1913, ou seja, vinte anos depois, o núcleo já se ligava por terra até Bela Vista, Ponta Porã, Nioaque e Campo Grande, redistribuindo mercadorias para outras localidades entre as quais, Dourados (QUEIROZ, 1999: 450).

É no primeiro quartel do século X que se dá a concentração de não-índios na região onde depois surgiria o povoado de Dourados. Com a nucleação, pequena é claro, ocorre em 1914 a criação do Distrito de Paz de Dourados, vinculado ao município de Ponta Porã. Aos poucos as pessoas vão chegando, aumentando o contingente populacional, fixando residências e fazendas. A principal fonte econômica para o Distrito era a agropecuária, destacando-se a extração da erva-mate, praticada pela maioria dos moradores.

O povoado de Dourados, especificamente, ligava-se principalmente a caminhos de terra para Ponta Porã, Aquidauana e Campo Grande. De maneira geral o caminho seguia de Dourados para o oeste, passando pela Lagoa Grande (atual Itahum), e em seguida bifurcando-se, à esquerda chegava-se a “Ponta Porã; tomando-se à direita, passava-se por Vista Alegre e seguia-se para Nioaque e depois Aquidauana. Esse último

3 Este antigo Sul de Mato Grosso, o qual utilizo a sigla SMT para indicá-lo, corresponde ao atual Estado de Mato Grosso do Sul surgido da divisão de Mato Grosso em 1977, cuja capital é Campo Grande.

Roney Salina de Souza - A imigração de sírios e libaneses no antigo Sul de Mato Grosso: o caso de Dourados Revista História em Reflexão: Vol. 1 n. 1 – UFGD - Dourados Jan/Jun 2007 caminho tinha também uma bifurcação, depois de Vista Alegre, por onde se podia seguir diretamente para Campo Grande” 4 .

Neste período o centro principal de abastecimento de mercadorias para

Dourados, até meados da década de vinte, era Aquidauana. O depoimento de Antônio Capilé, que chegou a Dourados em 1918, confirma tal afirmação: “o comércio aqui era fraco, portanto os douradenses abasteciam-se em Aquidauana, principalmente”, e ocorreu até meados dos anos vinte (GRESSLER & SWENSSON, 1988: 67).

Em 1905 começou a construção da E. F. Noroeste do Brasil – NOB. O impacto econômico da ferrovia deu-se aos poucos, mas não demorou muito. Com o término, em 1914, do trecho Bauru-Porto Esperança, passando por Três Lagoas, Campo Grande, Aquidauana e Miranda, assiste-se a uma transferência de hegemonia econômica da cidade de Corumbá para Campo Grande – que se torna o principal pólo comercial da região, recebendo mercadorias diretamente de São Paulo. Mais tarde, a partir de fins dos anos 30, a NOB foi concluída, seus trilhos foram prolongados de Porto Esperança até Corumbá. Na mesma época, foi construído o ramal de Ponta Porã, que partia da estação de Indubrasil, próxima a Campo Grande, que seguia até a referida cidade fronteiriça. Nesse ramal, destacavam-se as estações de Maracaju, inaugurada em 1944, e de Itahum – esta última situada no município de Dourados, a cerca de 60 km da cidade, inaugurada em 1949 (QUEIROZ, 1999: 499).

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