Gêneros Discusivos

Gêneros Discusivos

Universidade Federal do Ceará – Departamento de Letras Vernáculas

Linguística de Texto – 2011/2 – Prof.: Dr. Nelson Barros da Costa

Discente: Francisca Matilde Lopes de Abreu

“Análise de um gênero acadêmico”. In MAINGUENEAU, D. Cenas da enunciação. Organizado por Sírio Possenti e Maria Cecília Pérez de Sousa-e-Silva, diversos tradutores. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. p. 151-180.

Gêneros Discusivos

É amplamente conhecido que dois tipos de classificação de gêneros são utilizados: aquelas empregados pelos pelos falantes comuns, e aquelas elaboradas pelos acadêmicos.

A concepção de gênero por influência da etnografia da comunicação e das idéias de M. Bakhtin, tem sido utilizada para descrever uma multiplicidade de enunciados produzidos na sociedade.

A fim de levar em conta essa diversidade (Maingueneau 1999), distinguiu três regimes para a questão dos gêneros:

  • Gêneros autorais, são aqueles no qual o autor reinvindica, a partir de uma decisão unilateral, a definição parcial da estrutura da sua atividade discursiva. Estão presentes em discursos literários ou filosóficos, religiosos,políticos ou jornalísticos.

  • Gêneros rotineiros, são os favoritos dos analistas do discurso: revistas, entrevistas, palestras, negociações comerciais etc. Os papéis de cada um de seus integrantes são definidos a priori, em geral, mantêm-se estáveis durante o processo de comunicação.

  • Gêneros conversacionais da conversação “ordinária” , que não estão relacionados a lugares e papéis institucionais ou a rotina estabilizadas.

Usando as palavras de E. Schegloff, a conversação é “ aquela organização da fala que não está submetida a restrições especificamente funcionais ou contextuais ou práticas especializadas de disposições convencionadas”.(1999:407).

Gêneros instituídos não formar um conjunto homogêneo.Gêneros instituídos monológicos são aqueles que não implicam interação imediata, e podem ser distribuídos de acordo com a abilidade do falante de categorizar sua estrutura comunicativa e de elaborar uma “cenografia”.(Maingueneau, 1993,1999).

Cada gênero do discurso pode ser associado a uma “cena genérica”, que é a parte de um contexto, é a própria cena que o gênero prescreve, enquanto a cenografia é produzida pelo texto.

Portanto, dois textos que pertecem a mesma cena genérica podem encenar diferentes cenografias. Uma pregação em uma igreja, pode ser encenada por meio de uma cenografia profética, meditativa etc.

Nem todos os textos possuem cenografia.Como regra, gêneros administrativos, somente obedecem a normas de suas cenas gênericas.

Levando em conta a diversidade de gêneros instituídos, devemos distinguir vários graus:

  • Gêneros de primeiro grau: gêneros instituídos que não estão submetidos à variação, seus falantes obedecem a fórmulas e esquemas rigorosamente pre-estabelecidos: listas telefônicas, certidões de nascimento etc.

  • Gêneros de segundo grau: gêneros nos quais os falantes precisam produzir enunciados singulares obedecem a um roteiro bastante rígido: notícias na TV, correspondência de negócios etc.

  • Gêneros de terceiro grau: gêneros que toleram variações, o que dá ao falante a possibilidade de apelar para uma cenografia original. Um guia de viagens, por exmplo, pode ser apresentado na forma de uma conversa entre amigos, de um romance etc.

  • Gêneros de quarto grau: gêneros que requerem a invenção de cenários de fala: propagandas, cançães folclóricas, programas de entretenimento na TV...

  • Gêneros de quinto grau: são gêneros que não possuem um formato pre-estabelecido, mas zonas genéricas subdeterminadas nas quais uma única pessoa, um autor com uma experiência individual,autocategoriza sua própia produção verbal.

Gêneros de quarto e quinto graus são em muitos aspectos similares: ambos precisam construir cenografias estimulantes para convencer suas audiências, e propõemuma estrutura que deve estar em harmonia com o próprio conteúdo de seu enunciado.

Um Gênero Acadêmico

Neste capítulo estudarei apenas um gênero que pertence tipicamente aos gêneros de segundo grau: o relatório de sessões dedefesa de tese na França (RSDT).

Esse gênero implica “estratégias de tentativa de perpetuação e de justificativa para manter, dar suporte e reproduzir identidades”(Van Leuwen & Wodak, 1999:93, no caso, essa “identidade” é a de uma comunidade que necessita regular a entrada de “imigrantes” e checar se eles trabalham de acordo com as normas.

O RSDT está fortemente associado a tradições.Em muitos casos, não há relatórios depois da sessão de defesa.

No campo das humanidades, o RSDT é escrito depois da sessão de defesa, e deve resumir as avaliações dos membros da banca.

Especificação do Gênero

O RSDT é tipicamente, um gênero discursivo estabilizado, em decorrência de uma atividade social, um gênero cujas regras, que são parte dacompetência comunicativa dos acadêmicos franceses, são aprendidas por meio de sua prática.

Diria que RSDT é o gênero chave de uma “comunidade discursiva” (Maingueneau, 1984: 14), comunidade que é organizada em torno da produção de textos específicos. J. C. Beacco (1994: 14) propõe a distinção de vários tipos de comunidades discursivas:

  1. Comunidades discursivas baseadas na economia;

  2. Comunidades discursivas ideológicas baseadas na produção de valores, crenças...

  3. Comunidades discursivas midiáticas, que difundem e confrontam opiniões e valores e organizam a circulação de textos;

  4. Comunidades discursivas baseadas em atividades técnicas e científicas, que produzem conhecimentos (esse é o caso do RSDT).

Como gênero fechado, o RSDT é bastante particular, uma vez que sua função principal é conferir o direito de entrar na comunidade de pesquisadores – portanto, na comunidade de pessoas que podem ler um RSDT.

Assim como qualquer outro gênero, o RSDT tem como intenção modificar a situação da qual participa. Sua finalidade explícita é avaliar sua tese, o desempenho do candidato durante uma sessão de defesa. Mas uma de suas finalidades implícitas é contribuir para o gerenciamento do complexo sistema de relações entre os membros do mundo acadêmico.

Sessão de defesa de tese e relatório de defesa

O RSDT é um texto feito para ser guardado nos arquivos, voltado para leitores que não estiveram presentes na sessão de defesa.

Como em muitos gêneros administrativos, seus autores utilizam fórmulas estereotipadas e estruturas preestabelecidas que são consideradas “normas” de um texto escrito (Gülich & Krafft, 1997: 242).

Os constituintes do gênero

  • Objetivo

  • O lugar

  • O tempo

  • A apresentação do documento

Autores e destinatários

Um autor plural

O RSDT requer “autores” legitimados pela instituição, detentores de títulos cuja relação está estabelecida em documentos jurídicos.

O compilador, o acadêmico que “prepara” o texto, desempenha dois papéis:

Ele é um organizador e o narrador tembém

O organizador torna o texto materialmente compatível com as normas da instituição. Enquanto o papel do narrador consiste em converter as intervensões orais da apresentação em estágio de uma História.

Destinatários e estratégias de leitura

O autor de RSDT precisa antecipar as estratégias de leituras.

Leitura integral, que segue a continuidade do texto: essa é a leitura prescrita; e a leitura seletiva feita por um leitor especialista que, dominando as regras do gênero, escolhe algumas passagens destacáveis.

Uma interpretação em dois níveis.

Há vários gêneros são basicamente feito para serem lidos por dois públicos: um público de “primeiro grau”, que lê significados laterais, e um público de “segundo grau”, que é capaz de extrair proposições implícitas de um texto. Essa noção de público duplo é valido tembém para o RSDT.

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