Vol 26ed1opensarBASES FILOSÓFICAS PARA ED.AMBIENTAL

Vol 26ed1opensarBASES FILOSÓFICAS PARA ED.AMBIENTAL

(Parte 1 de 6)

Pensar o

Ambiente:

bases filosóficas para a educação ambiental

Lançada pelo Ministério da Educação e pela UNESCO em 2004, a Coleção Educação para Todos é um espaço para divulgação de textos, documentos, relatórios de pesquisas e eventos, estudos de pesquisadores, acadêmicos e educadores nacionais e internacionais, que tem por finalidade aprofundar o debate em torno da busca da educação para todos.

A partir desse debate espera-se promover a interlocução, a informação e a formação de gestores, educadores e demais pessoas interessadas no campo da educação continuada, assim como reafirmar o ideal de incluir socialmente um grande número de jovens e adultos, excluídos dos processos de aprendizagem formal, no Brasil e no mundo.

Para a Secretaria de Educação

Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), órgão, no âmbito do Ministério da Educação, responsável pela Coleção, a educação não pode separarse, nos debates, de questões como desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável; direitos humanos; gênero e diversidade de orientação sexual; escola e proteção a crianças e adolescentes; saúde e prevenção; diversidade étnico-racial; políticas afirmativas para afrodescendentes e populações indígenas; educação para as populações do campo; educação de jovens e adultos; qualificação profissional e mundo do trabalho; democracia, tolerância e paz mundial.

Vigésimo sexto volume desta Coleção, esta obra se propõe a ser um encontro agradável de professores e professoras com a filosofia, permitindo diversas leituras e contribuindo para abrir um espaço que fundamente a produção do conhecimento em Educação Ambiental.

Organização: Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber

Pensar o

Ambiente:

bases filosóficas para a

Educação Ambiental

Brasília, dezembro de 2006 1a Edição

Edições MEC/Unesco

SECAD – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade

Esplanada dos Ministérios, Bl. L, sala 700 Brasília, DF, CEP: 70097-900 Tel: (5 61) 2104-8432 Fax: (5 61) 2104-8476

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

Representação no Brasil SAS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/Unesco, 9º andar Brasília, DF, CEP: 70070-914 Tel.: (5 61) 2106-3500 Fax: (5 61) 32-4261 Site: w.unesco.org.br E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Pensar o

Ambiente:

bases filosóficas para a

Educação Ambiental

Organização: Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber

Brasília, dezembro de 2006 1a Edição

© 2006. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)

Conselho Editorial da Coleção Educação para Todos Adama Ouane

Alberto Melo Célio da Cunha Dalila Shepard Osmar Fávero Ricardo Henriques

Coordenação Editorial Eneida M. Lipai

Revisão: Adilson dos Santos Revisão técnica: Luciano Chagas Projeto Gráfico: Carmem Machado Diagramação: Satyro Design Tiragem: 5000 exemplares

Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO e do Ministério da Educação, nem comprometem a Organização e o Ministério. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO e do Ministério da Educação a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a Educação Ambiental. / Organização: Isabel Cristina Moura de

Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber. - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2006.

ISBN 978-85-98171-70-8 242 p. - (Coleção Educação para Todos; v. 26)

1. Educação Ambiental – Brasil. 2. Filosofia. 3. Diversidade. 4. Políticas educacionais – Brasil. I. UNESCO. I. Brasil. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. I. Título.

CDU 37:577.4

Apresentação

Este vigésimo sexto volume da Coleção Educação para Todos, publicado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (Secad/MEC) em parceria com a UNESCO, marca uma maneira diferente de abordar a temática da educação ambiental.

Pensar o Ambiente oferece aos educadores possibilidades fecundas de leitura e reflexão a partir da contribuição teórico-conceitual de diversos pensadores – Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Bacon, Descartes, Espinosa, Rousseau, Kant, Marx, Freud, Heidegger, Arendt, Gadamer, Vygotsky e Paulo Freire – e do momento histórico em que viveram, incluindo excertos de textos clássicos desses pensadores com a respectiva contextualização social e histórica. Os autores apresentam referências para que o leitor, mesmo não iniciado em filosofia, seja capaz de relacionar natureza/cultura/ambiente e compreender tal relacionamento de maneira contextualizada.

Trata-se, pois, de uma leitura provocativa e útil para professores, gestores, coordenadores pedagógicos, diretores de escola, educadores ambientais e outros educadores preocupados com a diversidade, a cidadania e a inclusão educacional e social.

Esperamos que os textos deste livro ganhem vida nas mãos dos educadores e educadoras, que sua leitura provoque a reflexão e o debate em torno de idéias que fortaleçam as práticas pedagógicas e que eles possam contribuir para a compreensão mais aprofundada das relações dos seres humanos com o seu meio.

Ricardo Henriques

Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação

Introdução1

Sumário

Nancy Mangabeira Unger

Os pré-socráticos: os pensadores originários e o brilho do ser 25

Danilo Marcondes

Aristóteles: ética, ser humano e natureza 3

Alfredo Culleton

Santo Agostinho e São Tomás: a filosofia da natureza na Idade Média 43

Antonio Joaquim Severino

Bacon: a ciência como conhecimento e domínio da natureza 49

Mauro Grün

Descartes, historicidade e educação ambiental 51

Bader Burihan Sawaia

Espinosa: o precursor da ética e da educação ambiental com base nas paixões humanas 7

Nadja Hermann91

Rousseau: o retorno à natureza

Frederico Loureiro

Karl Marx: história, crítica e transformação social na unidade dialética da natureza 121

Carlos Alberto Plastino

Freud e Winnicott: a psicanálise e a percepção da natureza – da dominação à integração 135

Nancy Mangabeira Unger

Heidegger: “salvar é deixar-ser” 153

Susana Inês Molon

Vygotsky: um pensador que transitou pela filosofia, história, psicologia, literatura e estética 163

Mauro Grün

A Outridade da Natureza na Educação Ambiental 177

Isabel C. M. Carvalho e Gabriela Sampaio

Hannah Arendt: natureza, história e ação humana 189

Marta Maria Pernambuco e Antonio Fernando Gouvea da Silva

Paulo Freire: a educação e a transformação do mundo 205

Eda Terezinha de Oliveira Tassara

Posfácio O pensamento contemporâneo e o enfrentamento da crise ambiental:uma análise desde a psicologia social 219

Sobre Autores e Autoras...................................................................... 233

Introdução

As primeiras idéias sobre este livro foram surgindo na seqüência de várias conversas entre Isabel Carvalho, psicóloga, educadora ambiental, e Rachel Trajber, antropóloga, responsável pela coordenação de Educação Ambiental no MEC, no segundo semestre de 2005. O projeto do livro foi se delineando em torno do objetivo de apresentar alguns dos pontos importantes no pensamento ocidental moderno e suas relações com os modos de pensar o ambiente. Na continuidade, pudemos contar com Mauro Grün, filósofo ambiental já conhecido dos leitores da EA desde a publicação do seu trabalho de mestrado “Ética e EA, uma conexão necessária”. Contamos com a inestimável colaboração dos colegas articulistas desta coletânea que acolheram o projeto, aceitando o convite para escrever os artigos sobre os diversos pensadores e suas tradições filosóficas, identificando sugestões de leitura e citações selecionadas das obras originais dos pensadores selecionados.

Inicialmente pensamos num livro voltado exclusivamente para uma seleção de autores clássicos que seriam apresentados e comentados por filósofos contemporâneos especialistas naqueles autores. Depois estendemos esta idéia inicial para incluir alguns pensadores de outros campos não restritos à filosofia que consideramos muito significativos na formação de uma maneira ocidental de pensar o ambiente. Desta forma, incluímos um grupo menos numeroso de pensadores ligados à psicologia e à educação, que são Freud, Vygotsky e Paulo Freire. Do mesmo modo, incorporamos na categoria de posfácio um texto de Eda Tassara que, pensado desde a psicologia social, apresenta uma ampla discussão filosófica e epistemológica sobre os fundamentos do pensamento moderno e a crise ambiental.

Este livro se propõe a ser um encontro agradável de professores e professoras com a filosofia, permitindo diversas leituras e contribuindo para abrir um espaço que fundamente a produção do conhecimento em Educação Ambiental. Houve a opção de se trabalhar com uma linguagem menos técnica por parte dos autores, sem deixar de respeitar o discurso filosófico. Isso aparece de duas formas, uma na escrita de textos curtos e a outra, procurando deixar os filósofos falarem por si, “no original”. Na impossibilidade de utilização de excertos na íntegra, foram utilizadas passagens representativas das teorias estudadas, bem como inseridas citações mais longas e ilustrativas do estilo e do pensamento filosófico.

O debate no qual este livro se insere segue sendo de natureza filosófica, mesmo quando aciona pensamentos de outros campos, pois é com uma indagação filosófica que o fazemos. A questão que conecta este empreendimento ao vívido debate contemporâneo, sobre as relações entre filosofia e ambiente, diz respeito ao tema da possibilidade de ética ambiental, seus fundamentos e aplicações no mundo contemporâneo. Em 1972, o filósofo australiano Richard Routley escreveu um trabalho intitulado Is there a need for a new ethics, an Environmental Ethics? (Existe a necessidade de uma nova ética, uma Ética Ambiental?), que viria a se tornar um clássico na literatura internacional sobre Ética Ambiental, dando início a uma disciplina ainda marginal chamada Ética Ambiental. Em seu famoso ensaio, Routley argumenta que as éticas ocidentais não estão bem equipadas para tratar da crise ambiental e que a única saída seria criar uma ética totalmente nova, uma Ética Ambiental. O livro “Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental” atesta basicamente uma discordância com o argumento de Routley. Pensamos que o ocidente, desde os gregos, passando pelos medievais e modernos até os contemporâneos, está repleto de poderosos insights para o desenvolvimento da Ética Ambiental e da Educação Ambiental. Assim, o novo, neste caso, não precisa necessariamente remeter a uma refundação do pensamento filosófico, mas, talvez a releitura dos autores ocidentais, à luz do contexto em que vivemos, possa nos trazer novas luzes sobre nossos impasses atuais.

Ainda no séc. IV a.C., Platão, em Crítias 102, lamenta a devastação das paisagens gregas. Assim, iniciamos nosso diálogo com a tradição através dos Pré- Socráticos. Em “Os Pré-socráticos: os pensadores originários e o brilho do ser”, artigo escrito por Nancy Mangabeira Unger, somos transportados à linguagem e ao pensamento dos primeiros filósofos gregos que inauguram um modo de pensar a totalidade do mundo. Este artigo nos brinda com parte deste universo originário, onde os conceitos como physis, ethos, aletheia, entre outros, nos remetem a um saber e a uma experiência sem tradução no nosso mundo moderno. Para o educador ambiental, por exemplo, aproximar-se da noção de physis, que diz respeito à vida que pulsa em todos os seres, anterior e diferente de nossa visão de física ou de natureza, conceitos já pertencentes a uma categorização dualista da realidade que não faziam parte da linguagem e da experiência destes pensadores antigos. Do mesmo modo, a idéia de ethos como morada nos dá pistas desta outra experiência do real e da convivência, anterior às dicotomias que posteriormente vieram a constituir o modo moderno de pensar o mundo. Deste modo, os Pré-Socráticos, com seus fragmentos, nos permitem imaginar outros sentidos para habitar o mundo como ambiência, uma noção que pode ser muito iluminadora para a educação ambiental.

Em “Aristóteles: ética, ser humano e natureza”, Danilo Marcondes demonstra a atualidade do pensamento aristotélico para o séc. XXI. Aristóteles, ex-discípulo de Platão, construiu um grande sistema de saber que influenciou muito o desenvolvimento tanto da ciência grega, como medieval. Aristóteles concebe o ser humano como parte da natureza e ambos são dotados de um telos (finalidade). A Ética a Nicômaco é o primeiro tratado versando sobre Ética do Ocidente. Danilo Marcondes observa que essa integração do ser humano com o mundo natural é uma das maiores aspirações do pensamento ecológico contemporâneo. A Ética, em Aristóteles, consiste justamente na busca do equilíbrio. Além disso, a Ética situa o saber instrumental – que tantos problemas ambientais nos traz hoje por sua própria conta – como dependente do saber prudencial. Assim, a ação ética deve evitar os extremos, ser prudente, caracterizando-se pelo equilíbrio. A dificuldade em fazer o bem está em achar o meio termo, a justa medida. A polis (cidade) também faz parte das coisas naturais e o homem, por sua vez, é um zoon politikón (animal político). A Ética a Nicômaco, de Aristóteles, pode ser muito útil à Educação Ambiental, pois trata-se de um saber prático que nos permite tomar decisões em relação ao meio ambiente, às políticas públicas etc., evitando as soluções fáceis, mas comprometedoras do “Technological Fix” (soluções meramente técnicas, desvinculadas de um contexto ético).

Em “Santo Agostinho e São Tomás: a filosofia da natureza na Idade Média”, Alfredo Culleton nos fornece uma visão detalhada das possibilidades ecológicas do pensamento cristão medieval. Santo Agostinho considera a natureza como uma livre criação de Deus no tempo e, como todo ser criado do nada, é essencialmente boa. Toda natureza é sempre um bem. A natureza do espírito, no entanto, é sempre superior à natureza do corpo. Essa noção de natureza, embora nos pareça estranha e distante – ora, como pode um espírito ser natureza? –, é uma forma de ver o mundo de maneira unificada, ainda sem a distinção entre

Natureza e Cultura, estabelecida por Descartes no séc. XVII e que está, segundo muitos pensadores sistêmicos, na base do materialismo Ocidental. Com Tomás de Aquino, a Idade Média vive um novo momento e os cristãos ficam fascinados por Aristóteles, influenciados pelos comentários dos árabes Avicena e Avenrois e por Maimônides, chamado por Tomás de Aquino de “o sábio judeu”. Para Tomás de Aquino a idéia central da filosofia da natureza é a de que o Céu e a natureza dependem da razão e até mesmo Deus se rege por razões. Mas, não se trata de um racionalismo cego. Pelo contrário, há um componente holístico em Tomás de Aquino que pode interessar à Educação Ambiental. Sua postura holística diz que “conhecer a ordem do todo é conhecer a ordem da parte e conhecer a ordem da parte é conhecer a ordem do todo”. Esse tipo de holismo é considerado elogiável por um número significativo de educadores/as ambientais. Tomás de Aquino observa que há uma certa sabedoria na natureza, que a encaminha para um fim, “como se fosse a operação de um sábio”. O texto de Alfredo Culleton serve não para que copiemos padrões culturais da Idade Média para o séc. XXI, mas, sobretudo, serve para compararmos as filosofias da natureza da Idade Média com a nossa sociedade contemporânea. Isso talvez nos fizesse ver o quanto antiecológicos nós temos sido.

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