cndocho caxias do sul lodo

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VI Simpósio Ítalo Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

I-008 – LODO GALVÂNICO: DIAGNÓSTICO E ANÁLISE DA GERAÇÃO NO MUNICÍPIO DE CAXIAS DO SUL / RS

Fernanda Bettin(1) Bióloga pela Universidade de Caxias do Sul (UCS / RS). Vania Elisabete Schneider Bióloga pela Universidade de Caxias do Sul (UCS / RS). Mestre em Gerenciamento de Recursos Hídricos e Saneamento (UNICAMP / SP). Doutoranda em Gerenciamento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (IPH / UFRGS / RS). Professora e Pesquisadora do Departamento de Ciências Exatas e da Natureza / Campus Universitário da Região dos Vinhedos (DCEN / CARVI / UCS)

Endereço(1): Rua Flores da Cunha, 207 – Bairro: Centro – Nova Prata - RS - CEP: 95320-0 - Brasil - Tel: (54) 242-1443 ou (54) 2-2777 - E-mail: fbettin@ucs.br

O presente trabalho objetivou a realização do diagnóstico da geração de lodos galvânicos no Município de Caxias do Sul / RS, com o intuito de subsidiar aos órgãos públicos e/ou instituições privadas, informações para a implementação de sistemas alternativos de tratamento, recuperação e/ou valoração desse tipo de resíduo, assim como dar-lhes uma destinação final adequada, que não a simples armazenagem nas próprias empresas ou em centrais de resíduos, como vem ocorrendo. O trabalho apresenta resultados relativos a identificação e histórico das empresas visitadas, processos produtivos empregados, tecnologias empregadas na minimização de efluentes e resíduos, condições de armazenamento, assim como a geração de resíduos e o passivo ambiental estocado por essas empresas.

PALAVRAS-CHAVE: Lodo galvânico, resíduos industriais, diagnóstico ambiental, resíduos perigosos.

O acelerado processo de industrialização observado em algumas regiões do país, aliado à expansão demográfica, tem acarretado um aumento considerável na produção de resíduos sólidos, particularmente no que se refere aos de origem industrial. De acordo com LIMA (1995), o trato inadequado destes resíduos contribui de forma marcante para o agravamento dos problemas ambientais, notadamente nos grandes centros urbanos.

O ramo da indústria metal-mecânica constitui-se, de acordo com a FEPAM (1997), no segundo maior gerador de resíduos industriais no Estado do Rio Grande do Sul, perdendo apenas para o setor coureiro-calçadista. A indústria galvânica está inserida no contexto do ramo industrial metal-mecânico, sendo que este tipo de empresa, principalmente na Região Nordeste do Estado e, mais especificamente, no Município de Caxias do Sul, ocorre muito freqüentemente, o que se constitui num fator preocupante, devido aos perigos potenciais que os resíduos gerados por essas empresas representam.

Dentre os resíduos oriundos de atividades galvânicas gerados na Região Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul, um dos mais problemáticos é o lodo proveniente das estações de tratamento de efluentes, por apresentar, em sua composição, quantidades significativas de metais pesados, de compostos orgânicos voláteis e tóxicos e de cianetos (BERNARDES et. al., 2000). De acordo com SCHNEIDER et. al. (2000), os lodos galvânicos, no contexto da região, representam um dos principais resíduos potencialmente impactantes ao ambiente, devido a sua composição e ao grande número de empresas que utilizam este processo industrial. Para uma ação mitigadora destes impactos, na forma de recuperação, tratamento e / ou destino final dos lodos galvânicos, visando a valorização dos mesmos, torna-se necessária uma avaliação quali-quantitativa da sua geração. Atualmente, no entanto, os estudos referentes a esta problemática, segundo levantamentos realizados, mostraram-se escassos, o que evidencia a importância de se diagnosticar a geração destes resíduos, particularmente no pólo metal-mecânico de Caxias do Sul, maior gerador destes resíduos no Estado (BERNARDES et. al., 2000; FEPAM, 1991 e 1997 e SCHNEIDER et. al. 2000).

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Por outro lado, a definição de políticas públicas carece, fundamentalmente, de informações técnicas que subsidiem a elaboração de planos de gestão, de legislação específica e de tomada de decisões quanto às tecnologias a serem empregadas no manejo, tratamento e disposição final dos resíduos. A elaboração de diagnósticos que sustentem estas ações é escassa e, muitas vezes, conduzida sem critérios técnicos. A elaboração de formas alternativas de gestão pública, particularmente relacionada à problemática destes resíduos, torna-se necessária para a melhoria da qualidade ambiental e das condições de vida e saúde da população.

Na região, até o momento, o destino final da maior parte dos lodos galvânicos gerados em processos industriais é sua simples estocagem em tambores ou sacos. O crescimento acelerado das áreas para a estocagem destes dispositivos torna-se um grave problema sócio-ambiental, devido a sua aproximação cada vez maior com áreas habitadas, podendo causar riscos à saúde ambiental e da população, caso estes resíduos sejam liberados para o ambiente. Além disso, a disposição destes resíduos, em áreas particulares ou em centrais de armazenamento, é onerosa para as empresas, devido à grande quantidade gerada em seus processos (BERNARDES, 2000).

O presente trabalho visou realizar o diagnóstico da geração de resíduos galvânicos no pólo metal-mecânico de Caxias do Sul, com o objetivo de oferecer informações e dados que poderão auxiliar na implementação de programas de valorização e recuperação destes resíduos, bem como subsidiar a formulação de políticas públicas e a caracterização de fontes poluidoras no Município de Caxias do Sul.

Na primeira etapa do projeto, foi elaborado o instrumento de coleta de dados (roteiro de entrevistas) a ser utilizado na investigação direta. Esse instrumento buscou contemplar, além dos dados gerais sobre as indústrias, a geração de resíduos e o passivo ambiental, os aspectos pertinentes aos processos e produtos, utilização de matérias-primas, consumo de água e de energia, bem como as medidas de minimização, tratamento e recuperação de efluentes e resíduos.

O levantamento preliminar das indústrias potencialmente geradoras de resíduos galvânicos foi realizado junto ao SIMECS (Sindicato das Indústrias Metal-Mecânicas e Elétricas de Caxias do Sul). O cadastro das empresas junto ao Sindicato é dividido em famílias, de acordo com o tipo de produto ou de processo realizado pela empresa. Escolheu-se, por eliminação, as famílias que poderiam realizar, em suas atividades, processos galvânicos, obtendo-se, o número de 5, as quais apresentam uma distribuição que totaliza 1.484 empresas.

Algumas empresas, pertencentes a outros municípios da região, foram eliminadas do cadastramento de empresas do banco de dados do projeto, que foi desenvolvido com esta finalidade. Muitas, ainda, apresentamse cadastradas em mais de uma família junto ao SIMECS. Assim, para que fosse realizado o cadastro das empresas de interesse no banco de dados, as repetidas foram eliminadas, chegando-se ao número de 880, consideradas por suas atividades, potencialmente geradoras de resíduos galvânicos no Município.

Devido à necessidade de se agrupar e analisar as informações de maneira segura e íntegra, assim como de se comparar e compartilhar estes dados com os de outros bancos já existentes, foi criado, utilizando-se o Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Microsoft Access ,um banco de dados para exercer tais funções. A utilização deste software na implantação de um banco de dados para Resíduos Industriais, propicia a geração de consultas e relatórios com base em critérios previamente definidos, gerando as informações necessárias para a organização, análise e discussão dos resultados. Esse sistema permite a expansão e a atualização dos dados, possibilitando assim, manter uma base de informações que auxiliem em diagnósticos ambientais e permitindo o cruzamento de informações com outros bancos.

Os contatos com as empresas foram efetuados, no sentido de agendar visitas àquelas que possuíssem processos galvânicos em suas atividades. O trabalho buscou abranger todas as empresas dentre as cadastradas junto ao SIMECS que, após um contato telefônico prévio, confirmaram ser geradoras de resíduos galvânicos. Além disso, as informações foram cruzadas com as da Secretaria do Meio Ambiente Municipal (SMAM) de Caxias do Sul, no sentido de ampliar o universo de empresas, uma vez que algumas destas não constavam do cadastro junto ao Sindicato. É importante ressaltar que, possivelmente, algumas pequenas empresas não tenham sido atingidas na realização desse diagnóstico, por não estarem cadastradas nem no SIMECS e nem na

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SMAM. Esse fato impossibilita afirmar que a totalidade de empresas que realizam atividades galvânicas, existentes no Município de Caxias do Sul, tenha sido alcançada durante a realização deste trabalho.

A coleta de dados foi realizada na visita às empresas, com a aplicação do instrumento de coleta de dados. Além da entrevista, foi também realizada a visita ao setor de acabamento de superfície das empresas e à estação de tratamento de efluentes, bem como ao sistema de disposição de resíduos, buscando, pela observação direta, confrontar as informações obtidas. Sempre que possível, as informações foram coletadas com um responsável técnico, visando dar maior confiabilidade às mesmas.

Os dados foram coletados e armazenados no banco de dados. Cada empresa recebeu um código numérico correspondente, que representa o seu cadastro junto ao mesmo. As informações foram agrupadas em diferentes formulários, segundo dados de identificação e histórico da empresa, características da estação de tratamento de efluentes, características do lodo galvânico, controle dos banhos eletrolíticos, estimativas de consumo de água e de energia no setor galvânico, processos de acabamento de metais, técnicas de minimização empregadas no processo e no tratamento de efluentes e características gerais da linha de produção.

Após a eliminação das empresas repetidas e de outros municípios do cadastro do banco de dados, chegou-se ao número de 880 empresas potencialmente geradoras de resíduos galvânicos no Município de Caxias do Sul. Com relação a estas, após a realização do contato direto via telefone, foi possível concluir que:

- 344 empresas não possuem qualquer atividade de tratamento de superfície em seus processos produtivos; - 248 empresas terceirizam as atividades de tratamento de superfície, as quais incluem galvânica, pintura e fosfatização; - 178 empresas não foram localizadas, devido a erros no número telefônico e também à suposta inexistência do mesmo; - 9 empresas foram visitadas, sendo que destas, 42 possuem processos galvânicos e as restantes possuem outros processos de tratamento de superfície, como pintura e fosfatização; - 1 empresas encerraram suas atividades, por motivos desconhecidos.

A análise dos dados que serão a seguir apresentados, referem-se apenas às 42 empresas galvânicas visitadas, excluindo-se aquelas que possuem outros processos de tratamento de superfície.

Os resultados evidenciam uma grande diferenciação de processos, que são utilizados por muitas empresas e que, na maioria das vezes, geram efluentes mistos. Estes efluentes provenientes da mistura de vários tipos de banhos eletrolíticos, dificultam consideravelmente o seu tratamento, principalmente quando ocorre a adição de cianeto, componente que torna o efluente ainda mais problemático e potencialmente perigoso. Relativamente a este composto, a figura abaixo apresenta o contingente de empresas que o utilizam em suas linhas de produção.

Figura 1: Percentual de utilização de cianeto pelas empresas em suas linhas de produção.

ut ilizam nã o ut ilizam ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 3

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Quanto ao uso de técnicas que venham a contribuir com a minimização de efluentes e resíduos gerados, tanto no processo produtivo quanto no tratamento de efluentes, e tecnologias de produção mais limpa, o uso destas pelas empresas é apresentado na figura 2. Estas técnicas representam uma tendência a ser seguida pelas indústrias que pretendem buscar a certificação ambiental, como uma futura exigência mercadológica.

Figura 2: Utilização de técnicas de minimização no processo e/ou no tratamento de efluentes.

possuemnão possuem

O emprego destas técnicas de minimização, de acordo com os dados obtidos, distribui-se da seguinte forma:

- 31 empresas utilizam técnicas de minimização no processo produtivo; - 14 empresas utilizam técnicas de minimização no tratamento de seus efluentes;

- 12 empresas utilizam técnicas de minimização tanto no processo produtivo quanto no tratamento de efluentes; e, - 9 empresas não utilizam qualquer tipo de técnicas de minimização em suas atividades.

As técnicas mais comumente utilizadas pelas empresas investigadas, nos processos produtivos das mesmas, são listadas na tabela 1.

Tabela 1: Técnicas de minimização utilizadas no processo produtivo das empresas consultadas.

Enxágüe em cascata 13 Filtração de banhos 26 Precipitação de contaminantes dos banhos 2

A grande diversidade de técnicas de minimização existentes, de acordo com os dados obtidos, são utilizadas pelas empresas no tratamento de seus efluentes. A tabela 2 apresenta as técnicas utilizadas neste processo.

Tabela 2: Técnicas de minimização empregadas no tratamento de efluentes. TÉCNICAS DE MINIMIZAÇÃO NÚMERO DE EMPRESAS

Carvão ativado 3 Eletrólise 3 Evaporação 3 Micro-filtração 1 Separadores de óleo 2 Troca iônica 4 Ultra-filtração 3

Com a questão ambiental sendo discutida em todos os setores da sociedade, as indústrias, em especial, manifestam sua preocupação com o meio ambiente, principalmente, no que diz respeito às instalações de

VI Simpósio Ítalo Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental estações de tratamento de efluentes (ETEs). Estas, em grande parte dos casos, são construídas por exigência do órgão ambiental responsável, e representam um indicativo da geração de resíduos da empresa.

As empresas que não possuem instalações de estações de tratamento de efluentes em suas dependências, lançam seus resíduos diretamente no ambiente, o que, no caso das indústrias galvânicas, pode representar uma contaminação bastante significativa por metais pesados, cianetos, compostos tóxicos e outros complexantes. A figura 3 apresenta a distribuição das empresas quanto às instalações de estações de tratamento de efluentes em suas dependências.

Figura 3: Distribuição das empresas quanto à instalação de estações de tratamento de efluentes.

possuemnão possuem

Os dados evidenciam uma grave situação no ponto de vista ambiental, uma vez que aproximadamente 40% das empresas estão lançando seus efluentes sem qualquer tipo de tratamento nos corpos hídricos, representando riscos potenciais à saúde do ambiente, de foram geral.

Um percentual de 21,4% das empresas consultadas informou não gerar resíduos, por não possuírem instalações de estações de tratamento de efluentes. A prática efetuada nestas empresas é a simples retirada de substâncias que sedimentam nos tanques onde os banhos são realizados, sendo efetuada em intervalos irregulares de tempo, que podem ser até maiores que um ano. Este material sedimentado não constitui o lodo galvânico proveniente de estações de tratamento de efluentes, sendo apenas um material decantado que é retirado dos tanques de banhos eletrolíticos, sem nenhum tipo de tratamento físico-químico e acondicionado.

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