origem e desemv da ecologia e da ecologia de paisagem

origem e desemv da ecologia e da ecologia de paisagem

(Parte 1 de 5)

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar

JOÃO CARLOS NUCCI1

Para alguns as causas da crise atual da humanidade estariam na visão de mundo fragmentada e mecanicista da ciência e que, para descrever apropriadamente um mundo globalmente interligado, seria necessária uma perspectiva ecológica. Assim, a ecologia, para alguns cientistas, para vários educadores e para quase todos os meios de divulgação de massa, vem sendo considerada como uma panacéia capaz de resolver os problemas ambientais, principalmente, por sua possível visão sistêmica da realidade. Para discutir sobre essas colocações este artigo apresenta as origens históricas da Ecologia como ciência e comprova que ainda a Ecologia não conseguiu desenvolver uma visão de conjunto suficiente para enfrentar os problemas ambientais. Com o surgimento da Ecologia da Paisagem, vislumbrou-se a possibilidade de uma maior integração entre as diferentes formas de conhecimento científico, como a Geografia e a Biologia. Apesar dos avanços, o ser humano ainda é muito pouco considerado, mesmo nessa nova ciência que pretende estudar a paisagem, um conceito mais geográfico, de forma ecológica. Conclui-se que em uma civilização na qual o pensamento que fragmenta é valorizado no lugar daquele que une e pensa as relações entre as partes, não se consegue promover oportunidades de comunhão entre especialistas de diferentes áreas do conhecimento. Palavras-chave: ecologia, ecologia da paisagem, paisagem.

ABSTRACT The causes of humanity current crisis, for some, would be in the fragmented and mechanicist science’s world vision and that, to an appropriately description of a globally connected world, would be necessary an ecological perspective. Thus, the ecology, to some scientists, to several educators and to almost all the media, is becoming considered as a panacea able to solve environmental problems, mainly, owning to its pretense systemic approach. This paper introduces the Ecology’s historical origins as science and proves that Ecology did not obtain to develop a vision of set enough to face the environmental problems. With the sprouting of the Landscape Ecology, its intended a possibility of a greater connection between different scientific knowledge approach, as Geography and Biology, however, despite of the progress, the human aspects are still few considered, even in this new science that intends to study the landscape, a concept more like geographical, of the ecological approach. This paper concludes that it is impossible to promove chances of union between approaches of different sciences, if the civilization agree only in the fragmented knowledge. Key-words: ecology, landscape ecology, landscape.

1 Biólogo (IB-USP), doutor em Geografia Física (DG-FFLCH-USP) e professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná – UFPR. E-mail: nucci@ufpr.br

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar

O ser humano chega ao século XXI em meio a uma série de acontecimentos que colocam em dúvida o seu modo de vida contemporâneo, pois mesmo com todo desenvolvimento tecnológico e econômico percebe-se, claramente, a deterioração do ambiente natural acompanhada de um correspondente aumento nos problemas de saúde física, mental e social dos indivíduos.

Uma possível explicação para esses e para outros problemas da atual civilização foi apontada por Capra (1982) ao afirmar que a sociedade contemporânea encontra-se em uma crise e que essa seria uma crise de visão de mundo:

“(...) nossa sociedade, como um todo, encontra-se em uma crise derivada do fato de que estamos tentando aplicar os conceitos de uma visão de mundo obsoleta – a visão de mundo mecanicista da ciência cartesiana-newtoniana – a uma realidade que já não pode ser entendida em função desses conceitos. Vivemos hoje num mundo globalmente interligado, no qual os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos interdependentes. Para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva ecológica que a visão de mundo cartesiana não nos oferece” (CAPRA, 1982).

A visão cartesiana-newtoniana apresenta como característica a noção de mundo como uma máquina, a descrição matemática da natureza e o método analítico de raciocínio que consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispôlas em sua ordem lógica.

É interessante colocar que esses procedimentos analíticos só funcionam se as interações entre as partes são inexistentes ou fracas o suficiente para serem negligenciadas em certos propósitos de pesquisa. Somente nestas condições as partes podem ser trabalhadas separadamente, logicamente e matematicamente, para depois serem entendidas no conjunto. A segunda condição é que as relações entre as partes sejam lineares, pois, somente assim, o comportamento do todo pode ser identificado por meio da soma do comportamento de cada parte e processos parciais podem ser sobrepostos para se obter o processo total. Essas condições não são encontradas em entidades intituladas como sistemas. Um sistema é uma organização complexa, sendo caracterizado pela existência de fortes interações ou por interações não triviais, isto é, não lineares (BERTALANFFY, 1993).

Bertalanffy (1993) também reconhece que a visão sistêmica é uma necessidade perante o problema das limitações dos procedimentos analíticos da ciência clássica enunciada por Galileu e Descartes.

Para Capra (1982) as limitações da visão de mundo cartesiana e do sistema de valores em que se assenta, por sua tendência em discriminar, medir e classificar, ou seja, em fragmentar a realidade, estão afetando nossa saúde individual e social. Capra (op cit.) destaca, como exemplos, a atuação da medicina moderna, que se caracteriza pela valorização do corpo humano como uma máquina e das partes cada vez menores desse corpo, negligenciando os aspectos psicológicos, sociais e ambientais da doença e o sistema econômico, colaborando na divulgação da idéia de que as necessidades humanas são ilimitadas, estimulando certas atitudes como a aquisição excessiva de bens materiais, a

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar expansão sem barreiras, a competição inescrupulosa e a obsessão pela tecnologia, encorajando, assim, a busca de metas perigosas e não-éticas.

A forma de produção de um conhecimento fragmentado é outro reflexo da visão cartesiana-newtoniana que pode explicar uma parte dos problemas atuais, pois ao se basear em questões isoladas, destrói a complexidade do ambiente.

O sistema educativo fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade. As disciplinas como estão estruturadas eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação (MORIN, 2003).

Para Morin (2000), há inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários.

“(...) os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da superespecialização, do confinamento e do despedaçamento do saber. Não só produziram o conhecimento e a elucidação, mas também a ignorância e a cegueira (...) os conhecimentos fragmentados só servem para usos técnicos” (MORIN, 2000).

Para tentar solucionar todos os problemas que conduziram o ser humano à atual crise, Capra propõe uma “nova” visão da realidade: a concepção sistêmica da vida.

“O pensamento sistêmico é pensamento de processo; a forma torna-se associada ao processo, a inter-relação à interação, e os opostos são unificados por meio da oscilação. A construção de uma concepção sistêmica da vida deverá também ser subsidiada pelo conhecimento intuitivo que se baseia em uma experiência direta, não-intelectual, da realidade, tendendo a ser sintetizador, holístico e não-linear” (CAPRA, 1982).

Em várias passagens de seu livro, Capra (1982) sugere o termo “ecologia” e seus correlatos, como sinônimo dessa visão sistêmica, podendo ser citados, como exemplos dessas passagens:

“(...) a tecnologia está desintegrando e perturbando seriamente os processos ecológicos que sustentam nosso ambiente natural (...)”;

“(...) para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva ecológica que a visão de mundo cartesiana não nos oferece”;

“(...) o amplo conceito de saúde necessário à nossa transformação cultural – um conceito que inclui dimensões individuais, sociais e ecológicas (...)”.

Também Morin (2000) sugere que a visão sistêmica permitiria uma produção de conhecimento interdisciplinar colocando, como Capra, o termo “ecologia” como sinônimo de visão sistêmica e de holismo:

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar

“O desenvolvimento da aptidão para contextualizar tende a produzir a emergência de um pensamento ‘ecologizante’ (...)”;

“Devemos ‘ecologizar’ as disciplinas (...)”.

Não só Capra e Morin, mas, praticamente, todos os meios de divulgação, colocam a “ecologia” como uma panacéia capaz de resolver os problemas ambientais, principalmente, por sua possível visão sistêmica da realidade.

Mas teria a Ecologia intenção e condições de considerar em suas preocupações todas as questões ambientais? Como os profissionais que lidam com os conceitos e teorias da Ciência Ecológica tratam das questões ambientais?

Essas questões estão colocadas, propositadamente, de forma que não haja uma simples e única resposta que encerre a discussão. O que se pretende, neste artigo, é tentar identificar o local da Ecologia dentro de um espectro polarizado entre o Reducionismo (focalização no indivíduo, nas partes isoladas de um sistema) e o Holismo (compreensão de todas as partes em seu contexto total), conforme Naveh (2000).

conjunto e, por final discute a Ecologia no Brasil na atualidade

Para tanto, este artigo apresenta um breve histórico do século XV ao XIX da origem e evolução da Ecologia como ciência e, em seguida, trata do surgimento da visão sistêmica e do ecossistema e suas implicações, apresentando a Ecologia da Paisagem como uma esperança de estudos que considerem o ser humano, a sociedade e o meio físico como um

É, nesse momento, conveniente citar Chalmers (1993) em se tratando de comparações ou críticas às diferentes teorias:

“Se devemos falar das maneiras em que as teorias devem ser avaliadas ou julgadas, então minha posição é relativista no sentido de que nego que exista algum critério absoluto em relação ao qual estes julgamentos devem ser feitos (pois) Não haverá argumento puramente lógico que demonstre a superioridade de um paradigma sobre outro e que force, assim, um cientista racional a fazer a mudança. Uma das razões por que não é possível tal demonstração é o fato de estar envolvida uma variedade de fatores no julgamento que um cientista faz dos méritos de uma teoria científica. A decisão de um cientista individual dependerá da prioridade que ele dá a esses fatores (...) Uma compreensão das escolhas feitas por um cientista específico requererá uma compreensão daquilo que o cientista valoriza e envolverá uma investigação psicológica (...)” (CHALMERS, 1993).

Esclarece-se, portanto, que a pretensão de se realizar uma reconstrução de uma breve história da Ecologia, bem como das suas linhas contemporâneas de atuação, não estão livres das perspectivas e experiências desse autor na seleção do material. Não se tem a ingenuidade de se chegar a um consenso de opinião em questão tão controvertida.

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar

A Ecologia, uma ciência que tem como unidade de estudo o ecossistema, só pôde ser inaugurada com o surgimento de novas teorias e com uma série de descobertas que serviram, e ainda servem de base para as explicações oriundas do conhecimento ecológico.

A descoberta dos conceitos e princípios sobre o processo de fixação de energia solar e a circulação dos nutrientes, por exemplo, só começou a surgir com a grande mudança da visão mística dos escolásticos para a concepção científica do mundo iniciada no século XVI.

Naquela época Descartes (1596-1650) enfatizou a visão de mundo mecanicista e a separação corpo-alma, o que permitiu a investigação objetiva da anatomia e da fisiologia humanas. O corpo humano era visto como uma máquina com engrenagens (órgãos do corpo) consideradas de forma isolada e Isaac Newton (Inglaterra – 1642), ao desenvolver uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza, deu realidade ao sonho cartesiano e completou a revolução científica.

Os séculos XVI e XVII, portanto, foram marcados por mudanças revolucionárias na física e na astronomia. Todavia, essa revolução na ciência levou à fragmentação do pensamento com reflexos que, até os dias atuais, podem ser verificados na forma de divisão das disciplinas acadêmicas. A visão cartesiana-newtoniana também levou à atitude generalizada de reducionismo na ciência – a crença em que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes.

Constatou-se, na breve revisão da história da ciência, que as ciências ditas exatas, até a primeira metade do século XIX, executaram seus estudos com embasamento teórico e diretriz para a investigação científica dentro de uma postura positivista na qual a mensuração seria um aspecto necessário das investigações científicas, fato que pode ser ilustrado pelo posicionamento de Kelvin (1824-1907), físico irlandês ao afirmar que quando se é possível medir aquilo de que se está falando e expressá-lo em números, então pode-se conhecer algo a respeito; mas quando não se pode medi-lo, quando não se pode expressá-lo em números, o conhecimento é de natureza pobre e insatisfatória.

Entretanto, para aqueles que se voltavam para o estudo da natureza, a preocupação com a quantificação era secundária, sendo o inventário de plantas e animais do planeta considerado a principal tarefa que os naturalistas deveriam abraçar.

Porém, não se tratavam apenas de listas de plantas e animais ou apenas de descrição de paisagens os resultados dos estudos desses naturalistas. A visão integradora e de relações já fazia parte da forma de interpretação da natureza, podendo-se destacar, como exemplo, o médico e geógrafo Alexander von Humboldt (1769-1859), que descrevendo formalmente as relações entre clima, latitude e altitude, chega, em 1805, ao conceito de geobotânica cujo objeto era o estudo das relações das plantas com o ambiente, o que sugere uma visão mais integradora da natureza.

Humboldt, em sua viagem pela América, iniciada em 1799, já tinha uma firme convicção de que era possível descobrir os vínculos existentes entre os seres vivos e a natureza inanimada, estudar suas relações mútuas e explicar como se distribuem no espaço; prestou, também, uma grande atenção na perspectiva histórica, interessando-se pela evolução e

Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v. 2, n. 1, p.7-9, jan./jun. 2007 ISSN: 1981-089X w.ser.ufpr.br/geografar pelas trocas observáveis na natureza, rompendo-se, assim, com a linha tradicional de pensamento que considerava a natureza como algo estático e imóvel (CAPEL & URTEGA, 1984).

Os inventários provenientes das observações dos naturalistas viajantes e as explicações resultantes dos trabalhos experimentais, de campo e de laboratório serviram, durante o século XIX, de base para a primeira e a mais importante teoria integradora da biologia, a teoria da evolução.

A primeira teoria científica da evolução foi proposta por Lamarck (1744-1829) em 1809 e se baseava na prevalência dos fatores do meio físico.

Em 1859, Darwin (1809-1882), apresentando uma esmagadora massa de provas, propõe a teoria da evolução com base na influência das relações entre organismos, levando à seleção natural. Darwin chamou a atenção para as infinitas, complexas e ajustadas relações mútuas de todos os organismos entre si e com as condições físicas de existência.

A teoria da evolução opunha-se à noção de um mundo perfeito, ordenado e finalístico, como aquele descrito pelos físicos do século XVIII. Ela trazia em seu bojo a idéia de mudança, crescimento e desenvolvimento que passou a fazer parte do século XIX em diante.

As descobertas de Darwin forçaram os cientistas a abandonarem a concepção cartesiana do mundo na qual a natureza era vista como um sistema mecânico composto de elementos básicos. O universo, a partir desse momento, devia ser descrito como um sistema formado por estruturas complexas em permanente mudança.

(Parte 1 de 5)

Comentários