Apostila de epidemiologia

Apostila de epidemiologia

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Prof. João Alfredo Guimarães Saúde Coletiva - UNCISAL

1 EPIDEMIOLOGIA

1.1 HISTÓRICO

A mitologia grega dá conta de que, na antiguidade, os gregos cultuavam duas semi-deusas, filhas do deus Asclépios: Higeia e Panaceia. Esta última apregoava a prática curativa entre indivíduos doentes. Seus seguidores a invocavam para a cura de males do corpo. A deusa Higeia defendia a saúde como resultante da harmonia entre os homens e os ambientes. Assim, seus devotos acreditavam no equilíbrio entre o corpo e a natureza como modo eficaz de evitar as enfermidades. Os princípios contidos na filosofia da deusa Higeia demonstram o quão remotos são os traços da Epidemiologia na história da humanidade.

Ainda na Grécia antiga, no acervo de estudos de Hipócrates (460-377 a.C.) é possível encontrar passagens onde o autor relacionava a ocorrência de epidemias com fatores climáticos, raciais, dietéticos e do meio onde as pessoas viviam, ou seja, fatores determinantes do processo saúde-doença

Na Roma antiga, traços da Epidemiologia moderna surgiram como medida de cunho administrativo. Quando os imperadores perceberam a necessidade de contabilizar seus exércitos e também os povos conquistados pelo império romano, lançaram mão de censos populacionais para este fim. Hoje é muito comum a realização de censos por institutos como o IBGE, no intuito de traçar o perfil epidemiológico da população.

A Epidemiologia sempre esteve presente na história da humanidade, mesmo que esta não tivesse se dado conta.

1.2 CONCEITOS

Quando falamos em Epidemiologia, de imediato nos vem a associação com as palavras epidemia, pandemia, endemia, surtos epidêmicos.

• O Surto Epidêmico é o surgimento de casos novos de um agravo ou doença onde ele não é esperado. No surto, o número de

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• Epidemia é o termo que designa o aumento repentino e fora de controle do número de casos de um agravo à saúde. A característica principal é o alastramento do agravo ou doença para áreas não delimitadas territorialmente. Um exemplo é o aumento sem controle do número de casos de dengue no Brasil na década de 80.

• Quando a Epidemia se alastra sem controle livremente para países em todos os continentes, estamos diante de uma Pandemia.

• Já a Endemia é a ocorrência de um agravo ou doença em uma determinada localidade, em uma proporção já esperada para aquele período. A ocorrência da dengue em determinados bairros de uma cidade pode já ser um fato esperado, desde que não supere o número habitual para aquele período do ano.

A palavra ‘Epidemiologia’ epistemologicamente vem do grego ‘epi’ (sobre) + ‘demos’ (povo) + ‘logos’ (estudo). Seria, portanto, o ‘estudo sobre o povo’. Este é um significado muito genérico, que poderia ser confundido com conceitos de várias ciências sociais e da própria demografia.

Modernamente a Epidemiologia pode ser considerada como uma ciência básica da Saúde Coletiva. Muito além disso, tem se tornado uma disciplina científica essencial para todas as ciências clínicas, base das formações de todas as profissões de saúde. Não se admite a generalização dos conhecimentos clínicos que não sejam baseados na pesquisa epidemiológica.

Vejamos a conceituação dada à Epidemiologia por Rouquayrol e Goldbaum (1999):

“Ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle, ou erradicação de

Prof. João Alfredo Guimarães Saúde Coletiva - UNCISAL doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde.”

Destacamos alguns pontos deste conceito: Primeiramente, o fato de que doença não é um estado isolado em si mesmo. Trata-se de um processo dinâmico que pode evoluir para o estado de saúde ou agravar-se até o limite da morte. A epidemiologia não estuda processos saúde-doença individualmente. A ciência epidemiológica preocupase em estudá-los dentro das coletividades humanas, transformando-os em dados e informações que possam ter significado para a coletividade.

A Epidemiologia analisa a distribuição dos agravos à saúde e seus determinantes, ou seja, busca descrever de que forma os agravos ocorrem nas coletividades (frequências, predileção por raça, faixas etárias, fatores sociais etc) para melhor entender os fenômenos que afetam a saúde das coletividades. Além da distribuição dos agravos/enfermidades, a Epidemiologia estuda e analisa os fatores determinantes do processo saúde doença (veremos adiante).

De nada adiantaria para as coletividades humanas se as informações geradas pela Epidemiologia não pudessem ser aproveitadas na prevenção, controle e erradicação de agravos e enfermidades. Dessa forma, uma das principais funções da ciência epidemiológica é justamente a proposição de medidas para a esses fins. Neste contexto, Almeida Filho e Rouquayrol (1990) destacam que “o objeto final da epidemiologia é produzir conhecimento e tecnologia capazes de promover a saúde individual através de medidas de alcance coletivo.”

Assim, a ciência epidemiológica relaciona-se estreitamente com a saúde pública, uma vez que, com base nos estudos epidemiológicos, são construídos indicadores que refletem a situação de saúde das coletividades. Além disso, a Epidemiologia desenvolve tecnologias e propõe medidas de prevenção, controle e erradicação de doenças e agravos. Dessa maneira, de posse dessas informações e tecnologias, a saúde pública pode colocar em prática as medidas necessárias para a promoção da saúde nas coletividades humanas.

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1.3 EIXOS DA EPIDEMIOLOGIA

Desde seus primórdios a Epidemiologia tem se apoiado em três fundamentos ou eixos básicos para sua existência como ciência:

A. Clínica Médica: numa primeira fase da história, que compreende a antiguidade clássica até a idade média, a clínica médica possuía poucos recursos técnico-científicos e lutou contra práticas médicocurativas realizadas por físicos, leigos e curiosos, sem qualquer cunho científico. A segunda fase inicia-se após o início da industrialização, com o crescimento das cidades e suas populações, quando houve a necessidade da criação de nosocômios para atender às massas populacionais. Com a construção dos hospitais, pessoas enfermas puderam ser agrupadas e observadas com mais facilidade e detalhamento, sendo os sinais e sintomas das enfermidades e agravos anotados e descritos na forma da história natural das doenças. A terceira fase desse eixo ocorre com a emergência da fisiologia moderna, que passou a descrever com muito mais detalhes e propriedades os fenômenos biológicos envolvidos no processo saúde-doença, desde as primeiras alterações bioquímicas até alterações teciduais e de função.

B. Estatística: a aplicação deste braço da matemática em outros ramos do conhecimento como na demografia remota desde a antiguidade. Temos por exemplo a expansão do império romano, que criou a necessidade das contagens ou sensos populacionais, no intuito de contabilizar baixas de soldados, populações conquistadas entre outros fatos sociais. No campo da pesquisa epidemiológica, a estatística iniciou sua contribuição através da quantificação de pessoas enfermas ou mortas por determinadas doenças. Os estudos estatísticos aplicados às pesquisas vitais evitam que a subjetividade do pesquisador prevaleça sobre os resultados encontrados. Em outras palavras, a estatística comprova matematicamente fatos ligados à ocorrência de doenças, agravos e seus determinantes, conferindo credibilidade aos estudos epidemiológicos. Além disso, a estatística inseriu a ciência

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da força produtiva de uma nação

C. Medicina social: o último e não menos importante eixo da epidemiologia é a medicina social. Este eixo faz a transição entre a clínica médica e as ciências sociais, como antropologia e sociologia. A medicina social estabelece que a pesquisa epidemiológica primordialmente deve trazer benefícios às populações, estando assim justificada sua realização. Este eixo trouxe a ideia da doença como questão social e política, sendo assim seria responsabilidade e interesse do estado em promover ações para sua prevenção, controle e erradicação. O interesse político do estado sobre a saúde nasceu da necessidade de controlar as mortes e incapacidades advindas de enfermidades, já que provocam um enfraquecimento

2 PROCESSO SAÚDE-DOENÇA

A teoria hipocrática conceitua saúde como “silêncio dos órgãos”. Dessa forma, estaria com saúde aquele que não apresentasse sinais ou sintomas de alterações patológicas. No século passado, a Organização Mundial de Saúde desenvolveu um conceito de saúde bastante ampliado, segundo o qual seria o “completo estado de bem estar físico, mental e social”.

Com o passar das gerações, o conceito de saúde atrelou-se a fatores até então estritamente sociais como emprego, lazer entre outros. Na década de oitenta do século vinte, após a realização da VIII Conferência Nacional de Saúde no Brasil, estabeleceu-se que saúde “é o resultado das condições de alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade de acesso à posse da terra e aos serviços sanitários”. Desta forma, podemos estabelecer que, como educação, alimentação e os demais fatores sociais citados influenciam sobremaneira a qualidade de vida das populações, esta, por sua vez, seria a principal responsável pelo estabelecimento de uma vida saudável. Admite-se ainda que fatores genéticos

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em menor proporção

e recursos de saúde estão envolvidos no processo saúde-doença, no entanto,

2.1 ECOLOGIA DO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA

No início da ciência epidemiológica, o descobrimento dos microrganismos com o francês Louis Pasteur levou a uma crença científica generalizada de que todas as doenças e agravos possuíam um agente causador específico e que este seria um microrganismo. Isto deu origem ao termo “História Natural da Doença”, que teve no cientista inglês Thomas Sydenham seu primeiro representante. Sydenham reuniu vários enfermos com sinais e sintomas parecidos e escreveu a obra clássica “História natural das enfermidades” em que descreve uma série de enfermidades conhecidas na época.

Nos dias atuais, o termo “história natural da doença” tem sido usado restritivamente às doenças infecto-contagiosas, uma vez que busca estabelecer para a doença seu agente causal, o indivíduo suscetível a adoecer e sua relação com o ambiente.

Correntes mais recentes têm usado o termo “ecologia do processo saúde-doença” para designar o estudo sistemático dos fatores que influenciam no aparecimento de qualquer enfermidade ou agravo à saúde. Tomemos por exemplo uma fratura óssea acidental: não há de se falar em agente causador biológico; também não podemos dizer que o indivíduo portador da fratura está com sua saúde normal, haja vista que estará afastado de suas atividades normais por algum tempo. A abordagem desse tipo de agravo deve ser ecológica, ou seja, estudar na totalidade os fatores envolvidos na gênese do problema, tendo em vista estabelecer sua prevenção e correto tratamento.

Alguns fatores que influenciam no desenvolvimento de doenças estão presentes no próprio organismo suscetível a adoecer (fatores endógenos). É o caso dos fatores genéticos, que podem determinar diretamente a ocorrência de uma doença como é o caso das síndromes genéticas, ou ainda de maneira indireta como é o caso da predisposição a vários tipos de câncer, que não dependem exclusivamente de fatores genéticos para acontecer.

A maioria dos fatores determinantes, no entanto, está fora do organismo suscetível (fatores exógenos), como é o caso das catástrofes da

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Costuma-se dividir o estudo da ecologia do processo saúde-doença em dois períodos: pré-patogênico e patogênico.

No período pré-patogênico, não se pode ainda falar em doença. Todos os fatores já presentes antes do início do processo saúde-doença encontramse nesse período. Fatores sociais como a classe socioeconômica a que pertence uma determinada população podem predispor à ocorrência de doenças como a desnutrição, que depende diretamente da renda para compra de alimentos de boa qualidade nutritiva. Assim, este fator é antecedente ao desenvolvimento da doença. No caso de um acidente que provoque um agravo como uma fratura,

O período patogênico inicia com as primeiras alterações orgânicas após a interação entre o estímulo desencadeante da doença e o suscetível. No caso de um agravo como uma fratura, o estímulo é facilmente identificado, já que o evento causador pode ser um acidente ou um ato intencional. Neste caso, o período patogênico inicia imediatamente após o estímulo e dura até o restabelecimento da fratura e das atividades habituais do indivíduo acometido.

No período patogênico, as modificações orgânicas do indivíduo suscetível iniciam com alterações bioquímicas, podendo evoluir para alterações fisiológicas. O curso do processo pode evoluir para o aparecimento de sinais e/ou sintomas ou regredir para o estado anterior (pré-patogênico) por ação das defesas do organismo suscetível.

2.2 DETERMINANTES DO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA 2.2.1 DETERMINANTES FÍSICO-QUÍMICOS

Estes determinantes são aqueles ligados à ação física de um corpo ou de partículas sobre o indivíduo suscetível a adoecer. São exemplos dos determinantes físicos a ação da luz, do som, das radiações ionizantes, das chuvas e da eletricidade sobre as populações. Os determinantes químicos dizem respeito à ação de agentes químicos de origem não biológica sobre os corpos. Como exemplo, podemos citar a ação dos metais e dos ácidos. Os determinantes físico-químicos podem ser classificados em:

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A. Naturais: aqueles que são encontrados livremente na natureza sem influência da ação humana. Os determinantes naturais podem ser subdivididos em: 1) previsíveis os que apresentam possibilidade de previsão por parte do homem. É o caso das estações do ano, das chuvas, da temperatura. 2) imprevisíveis aqueles que não apresentam possibilidade de previsão ou que a previsão tem antecedência curta, não havendo chances de prevenção de seus desdobramentos. É o caso das enchentes, dos raios, dos terremotos, das avalanches. É claro que é possível prever a quantidade de chuvas em uma determinada região, no entanto, muitas vezes a quantidade prevista para um mês precipita toda em um único dia, provocando inundações não previstas pelo homem.

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