Educação Ambiental em Zôo

Educação Ambiental em Zôo

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Rev. eletrônica Mestr. Educ. Ambient. ISSN 1517-1256, Volume 13, julho a dezembro de 2004

Volume 13, julho a dezembro de 2004.

Educação Ambiental – Experiências dos Zoológicos Brasileiros

Grasiely de Oliveira Costa

Bióloga pela Universidade Estadual do Ceará grasielycosta@yahoo.com.br

A visão sobre o meio ambiente vem mudando ao longo o tempo e, atualmente, muita atenção tem sido dada à questões como desmatamento, poluição e extinção de espécies vegetais e animais. Os zoológicos evoluíram juntamente com os princípios ambientais e hoje atuam em busca de técnicas eficazes para a preservação da fauna silvestre e, ao mesmo tempo, realizam trabalhos de Educação Ambiental que, nos dias atuais, está incluída entre os principais objetivos dessas instituições. Em diversas cidades, os zoológicos são uma das principais áreas de lazer e recreação, onde as escolas realizam aulas práticas e, nos finais de semana, reúnem inúmeras famílias que lá encontram um lugar tranqüilo para diversão. Nesse contexto, os trabalhos de Educação Ambiental implantados nos zoológicos dinamizam as programações e tornam as visitas mais atrativas. Dessa forma, o objetivo do presente trabalho foi discutir a importância e relatar as experiências dos programas de Educação Ambiental de alguns zoológicos brasileiros. Observa-se a tendência de implantação de programas lúdicos, com grande participação popular e que extrapolam as dependências dos zoológicos, sendo, muitas vezes, levados às escolas e comunidades da região onde o zoológico está localizado.

PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental, Zoológico, Fauna Silvestre, Conservação da Biodiversidade.

Rev. eletrônica Mestr. Educ. Ambient. ISSN 1517-1256, Volume 13, julho a dezembro de 2004

Parques zoológicos são locais de recreação, mas também podem ser definidos como museus, uma vez que são instituições que se ocupam com a conservação, pesquisa e comunicação de elementos naturais, neste caso, considerando-se os animais (ZOLCSAK, 2002).

Segundo FIGUEIREDO (2001), além da conservação, outras importantes funções dos zoológicos são o lazer das populações e a Educação Ambiental que, por sua vez, é de extrema importância para a conscientização das pessoas, mostrando a importância da conservação da biodiversidade, incluindo as espécies da fauna ameaçadas de extinção.

Atualmente, grande parte dos zoológicos brasileiros realiza programas de Educação

Ambiental e, muitas vezes, tais programas são responsáveis pelo aumento do número de visitantes, uma vez que passam a incentivar a visitação, principalmente de escolas.

Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho é discutir a importância e relatar as experiências dos programas de Educação Ambiental de alguns zoológicos brasileiros.

O desenvolvimento histórico dos zoológicos tem sido um espelho das mudanças de opinião e sentimento acerca do relacionamento entre os seres humanos e animais (MENCH & KREGER, 1996).

Há grandes dificuldades em se determinar qual foi a primeira coleção de animais mantida em cativeiro devido à falta de registros das coleções mais antigas. Tais registros, quando existentes, são em grande parte incompletos e artificiais (FIGUEIREDO, 2001).

De acordo com WHEATER apud MERGULHÃO, (1997:193) a história mostra-nos que o hábito de colecionar animais em cativeiro vem desde a antigüidade, entre os imperadores chineses, os astecas e os faraós egípcios. Esse costume continuou entre os nobres até o Século XVIII, quando se formaram os primeiros zoológicos na Europa; Viena em 1752, Paris em 1793 e Londres em 1826.

Praticamente todas as grandes civilizações antigas mantiveram coleções de animais, uma vez que esse hábito era sinal de riqueza e poder dos governantes da época, que se sentiam mais fortes quando cercados de animais perigosos e exóticos. Alguns pesquisadores consideram o primeiro zoológico organizado como sendo o do Rei Pitolomeu I do Egito. Essa coleção foi herdada de Alexandre, o Grande, que durante as conquistas pelo mundo entre os anos 336 e 323 a. C. obteve animais como elefantes, ursos, macacos e outros. Apesar de ter sido um grande conquistador, Alexandre cuidava muito bem de sua coleção, que se diversificou com o passar do tempo (FIGUEIREDO, 2001).

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Já MENCH & KREGER (1996) dizem que o primeiro jardim zoológico verdadeiro foi estabelecido no “Jardin des Plantes” em Paris, no final do Século XVIII, devido, principalmente, às circunstâncias políticas, mas também pela influência de naturalistas da época que argumentaram que os jardins botânicos de Paris não estavam completos e, para serem considerados museus de história natural era necessária a presença de animais.

A grande maioria dos zoológicos europeus e americanos passou a se estabelecer nos

Séculos XIX e X devido ao desenvolvimento das cidades e ao uso e ocupação de áreas naturais, o que tornava essas instituições importantes na conservação da vida (FIGUEIREDO, 2001).

Assim como os zoológicos se desenvolveram bastante durante o Século XIX, os protestos contra eles também cresceram consideravelmente. Uma área de controvérsia foi a alimentação, em público, de mamíferos vivos para cobras e grandes carnívoros, a qual era combatida por Charles Dickens bem como pelos chamados “Darwinianos”. O primeiro dizia que isso era terrível para a presa, que era humilhada diante dos espectadores, já os segundos achavam errado animais “superiores” servirem de alimento a animais “inferiores” (MENCH & KREGER, 1996).

À medida que o espírito científico aumentava durante os Séculos XVIII e XIX, os zoológicos passaram a ser vistos como locais de estudo, e não apenas lugares para diversão. Com o desenvolvimento de pesquisas sobre o comportamento dos animais na natureza, observou-se a necessidade de enriquecer os recintos com elementos que os tornassem semelhantes ao habitat natural do animal, tais como abrigos, galhos e tocas, dentre outros. Com o passar do tempo, recintos com grades e barras foram substituídos por fossos, valas e outra barreiras invisíveis (COSTA, 2003).

No Brasil, os zoológicos surgiram acompanhando a concepção destas instituições da

Europa. O primeiro zoológico do Brasil surgiu na última década do Século XIX, quando o Museu Emílio Goeldi, no Pará, iniciou a criação de uma pequena coleção de animais silvestres oriundos da Amazônia. Em seguida vieram o zoológico do Rio de Janeiro e os demais que continuam a surgir a cada dia.

Em 1977 foi fundada a Sociedade de Zoológicos do Brasil – SZB, que vem desenvolvendo trabalhos em prol da união e do fortalecimento dos zoológicos brasileiros. Com a realização de intercâmbios e congressos a SZB vem modernizando as instituições, aperfeiçoando profissionais e lançando uma nova filosofia de manejo de animais em cativeiro.

Com a criação da SZB, os zoológicos brasileiros começaram uma caminhada rumo a uma nova visão da exibição de animais silvestres em cativeiro. Passou a se buscar modos de educar a população através desses animais e também de preservar a imensa biodiversidade. Os recintos empobrecidos deram vez a recintos que tentavam imitar o meio de onde os animais eram provenientes.

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Segundo PRIMACK & RODRIGUES (2002), a melhor forma de se proteger em longo prazo a diversidade biológica, é a preservação das comunidades e populações no seu ambiente natural, conhecida como preservação “in situ” ou preservação local. Porém, os zoológicos têm se esforçado bastante com o intuito de promover a conservação “ex situ”. Atualmente, os zoológicos são bastante conhecidos e respeitados por seu papel fundamental na conservação da fauna silvestre, principalmente quando se trata de animais ameaçados de extinção.

Acompanhando toda a evolução pela qual os zoológicos passaram, a Educação

Ambiental passou a fazer parte dos objetivos dessas instituições e vem, a cada dia, aperfeiçoando o modo de educar as pessoas a partir da exposição de animais silvestre em cativeiro.

O desenvolvimento da consciência ambiental, a nível internacional, pode ser traçado ao longo das duas últimas décadas, com base em uma série de eventos, como as Conferências de Estocolmo e a de Tibilisi que originaram as primeiras manifestações dentro da Educação Ambiental (SATO, 2003).

Dentre os diversos objetivos da Educação Ambiental, o despertar de uma consciência ecológica está intimamente relacionado com o papel dos zoológicos na sociedade.

Atualmente, não se pode manter um zoológico apenas para abrigar animais. Na programação de muitos zoológicos a Educação Ambiental já está incluída, sendo uma das formas mais eficientes para transformar a mentalidade antiga de ver os animais apenas como bonecos enjaulados (TELLES et al., 2002).

Os zoológicos beneficiam milhões de pessoas no mundo e, a grande maioria dessas pessoas, vive em áreas urbanas e possuem pouco ou nenhum contato com a natureza. A população das áreas rurais também visitam os zoológicos, o que significa um estímulo para a preservação das espécies locais. Os zoológicos são muito procurados em todo o mundo e o número de visitantes por ano pode variar de dez mil a sete milhões em parques de diferentes países (MERGULHÃO, 1997). Segundo TELLES et al. (2002), com programas bem elaborados, muitos zoológicos já possuem locais apropriados para executar atividades com alunos e visitantes, ensinando manejo e comportamento dos animais de forma agradável e educativa.

Após a realização de um trabalho que visava reunir informações sobre os zoológicos que realizavam Educação Ambiental, AURICCHIO (1999) constatou que os zoológicos brasileiros são muito procurados por escolas que desejam realizar atividades extracurriculares ou recreativas. Com o atual desenvolvimento da Educação Ambiental, muitos zoológicos passaram a realizar programas para atender as escolas. Em sua pesquisa, AURICCHIO (1999) obteve como resultado que 7,02% dos zoológicos já apresentavam trabalhos de Educação Ambiental.

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De acordo com MERGULHÃO (1997:194), “A Educação Ambiental que um zoológico pode oferecer combina conceitos de diferentes áreas, tais como zoologia, ecologia, botânica, fisiologia, etc.”. Isso faz com que uma atividade de campo em um zoológico seja uma boa oportunidade para despertar nos alunos o interesse para compreender diversas matérias em conjunto.

A implantação de um programa de Educação Ambiental em zoológicos pode ocorrer gradativamente e de diversas formas. Geralmente, um dos primeiros passos é a implantação de placas educativas que orientam os visitantes e dão noções de preservação ambiental. Segundo WEMMER et al (2001), para chamar a atenção dos visitantes, as placas de identificação devem conter uma foto do animal (particularmente importante quando o recinto contém mais de uma espécie) e informações acerca da condição da espécie quanto à ameaça de extinção. Além disso, é importante que essas placas tenham informações como o nome científico e popular da espécie, distribuição geográfica, tipo de alimentação e o hábitat onde a espécie ocorre.

Entretanto ZOLCKSAK (2002), em seu estudo sobre a capacidade de comunicação ambiental de exposições de animais vivos, constatou que muitos visitantes não observam as legendas existentes nas placas de identificação.

Segundo WEMMER et al (2001), a identificação adequada dos animais é uma das exigências fundamentais de um zoológico, porém, felizmente, muitos deles têm levado sua mensagem educativa muito além de placas de identificação.

Atualmente, busca-se priorizar atividades que resultem na capacitação de reeditores, garantindo assim a continuidade do processo. Uma forma interessante é trabalhar primeiramente com os professores, de forma que os mesmos possam aplicar práticas e dinâmicas em sala de aula, não deixando que certos assuntos sejam abordados apenas durante as aulas de campo nos zoológicos.

A seguir serão comentadas algumas experiências de zoológicos brasileiros em relação aos programas de Educação Ambiental implantados.

O parque Zoológico foi construído em 1979 e, atualmente, possui 65 espécies, sendo que 28 delas já se reproduziram. Está inserido numa área de 18 ha, onde os animais são mantidos em ambientes semelhantes aos seus habitats. É reconhecido pela comunidade zoológica nacional e até internacional com as quais mantêm intercâmbio, pelos trabalhos de alto nível na preservação, reprodução e criação em cativeiro de espécies como o jacaré-de-papo amarelo, arara canindé, tamanduá-bandeira, bugio vermelho, cervo-do-pantanal, lobo-guará, jaguatirica, cachorro-do-matovinagre, entre outros, sendo pioneiro em alguns deles como no caso do aleitamento artificial de cervos do pantanal (ZOOLÓGICO DE ILHA SOLTEIRA, 2004).

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Em relação aos trabalhos de Educação Ambiental realizados no zoológico, SANTANA &

PINTO (1996) comentam o papel da distribuição de placas educativas auto-explicativas em diversos lugares do zôo. Essas placas orientam e mostram ao público a história, objetivos e importância do zoológico. Segundo os autores, após a implantação dessas placas foi observado um aumento nas atividades de conservação do zoológico, as lixeiras passaram a ser utilizadas mais freqüentemente e a depredação reduziu quase que totalmente.

O zoológico de Curitiba também possui um amplo programa de Educação Ambiental, o qual é composto por diversas atividades. Há exposições onde o público pode conhecer peças taxidermizadas, crânios, patas e bicos de animais, bem como receber informações sobre o ambiente, suas interações e as relações da fauna e flora. Os visitantes também podem assistir a vídeos educativos, participar de atividades culturais, recreativas e visitas orientadas (FRASSON & BREGENSKI, 1996).

Outra atividade importante que é realizada pelos funcionários do zoológico são visitas a hospitais e instituições de assistência à deficientes físicos e mentais. Os funcionários levam filhotes dos animais do zoológico ou animais domésticos. O contato com os animais diverte e relaxa as crianças, melhorando seu estado emocional (FRASSON & BREGENSKI, 1996).

O zoológico de Fortaleza é bastante visitado por escolas da rede municipal de ensino, além de escolas particulares. Os professores responsáveis agendam a visita antecipadamente informando qual a faixa etária dos alunos que participarão da visita. A partir daí, os estagiários do zoológico preparam uma programação de acordo com o público-alvo. Durante a visita, além de explicações acerca da importância da fauna silvestre, são utilizados materiais didáticos previamente elaborados pelos estagiários e realizadas brincadeiras educativas voltadas para a conscientização ambiental do público. Também são disponibilizados para a população, animais taxidermixados que são muito utilizados nas feiras de ciências de diversas escolas.

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