UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Nome: Pedro Rogério Villar Barreto

Número do Cartão: 114236

Disciplina: HUM 04817- Estudos de Sociologia da Educação

Professor: Prof. Dr. Alexandre Silva Virginio

Curso: Licenciatura em Ciências Sociais

Turma: A

Semestre: 01/2011

Obra: Liberdade, Poder e Planificação Democrática, São Paulo, Mestre Jou, 1972.

Autor: Mannheim, Karl

Capítulos e páginas: Capítulos: 7-10, páginas: 231-336

Resenha:

Karl Mannheim nesta obra estende muito mais o seu conceito de educação social e seu método dialético no qual relaciona o conhecimento formal como informal.

No capitulo 7 desta obra, Mannheim conceitua princípios e a evolução da influência entre que o costume e a ciência social tem na sociedade. Segundo o autor, antigamente os costumes serviam como forma de ordenador social, um regulador nas próprias relações primárias e secundárias entre os indivíduos. Tanto relações institucionalizadas e não institucionalizadas, eram reguladas pelo sistema de costumes.

O enfraquecimento dessas instituições e dos próprios costumes, torna urgente e necessário o surgimento e fortalecimento de uma nova instituição, no qual regule essas relações, eis que surge a urgência da ciência social ser uma forma de orientação para essa estrutura.

O que se destaca nesse capitulo é noção de competição e cooperação. Segundo o autor a competição somente é nociva na noção mais extrema do capitalismo e do liberalismo, que a competição entre desiguais, que somente contribui para sentimentos de inferioridade e exageros gerados pelo excesso de poder e falta de regulagem nas relações. Para Mannheim, a competição somente é sadia quando é feita entre iguais, incentivando cada membro do conjunto social a se aperfeiçoar com finalidade atingir os objetivos comuns. Essa competição entre iguais se transforma em espécie de cooperação social, já que a dificuldade do outro em acompanhar o restante do grupo, não significa uma forma de segregação social, mas um fator de cooperação entre os membros desse grupo.

A cooperação não se restringe somente ao pequeno grupo, mas sim a cooperação de pequenos grupos formando um grande grupo, pois para Mannheim, o homem com ideários democráticos, que recebe uma educação social, terá como principio do espírito competitivo a solidariedade com finalidade de bem comum. Nesse ponto, o autor lança princípios que a educação social é uma forma de torna esse ideal realidade. Nessa parte do texto o autor se aproxima de Max Weber, com idéia de “ethos”, de uma espírito que permeie as relações sociais, resultando na cooperação social, uma espécie de ação racional. Nesse sentido, Mannheim acaba superando Durkheim, fazendo a função cooperativa não simplesmente uma função de organismo social orgânico, mas sim de organismo desenvolvedor do status democrático em sociedade mais dinâmica que a idealizada por Durkheim.

No capitulo seguinte o autor tentar teorizar um padrão de comportamento democrático, começa com questão de como o padrão de comportamento, durante a história foi forma de regulagem social e também resultado da própria estrutura social e suas instituições.

Nessa parte do texto, o autor disserta sobre a questão da liberdade responsável, feita pela cooperação e pela competição sadia, fazendo disso possível pelo poder da educação social, que não está somente no sistema formal de educação, mas também em outras instituições sociais, como família.

Na questão família, Mannheim faz uma reflexão na transformação dessa instituição, com advento dos métodos anticoncepcionais. Muitos acham que tal instituição está em viés de extinção, mas segundo o autor, essa instituição deve ser valorizada para uma educação social, somente assim uma educação democrática será eficiente, já que a família é parte importante e órgão também formador dessa consciência social, dessa nova ordem social. Isso não significa usar meios autoritários de conservação dessa instituição, mas sim meios democráticos que a conservem, sem que mesma perca a liberdade de escolha, como por exemplo, ter ou não ter filhos.

Pois a formação de comportamento democrático tem como um dos de seus princípios a responsabilidade democrática. Mannnheim explica que a pequena propriedade privada tem uma função didática, pois antigamente, quando o capitalismo não tinha reduzido a propriedade das pessoas em venda de sua mão de obra, quando existia uma criação de responsabilidade criada pelo trabalho familiar na pequena propriedade,essas tinham uma noção de responsabilidade social. Mannheim não nega e nem defende o fim da propriedade privada, mas sim o uso responsável da mesma.

Segundo o autor deve haver um treinamento para responsabilidade e pela espontaneidade, a superação do superego e a solução do enfraquecimento da pequena propriedade criado pela sociedade liberal capitalista. Apesar nesse ponto o autor se aproximar de Karl Marx, ele não propõe a formação de uma sociedade igualitária e socialista, mas sim de uma sociedade democrática, onde haverá valorização da tolerância em vez do fanatismo ideológico, sendo o autor bastante critico ao uso ideológico da educação, tanto no meio capitalista como meio comunista, pois a função integradora da educação democrática funcionaria como forma de reforço da cooperação social, instituída pela competição sadia e igualitária, em educação praticamente libertadora. Todavia nessa idéia autor, assemelha-se muito a Bakunin e Mezáros, em suas propostas educacionais, de superação da sociedade liberal falida feita também pela educação.

Mannheim na dissertação da formação da personalidade democrática, no capitulo seguinte o autor defende o uso educacional como formador de uma personalidade mais democrática, seguindo essa uma função moralizante. Nessa questão, novamente Mannheim supera Durkheim, pois a formação proposta por ele não uma proposta autoritária como Dukheim, mas sim uma função libertadora, como forma de superação social, apesar de ambas terem uma função de terminar disfunções como anomias sociais, como a criminalidade. A proposta moralizante de ambos os autores não é nova, pois socialistas utópicos, como Robert Owel, já teorizaram sobre essa questão, o que Mannheim traz de complemento é questão de função libertadora que essa nova moral traz, se aproximando muito da proposta educacional de Paulo Freire.

Na proposta do autor, de formação personalidade democrática traz uma idéia de sociedade coletiva, em vez do individualismo liberal, exercido pela competição desigual. Todavia a sociedade democrática proposta pelo autor traria as condições necessárias para sobrevivência de um padrão de personalidade democrática, pois esta seria a dualidade dessa personalidade, a concordância entre extrema individualidade e cooperação social, instituída na competição entre iguais e na tolerância democrática que seria a base que sustentaria essa nova estrutura social.

A proposta moralizante de Mannheim se assemelha ao pensamento do socialismo utópico, onde a superação da sociedade liberal, não será feita pelo rompimento das próprias estruturas dessa sociedade, mas sim de uma utopia que tolere tanto a igualdade da educação social com a existência real da própria desigualdade capitalista.

No capitulo 10, o autor disserta na questão da educação como base do trabalho de formação de uma nova sociedade democrática, como Marx, e diferente de Durkheim (que fazia a proposta educacional na qual mantinha a estrutura social capitalista liberal), Mannheim reforça nesse capitulo a educação como formação uma nova forma de sociedade, uma sociedade democrática.

Mannheim defende que a ciência que orientará nessa nova estrutura educacional será sociologia. O autor defende formação da sociologia da educação, na qual orientaria a pedagogia como instituição de transformação social. Pois a educação social seria realizada por estrutura social democrática, em uma escola democrática, que seria um nível igualitário de instrução e que treinaria desde primeira infância, o exercício democrático. Assim a educação social, com as outras instituições sociais, primárias e secundárias, o treinamento democrático, formando um novo padrão de personalidade, essa democrática, onde seria uma sociedade tolerante e responsável. Seria uma forma planificada de educação muito além da estrutura escolar.

Podemos perceber que Mannheim propõe uma educação de formação moral, mas essa democrática, apesar de se assemelhar Durkheim nessa questão, percebe-se que sua proposta se aproxima mais com a proposta de Paulo Freire de educação libertadora. Pois sua proposta educacional é proposta de superação da sociedade existente, e não uma preserve a sociedade vigente, como proposta de Durkheim.

Devemos também destacar a proposta de educação igualitária em todas as classes sociais, nessa teoria Mannheim se assemelha com proposto pelo anarquista Bakunin, em sua obra “A instrução Integral”, que propõe que superação da sociedade capitalista não será possível se existir vários níveis de instruções para diferentes classes sociais. Mezáros, mais recentemente em sua obra “A Educação para Além do Capital”, prevê a mesma proposta da educação como forma de superação da estrutura social, uma educação democrática.

Todavia a critica que se faz é que proposta de sociedade democrática de Mannheim não é superação total das estruturas capitalistas, assim não superando o status quo capitalista. Diferente de Mézaros e Bakunin, a nova sociedade proposta pelo autor seria uma forma mais amena de capitalismo (se isso é possível) embasada na tolerância e na cooperação entre os indivíduos, apesar da desigualdade econômica e social do capitalismo.

Podemos concluir que a teoria de Mannheim é uma utopia educacional, muito próximo a ideologia dos socialistas utópicos, como a proposta de Robert Owen e o poder educação na formação de uma nova sociedade. O problema, que diferente de Owen, a proposta educacional de Mannheim nunca foi colocada em prática, sendo esse um grande desafio para estrutura educacional vigente, assim seria possível empiricamente sabermos se essa utopia educacional seria possível ou não.

Bibliografia:

Principal:

MANNHEIM, K. Liberdade, poder e planificação democrática. São Paulo:

Mestre Jou. 1972.

Complementar:

BAKUNIN, Mikhail A. A instrução Integral.Coleção Escritos Anarquistas. São Paulo: Imaginário. 2003.

DURKHEIM, Émile; Sociologia: Textos escolhidos. Coleção Grandes Cientistas Sociais. 9 Ed; Brasil. Ática, 1995.

DURKHEIM, E. Educação e sociologia. SP. Editora Melhoramentos. 1972.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. RJ: Paz e Terra, 1994.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. SP: Paz e Terra, 1997.

MANNHEIM, K; STEWART, W.A.C. Introdução à Sociologia da Educação. SP:

Cultrix. Sd.

MARX, Karl. Marx: Manuscritos Econômicos- Filosóficos e outros textos escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

MESZÁROS, István. Teoria da Alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2010. pp: 263-272

MESZÁROS, István. A Educação para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2010.

PETITFILS, Jean-Christian. Os Socialismos Utópicos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. pp: 71-84

WEBER, Max. Max Weber: Textos Selecionados. Coleção: Os Economistas. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

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