Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

Indagações sobre currículos - currículo e desenvolvimento humano

(Parte 7 de 8)

O registro tem duas funções em relação à atividade cerebral: de estabelecimento de redes neuronais e de fortalecimento de redes já existentes. Quando escrevemos algo, mobilizamos várias áreas do cérebro e tomamos consciência de coisas das quais somente o pensamento (linguagem interna) não dá conta. Ou seja, várias coisas se organizam entre si no ato de escrever: a própria ação (movimento) leva à estimulação de redes neuronais já existentes e à formação de novas conexões entre os neurônios. Pode haver um reforço ou aumento da rede, com fortalecimento da memória.

É importante que o professor, em seu planejamento, estabeleça tempos determinados para ensinar aos alunos registrar e fazer do registro hábito de estudo. É interessante selecionar algumas formas de registro e ensiná-las aos alunos, pois registrar é um comportamento escolar que se aprende e depende de ensino. Por exemplo, o professor pode eleger, inicialmente, uma ou duas práticas utilizando formas de registro, com desenho e escrita e trabalhar com elas em vários momentos.

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Observação e registro podem vir juntos e ser utilizados em situações diferentes para cada área de conhecimento, pois contribuem para a formação de conceitos.

Abaixo temos três exemplos de registro que podem ser propostos aos alunos.

Neste caderno, o aluno realiza anotações de todo tipo, sempre datadas.

Pode-se orientá-lo a observar e a registrar o contexto (onde), a ação / atividade (como), o tempo (quando). Pode-se incluir o planejamento de ações e idéias “soltas” que ocorram. Pode-se, também, formular perguntas. O caderno pode ser um local de registro de possíveis soluções para os problemas ou desafios colocados para toda classe. Pode ser, ainda, um espaço para o registro de relatos, como veremos adiante.

O professor pode estabelecer, para este caderno, o uso de sistemas simbólicos, como a escrita e desenhos, propor outros como sinopses, narrativas visuais (como, por exemplo, história em quadrinhos) e assim por diante.

2.2 Caderno de Evocações

Caderno em que a criança relata, diariamente, o que foi feito no dia anterior. É um excelente exercício de evocação da memória. Reforça as conexões neuronais realizadas e pode servir como base para planejamentos futuros. Serve de apoio externo para a memória. Em pesquisa – intervenção de cunho etnográfico - realizada pela autora, em Chicago, o uso de um caderno de anotações para os alunos escreverem o que fizeram no dia e o que aprenderam, e de recordar, no início da aula do dia seguinte, suas aprendizagens, provou ser uma medida eficaz na aprendizagem de conceitos.

Uma professora da rede publica de ensino desenvolveu esta idéia com um caderno em uma atividade que ela chamou de Recordando. Todo início de aula, as crianças escreviam o que haviam feito no dia anterior. A professora transformou o caderno, também, em oportunidade de diálogo ao comentar, pessoalmente, cada entrada que os alunos faziam no caderno, “conversando” com o aluno por meio da escrita.

A seguir o depoimento da Professora.

O Recordando na prática da sala de aula é o direito do aluno e da aluna serem personagens das suas produções.

O educador precisa ser inquieto nesta rotina de trabalhador da educação.

Todos os dias estão à nossa frente seres que esperam de nós algo que vai fazê- los serem melhores amanhã e aí está o desafio.

Sou professora de alunos e alunas da Fase IV, 10 anos, no Ciclo de Formação Humana na rede estadual.

Currículo e desen v olviment o humano

Na inquietude do trabalho e nos encontros freqüentes com a Elvira Lima no período de 2002 a 2004, sempre dialogamos sobre o cotidiano e ela sempre me sugeria dinâmicas no trabalho que poderiam trazer resultados positivos para o educando. Um dia ela disse: - Por que você não pede aos alunos para registrarem a aula anterior? Achei meio complicado no primeiro momento, isto foi no 2º semestre de 200 . Assimilei a proposta: uma semana depois comecei. O 1º passo foi escolher com a turma como chamaria este momento e no consenso com alunos e alunas ficou o nome RECORDANDO.

Tornou-se uma dinâmica natural nas minhas turmas seguintes, já incorporada, também, pela família. Hoje outra turma da escola também produz o Recordando.

O QUE MUDA COM O RECORDANDO? Tudo. Nos dois primeiros meses o resultado é um pouco frustrante: os alunos não estão acostumados a relembrar o dia anterior, demonstram uma certa limitação. Mas dois meses após, o texto que, no início, tinha uma ou duas frases, passa a ter dois ou mais parágrafos. A organização de pensamento surge, o vocabulário enriquece muito e os alunos são capazes de manifestar o que na aula anterior não foi bom para ele, como até “professora, queria você explicasse mais as continhas de 2 números”, e é uma oportunidade de me avaliar também. Sempre estimulo a leitura do Recordando, para o coletivo da sala de aula.

Como o RECORDANDO permite uma liberdade de construção e é um incentivo à escrita, porque não é uma produção com um eixo determinado pelo professor, os alunos manifestam mais prazer para a produção do texto.

No ano de 2005, a Turma Prateada passou a incluir o relato de todo o seu dia no Recordando. Acontecia muito raramente, mas acontecia do aluno ter ido à aula e na hora de escrever o Recordando o tempo vivido na escola não aparecer. Isto me preocupa muito, pois foi um dia em que a escola não significou nada, não existe em sua memória, a sua vida após a aula foi muito mais importante. Normalmente estabeleço um momento para comentar os Recordandos lidos em voz alta para o coletivo da sala, sempre respeitando a individualidade de cada um e, também, acrescentando fatos acontecidos em sala que não foram lembrados.

Procuro também utilizar textos do Recordando para atividades em sala, sem identificar o autor. Este é um momento muito rico, levando à melhoria significativa na escrita e à inclusão de palavras novas em seu vocabulário. Tenho ficado muito atenta para não se tornar uma atividade mecânica, porque não é este o objetivo.

Este ano a turma já deu início ao Recordando. O que mais tem me surpreendido é o registro do momento coletivo vivido com todos os alunos da escola. Tivemos três aulões de Capoeira Angola (com a participação de todos os alunos), e no outro dia relatam com tanta precisão e detalhes. Mesmo aqueles que não jogam a capoeira, conseguem expressar com muita clareza o que observam.

O Recordando para mim é um achado, pois a partir dele o processo ensino - aprendizagem na sala tem um outro olhar. É entender as diferenças, é construir junto e é, também, reelaborar toda uma prática acomodada pelo tempo.

(Depoimento escrito da Professora)

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2.3 Dicionário

Dicionário feito pelo aluno, geralmente, com folhas de fichário que podem ser reorganizadas à medida que vão entrando novos verbetes. Nele, o aluno dá entrada às palavras (verbetes) que vão surgindo nas aulas. O aluno pesquisa a informação e escreve no dicionário, podendo ilustrá-lo. O professor pode determinar cinco verbetes iniciais do assunto para estabelecer um padrão orientador.

Esta foi uma prática adotada com grande sucesso em um projeto de alfabetização de adolescentes que não haviam aprendido a ler e a escrever, ao longo de anos de escolarização, em uma escola pública municipal. Novas situações de escrita como esta possibilitam aos alunos, que não estão aprendendo, criar uma “relação nova” e positiva com o ato de escrever, que é fundamental para que eles se sintam capazes de aprender e, efetivamente, aprendam.

3- Organização

Para a organização, a pessoa dispõe de inúmeras possibilidades desenvolvidas ao longo da evolução da espécie.

Mapas, diagramas, esquemas, sinopses, redes conceituais, listas, desenhos, representações tridimensionais (maquete, modelagem, escultura, montagem etc.) são algumas das possibilidades de organização do que foi observado e registrado. Esta organização pode servir somente a quem o faz, como uma “atividade de pensamento externalizada”. Ou pode, também, visar a uma comunicação ao outro. É interessante desenvolver ambas as formas, pois elas desenvolvem aspectos distintos do pensamento e mobilizam funções diferenciadas no cérebro. Todas estas atividades de organização formam redes neuronais de suporte ao pensamento e de estruturas na memória.

Fazer mapas, por exemplo, já foi uma atividade comum no ensino fundamental décadas atrás. Aos poucos essa atividade foi sendo substituída pelos desenhos com moldes de plástico, pelo modelo mimeografado ou xerocopiado e, mais recentemente, pelas imagens tiradas da Internet. Desta forma, modificou-se o significado de se fazer mapas do ponto de vista das formações mentais no pensamento do aluno.

O que a realização de um mapa mobiliza? A imaginação – pela evocação das imagens da memória e a reorganização necessária para “montar” as relações espaciais.

O exercício da memória – pela evocação de coisas percebidas e guardadas pela memória de longa duração. Por meio da atividade de desenho ou maquete, há reforço das conexões neuronais e desenvolvimento do pensamento espacial.

Desenvolvimento da percepção visual –por meio da observação e registro simultâneo, modelos perceptivos são formados e ampliados. Isto vai

Currículo e desen v olviment o humano ajudar muito a aprendizagem de conceitos científicos em outras áreas do conhecimento.

Proporção – o trabalho com mapas permite desenvolver, no aluno, o conceito de proporção, o que se faz com escala. “Pensar” em escala é bastante importante nos cálculos mentais, em vários tipos de profissão e, também, para resolver problemas da vida cotidiana: quanto comprar de pano para fazer uma cortina? Quanto precisa de tinta para pintar um quarto? O que dá para colocar em um quarto de 3m x 4m (ou 12m2)? E assim por diante.

- Relato

O relato é uma atividade que se apóia na organização das informações ou dados, porém, vai além, ao exigir uma narrativa com consistência interna, coerência e seqüência lógica.

Ele pode assumir várias formas, com ou sem o uso de imagens em suportes variados (papel, lousa, computador, datashow, painéis).

Habituar o aluno a fazer relatos escritos é de grande funcionalidade para o desenvolvimento humano, pois a escrita provoca a formação de redes neuronais estáveis, o que contribui muito para o armazenamento de informações na memória de longa duração e para a formação de conceitos.

- Comunicação

A comunicação pode ser oral, escrita, imagética (com imagens paradas ou imagens em movimento), com construções tridimensionais. Pode ter como suporte cartaz, livro, folheto, propaganda, website etc. Ou pode ser feita por meio de animação, filme, vídeo, seqüência de fotos, datashow.

Temos inúmeras formas de comunicar ao outro, de comunicar idéias ou informações. Por exemplo, pela linguagem oral, pela linguagem escrita, por desenho (várias técnicas), colagem, escultura (papel machê, sucata), história em quadrinhos, charge, foto (feita com máquina comum ou máquina de lata), vídeo, CD rom, música, teatro – mudo, de bonecos feitos com palito de sorvete, marionetes de dedo, de sombras –, dramatização, comédia, animação (desde cinema com caixa de sapatos, com imagens passadas em rolo até a realização de animação possibilitada, hoje, por vários softwares de computador).

Todas estas formas de comunicação são exercícios da função simbólica, portanto, sempre importantes para os alunos nas várias idades. Segundo o período de desenvolvimento, algumas formas coincidem com estratégias de desenvolvimento próprias da idade: do 4° ao 7° ano de vida, o desenho e a dramatização (faz-de-conta); na adolescência, o teatro e a música são atividades fortemente motivadoras.

A atividade de comunicação permite agrupar alunos do mesmo ciclo numa mesma atividade (no caso de redes de ensino onde exista o sistema de reorganização de turmas) ou em atividades coletivas programadas pelo coletivo da escola, envolvendo séries distintas, no caso de seriação.

Pode ser utilizado o procedimento de monitor: alunos mais velhos são encarregados de orientar crianças menores em várias das atividades, orientar ou de ensinar pequenos grupos ou duplas de outros alunos.

Na ação de explicar como se faz e na ação de monitorar passo a passo a realização da ação, o “monitor” é solicitado a trabalhar com os conceitos envolvidos, o que ajuda o desenvolvimento do seu próprio pensamento.

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