Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

(Parte 5 de 8)

Também chamada de declarativa, a memória explícita semântica inclui as memórias que podem ser explicitadas pela linguagem. Este tipo de memória engloba aquilo que pode ser lembrado por meio das imagens, símbolos ou sistemas simbólicos. A capacidade da memória declarativa está ligada à organização de informações em padrão.

Pesquisas demonstram que o ser humano se lembra “mais facilmente” daquilo que está organizado segundo regras. Isto implica na existência de padrões internos. Todas as linguagens são organizadas por padrões: a linguagem das ciências, das várias áreas do conhecimento, a linguagem escrita, a matemática, a cartográfica, a linguagem da dança, da música. Toda atividade artística também depende de utilização de elementos que se organizam em padrões, que têm regras próprias em cada forma de arte.

Na escrita, os padrões aparecem nas cinco dimensões da linguagem, embora apareçam, mais fortemente, na sintaxe. Por isto, a sintaxe é o elemento forte, o instrumentador da língua escrita. A palavra solta é um símbolo, a palavra na construção sintática surge como estrutura. Na linguagem oral humana, o eixo forte do padrão é o verbo. Há maior resiliência no cérebro para os símbolos que representam a ação humana, uma vez que o movimento é o grande recurso na espécie para o desenvolvimento cultural e tecnológico, além de ser a matéria bruta primeira da comunicação entre humanos e de expressão das emoções.

As pessoas tendem a memorizar, mais facilmente, aquilo em que elas conseguem aplicar padrões. Para as aprendizagens escolares isto é fundamental: o ensino bem sucedido é aquele que “instrumentaliza” a pessoa para construir, aplicar, reconhecer e “manipular” padrões.

Memória operacional

Como o próprio nome diz, a memória operacional se ocupa das operações, ou seja, um sistema de ações organizadas, segundo a natureza do comportamento. Por exemplo, está na memória operacional o comportamento de andar, de dirigir, de dançar. São comportamentos que se efetuam, muito rapidamente, para os quais não há “tempo” para comandos do cérebro. São comportamentos que têm uma ordem de movimentos a ser seguida e esta ordem já está “fixada” na memória.

Na memória operacional estão as conjugações verbais, isto é, os tempos futuro, presente e passado do verbo. Assim, a organização da ação no tempo se realiza com a participação deste tipo de memória. Este fato tem implicações para as aprendizagens escolares. Com estas descobertas somos levados a rever o ensino da sintaxe em português: a gramática é necessária para o aluno, pois fornece estrutura para a apropriação e organização da linguagem escrita e a organização das informações em todas as matérias.

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Imaginação A Capacidade Imaginativa na Espécie Humana

Se considerarmos a evolução de nossa espécie, veremos que ela é pautada pela invenção, ou seja, pela criação de objetos, de sistemas, de linguagens, tecnologia, teorias, ciência, arte, códigos etc. Toda produção cultural é resultante de um processo cumulativo de invenções, pequenas e grandes, que dão base para as invenções futuras.

A comunicação, atividade primordial da espécie, ganha a cada geração novos processos, novas tecnologias. O ser humano dedica grande parte de sua criatividade a ampliar e desenvolver meios de comunicação e meios de transporte que facilitem os processos comunicativos e que tornem mais ágeis os deslocamentos das pessoas.

A possibilidade de criar depende, na nossa espécie, da imaginação, função psicológica pela qual nós somos capazes de unir elementos percebidos e experiências em novas redes de conexão. O funcionamento da imaginação e seu desenvolvimento, embora relacionados às outras funções psicológicas superiores, têm uma grande autonomia e se manifestam tanto na ação como no ato de aprender.

Desta forma, podemos dizer que para as aprendizagens escolares a imaginação desempenha um papel central e deve ser considerada no planejamento, na alocação de tempo das atividades dentro e fora da sala de aula, nas situações comuns do cotidiano escolar. Os alunos devem, também, ser acompanhados avaliativamente na evolução de sua imaginação.

A ligação entre imaginação e memória

Vygotsky (1990) trata da diferença entre reprodução e criação: ambas atividades têm apoio na memória, mas diferem pelo alcance temporal. Reproduzir algo, mentalmente, se apóia na experiência sensível anterior. Por exemplo, construo uma imagem mental da casa onde moravam meus avós, pelos elementos gravados na memória, mas crio uma imagem mental da casa dos avós de uma personagem em um romance a partir dos elementos oferecidos pelo autor. Ou seja, no segundo caso uso a imaginação para criar este espaço utilizando, com certeza, elementos percebidos, anteriormente, mas que se combinam entre si, de acordo com a relação dialógica estabelecida com o texto no ato da leitura, diferentemente, do primeiro caso em que busco a fidedignidade da imagem mental, tendo a casa concreta como referencial (Vygotsky, 1990).

Se considerarmos a evolução de nossa espécie, veremos que ela é pautada pela invenção, ou seja, pela criação de objetos, de sistemas, de linguagens, tecnologia, teorias, ciência, arte, códigos etc.

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Vygotsky coloca que a primeira experiência se apóia na análise do passado. Ela é uma reprodução do que se viveu, enquanto que no segundo é uma realização do presente projetada no futuro. A criação literária dá esta possibilidade de partilhamento na criação, pois possibilita ao leitor a superação do texto para a criação das imagens de cada personagem, que é constituída pelos dados oferecidos de sua personalidade, de suas ações, de suas formas de pensamento, criação de imagens do contexto.

A imaginação na realidade não se “desprega” da memória, mas recria com os elementos da memória. Imaginar implica, portanto, em se liberar das conexões que estão feitas dos elementos percebidos, para “re-utilizar” estes elementos em outras configurações.

Temos aí duas implicações importantes: primeiramente, que a imaginação não é dada na espécie, é construída. Segundo, que ela é parte integrante do processo de aprendizagem, porque aprender significa, exatamente, ser capaz de estabelecer conexões entre informações, construindo significado. Podemos ver que, neste segundo caso, a imaginação é base para o estabelecimento destas novas redes, uma vez que ela é a função psicológica que estabelece relações significativas entre elementos que não estavam conectados entre si. A imaginação cria condições de aprendizagem.

Temos assim que a relação entre imaginação e memória tem sentido duplo: a base para o funcionamento da imaginação são os elementos que estão contidos na memória e o próprio funcionamento da imaginação desenvolve a memória (por meio do processo imaginativo, novas mediações semióticas são realizadas, dando à pessoa uma maior complexidade aos sistemas contidos na memória de longa duração).

Porque a imaginação é importante na aprendizagem?

1. Ela está na origem da construção do conhecimento que vamos ensinar.

O conhecimento científico e o conhecimento estético foram produzidos a partir do exercício da imaginação humana nos vários períodos históricos.

2. Ela está na origem do conhecimento que será construído pelo aluno.

A imaginação motiva. Muitos educadores concordarão que a motivação é um fator importante para o educando aprender. Motivar implica em mobilização para, interesse em, envolvimento com o objeto de aprendizagem. Esta disponibilidade para aprender envolve, do ponto de vista psicológico, a imaginação.

Motivar implica em mobilização para, interesse em, envolvimento com o objeto de aprendizagem. Esta disponibilidade para aprender envolve, do ponto de vista psicológico, a imaginação.

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Por exemplo, podemos motivar o aluno para um fenômeno científico que será estudado com o concurso da mobilização da imaginação: como será que a energia elétrica surge na represa? Como será que a luz chega à lâmpada? Que será que acontece com a semente debaixo da terra? Como será que o computador guarda tanta informação? Porque o rio muda de cor?

Levantar hipóteses para qualquer destas questões implica em ter liberdade de pensamento. Isto é, a capacidade imaginativa no ser humano tem como base a liberação da experiência sensível imediata, desta forma a pessoa pode lidar, livremente, com o acervo mental que detém de imagens, informações, sensações colhidas nas várias experiências de vida, juntamente com as emoções e sentimentos que as acompanharam.

O desenvolvimento humano e a aprendizagem, na escola, envolvem, precisamente, esta dialética de receber informações por meio dos sentidos e ter a possibilidade de ir além delas pelas funções mentais.

Alguns aspectos do desenvolvimento na Educação Fundamental

No período de desenvolvimento que coincide com a entrada da criança no ensino fundamental (por volta do 7º ao 8º ano de vida, ou seja, após completar, respectivamente 6 e 7 anos) ocorrem algumas mudanças importantes em seu cérebro, que vão afetar, diretamente, sua atuação na escola.

À medida que a criança cresce, desenvolve a atenção voluntária que possibilita a ação prolongada, organizada a partir de regras que são colocadas por fontes externas. A atenção voluntária, ou seja, a possibilidade de organizar sua ação, seus comportamentos de acordo com ordens e regras ditadas por outras pessoas, como o adulto, por exemplo, é que possibilita à criança executar as tarefas que lhe são solicitadas em sala de aula.

A fala organiza a ação, por isso é importante para a criança murmurar para si os passos do que está fazendo. Este murmúrio, chamado de verbalização cognitiva, é essencial para a compreensão da ação e ocorre com muita freqüência nos anos iniciais que coincidem com o início da escolarização do ensino fundamental.

Neste período, também, a criança se interessa muito pelos colegas, constituindo grupinhos da amizade que passam a ter papel relevante em suas ações. Surge, assim, a importância do grupo.

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I. CURRÍCULO E DESENVOLVIMENTO HUMANO A – A Criança na Escola

Quando a criança entra na instituição educativa, sua experiência ali, o que lhe é ensinado tornam-se constitutivo de sua pessoa, modificandoa continuamente. Isto significa que todo e qualquer processo de ensinoaprendizagem se insere em um contexto mais amplo de constituição da pessoa, porque a aprendizagem na escola não se efetua como um processo paralelo e dissociado de outras vivências e de outras instâncias de apreensão e compreensão da realidade.

As vivências na escola e fora dela são constituídas por ações e interações que configuram, todas elas, o desenvolvimento da criança. Não cabe, assim, falar da experiência extraescolar e da experiência escolar como antagônicas na formação da pessoa. É equivocada, pois, a posição que supõe que o educando – que é aluno na instituição e criança fora dela (em casa, na turma da rua ou da igreja, na família) – desenvolva processos independentes em cada uma das situações. A questão relevante que se coloca é compreender como estas experiências se organizam no desenvolvimento da personalidade e da identidade na constituição do novo conhecimento.

As aprendizagens escolares são a efetivação das potencialidades da espécie. Resultam da articulação entre as possibilidades do desenvolvimento e as atividades que as efetivam, atividades que são ensinadas pelo professor. Quando acontece uma aprendizagem, ela interfere na direção do desenvolvimento.

O aluno constitui conhecimentos por meio de estratégias específicas que se modificam, inclusive, em função dos conteúdos aprendidos. Para que o conhecimento seja formado, há duas condições necessárias. Primeiramente, que a nova informação seja passível de ser compreendida pela criança, ou seja, precisa haver uma ligação possível entre aquilo que a criança já tem na memória e o que ela vai aprender. Em segundo lugar, que se estabeleça uma relação ativa da criança com o conteúdo a ser aprendido, de forma que os conteúdos sejam organizados e integrados ao acervo de conhecimentos de que ela dispõe em sua memória.

A aprendizagem é um processo múltiplo, isto é, a criança utiliza estratégias diversas para aprender, com variações de acordo com o período de desenvolvimento. Desta forma, todas as estratégias são importantes e não

A aprendizagem é um processo múltiplo, isto é, a criança utiliza estratégias diversas para aprender, com variações de acordo com o período de desenvolvimento. Desta forma, todas as estratégias são importantes e não são mutuamente exclusivas.

são mutuamente exclusivas. Podemos dizer que existem algumas estratégias que são importantes durante toda infância como observar, imitar e desenhar. Registrar, levantar hipóteses sobre os fatos e as coisas, testá-las são atividades que a escola pode desenvolver na criança a partir dessas estratégias.

Somente as situações que, de modo específico, problematizam o conhecimento levam à aprendizagem. Não é qualquer proposta ou qualquer interação em sala de aula, portanto, que promove a aprendizagem. Toda a atividade que aí se dê à criança precisa ter uma intenção clara, isto é, o objetivo precisa estar explicitado para o professor e para o aluno.

Para que ocorra a aprendizagem é necessário retomar-se o conteúdo em momentos diferentes, pois o domínio de um conteúdo dá-se ao longo do tempo. Trabalhar muitas vezes o mesmo conteúdo, de formas diferentes, promove a ampliação progressiva dos conceitos.

O conhecimento atual sobre o desenvolvimento da criança e do jovem nos leva a ampliar a concepção de currículo vigente: currículos são os conteúdos, as informações e as atividades humanas necessárias para formar novas memórias que servirão de suporte para aquisição de conhecimentos posteriores, assim como para tomada de decisão e solução de problemas na vida cotidiana.

Sabemos também que determinados conteúdos promovem a formação de redes neuronais que dão suporte ao pensamento e que são base para outras aprendizagens escolares. Mais ainda, tais redes neuronais podem ser utilizadas no futuro em situações de vida cotidiana em sociedade, no trabalho, em família. Assim, um conhecimento escolar pode gerar comportamentos não ligados à “matéria” ou “disciplina” (conhecimento formal). Por exemplo, aprender álgebra leva à formação de redes neuronais, no cérebro, relacionadas ao pensamento crítico. Como?

Nos números naturais, 1 é um símbolo para uma unidade de qualquer coisa (objeto, ser animado, elementos da natureza). Aqui se estabelece uma relação unívoca entre 1 (símbolo) e a quantidade que ele representa, que é sempre a mesma.

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