a avaliação da aprendizagem sob uma perspectiva dialética

a avaliação da aprendizagem sob uma perspectiva dialética

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Vicente Moreira da Silva1

Resumo: Este artigo pretende discutir a avaliação do aproveitamento escolar como um dos grandes desafios no processo de ensino e aprendizagem, pois os resultados que se depara constantemente no interior das escolas públicas, principalmente nas séries finais do Ensino Fundamental, demonstram que a concepção de avaliação pela maioria dos docentes, ainda é a abordagem tradicional, em que se faz somente um juízo de valor e não um juízo de qualidade da aprendizagem do aluno e do trabalho do professor em sala de aula. Fundamentada na concepção pedagógica histórico-crítica, o texto possibilita a reflexão da necessidade de uma nova prática pedagógica em torno do processo avaliativo.

Palavras-chaves: avaliação. dialética. ensino. escola. fundamental.

Resumen: Este artículo se prepone discutir la evaluación del referente a la explotación de la escuela como uno de los grandes desafíos en curso de educación y el aprender, por lo tanto los resultados que si están parecidos constantemente dentro de las escuelas públicas, principalmente en la serie final de Ensino básico, demuestran que el concepto de la evaluación para la mayoría de los profesores, sigue siendo el subir tradicional, donde si hace solamente un juicio del valor y no un juicio de la calidad de aprender de la pupila y del trabajo del profesor en sala de clase. De acuerdo con el concepto pedagógico descripción-crítico, el texto hace posible la reflexión de la nueva necesidad práctica de pedagógica alrededor del proceso del avaliativo

Palabra-llaves: evaluación. dialéctico. educación. escuela. Básico.

1 Professor pedagogo – Graduado em Pedagogia pela Faculdade de Ciências e Letras de Jandaia do Sul, com especialização em Educação Infantil, Pré-escola e Séries Iniciais do Ensino Fundamental, pela Faculdade de Ciências e Letras de Campo Mourão. Professor PDE _ SEED/PR: 2008/2009 E-mail: vicmorsil@hotmail.com

I. Concepção dialética da avaliação da aprendizagem: primeiras reflexões.

É possível a mudança da concepção de avaliação do professor das séries Finais do Ensino Fundamental? Inicia-se a discussão desse texto a partir desse questionamento.

Durante muito tempo, a escola teve como princípio norteador de seu trabalho educativo a reprodução, memorização, classificação e exclusão do acesso ao conhecimento. Via-se nitidamente a clara separação entre os que “podiam” e “não podiam”, aqueles que deveriam avançar e uma grande massa que deveria ficar aquém do processo educativo, aceitando passivamente sua condição de alienação ao sistema educativo, econômico e político-social2.

Nesse contexto, poderia perguntar ao leitor, a partir de questionamentos já levantados nas discussões suscitadas sobre essa temática: o sistema capitalista atual permite a inserção de todos os indivíduos nos vários campos sociais? Não seria utopia declarar esse princípio de igualdade, numa saciedade desigual como a que vivemos? Ora, penso que o sentido crucial dessa discussão não seria o fato de todos terem acesso a tudo, mas de entender que a partir de uma situação vivida, experenciada e concretizada socialmente e economicamente pelo indivíduo, este seja capaz de estabelecer a luta pela transformação de sua condição social.

partir do concreto, o conceito de “práxis”, base da teoria marxista

Não se pretende aqui abordar questões sociais, já que esse não é o foco desse texto, mas de se fazer entender que o norte da pedagogia Históricocrítica é justamente a luta de classes, a possibilidade de transformar a realidade a

A partir das idéias acima evidenciadas, poder-se-ia então pairar a dúvida do que isso tenha a ver com a avaliação da aprendizagem. Quando falamos em perspectiva dialética, supomos o entendimento de que o termo se relaciona à mudança, ao movimento, a antagonismos e à transformação. Dialética, no sentido próprio da palavra, significa a arte de argumentar ou discutir, maneira de filosofar

2 Para se aprofundar nessa discussão, sugiro a leitura do caderno temático, produzido como material didático do PDE – Programa de Desenvolvimento Educacional – pág. 12-19, disponível no site http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br que procura a verdade por meio de oposição e conciliação de contradições (lógicas ou históricas).

Quando falamos em avaliação, qual seria o seu sentido no processo de ensino-aprendizagem? Somente detectar uma realidade ou conhecer a realidade para transformá-la? Seria avaliar para constatar ou avaliar para intervir?

Penso que alguns argumentos podem por si só, provocar algumas reflexões. Conforme enfatiza Mello (1974, p. 347):

[...] É profundamente ridículo para não dizer inconsciente, grotesco e criminoso, o procedimento de alguns pseudoprofessores que se jactam de reprovar em massa. Seria o caso do cirurgião que se vangloriasse de ter um alto índice de mortalidade nas intervenções cirúrgicas que realizasse, ou do engenheiro que se gabasse do desmoronamento dos prédios que construísse.

O que se percebe, é que além de uma concepção de avaliação, que se traduz numa visão tipicamente tradicional, por uma grande maioria dos professores da escola pública, há também uma concepção de ensino, de aprendizagem, de método, de educação, de homem, de sociedade e de mundo que acabam por configurar-se nesse “modelo” vigente3 de avaliação e de aprendizagem que permeia o trabalho pedagógico em sala de aula.

Discutir os resultados alcançados a partir da proposta e perspectiva de trabalho em sala de aula é, em si, evidenciar não somente os resultados, mas também o processo que se chegou a esses resultados; que tanto são questionados, analisados e acabam por transformar-se num “jogo do empurra-empurra”. E quando se brinca de jogar a “batata-quente” nas mãos do outro, não se quer isentar de responsabilidade coletiva. Quando falamos de resultados negativos, não podemos responsabilizar o aluno, a família, o sistema, o governo, como muitos o fazem, sem fazer uma leitura crítica do processo. Mas se trata de que a partir desses resultados, se possa também estabelecer o principio dialético do movimento, do antagonismo, de se fazer perceber também o professor, como sujeito de sua prática.

Os resultados alcançados na educação, nos últimos tempos, tem sido satisfatórios e se estes fazem com que o professor se sinta realizado por sua prática de sala de aula? É bem provável que alguns tentariam justificar, dizendo, por

3 Quando aqui me refiro á palavra modelo, não tenho a intenção de me fazer entender que há uma receita pronta, algo eficaz que se possa aplicar em sala de aula, pelo professor; mas que resulte numa reflexão, numa visão dialógica de novas perspectivas do trabalho educativo e, sobretudo, avaliativo.

exemplo, que a reprovação, a não-aprendizagem de alguns alunos, ou de muitos que seja, seria natural, visto que o ser humano tem que ser considerado em sua heterogeneidade e não em sua homogeneidade. É claro que as diferenças em sala de aula são perceptíveis e que a incompletude do ser humano se faz em sua essência, como condição humana. Percebamos a seguinte situação, corriqueira de nossos dias: se temos em nossa casa dois filhos, um que já tenha dominado completamente todos os movimentos necessários pra se locomover. Enfim, consiga andar. E outro que ainda esteja em processo de entendimento de correção de postura e de movimento. Qual destes precisará mais de acompanhamento no sentido próprio de sua necessidade? É uma resposta óbvia, não? Certamente, praticamente todos colocariam que o segundo seria o que mais precisaria de apoio, de acompanhamento e de intervenção no seu processo de desenvolvimento.

Nessa perspectiva analógica, se colocássemos a situação de que, em sala de aula, tendo em vista a heterogeneidade dos alunos, uns consigam aprender e outros tenham maior dificuldade, ou ainda em relação á realidade de turmas diferentes, em que uma seja mais receptiva, comportada, com maiores condições de acesso ao conhecimento, porque vivenciam isso em sua realidade familiar e outra que seja uma sala problemática, com alunos indisciplinados, com problemas familiares e dificuldades de aprendizagem. Qual destes/destas precisariam certamente, de nossa intervenção, acompanhamento e um “novo olhar”?

Não se tem a pretensão de levantar questionamentos de que há uma indiferença por parte dos docentes perante essa situação. Ao contrário. Há, sim, uma mobilização presente em algumas escolas em se fazer algo pelos excluídos; não pensando na exclusão em termos de condições especiais, mas na exclusão que se quer pensar, também, social e principalmente educativa, de condições de aprendizagem. Num certo sentido, como enfatiza Hoffmann (2005, p. 18), os professores não são “culpados” pelos resultados obtidos pelos alunos, mas são sim, “responsáveis”.

Por outro lado, quando em sua prática, o professor internaliza algumas concepções includentes em relação ao trabalho pedagógico, pensando constantemente sobre o seu “fazer” em sala de aula, percebendo o aluno como um agente ativo do processo educativo, quando se tem a concepção de não deixar “o aluno passar pela escola, sem que a escola passe por ele” penso que, conforme, enfatiza Hoffmann, apud Demo (2004, p.79):

“(...) os professores não podem ser “saco de pancadas” como se fossem os vilões da história. Muito ao contrário, primeiro são vítimas desse sistema perverso, e, segundo, são figuras-chave da cidadania popular e esta tem como uma de suas perspectivas mais essenciais mudar a sociedade em que vivemos”.

O trabalho realizado na maioria das escolas públicas vem no sentido de atender a essas expectativas: de não permitir as arbritariedades que deixaram marcas em nós, professores, quando alunos. Basta voltarmos ao tempo e pensarmos de como se constituiu nossa trajetória escolar e vamos encontrar marcas, muitas vezes, indeléveis, que carregamos conosco até hoje, principalmente no sentido da avaliação.

Quando abrimos caminhos para a discussão em torno da reprovação, estamos de certa, forma entendendo o processo avaliativo em sua essência: o aproveitamento escolar. Há a visão de que o bom professor é aquele que reprova; que impõe medo; que tem em seus resultados, que sejam bimestrais ou não, a maior parte dos alunos abaixo de uma média estipulada pelo sistema. Essa é uma concepção de ensino e de aprendizagem totalmente equivocada. Como diz Demo4, “o bom professor é aquele que faz com que o aluno aprenda, tenha sucesso e se desenvolva em sala de aula”. Poder-se-ia afirmar aqui, então, que o fracasso do aluno, é também o fracasso do professor.

Analisando-se à ótica dos problemas que encontramos em sala de aula, muitos afirmariam que essa seria uma visão utópica de educação, pois os alunos de hoje, não se interessam, não tem responsabilidade, não querem aprender, não “fazem nada” em sala de aula. Poderia então se pensar de que deveríamos ressignificar o sentido de ser educador, de ser professor. Isso se constitui como um eixo norteador do trabalho pedagógico.

Por outro lado, simplesmente não se pretende isentar a responsabilidade do indivíduo, enquanto aluno e nem tampouco, eximir de responsabilidades outros segmentos tão responsáveis pela educação quanto o sistema escolar, em si; mas de repensar, a partir das idéias aqui apresentadas, o sentido da avaliação no processo ensino-aprendizagem, como educadores e partícipes do processo educativo.

4 O livro: “Ser professor é cuidar que o aluno aprenda”, de Pedro Demo, Editora Mediação, 2005; traz uma discussão pertinente ao que aqui é tratado.

I. A avaliação como intervenção na prática pedagógica do professor das séries finais do Ensino Fundamental.

Pensando nos resultados atingidos pela educação, nos últimos tempos, analisa-se que deveríamos refletir um pouco mais sobre a prática pedagógica concretizada na escola pública. Demo (2005, p. 6), especifica que por volta de um terço dos alunos do Ensino Fundamental não completa a 8ª. Série e os que a completam, aprendem muito pouco. E continua: “segundo dados da UNESCO de 2003, grande parte dos alunos da 8ª. Série não entende o que lê. A rigor, continuam analfabetos”.

Hoffmann (2005, p. 7), enfatiza que a última pesquisa feita pela

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avaliou 41 países, surpreendeu gestores, educadores e toda a sociedade, com a posição do Brasil nos últimos lugares do ranking final, atrás de países muito pobres como a Tunísia e a Indonésia. Na tabela apresentada sobre a posição do Brasil no PISA (instrumento de avaliação Internacional sobre indicadores de qualidade da Educação Básica), mostra o Brasil em 40º. Lugar em Matemática, 37º. Lugar em Leitura e 39º. Lugar em Ciências.

Partindo dessa constatação, voltamos a elencar os motivos que levam muitos educadores a defenderam o mau rendimento do aluno, por meio da “Pedagogia da justificativa do fracasso escolar” (grifo nosso):

1ª. proposição: “O mau rendimento, uma avaliação abaixo da média, no bimestre, por exemplo - serve como forma a fazê-lo despertar a motivação. Sabendo que está indo mal, este terá que se esforçar mais”; 2ª. proposição: “Precisa reprová-lo, já que ele não tem condições nenhuma de acompanhar a série seguinte” 3ª. proposição: “faltou base pra série em que o aluno está. Não dominou conteúdos essenciais da série anterior”. (Como enfatiza Vasconcelos, 2005, p. 61: a “síndrome da falta de base”). 4ª. proposição: “sempre foi empurrado. Ano a ano passa só pelo conselho de classe”.

Essa é uma visão bastante presente na concepção pedagógica de muitos docentes, seja pela deficiência de uma formação pedagógica mais ampla em suas licenciaturas, seja pelo fato de uma opção pessoal e profissional de que se aprovar todos os alunos, demanda-se a idéia de má qualidade de ensino. Ora, se pensarmos por essa perspectiva, iríamos também afirmar que quando o médico detecta uma doença em um paciente, este deveria fazê-lo sofrer primeiramente, sentir dores, aflições, para depois curá-lo, como princípio de que esta atitude, por si só, o ajudaria a não ficar mais doente e a se cuidar.

Assim, pensamos: o mau rendimento incentiva a melhora ou estimula o fracasso? Poderíamos pensar nos antagonismos presentes nessa situação, pois alguns afirmariam veentemente que ajudaria sim, porque, de certa forma, se aprende muito com o sofrimento e o fracasso. Seria esta, então uma visão futurista de ensino e de aprendizagem frente aos dias atuais ou uma volta aos tempos mais primórdios das civilizações, em que os aspectos presentes no processo educativo/avaliativo/formativo do aluno se concretizavam por meio do medo, do sofrimento, da dor, do fracasso e da exclusão?

Vasconcelos5, diz que a reprovação, o mau rendimento do aluno não é resultado, é processo. Entendamos melhor a questão. Vamos pensar no que se configura o termo processo. Como princípio etimológico da palavra em si, processo significa método; sistema, adotar novas formas de ensino, seqüência contínua de fatos que apresentam certa unidade, ou que se reproduzem com certa regularidade; andamento, desenvolvimento. Também assim, deve ser vista a avaliação em sala de aula. Como ela é percebida pelo docente? Como resultado final (simplesmente porque temos que apresentar um conceito numérico ao final de um período à secretaria escolar para registro no histórico do aluno) ou como processo (conseqüência de um trabalho de ensino e possivelmente, de aprendizagem, de um trabalho realizado em sala de aula).

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