Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

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Já na álgebra, o símbolo pode ter qualquer valor dependendo das relações entre os outros elementos que compõem a sentença matemática. Em x = 4a + 2b, o valor de x poderá variar, infinitamente, de acordo com os valores que forem atribuídos a a e a b. Poderá, também, ser um número inteiro, positivo ou negativo, fração, decimal etc. A rede neuronal que se estabelece, então, é múltipla e é base para o deslocamento do pensamento.

Assim, quem estuda álgebra terá um componente em seu pensamento, que lhe possibilitará desenvolver o pensamento crítico. Ser crítico em algo é

Somente as situações que, de modo específico, problematizam o conhecimento levam à aprendizagem. Não é qualquer proposta ou qualquer interação em sala de aula, portanto, que promove a aprendizagem.

Currículo e desen v olviment o humano poder ver a situação, o fato, a pessoa, o objeto de conhecimento em mais de uma perspectiva para poder comparar, avaliar e decidir. Ou seja, precisa ter discernimento, que é uma característica de um pensamento crítico.

Ser capaz de realizar estas operações mentais é um recurso para refletir e tomar decisões a respeito de qualquer ato na vida cotidiana.

B – A Distinção entre Desenvolvimento e Aprendizagens Escolares

Toda criança se desenvolve indo ou não à escola. O que é do domínio do desenvolvimento humano não deixa de acontecer se a criança não for à escola, ou se ela for e se encontrar em uma situação de não aprendizagem. Assim, a memória infantil, a função simbólica, a percepção vão se desenvolver segundo o caminho dado pela genética da espécie.

Certas aprendizagens são da alçada do desenvolvimento da espécie. Por exemplo, a aprendizagem das figuras geométricas, no nível da percepção, é resultado da genética da espécie. Toda criança vai desenvolver do 4° ao 7° ano de vida, a representação gráfica das figuras geométricas começando do círculo passando para o quadrado e triângulo até chegar às figuras mais complexas (por exemplo, um quadrado dividido em quatro quadrados menores).

Da mesma forma, a capacidade de desenhar (em um suporte qualquer como o papel, casca de árvore, computador, areia etc.) as imagens mentais formadas a partir da percepção (com os cinco sentidos) e do movimento é uma possibilidade dada pelo desenvolvimento e não depende do ensino escolar. O ser humano aprende a distinguir as cores que estão em seu meio, nomeá-las e utilizá-las na vida cotidiana independentemente de ir à escola.

O que não é do domínio do desenvolvimento, precisa ser ensinado.

Apropriar-se da língua escrita, ler e escrever, formar conceitos de história, geografia, ecologia e de outras matérias, desenvolver o pensamento matemático, aprender a escrever matematicamente uma operação, tudo isto depende de ensino.

Portanto, na elaboração do currículo deve-se considerar o que é do desenvolvimento da espécie. Para promover o desenvolvimento humano, a escola deveria partir do que a criança desenvolve por si mesma e propor novas aprendizagens que façam uso destas manifestações da função simbólica que são próprias da espécie. Adaptado de Neurociências e Aprendizagens, da autora. São Paulo, Editora Sobradinho 107, 2004.

Toda criança se desenvolve indo ou não à escola. O que é do domínio do desenvolvimento humano não deixa de acontecer se a criança não for à escola, ou se ela for e se encontrar em uma situação de não aprendizagem.

Se essas aprendizagens – cores, figuras geométricas, desenhos – são do desenvolvimento humano, o que caberia à escola?

Utilizar estas aquisições para se apropriar dos conhecimentos escolares: utilizar as figuras geométricas para medir, para contar, para calcular área, para organizar espaços, para aprender álgebra, para desenvolver o pensamento espacial.

Trabalhar as cores em suas texturas, em suas nuances possíveis, aprender sobre a composição das cores: como se forma o marrom? O laranja? O cinza?

Usar o desenho para o registro, para desenvolver a percepção visual e tátil; para desenvolver outros instrumentos mentais como mapas, esquemas; para criar situações de escrita como história em quadrinhos.

Todas estas atividades dependem de ensino. Elas desenvolvem o pensamento espacial, formam a base para conceitos científicos, criam memórias que podem ser utilizadas no desenvolvimento do pensamento científico e do conhecimento estético, criam possibilidades para o exercício da imaginação.

Toda criança desenha. O desenho é manifestação da função simbólica. O desenho é o registro do movimento em um suporte. O traçado se constitui, gradativamente, na criança pequena, envolvendo vários elementos como esquema corporal, movimento, ao mesmo tempo em que a criança cria significados. O traçado no papel “guia” a construção do desenho ao mesmo tempo em que a “idéia” dirige o movimento. A “idéia” é constituída por imagens, percepções, movimentos vividos que a criança quer expressar no papel.

Em seu processo de desenvolvimento, a criança pequena desenha muito, o domínio do traçado é progressivo. A perícia que a criança desenvolve, ao desenhar, será utilizada na escolarização para escrever, para apropriar-se dos elementos simbólicos das linguagens das várias áreas de conhecimento, para aprender a utilizar-se da geometria, fazer mapas, diagramas, esquemas que são instrumentos do pensamento.

No desenho está implícita uma ação, ou seja, há uma história para a criança no desenho que ela realizou. Ele inclui, portanto, a narrativa: mesmo que para o adulto ele pareça algo estático, unidimensional no papel, para a criança é ativo, dinâmico, tridimensional e seqüencial.

Ao desenhar, a criança organiza sua experiência para compreendê-la. O ato de desenhar não é, simplesmente, uma atividade lúdica, ele é ação do conhecimento. O desenho é, pois, parte constitutiva do processo de desenvolvimento da criança. Por ser importante no desenvolvimento infantil, o desenho não deve ser entendido na escola como uma atividade complementar, mas como atividade funcional, tanto na Educação Infantil como nas séries iniciais do Ensino Fundamental.

Currículo e desen v olviment o humano

A aquisição do conhecimento não é fruto de discursos e intenções, mas sim de um trabalho sistemático, adequado à natureza biológica e cultural do desenvolvimento humano. Currículo envolve o conteúdo da área de conhecimento e as atividades necessárias para que o aluno se aproprie desse conhecimento.

Aprender é uma atividade complexa que exige do ser humano procedimentos diferenciados segundo a natureza do conhecimento.

Para adquirir o conhecimento formal, que é mais elaborado do que os outros tipos de conhecimento ao nível das relações e mais abrangente ao nível dos conceitos constituídos, o ser humano precisa realizar formas de atividades específicas, próprias do funcionamento cerebral (principalmente a memória) e do desenvolvimento cultural. O ensino destas atividades é função da instituição escolar.

Atividades são produtos do desenvolvimento cultural da espécie e precisam ser passadas de geração para geração.

Um pressuposto básico da teoria histórico-cultural do desenvolvimento humano é que a pessoa, ao se apropriar do conhecimento formal, assimila as formas de atividade historicamente constituídas que levaram à formulação do conhecimento. Para utilizá-las, o aluno precisa ter consciência delas, ou seja, saber qual é a metodologia.

São assim integrantes do processo educativo as atividades que desenvolvem as funções psíquicas elementares, como percepção, memória, pensamento, que têm, cada uma, sua lógica de desenvolvimento. Por meio da prática pedagógica, essas funções psíquicas elementares transformam-se em funções psíquicas superiores: a memória lógica, a percepção categorial, o pensamento verbal (Davidov, 1988).

De fato, segundo Wallon (1990), a atividade espontânea da criança não é suficiente para o processo de aprendizagem do conhecimento formal, pois este exige uma sistematização que não brota da própria atividade da criança. Para ele existe, entre a herança social que a criança levará pela vida e suas capacidades espontâneas, uma distância que considera desproporcional. Essa herança é o conhecimento acumulado e o desenvolvimento cultural da espécie.

Há, entre o que a criança faz sozinha, partindo da sua própria intenção, e o conhecimento a ser adquirido, formalmente organizado,

um percurso que só poderá ser feito com a intervenção dos indivíduosAdaptado de Neurociências e Aprendizagens, da autora. São Paulo, Editora Sobradinho 107, 2004.

Aprender é uma atividade complexa que exige do ser humano procedimentos diferenciados segundo a natureza do conhecimento.

mais experimentados da espécie. Inclui-se, entre eles, evidentemente, o professor.

Com o papel historicamente definido de socializador do conhecimento formal, o professor deve ser incluído, juntamente com o aluno, no centro da discussão sobre o currículo. Cabem a ele tarefas específicas, no sentido de constituir no educando uma relação de curiosidade e indagação com o saber, bem como consolidar as formas de atividade que levam à aprendizagem. Desenvolver no aluno a atividade de estudo é parte integrante e fundamental do processo de ensino.

O ensino deve fornecer situações em que se possibilite a formação de novas categorias de pensamento e de novos conceitos, a partir das informações e experiências novas trazidas pelo professor. Se este processo for bem orientado, o aluno constituirá novos conceitos que foram instigados pelo novo conhecimento e pela forma como foi conduzida a sua relação com ele.

É exatamente nesta forma de entrar em relação com o conhecimento que se insere a atividade de estudo. É por meio do procedimento proposto ao educando para agir e interagir com o conteúdo que se cria esta relação. Este procedimento não se constitui espontaneamente, no ser humano, a partir de sua própria condição biológica.

Quais atividades são fundamentais para a aprendizagem dos conhecimentos escolares? A atividade de estudo mais essencial à espécie é a leitura.

Além da leitura, são atividades que envolvam • Observação

Elas desenvolvem comportamentos relacionados a perceber, refletir, compreender e expor. Desenvolvem redes neuronais que são base para a formação de conceitos, apropriação de método, criação de categorias de pensamento.

- Observação

A observação é realizada pelos sentidos humanos e ampliada pelo movimento. Basicamente, a observação é o exercício de um dos sentidos ou da integração de dois ou mais sentidos, com o objetivo de “perceber” o que existe, o que se passa no contexto, os movimentos dos elementos da natureza, os componentes de um fato ou situação, a ordem de eventos, a comunicação entre as pessoas.

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A observação é um comportamento já utilizado pelo bebê. A criança, em seus primeiros anos de vida, observa as pessoas para imitá-las aprendendo, assim, as formas humanas de comunicação; observa os objetos e animais para conhecê-los e usá-los em suas brincadeiras, desenvolvendo a função simbólica.

A observação como atividade de estudo

A observação como atividade de estudo precisa ser dirigida e abordará elementos e objetos distintos conforme a disciplina.

Ela pode ser potencializada, se o aluno souber que será convidado a expor, posteriormente, suas idéias ou os fatos observados. Ou que será solicitado, de alguma forma, a selecionar, organizar, avaliar ou comunicar suas observações. Essa potencialização vai ocorrer, porque haverá a integração necessária de planejamento das várias etapas desde a observação até a apresentação. Ter um objetivo para a observação, envolvendo a comunicação com o outro, leva o aluno a mobilizar mais a atenção.

2- Registro

Para que os elementos coletados pela observação não se percam, é importante que ela seja acompanhada pelo registro. O registro é um suporte externo para a memória.

O registro pode ser feito com desenhos e escrita. Câmera fotográfica, gravador, vídeo podem ser utilizados como apoio para registro.

Ele pode ser in loco ou “de memória”. Registro in loco é quando ele é feito, concomitantemente, com a observação, que leva ao desenvolvimento da percepção e facilita os processos de atenção. “De memória” quando é feito após a observação.

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