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Sergio João Frizzo; frizzo@fo.cprm.gov.br Serviço Geológico do Brasil – CPRM/FO

No que concerne à saúde humana e animal, a água conduz muitos constituintes químicos que são facilmente absorvidos pelas células. Muitos são benéficos e essenciais à vida (Ca, K, Mg, Fe, etc.), Outros (F, Se, Mo, Cr, etc.) propiciam benefício ou toxicidade dependendo das respectivas concentrações na água potável, porém oA s, Pb, HgeoC dn ão desempenham papéis fisiológicos conhecidos, exercendo toxicidade especialmente sobre os sistemas renal e nervoso.

A intoxicação dá-se geralmente por ingestão continuada durante longo tempo (exposição crônica), ou indiretamente, pelo consumo de organismos que da água absorveram e concentraram tais constituintes. São exemplos os casos de intoxicação por arsênio presente na água consumida pela população na China, Índia, México, Chile e Argentina, atingindo milhares de pessoas (Scarpelli, 2003), o envenenamento da população pelo consumo de peixes contaminados por mercúrio de efluentes industriais despejados na baía de Minamata, no Japão (Kudo et al., 1998) e os freqüentes casos de intoxicação nos habitantes de Fungang, Japão, pelo consumo de arroz irrigado com águas do rio Shentong, ricas em cádmio por passar em áreas de mineração de zinco (Yama, 1987, apud Nian-Feng Lin et al., 2004).

A real dimensão do problema da salubridade das águas de consumo, que tende a se agravar em âmbito mundial, é melhor avaliada ao acompanhar-se na imprensaasinformaçõessobreotema,quasequediárias.

No Ceará, apenas 470 dos 760 distritos em que é dividido o seu território (compondo 184 municípios) contam com rede de abastecimento de água, sendo que em 154 deles não há qualquer tratamento. Os restantes 290 distritos têm abastecimento alternativo por chafariz, bica, poços particulares, caminhão-pipa etc. (IBGE, 2005). A preocupação dos órgãos públicos estaduais e das empresas distribuidoras com a qualidade da água de consumo é exercida somente em relação à presença de microorganismos patogênicos e à salinidade, não sendo determinadas, de maneira sistemática ou sequer esporádicas, as concentrações dos elementos químicos, sabidamente tóxicos, que podem estar minando, imperceptivelmente, a saúde da população.

Neste trabalho, relata-se um resumo do estudo desenvolvido por Frizzo (2006), com algumas observações sobre os resultados de alguns elementos químicos em amostras de águas coletadas nos açudes, fontes, rios e poçosqueconstituemosprincipaismananciaisdeabastecimento público dos municípios do estado do Ceará. Este estudo teve como objetivo a “verificação” da qualidade das águas, então captadas naqueles determinados locais e ocasiões da amostragem, antes do tratamento e distribuição. Constituiu uma atividade do PGAGEM - Programa Nacional de Pesquisa em GeoquímicaAmbientaleGeologiaMédica,emdesenvolvimento pelo Serviço Geológico do Brasil – CPRM, que contou com o apoio da Agência Nacional de Águas-ANA, Superintendência de Administração da Rede Hidrometeorológica, através do Projeto Operação da Rede do Convênio ANA/CPRM.OPGAGEMvisaestudarasrelaçõesentreo quimismo dos objetos geológicos e sua influência nas áreas do meio ambiente e da saúde pública.

Composicionalmente, segundo IBGE e SUDENE (1966), no Ceará há maior abundância e mais ampla dis-

Sergio João Frizzo tribuição das águas superficiais do tipo Bicarbonatadas Mistas e Bicarbonatadas Sódicas, ocorrendo ao norte e sul do estado e na região próxima a Fortaleza, respectivamente; Cloretadas Mistas queocorrem naporção central do território estadual, estendendo-se em uma faixa até o litoral norte e outra até quase o litoral nordeste; Cloretadas Sódicas e Mistas Sódicas com ocorrência na porção centro-oeste do estado. A potabilidade (calculada em função da concentração dos principais cátions e dureza) é boa, com exceção de uma pequena bacia no alto rio Banabuiú e com restrição nas proximidades da foz do rio Jaguaribe, de maior salinidade. Para irrigação, as águas são impróprias na região central do estado, nos rios Quixeramobim e alto Banabuiú, e próximo da foz do rio Jaguaribe, devido ao elevado conteúdo em sais dissolvidos (Figura 1a).

Quanto às águas subterrâneas, existe a classificação primária da água entre doce, salobra e salgada, em função da concentração de sólidos totais dissolvidos (STD), calculados a partir da condutividade elétrica medida em 7.092 poços, dentre os mais de 13.0 poços cadastrados em todo o estado, pelo Programa Recenseamento de Fontes de Abastecimento por Água Subterrânea no Estado do Ceará, executado pelo Serviço Geológico do Brasil - CPRM em 1999 (CPRM, 1999). Pode-se, a partir deles, delinear as conhecidas províncias hidrogeológicas do estado: coberturas sedimentares cenozóicas, mesozóicas e paleozóicas ao norte (litoral), a sul (chapada do Araripe) e a oeste (chapada da Ibiapaba - fronteira com o Piauí), respectivamente, onde há predomínio de poços com água doce, e o embasamento cristalino, na ampla região central cobrindo quase todo o estado, onde dominam as águas subterrâneas salobras e salgadas (Figura 1b).

Não obstante a ampla diversidade geológica do estado e a irregularidade na distribuição territorial dos pontos de captação, condicionada por conveniências econômicas, sociais ou políticas, observa-se uma lógica relação entre as litologias e os tipos de captação d’água que são adotados e que servem de abastecimento público para as sedes municipais.

Os poços tipo amazonas e tubulares são dominantes em terrenos cobertos por sedimentos inconsolidados, areias, argilas e cascalhos do Quaternário. Vários tipos dos poços tubulares que alimentam as sedes dos municípios também são registrados no domínio de arenitos e argilitos do Grupo Barreiras, do Neogeno; em arenitos, siltitos e folhelhos de diversas formações geológicas mesozóicas (formações Rio Batateiras, Exu, Missão Velha, Brejo Santo e Icó); e ainda em seqüências de arenitos e conglomerados silurianos (Formação Mauriti e Grupo Serra Grande). A menor proporção de poços, de até 60 metros de profundidade, ocorre no domínio das rochas cristalinas do Proterozóico e Arqueano; são terre- nos de variada composição mineral e, em geral, desfavoráveis à circulação da água subterrânea, que se faz por sistemas de fraturamentos, com elevado conteúdo de sais dissolvidos.

Nos cursos de água superficiais é esperado que a composição da água tenha a contribuição de material solubilizado de toda a bacia hidrográfica a montante do ponto de coleta, e que tenha uma variação sazonal (por diferenças no fluxo, pluviosidade variável na área de influência etc.) mais importante do que aquela verificada na água subterrânea. Das captações amostradas em rios, a maior freqüência é verificada nas faixas de areias, cascalhos e argilas inconsolidados do Quaternário, depósitos aluvionares dos próprios rios que se encontram perenizados.

Açudes e lagos constituem as principais fontes d’água de abastecimento público no estado; suas águas tambémdevemrefletiracomposiçãodasbaciasdosrios que lhes dão origem, com variações intermediárias na composição devidas à sazonalidade climática. Encontram-se estabelecidos preferencialmente sobre terrenos cristalinos constituídos por antigas rochas ígneas e sedimentares afetadas por processos metamórficos: granitos, granodioritos, orto e paragnaisses, metabásicas, quartzitos, micaxistos, metacalcários, filitos etc, que compõem várias unidades estratigráficas posicionadas no Arqueano e Proterozóico.

As 184 sedes municipais e os 46 distritos visitados (área superior a 1.0 km2) têm em sua maioria o abastecimento de água a partir de açudes (130) e poços tubulares de diversas profundidades e vazões (51), registrando-se ainda poços tipo amazonas (28) e captação direta em rios (20) e fontes (4) (Figura. 2). Em alguns dos municípios, o sistema de captação é misto, composto por poços tubulares + amazonas ou poços amazonas + captação direta da drenagem. A cidade de Ibaretama, na época da coleta de amostras, estava sendo abastecida por carro-pipa, e em Sucatinga, distrito de Beberibe, os poços são familiares, individuais. Quando a instalação da unidade de captação é única para vários municípios e distritos, optou-se por coletar o correspondente número de amostras em vários locais desses corpos d’água, embora fora do ponto de captação comum.

As amostras foram coletadas com recipiente plástico, nos locais (poços e fontes) ou nas proximidades das bombas de sucção (em açudes ou rios), sempre situadas antes das estações de tratamento, pré-distribuição. Desserecipientetomavam-sealíquotasde50mlemdois frascos apropriados, fazendo uso de uma seringa acoplada a um filtro de membrana “Millipore” de 0,45 m,

Elementos Químicos em Águas de Abastecimento Público no Estado do Ceará

Sergio João Frizzo

Bicarbonatada mista

Cloretada mista

Bicarbonatada sódica Cloretada sódica

Mista sódica

Boa Passável Má

Águas com teores elevados de sais e sódio, não devendo ser usada para irrigação

Águas sem restrições à irrigação, com pouco risco de salinidade

Águas com salinidade média. Só devem ser usadas com boa lixiviação e drenagem

Fonte: IBGE e SUDENE - Hidroquímica dos Mananciais de Superfície - Região Nordeste (Área de atuação da SUDENE). [Mapa em escala 1:2.500.0]. 1996

FORTALEZA Sobral

Juazeiro do Norte C EAR Á

Água salgada > 1.500

TOTALDE SÓLIDOS DISSOLVIDOS STD - (mg/L)

Fonte: CPRM - Atlas dos Recursos Hídricos Subterrâneos do Ceará. Programa Recenseamento de Fontes de Abastecimento por Água Subterrânea no Estado do Ceará. [Cd-rom]. Fev/1999 b) ÁGUASUBTERRÂNEA Figura 1 – Características Das Águas No Estado Do Ceará.

descartáveis, sendo uma alíquota acidulada com 10 go- tas de HNO3 superpuro para análise dos cátions. Durante a etapa de campo as amostras eram mantidas sob re- frigeração.

As análises dos cátions foram efetuadas por Espectrometria de Emissão Atômica com fonte de plasma (ICP-AES) nos laboratórios da CPRM e da EMBRAPA e dos ânions, por Cromatógrafo Iônico do Instituto de Química da UFRJ e do Laboratório de Caracterização de ÁguasdaPUC,todosnoRiodeJaneiro.Foramavaliadas as concentrações dos cátions Al, As, B, Ba, Be, Ca, Cd, Co, Cr, Cu, Fe, K, Li, Mg, Mn, Mo, Na, Ni, Pb, Se, Sr, Ti, V e Zn e dos ânions Br, Cl, F, NO2,N O3,P O4 eS O4. Foram gerados mapas de distribuição geográfica das concentrações dos elementos que apresentaram suficiente amplitude de resultados. Nas figuras 3 e 4 vê-se os resultados para alguns elementos selecionados, cujos maiores teores têm provável origem na poluição ou contaminação e em litologias do substrato, respectivamente.

Elementos Químicos em Águas de Abastecimento Público no Estado do Ceará

FORTALEZA Sobral

Crateús

Juazeiro

Quixadá Iguatu

Poços tubulares

Poços tipo amazonas

Fontes Açudes e lagos

Rios

Limite de município Principais cidades

Figura 2 – Locais de Amostragem de Águas - Estado do Ceará.

Sergio João Frizzo

Cd Pb

FORTALEZA Sobral

Crateús

Juazeiro

Quixadá

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