A existência na história

A existência na história

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Verena Alberti

Este texto tem origem na preparação para o exame oral Rigorosum que prestei como requisito para a obtenção do diploma de doutor na Universidade de Siegen (Alemanha).1 "Hermenêutica" foi um dos temas da prova de teoria da literatura, e, de seu estudo, resultou um material bastante exaustivo, que agora sistematizo. Condicionado por esse ponto de partida, este artigo tem um caráter acima de tudo informativo, ou seja, busca as respostas à pergunta "O que é hermenêutica?" e, dentre elas, discute aquelas que constituem alguma relação com a história. Em outras palavras, estarei destacando aqui aquela "parte da hermenêutica" - pressupondo-se que isso exista - que, enquanto historiadores e cientistas sociais, devemos conhecer.

Há três justificativas para essa investida. Em primeiro lugar, creio que a hermenêutica é por demais importante no campo das ciências humanas para que não nos ocupemos dela. Em segundo lugar, ela é um assunto complicado e confuso, sendo louvável tentar desconfundi-la, ou, pelo menos, torná-la menos estranha. Por fim, a relação entre história e hermenêutica exerce uma atração especial, sem dúvida nenhuma, mas não deve ser aclamada sem reservas.2

1 - O que é hermenêutica

1.1 - Três movimentos

Tratando-se de tema de difícil apreensão, creio que a melhor forma de nos aproximarmos da hermenêutica - se não a única - é através dos autores tradicionalmente identificados a ela. Poderíamos dividir a "tradição hermenêutica" em três movimentos ou modos de abordagem. Em primeiro lugar, aquele que considera a hermenêutica como a

1 Concluí meu doutorado em Literatura pela Universidade de Siegen em julho de 1993, graças a uma bolsa de doutorado no exterior concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à licença de dois anos e dez meses que me foi dada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). 2 Por um acaso feliz, a redação deste texto coincidiu com o período em que o professor Hans Ulrich Gumbrecht, da Universidade de Stanford (EUA), ministrou o curso "Pós-histórico e pós-hermenêutico", baseado em seu próximo livro, Non-hermeneutics, no Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tomo a liberdade de retomar aqui algumas das idéias desenvolvidas pelo professor Gumbrecht, com base nas minhas anotações de aula. O curso de 30 horas foi ministrado em 10 sessões entre 13 e 24 de maio de 1996. Agradeço ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da PUC-RJ a oportunidade de tê-lo assistido.

ALBERTI, Verena. A existência na história: revelações e riscos da hermenêutica. Estudos históricos - Historiografia, Rio de Janeiro, v.9, nº 17, p.31-57, 1996.

ciência da interpretação de textos, independentemente (ou menos dependentemente) de uma concepção filosófica que lhe seja atrelada. Este me parece ser o movimento principal dos esforços de interpretação da Reforma e, anteriormente, da hermenêutica teológica medieval, bem como de Schleiermacher, entre outros. O segundo movimento diz respeito à hermenêutica filosófica, mais radical, digamos, do que o primeiro, na medida em que toma a compreensão hermenêutica como pressuposto da existência humana, ou melhor, como cooriginal ao Dasein - sendo "filosófico" aqui principalmente "ontológico".

Entre os dois movimentos poderíamos situar Wilhelm Dilthey, que foi sem dúvida o autor que mais contribuiu para a fixação dos laços entre a hermenêutica e a história. Sua abordagem ultrapassa a questão da interpretação de textos, na medida em que estabelece os fundamentos das ciências humanas, mas isso não permite identificá-la à hermenêutica filosófica de Heidegger e Gadamer, por exemplo. A hermenêutica de Dilthey é muito mais uma hermenêutica epistemológica - o que, em alguma medida, também poderia ser dito da de Karl-Otto Apel -, porque ela constitui o pressuposto do exercício das ciências humanas.

O terceiro movimento seria o da adoção da hermenêutica não como teoria ou método, e sim como um "modo de pensar" difundido e praticado em diversos campos - no cotidiano, em todo tipo de texto, na história, na psicanálise etc. - graças à sua pretensão ao universal. Esse movimento não pode ser ancorado a autores definidos, mas pode ser identificado toda vez que aquele "modo de pensar" aparece em produções que não se classificam como "hermenêuticas", mas que já mergulharam, por assim dizer, na forma do pensar hermenêutico. Ou seja: produções que buscam o sentido "mais profundo" ou "mais elevado" de textos, de acontecimentos, de sonhos etc.

Há uma certa tendência em se relacionar a maior ou menor difusão desse "modo de pensar" a configurações culturais. Assim, por exemplo, haveria, na Europa, uma ênfase em se colocar o tempo, o passado e as tradições em uma estrutura significativa, tanto para a conservação do passado quanto para o propósito de poder, ou ainda com vistas a uma "verdade histórica". Já nos Estados Unidos, o peso recairia sobre o pragmatismo, e a reinterpretação do passado dispensaria procedimentos simbólicos, de modo que a hermenêutica enquanto "modo de pensar" não seria tão difundida.3 Talvez esse "fundamento cultural" explique também a predominância de autores alemães entre aqueles tradicionalmente identificados à hermenêutica. De todo modo, a possibilidade de se relacionar aquele "modo de pensar" com determinadas culturas é mais um passo no sentido da distinção desse terceiro movimento, compensando seu caráter generalizante.

Enquanto "modo de pensar", então, a hermenêutica estará também lá onde não aparece especificamente como interpretação de textos, fundamentos epistemológicos ou imperativos ontológicos. E isso significa: nos meios de comunicação, nos livros, nos

3 Essa é a opinião de Karl Ludwig Pfeiffer, professor de anglística e de teoria da literatura na Universidade de Siegen de 1979 até pelo menos 1993, e meu argüidor na disciplina teoria da literatura. Quando me preparava para o exame, o professor Pfeiffer gentilmente me cedeu suas anotações sobre hermenêutica que serviram de base para um curso que ministrou na Universidade de Houston, nos Estados Unidos, em 1985, e das quais também lanço mão neste texto. É, aliás, de sua autoria a expressão "modo de pensar" (mode of thought) que tomo emprestada para caracterizar esse terceiro movimento.

filmes, em toda produção que privilegie um trabalho simbólico do passado tendo em vista o presente. Esse terceiro movimento é a meu ver um dos responsáveis pela dificuldade de se pensar a hermenêutica e de se tratá-la enquanto tema, porque é natural que algumas das teses dos autores sejam consideradas por demais evidentes, já que nós mesmos estamos mergulhados naquele "modo de pensar". Ou seja, é difícil tomar as devidas distâncias com relação ao tema, razão pela qual creio ser melhor investigá-lo lá onde se torna mais concreto: através da "história da hermenêutica".

1.2- A "história" da hermenêutica

1.2.1 - As "origens"

Dir-se-ia que a pretensão ao universal da hermenêutica tem uma explicação "de origem"

Etimologicamente, hermenêutica remonta ao verbo grego hermeneuein, geralmente traduzido por "interpretar", e ao substantivo hermeneia, "interpretação", objeto do tratado Peri hermeneias, "Da interpretação", de Aristóteles.4 O termo aparece também em Platão e na maior parte dos escritores antigos mais conhecidos, como Xenofonte, Plutarco e Eurípedes. O deus Hermes - não se sabe se seu nome deu origem ao termo, ou vice-versa - era associado, segundo Palmer, à função de transmutar aquilo que estivesse além do entendimento humano em uma forma que a inteligência humana pudesse compreender. Munido de chapéu e sapatos alados, Hermes era mensageiro e arauto dos deuses. Não são poucas as histórias da mitologia grega em que aparece enviado por Zeus, seu pai, para transmitir uma mensagem ou indicar caminhos.5 De acordo com Palmer, os gregos creditavam a Hermes a descoberta da linguagem e da escrita e sua função de mensageiro sugere, na origem da palavra hermenêutica, o processo de trazer para a compreensão algo que estivesse incompreensível. Mas parece que a jurisdição do deus alado era tão diversificada e mutante quanto a própria hermenêutica: conhecido por sua astúcia, Hermes era deus dos caminhos e das ruas, do comércio, dos oradores, dos pastores e dos ladrões (Antolykos, mestre entre os ladrões, avô de Odisseus, era seu filho). Além disso, guiava as almas pelo caminho para o mundo subterrâneo e conduzia os homens para o sono e para o sonho - tanto que, com seu bastão de arauto, podia inicialmente fazer adormecer e sonhar.6

Richard Palmer destaca três acepções do verbo hermeneuein no seu antigo uso: dizer (to say), no sentido de "exprimir em voz alta", explicar (to explain), e traduzir (to translate), no sentido não apenas de passar de uma língua para outra, mas também de traduzir "historicamente"- como, por exemplo, "traduzir" os mundos de Homero ou do Velho Testamento, que nos são estranhos. As três vertentes básicas do verbo grego são equivalentes, segundo Palmer, ao inglês to interpret e, podemos dizer também, ao verbo

4 Para a maioria das informações deste item, ver Palmer, 1969. 5 Ver Gustav Schwab, 1937. 6 Ver Schwab, id. e Meyers großes Taschen-Lexikon, 1983.

interpretar do português. A primeira acepção, passível de gerar alguma dificuldade, pode ser facilmente resgatada pela idéia de "interpretar uma canção": o substantivo hermeneia podia referir-se a uma recitação oral de Homero, portadora da mensagem do poeta. Tal significado encontra-se também no cristianismo, diz Palmer: o padre interpreta a palavra de Deus, ou seja, é seu portador, proclama algo do divino e está entre Deus e o homem.

Ainda segundo Palmer, em seu Peri hermeneias, Aristóteles define a interpretação tanto como enunciação - sugerindo, portanto, a primeira acepção de hermeneuein -, quanto como uma fala na qual há verdade e falsidade - o que já nos remeteria ao segundo significado, o de "explicar". O importante a notar, contudo, é que a interpretação permanece dissociada da lógica. Enquanto esta última resulta da comparação de enunciados, a hermeneia se constituiu na formulação mesma do enunciado, porque dizer algo sobre algo já é interpretar - dizer "Isto é um poema" já é uma interpretação. Disso resulta que a primeira interpretação - a formulação do enunciado - condiciona as demais, inclusive a análise lógica: a lógica trata da validade de enunciados, mas a interpretação precisa responder a uma pergunta anterior e mais fundamental, de que resulta o próprio sentido do enunciado.7

Essa identificação da hermenêutica com algo original e decisivo reaparece em outros autores. Ela é provavelmente mais um dos fatores que tornam a matéria tão difícil de ser apreendida.

1.2.2 - A interpretação da Bíblia

Os diferentes contextos de atualização da hermenêutica bíblica - desde a época dos patriarcas do judaísmo, passando pela teologia medieval e a Reforma, até a teologia moderna - têm em comum, segundo Palmer, a adoção de um sistema de interpretação no qual se procura o sentido oculto, ou seja, a verdade moral do texto. Por detrás dessa idéia está evidentemente uma certa concepção da linguagem que toma o sentido literal de um texto como uma sombra do "sentido em si", isto é, da verdade, sem considerar seu aspecto produtor.8 É interessante constatar que não foram poucas as necessidades de reinterpretação importantes da Bíblia. A primeira delas, no contexto da dispersão dos judeus pelo mundo greco-romano, a chamada Diáspora, tem em Philon, contemporâneo de Cristo e de São Paulo, seu principal exemplo. Representante do chamado pensamento judeu-alexandrino, Philon assumiu a tarefa de adaptar o texto sagrado a uma situação sem terra (a Palestina) e sem templo (de Jerusalém), recorrendo ao método alegórico para explicar episódios e personagens do Velho Testamento: o sentido literal tornava-se símbolo de verdades metafísicas ou morais. A própria Bíblia seria traduzida para o grego, respondendo às necessidades religiosas desse judaísmo da dispersão, sendo essa versão mais tarde adotada pela Igreja e condenada pelo judaísmo rabínico.9

7 Além de Palmer, Pfeiffer também discute essa questão da precedência da interpretação sobre a lógica. 8 Ver, a esse respeito, Costa Lima, 1989. 9 Ver Simon & Denoit, 1968.

Já durante o cristianismo, impôs-se uma segunda interpretação do Velho

Testamento, considerado agora uma obra profética, inspirada por Deus para anunciar a chegada de Cristo. Mais tarde, os dogmas da Igreja Católica acabariam por determinar como as Escrituras deveriam ser interpretadas e a teologia tornar-se-ia uma forma institucionalizada de interpretação.10

Fazendo frente a essa estabilidade da Igreja Católica - e, portanto, à estabilidade da interpretação da Bíblia -, a maioria dos autores identifica uma ruptura importante na Renascença. Para Karl-Otto Apel (1973), sempre ocorre um aprofundamento teórico da hermenêutica quando a relação com a tradição entra em crise e a pergunta sobre a interpretação correta de um texto se torna consciente - o que teria sido especialmente o caso do Humanismo e da Reforma. Ainda na virada do século, em 1900, Wilhelm Dilthey destacaria, em seu O nascimento da hermenêutica, dois elementos significativos surgidos na Renascença: a interpretação dos clássicos e a interpretação dos textos bíblicos. Segundo ele, ambos os elementos constituíram uma libertação do dogma católico, com base nos fundamentos da escola gramático-histórica, segundo a qual a interpretação estaria atrelada ao uso da língua (gramática) e às circunstâncias históricas. Hans-Georg Gadamer (1960) nota com razão que, para Dilthey, o surgimento da hermenêutica genuína acaba coincidindo com o surgimento de uma "consciência histórica" (o historisches Bewußtsein), o que, entretanto, para Gadamer, não constitui uma libertação, e sim uma mudança de natureza: de sua tarefa teológico-dogmática, a hermenêutica passaria a exercer a função de um órganon histórico. Em sua avaliação, o que houve no Humanismo e na Reforma foi uma redescoberta da literatura clássica e da Bíblia, cuja compreensão era determinada pela tradição dogmática da Igreja, e uma necessidade de aprendizado do grego, do hebreu e do latim clássico.

A principal figura desse novo movimento de interpretação da Bíblia foi sem dúvida

Martinho Lutero (1483-1546). Para ele, assinala Gadamer, a Sagrada Escritura devia ser interpretada diretamente, prescindindo-se da tradição, e literalmente, na medida em que o todo regia a parte e vice-versa. Nesse sentido, só seria permitido interpretar alegoricamente a Bíblia lá onde ela mesma fosse alegórica - por exemplo, onde Jesus contava uma parábola. Essa direção acabaria sucumbindo, contudo, à própria teologia da Reforma, também transformada em dogma, diz Gadamer: a fé protestante, e não mais o sentido literal, determinaria a interpretação da Bíblia. Assim, se, de um lado, a intenção de Lutero era a de tornar a interpretação da Bíblia uma experiência individual, de outro, os protestantes também necessitavam de regras para julgar as experiências de fé. Como resultado, Pfeiffer destaca a proliferação de manuais e teorias hermenêuticas nos séculos XVII e XVIII, ou seja, justamente o inverso da intenção de Lutero. Segundo Palmer, com efeito, entre 1720 e 1820, a cada ano aparecia novo manual para ajudar os pastores protestantes.

Depois de Lutero, os autores ainda destacam outros momentos da hermenêutica bíblica. Palmer, por exemplo, menciona, entre outros, o método histórico-crítico do século

10 Essa é, por exemplo, a conclusão a que chega Pfeiffer ao discutir o dogma da ecclesia catolica.

XVIII, a "teologia dialética" dos anos 1920 e a "nova hermenêutica" na teologia contemporânea. Todos esses movimentos teriam em comum o fato de tomarem a hermenêutica como teoria da exegese bíblica, ou seja, como dizendo respeito a métodos de interpretação de textos - no caso, de textos sagrados. Nesse sentido, eles estão inseridos naquele primeiro modo de abordagem que destaquei acima e que concerne predominantemente à ciência da interpretação, sem necessariamente implicar uma posição filosófica.

No mesmo grupo podem ser classificadas algumas das produções do século XVIII que visavam orientar a correta interpretação de textos à luz da razão, seja no domínio secular, seja no teológico. O filólogo Johan Martin Chladenius (1710-1759), por exemplo, defendia, em sua Introdução à correta interpretação de escritos racionais (1742), que a interpretação dependia exclusivamente da concepção racional da matéria: passagens obscuras seriam erros na concepção do autor.1 Palmer assinala que a hermenêutica filológica do século XVIII, marcada pelo racionalismo, estendia-se para a exegese bíblica: em um manual de 1761, por exemplo, lê-se que o sentido verbal das Escrituras deveria ser determinado da mesma maneira que o dos outros livros. No mesmo sentido, Spinoza teria declarado em seu Tratado teológico-político (1670) que a norma da exegese bíblica deveria ser a luz da razão, comum a tudo.12 Ou seja: o método da interpretação bíblica aproximavase da filologia clássica de Friedrich August Wolf (1759-1824), Friedrich Ast (1778-1841) e August Boeckh (1785-1867), entre outros, especialistas na interpretação e na tradução de textos antigos, através de uma metodologia positiva, espelhada nas ciências da natureza. Podemos dizer que os estudos que aliavam filologia e racionalismo no século XVIII estavam de alguma forma inseridos no movimento conhecido como "filosofia da história" (Geschichtsphilosophie), que explicava a trajetória da humanidade através do progresso da razão, das artes e das ciências. Alguns autores avaliam que, no momento em que essa "filosofia da história" deixa de ser convincente, ou seja, no momento em que a idéia de evolução começa a falhar, surge a hermenêutica filosófica como "modo de pensar" o passado e resolver o problema do "making sense of history".13

Em tempo

O que desfilei aqui, de uma só vez, como fazendo parte da "hermenêutica bíblica", desde a Diáspora, no século I, até o racionalismo teológico do século XVIII, é evidentemente um simples esboço, cuja serventia é a de tomarmos conhecimento de que tais movimentos e tais nomes alguma vez existiram.

Antes de continuar a "história da hermenêutica" tomando como trilha os autores canonizados como hermeneutas, cumpre determo-nos sobre aquilo que o professor

1 Esse exemplo é tratado por Pfeiffer, 1985. 12 Palmer, 1969, p. 38-s. 13 Pfeiffer desenvolve esse diagnóstico em suas notas de aula (1985).

Gumbrecht chamou de "emergência do campo hermenêutico", e que permite conferir alguma textura de relevo àquela "história" por demais linear.

Curiosamente, contudo, o "campo hermenêutico" a que se refere Gumbrecht emerge sem nenhum ancoramento a autores classicamente reconhecidos como hermeneutas. Bastante próximo daquilo que chamei acima de "modo de pensar" hermenêutico, o "campo hermenêutico" de Gumbrecht é a atitude frente ao mundo que se caracteriza pela metáfora de "ler o mundo". Sua emergência se dá no Renascimento, mas sua teorização só ocorre no século XIX, precisamente com Dilthey, diz Gumbrecht, como reação a um primeiro colapso do paradigma hermenêutico.

Dois importantes eixos estão na base da nova concepção do mundo como universo a ser decifrado, lido, interpretado. Em primeiro lugar, a oposição sujeito-objeto, consolidada por Descartes: a res cogitans, o sujeito, separa-se da res extensa, o objeto, inclusive o corpo humano, havendo um privilégio claro da primeira sobre a segunda. "Cogito ergo sum" nada mais é do que tornar a ontologia da existência humana unicamente dependente do espírito. O segundo eixo é aquele que se estabelece entre superfície e profundidade: cabe ao sujeito interpretar o mundo partindo da superfície em direção à profundidade. Se durante a Idade Média, o saber era finito e dado aos homens por Deus através da revelação, a partir da Renascença, toda relação com o mundo passa a ser feita à base da interpretação, que pressupõe a possibilidade permanente de aumento do saber, bem como a idéia do homem como produtor de conhecimento.14 Desde então, a superfície tem o valor de significante e a profundidade, o valor de significado - justamente o significado atribuído ao mundo por um sujeito humano -, apesar dessa relação só ter sido conceptualizada muito mais tarde, por Saussure. Deve-se ao sucesso do paradigma hermenêutico, diz Gumbrecht, o fato da superfície ser tida como secundária em relação à profundidade, ao conteúdo.

É importante ressaltar que, para Gumbrecht, o paradigma hermenêutico convive, desde o início, com sua crise. Mesmo no século XVIII, durante o apogeu da epistemologia do campo hermenêutico com o projeto iluminista, aparecem pontos críticos. Na introdução de D’Alembert à Encyclopédie, por exemplo, há um mapa do saber que pretende projetar o triunfo da razão iluminista, mas que é o próprio fracasso do projeto, de tão confuso, diz Gumbrecht. O mesmo ocorre com o fascínio dos pensadores do século XVIII pela idéia de delírio, que mostra, segundo Gumbrecht, a impossibilidade de separação entre res cogitans e res extensa.

Finalmente, no final do século XIX - contemporâneos a Dilthey, portanto - e mais acentuadamente no século X, movimentos opostos ao paradigma hermenêutico passaram a ganhar terreno, constituindo o "pós-hermenêutico" - assim chamado menos por ser uma "etapa" que sucede a hermenêutica do que por constituir um espaço de possibilidades de relação com o mundo fora da hermenêutica. Característico do pós-hermenêutico, ou, se não tanto, das crises do campo hermenêutico, seriam o desaparecimento do sujeito e o

14 Esta seria, segundo Gumbrecht, a principal diferença entre um hermeneuta da Bíblia na teologia medieval e um intérprete moderno: o intérprete medieval busca os sentidos da Bíblia que já existem, ele só faz apontar o que está revelado, sua interpretação é um ato dêitico; já o intérprete moderno se atribui o direito de um ato criativo.

privilégio da superfície e do corpo, em detrimento, respectivamente, da profundidade e do espírito.

Eis, portanto, em linhas gerais, em que consiste o campo hermenêutico para

Gumbrecht. Sem dúvida, ele coincide com aquilo que o próprio Gumbrecht também entende por modernidade, emergindo na primeira modernidade, ou seja, na Renascença, e diluindo-se na situação pós-moderna. Desse ponto de vista, a tarefa de discernir o que é hermenêutica que nos propusemos no início volta a ser ofuscada pelo "modo de pensar" - neste caso, a "modernidade" - no qual estamos imersos. Retornemos, pois, à nossa trilha de autores canonizados como hermeneutas.

1.2.3 - Hermenêutica como estudo da compreensão

A maior parte dos autores identifica a obra do teólogo, filósofo e pedagogo

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