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Sirlei Rossoni*

Oespaço de produção da ciência - o campo científico – é um campo social como outro qualquer, cheio de relações de força, disputas e estratégias que visam beneficiar interesses específicos dos participantes deste campo (Bourdieu).

RESUMO Este estudo aponta algumas reflexões sobre a história da ciência e do conhecimento realidade, verdade e certeza no interior das civilizações técnicas são determinadas pelos códigos científicos; estes códigos, por sua vez, criam outros signos de verdade, de realidade e de (in) certezas, ao longo do processo de produção do conhecimento científico. Palavras-Chave: ciência-conhecimento-técnica-sociedade;

RESUMEN Este estudio apunta algunas reflexiones sobre la historia de la ciencia y del conocimiento realidad, verdad y certezas en el interior de las civilizaciones técnicas son determinadas por los códigos científicos; estos códigos, por su vez, crean otros signos de verdad, de realidad y de (in) certezas, a lo largo del proceso de producción del conocimiento científico. Palabras Chave : ciencia – conocimiento – técnica - sociedad

Aciência faz parte de nosso cotidiano, quando nos comunicamos, ao estudarmos, quando escolhemos o tipo de alimentos ou remédios que vamos consumir, utilizamos conceitos obtidos a partir da ciência. Assim tem sido com a sociedade ocidental há tanto tempo e de tal forma que nem nos damos conta. Não podemos datar com precisão o momento em que a humanidade passou a pensar dessa forma, mas não foi sempre assim.

Foi na época moderna que ciência alcançou maior prestígio, adquiriu tanta importância que, em alguns momentos, colocou-se como substituta do Deus católico que organizava a vida no período medieval. O discurso científico sobrepõe-se ao discurso da igreja católica num processo bastante complexo, no qual a igreja perdeu o monopólio do conhecimento, que detivera até então, denominando esse processo histórico de "Revolução Científica". A partir do final do século XVIII, a ciência moderna passou a fazer parte de todos os atos da vida do ser humano. No período histórico denominado "iluminismo", a ciência

*Mestre em História Regional UPF;

Professora do Curso de História e Geografia da URI – Campus de Frederico Westphalen; Professora de Informática Educativa da Escola Estadual de Educação Básica Sepé Tiaraju.

ocupava papel de destaque. Era apenas a partir de um rigoroso planejamento científico que os governantes acreditavam ser possível administrar seus reinos; por isso, davam grande importância ao estudo e aconselhavam-no a todos que quisessem ocupar cargos diretivos.

No século XIX, a concepção de ciência começa a se parecer com a que temos hoje.

Entendemos, porém, que tal concepção já estava elaborada desde há muito tempo. No entanto, há autores que se referem ao período renascentista e outros, que retrocedem à Idade Média para encontrar sua origem.

Entre as características da ciência moderna, estava a crença de que esta levaria à verdade, à certeza. Hoje em dia, já não partilhamos mais de tal crença, mas a ciência ainda é fonte de segurança para o homem contemporâneo, de tal forma que ainda procuramos nela, talvez não mais verdades ou certezas, mas uma opinião isenta e abalizada. Com este trabalho pretende-se analisar os diferentes enfoques do surgimento da ciência e do conhecimento, através de sua evolução e sua influência até os dias de hoje.

Durante a história do pensamento humano vemos que este encarou o conhecimento de maneiras diversas. Podemos começar, para compreender bem esta história, pela Grécia antiga.

século VI , inicio do século V a.CEle afirmava que há dois caminhos que o espírito humano

Os primeiros encontram que vamos ter será com Parmênides de Eleita, no final do pode percorrer: o da "episteme”. (verdade) e o da "doxa " ( opinião ).

Este pensador grego afirmava que o que vemos aí, no mundo, na sua multiplicidade e movimento é mera "doxa", pois o verdadeiro deverá ser uno e imóvel, além de imutável. Se for múltiplo não será verdadeiro porque é cópia e se for móvel (mutável) também não é mais oqueera. Portanto a ciência dos objetivos deste mundo não nos revela a verdade, somente a contemplação o fará.

Contemporâneo a Parmênides encontra Heráclito de Éfeso, que afirmou que o verdadeiro só é aquilo que se move (ao contrário de Parmênide) ,pois faz parte do essencial da natureza, o movimento, é dele famosa frase:

"Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio". Para este pensador o "logos” "(sentido) do mundo é unidade nas mudanças e nas tensões entre os oposto (quente e frio , dia e noite , paz e guerra , etc.).

Embora o leitor possa achar que Heráclito está muito mais próximo do pensamento contemporâneo, na sua época ele não teve muito sucesso.Parece que Parmênides convenceu melhor o Grego.

Mais tarde (séc. IV a.C.) surgiu Platão, que afirmava que o mundo conhecido por nós não é a verdade: o múltiplo e o móvel são mera representação do verdadeiro, que se encontra num mundo à parte, o “Mundo das Idéias’’. Portanto, para se conhecer a essência das coisas não se deve ir ao encontro da natureza, mas, pela reflexão filosófica, procurar penetrar no Mundo das Idéias”.

Discípulo de Platão, Aristóteles introduziu uma concepção que perdura até hoje: a de que a essência de cada coisa está na própria coisa. Como defendia essa concepção, Aristóteles foi um dos primeiros a fazer pesquisas cientificas, buscando conhecer a coisa na própria coisa.

Parecia que Aristóteles tinha descoberto o verdadeiro sentido do conhecimento, até que, idade moderna, René Descartes (1596 -1650) pôs em dúvida o pensamento de Aristóteles, pois começou a questionar até que ponto conhecia "mesmo" a verdade da realidade. Os homens se baseavam muito em opiniões, mas estavam longe de ter certezas. Descarte procurava, então, evidências: "idéias claras e distintas". Daí sua famosa frase que expressa a primeira evidência a que podemos chegar: "Penso, logo existo”.

Apartir desta época surgem as ciências empíricas, e foi o advento do movimento filosófico chamado Empirismo. De acordo com esta escola só é verdadeiro aquilo que é demonstrável pela experiência, ou seja, pelos sentidos.

Aprincípio tudo indicava que os empiristas tinham plena razão, e a física de Newton vinha comprovar isso. Só que tal posição conduzia inevitavelmente a um ceticismo, no qual caiu David Hume (1711-1776). Hume não aceitava nem sequer a compreensão das relações entre os fatos, pois tais relações não podem ser demonstradas diretamente.

Para esclarecer este ceticismo podemos citar o exemplo usado por Home na sua argumentação: se tivermos uma vela acesa e pomos o dedo nessa chama, o nosso dedo ficará queimado. No entanto não podemos afirmar que há chama queimando o dedo. Apenas sabemos que num primeiro momento havia a chama e o dedo são e num segundo momento a chama e o dedo lesionado, pois a relação de causa e efeito não é mais que uma abstração que se faz e, portanto, não é cientificamente verdadeira. As ciências estavam, assim, derrotadas. Não era possível o conhecimento dos fatos com suas relações.

No século VIII surge Immanuel Kant que vem afirmar que o conhecimento humano é relativo ao próprio homem. Ao conhecer algo não é o homem, ou melhor, a mente humana que vai se adequar ao objeto, mas o objeto que se adapta à mente humana. Na verdade conhecemos, não as coisas em si, mas a imagem que produzimos das mesmas e a esta imagem nossa mente aplica uma série de categorias (espaço, tempo, número, causalidade, etc...) que são “a priori, ou seja, que estão na mente antes mesmo de havermos conhecido algo”. Deste modo, portanto, é possível conhecer os fatos e suas relações.

Mesmo com conclusão brilhante de Kant, o fantasma do empirismo permanecia, e surgiu, então na virada do Século (XIX-X) a escola chamada Positivismo, tendo como seu principal representante Augusto Comte. Esta corrente, que até hoje exerce influência no meio cientifico, afirma que só se pode ter como verdadeiro aquilo que aparece aos nossos sentidos e que pode ser mensurado.

Mesmo antes do renascimento do Positivismo, que anula a Filosofia. e transforma as ciências em mera descrição dos fatos, tivemos na história o pensamento de

G.W.F.Hegel, que demonstrou que o conhecimento só é real quando abarca a totalidade ao contrário do que dizia o empirismo, quanto mais objetivo o conhecimento, mais abstrato ele é, pois se quero um objeto, deixando de lado todas as implicações que este objeto sofre ou exerce, estou tirando-o do mundo portanto fazendo uma abstração. Assim, por exemplo, um conhecimento concreto de um lápis não implica a química do lápis, mas tudo que diz respeito ao mesmo: sua função, seu simbolismo em nossa cultura, o lenhador que cortou a árvore a mina de onde fora extraído a grafite, o mineiro, a fábrica e assim por diante. Portanto, o conhecimento é sempre uma tarefa inconclusa (movimento dialético).

Seguindo um pouco a linha do pensamento Hegeliano, surgiu na Filosofia também na passagem do Século XIX para o Século X, a Fenomenologia, que propõe a análise dos fenômenos a ponto de procurar a descobrir a sua essência. Busca assim, não apenas descrever como o objeto é, mas o que realmente ele é.

Hoje em dia estamos aí entre positivistas, fenomenólogos e dialéticos (e agora também pós-modernos...).Já se sabe que a ciência não consegue ser puramente descritiva, pois de jeito nenhum é neutra como queriam os positivista. O posicionamento do cientista se não influencia diretamente nos resultados, influi na maneira de procurá-los.

Afinal, de que nos serve um conhecimento que propicia a penas a descrição da coisa, sem nos apontar para o sentido da própria coisa? Por isso Filosofia e Ciência precisam dar-se as mãos para chegar-se a um conhecimento mais satisfatório do homem e do mundo da natureza.

Desde os primórdios da civilização ocidental, de maneira mais ou menos intensa, técnica e ciência estiveram sempre vinculadas.

No século XVI, com o advento da ciência moderna, a matemática aliou-se às ciências naturais. Isto permitiu que as leis da natureza fossem explicadas com base na objetividade e na precisão do cálculo. Progressivamente, a cosmologia valorativa de Aristóteleseastronomia geocêntrica de Ptllomeu (que reinaram praticamente absolutas a Antigüidade e a idade Média) seriam substituídas por uma nova concepção de universo, que tinha o sol como o centro, e cujo espaço, por obedecer à geometria euclidiana, passaria a ser considerado infinito e homogêneo em todos os seus pontos.

Surge, portanto, a tendência progressiva de colocar as forças da natureza ao serviço da técnica, na medida em que os conhecimentos fornecidos pelas novas ciências poderiam explicar como e por quê um determinado dispositivo técnico funcionava. Na ciência, foi a época de Copérnico, Bacon, Kepler e Galileu; na arte, conviveram Rafael, Michelangelo e Leonardo da Vinci, este último, síntese perfeita do artista com o cientista.

Tornada realidade no princípio da Era Moderna, a interação efetiva de ciência e técnica1abriu caminho para Revolução Industrial do século XVIII, quando teve início a substituição do homem pela máquina. Devido à maior eficácia da produção em série, a indústria assumiu as tarefas de determinadas artes: justamente daquelas em que predominava ocaráter utilitário (a arte do sapateiro, do alfaiate, do carpinteiro etc.).As outras artes, que tinham como objetivo principal à manifestação do belo (a arte do pintor, do escultor, do músico...) tornaram-se independentes, constituindo um gênero à parte-mesmo porque ainda não se pensava (como tem acontecido atualmente)que as máquinas pudessem “fazer” pinturas, esculturas ou canções.

Não é de admirar que a defesa de Kant em favor da autonomia do belo tenha surgido nesse mesmo contexto histórico. Guardando as devidas proporções, é quase como se o filósofo de Konigsberg quisesse preservar os domínios da beleza, do efeito negativo de um progresso técnico que poderia degenerar no puro tecnicismo que rege a vida contemporânea. Sob esse aspecto, Kant já perece advertir-nos do perigo de que fala Heidegger ao questionar a essência da técnica.2

Inicialmente, a técnica industrial não se impôs de forma brusca, porque as máquinas primitivas, além de imitirem o velho modo de produção artesanato, aplicavam-se aos mesmos fenômenos presenciados no quotidiano e compreendidos à luz da mecânica de Newton, que era acessível a todos.

Atransformação decisiva tem lugar em meados do século passado, com o desenvolvimento da eletrotécnica. Nesse caso, ao contrário do que geralmente acontecia, na Antigüidade, na Idade Média e no início da própria Era Moderna, os princípios que regem a ciência e a técnicas escapam à percepção sensorial, deixando de ser comprometidos pela grande maioria das pessoas. Torna-se, então, cada vez mais distanciada a relação entre o homem e os técnicos e científicos. O homem é ofuscado diante da soberania das máquinas e das fórmulas. Como bem observa Heidegger, “no mundo representado cibernético3(i. e., submisso ao comando tecnológico-cientificista), a diferença entre máquina automática e os seres vivos é abolida”.

No começo deste século (1905-1916), Albert Einstein, apoiando-se na geometria não-euclideana, descobre que tempo e espaço não são realidade independente (ao contrario do que pensava Newton), e sim, dimensões constitutivas de uma única estrutura quadridimensional; Consequentemente, os fundamentos científicos da Modernidade precisariam ser reformulados. Logo depois, a crise do conceito de causalidade-já flagrante na filosofia e nas ciências humanas em geral penetra de vez nas fronteiras da física. Na teoria quântica, a tradicional relação causa-efeito revela-se ineficaz para a compreensão do movimento das partículas subatômicas: Werner Heisenberg, Niels Borhr e os demais componentes da Escola de Copernhaguen concluem que, nesse minúsculo e misterioso universo, o acaso desempenha um papel fundamental. Abandona-se, portanto, a concepção clássica, segundo a qual o futuro dependeria do pretérito com uma necessidade inexorável; a incerteza e a probabilidade são aceitas como integrantes da determinação de qualquer fenômeno físico.

2Oconjunto de processos duma arte ou ciência. 3Ciência que estuda as comunicações e o sistema de controle nos organismos vivos e também nas máquinas.

músicas de Cage

Nos domínios das artes “não-utilitárias”, a mesma situação é traduzida sob forma de uma procura radical para ambigüidade, “quer no sentido negativo de uma ciência de orientação, quer no sentido positivo de uma contínua reversibilidade dos valores e das certezas”. È o que se pode notar nos escritos de Joyce e de Kafka, nos quadros de Pollock, nas

tem dimensões ontológicas

Èinteressante verificar também que o comando sobre o real e a funcionalidade sem fronteiras tão exaltados no cientificismo e tecnicismo, vêm se transformando em tema para os artistas. Através das esculturas de Joseph Beuys, somos convidados a descobrir a beleza que se acha oculta sob o véu da relação utilitária. Os objetos do dia-a-dia, produzidos pela indústria, deixam suas funções servis, e mostram-se à luz da obra de arte. Nos trabalhos de Andy Warhol, apresenta-se a repetição de cópias dos arquitetos a sociedade de consumo, destacando assim o caráter ilusório e efêmero, tanto das cópias quanto de seus modelos. Lembramo-nos também do cineasta Antonioni. Em seu filme Zabriskie Point há uma seqüência de cenas particularmente interessante e dramática: ao som do grupo Pink Floyd, acontece à explosão de uma casa localizada no deserto, com todos os requintes da vida burguesa dos anos 60. Curiosamente, os objetos no interior da casa: geladeira, televisões, latas de conservas..., todos eles símbolos do consumismo, não são afetados; não se transformam em destroços; sobrevivem e pairam no ar, como realidade emergente em meio à desolação. Sua perenidade lhes é assegurada por serem porta-vozes da própria estrutura técnica vigente, que

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