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proposta original, incluindo fotos de algumas espécies, além dos desenhos apresentados inicialmente, buscando nas mais variadas fontes dados que pudessem ser adicionados para cada uma das espécies a serem inseridas numa segunda edição do livro. Nessa nova etapa, além da pesquisa nos tradicionais índices de revisão (Biological Abstracts, Index Medicus, Chemical Abstracts), já disponibilizados em disquetes e com fácil acesso pelos computadores, buscamos informações em diversos endereços, páginas e links que tratam do assunto e que estão com livre acesso na Internet, assim como no banco de dados da Fundação Brasileira de Plantas Medicinais (FBPM), que prontamente os disponibilizou para esta publicação. A quantidade de informações obtidas foi gigantesca e iniciamos um trabalho cansativo e detalhado de seleção dos dados que considerávamos mais importantes para constar do novo material.

Foi nessa fase do trabalho que surgiu a idéia de incorporarmos à pesquisa algumas das plantas medicinais, pelo menos as mais citadas, catalogadas em uma pesquisa etnofarmacológica realizada na região do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, especialmente com comunidades tradicionais que habitam o interior ou no entorno da Mata Atlântica, outro importante e singular ecossistema brasileiro. A idéia de agrupar dados de pesquisas etnofarmacológicas com grupos étnicos distintos que habitam diferentes ecossistemas florestais ou em suas proximidades foi se concretizando como uma proposta de grande valor, à medida que, por um lado, permitiria comparar os usos que grupos humanos distintos poderiam fazer de uma mesma espécie medicinal e, por outro, colocar lado a lado os dados de espécies vegetais específicas de cada ecossistema e usadas como medicamento pelos diferentes grupos estudados. Por si só, a nova idéia não tinha mais como retornar, mas verificamos lentamente que a proposta era bem mais valiosa, pois não existiam ainda dados pormenorizados (etnofarmacológicos, químicos, farmacológicos, toxicológicos e botânicos) de espécies vegetais desse importante ecossistema que é a Floresta Tropical Atlântica. A oportunidade de produzir uma publicação de plantas medicinais usadas na Amazônia e na Mata Atlântica, adicionando-se a essas plantas dados técnicos e científicos que permitissem avanços reais na pesquisa de plantas medicinais e na pesquisa de novas estratégias de conservação desses ecossistemas, tornou-se o objetivo principal da nova equipe. No entanto, foi a possibilidade de disponibilizar para as comunidades tradicionais de ambas as regiões - não

em artigos científicos e técnicos, mas com um livro, mais acessível que os artigos - todos os dados e informações possíveis e mais importantes sobre as espécies vegetais mais utilizadas que orientou todo o nosso esforço em publicar este material na forma em que ele se apresenta.

Com essa nova concepção, Plantas medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica não é uma segunda edição de Plantas medicinais na Amazônia, mas um novo trabalho, que incorpora todos os dados publicados no primeiro livro e que introduz uma nova forma de apresentação dos dados de espécies medicinais catalogadas por pesquisas etnofarmacológicas criteriosas, realizadas na região amazônica e na região da Mata Atlântica do Estado de São Paulo, que serão úteis, sem dúvida, tanto para os pesquisadores da área como para a comunidade em geral, especialmente os habitantes das duas regiões onde foram realizados os estudos.

Devemos ressaltar aqui a enorme evolução que o tema "plantas medicinais" teve no Brasil nos últimos anos. Quando Plantas medicinais na Amazônia foi publicado, raros eram os trabalhos e as publicações que estavam disponíveis. No entanto, durante todo esse período, excelentes publicações foram sendo disponibilizadas, não apenas catalogando espécies medicinais, mas também discutindo e introduzindo novas abordagens para que a pesquisa com plantas medicinais pudesse escolher rumos e caminhos que apontassem para a solução dos principais problemas de saúde do país. Mas mesmo considerando-se os enormes avanços nessa área, dados etnofarmacológicos continuam sendo a principal base para a escolha de plantas medicinais para estudos voltados para a obtenção de novos medicamentos, especialmente quando esses dados se referem a espécies nativas de ecossistemas florestais pouco conhecidos em sua complexidade, como é o caso da Amazônia e, especificamente, da Mata Atlântica.

Relembramos que já em 1989 destacamos a importância de que o tema "plantas medicinais" tivesse uma abordagem ecológica e ambiental e que os dados das comunidades tradicionais e dos diferentes grupos étnicos sobre as plantas medicinais não fossem apenas um rol de informações para a seleção de plantas medicinais pelos pesquisadores da área. A conservação dos ecossistemas tropicais, especialmente os mais ameaçados, como é o caso da Amazônia e da Mata Atlântica, sempre foi uma preocupação constante, mas as plantas medicinais, hoje, passaram a representar uma nova alternativa

para a conservação dos ecossistemas, visto que as espécies vegetais de valor medicinal passam a ser mais um recurso florestal passível de exploração e de comercialização que, realizadas de forma racional e sustentável, permitem a redução da ação antrópica sobre outros produtos florestais, reduzindo assim os sérios problemas ambientais pelos quais esses ecossistemas passam.

Aliar o conhecimento popular com o conhecimento científico - somando-se a isso a busca de novos medicamentos, farmacoterápicos e especialmente fitoterápicos, assim como a obtenção de renda adicional para as famílias que habitam os ecossistemas florestais ou seu entorno com a exploração sustentável desses recursos e sua conseqüente conservação - não pode ser apenas a retórica, mas a base das pesquisas na área de plantas medicinais. Nesse sentido, acreditamos que este trabalho é uma importante contribuição, apesar de preliminar e pequena, para que espécies nativas sejam priorizadas nos estudos de plantas medicinais pelos pesquisadores no Brasil; para que parte do patrimônio cultural de diferentes grupos étnicos brasileiros seja registrada e não seja perdida; para sugerir que as pesquisas com plantas medicinais sejam pensadas também pelo seu caráter social e econômico, respeitando-se os interesses das comunidades tradicionais; e para estimular e incentivar que tais pesquisas sejam realizadas efetivamente com o caráter inter e multidisciplinar amplamente apregoado e estimulado em inúmeras publicações, mas pouco realizado na prática.

Finalmente, devemos fazer constar que este trabalho é resultado de uma pesquisa etnofarmacológica realizada com diferentes comunidades e grupos humanos do Brasil, não sendo apenas uma compilação de dados da literatura. Trata-se de uma pesquisa iniciada em 1987 e que continua em comunidades tradicionais da Mata Atlântica, envolvendo uma enorme equipe de pesquisadores de distintos órgãos governamentais (estaduais, municipais e federais) e não-governamentais, cujo objetivo principal está na melhoria da qualidade de vida de comunidades que habitam os ecossistemas florestais por meio do uso correto e adequado de espécies nativas de valor medicinal, quer sejam como medicamentos eficazes e seguros para uso local quer como recursos econômicos explorados de forma sustentável.

Luiz Claudio Di Stasi

Prefácio à primeira edição (1989)

O trabalho aqui apresentado teve como objetivo alcançar as seguintes finalidades.

Em primeiro lugar, realizar um estudo etnofarmacológico regional, visando ao resgate e à preservação da cultura popular de grupos étnicos definidos, referente ao uso das plantas com fins terapêuticos; evitando-se, desse modo, que esse conhecimento seja perdido, o que, a nosso modo de ver, significaria um grande prejuízo para a cultura e para a ciência do país.

Em segundo lugar, pretendeu-se, mediante a realização de um inventário de plantas medicinais, obter informações que viessem subsidiar pesquisas nas diversas áreas que envolvem o estudo de plantas medicinais, principalmente no que se refere a facilitar a seleção de espécies vegetais potencialmente ativas e que são utilizadas amplamente pela população de determinada região.

Em terceiro lugar, o trabalho teve caráter de extensão universitária baseado na preocupação de devolver para a população envolvida no objeto de estudo os resultados das pesquisas realizadas com as espécies da região que pudessem fornecer esclarecimentos adicionais, principalmente no aspecto de alertar a população acerca dos problemas oriundos do uso indiscriminado de plantas medicinais e das plantas com efeitos tóxicos comprovados. Tal proposta que se concretiza parcialmente com este trabalho é de grande valor, pois permite que a população se utilize dos recursos terapêuticos de origem

natural, tendo conhecimentos adicionais sobre essas plantas. Em nenhum momento este trabalho quer se prestar como um receituário de plantas medicinais (tal uso seria um engano desastroso), mas funcionar como um instrumento de esclarecimento e alerta ao leigo usuário das plantas.

Em quarto lugar, pretendeu-se, com as atividades deste trabalho, oferecer oportunidade a alunos de Ciências Biológicas e cursos afins de atuarem e manterem contato com uma área de pesquisa fascinante e de grande importância para um país com as características sociais que o Brasil possui. Nesse contexto, ficamos plenamente satisfeitos com o interesse do grande número de alunos que participaram do trabalho, muitos deles atualmente se direcionando profissionalmente para a pesquisa com plantas medicinais.

Finalmente, objetivou-se redigir este trabalho com o intuito de fornecer informações sobre plantas medicinais de forma que fosse acessível à população leiga e de interesse para os mais variados profissionais que trabalham na área (botânicos, químicos, farmacologistas etc).

Por outro lado, é importante colocarmos aqui que o presente trabalho é parte integrante de um amplo projeto de pesquisa e extensão universitária, realizado no município de Humaitá, juntamente com o Prof. Osvaldo Aulino da Silva, do Departamento de Botânica da UNESP Campus de Rio Claro (SP), e que visa, além dos objetivos aqui expostos, a estudar aspectos botânicos das plantas da região e executar atividades de Educação Ambiental. Tal proposta decorre de uma filosofia de trabalho que contém uma preocupação em contribuir, com os conhecimentos adquiridos, com a promoção de melhores condições de vida para a população, principalmente no que está relacionado às questões de saúde e preservação do patrimônio cultural e natural de uma região rica do nosso país. Fugimos assim da postura clássica de exploração dos conhecimentos tradicionais da população e dos recursos naturais da região com fins estritamente de pesquisa, para executar atividades mais coerentes com nossa realidade. Nesse contexto, consideramos que a ciência, como qualquer outra atividade humana, deve ter um componente social em seu escopo, preocupando-se não só com a busca do conhecimento real e verdadeiro, mas também com a descoberta de soluções e novos caminhos que venham ao encontro das aspirações da sociedade brasileira, da qual o próprio pesquisador faz parte.

Uma proposta de trabalho com tais características só é viável quando passa a envolver um grande número de indivíduos, que potencialmente es-

tejam dispostos a concretizar os objetivos sem medir esforços. O trabalho em equipe baseado em uma proposta concreta e clara torna-se simples e empolgante na medida em que permite um alcance mais rápido dos objetivos e envolve uma grande variedade de idéias, propostas e encaminhamentos que enriquecem imensamente o trabalho. A experiência do trabalho em equipe aqui realizado, independentemente das dificuldades inerentes à própria relação social dos indivíduos, além de engrandecer o trabalho, propiciou um imenso prazer, incomparável com aquele que sentimos ao executarmos um trabalho individual. Acreditamos, e nossa experiência é prova disso, que se superando as dificuldades, qualquer projeto de pesquisa realizado em equipe tende a produzir melhores resultados em menor espaço de tempo, desde que cada participante cumpra suas tarefas e responsabilidades dentro do grupo. O trabalho em equipe na área de pesquisa em plantas medicinais, pela sua característica multidisciplinar, torna-se obrigatório quando se propõe o alcance de objetivos mais amplos como os aqui apresentados. No entanto, consideramos de grande importância colocar que, além de botânicos, farmacologistas, antropólogos e químicos, essa área requer um enfoque novo, que podemos denominar ecológico; visto o grande risco de extinção de várias plantas medicinais e principalmente pelo fato de que os vegetais, como seres vivos, estão sujeitos às influências de fatores bióticos (floração, estágio de desenvolvimento, como exemplos) e abióticos (umidade do ar, tipo do solo, clima, estações do ano e outros), que podem não só determinar a quantidade de produção de compostos secundários das plantas (princípios ativos), como também a qualidade das propriedades terapêuticas de interesse. A inserção dessa abordagem ambiental ou ecológica no estudo das plantas medicinais fornece novos elementos que melhor caracterizam os resultados experimentais realizados com determinada espécie. A literatura nos mostra que essas influências são inegáveis, portanto é urgente a sua consideração; no entanto, antes de se propor um cultivo programado de plantas medicinais, é necessário que se ampliem em número e em qualidade as pesquisas na área.

Ao considerarmos as características culturais de nosso país, principalmente no aspecto do rico conhecimento de plantas medicinais existentes nas diversas regiões, verificamos que é este o momento da realização do maior número possível de estudos etnofarmacológicos, para que o conheci-

mento tradicional seja devidamente resgatado, preservado e utilizado como subsídio de pesquisas com plantas medicinais. Essa urgência na realização desses trabalhos se baseia no fato de que o conhecimento popular está sendo rapidamente alterado ou até mesmo extinto, principalmente pela influência dos meios de comunicação de massa e pelo aspecto de que a abordagem etnofarmacológica possui a vantagem de permitir a padronização de modelos experimentais específicos que serviriam de instrumento de avaliação de um grande número de espécies vegetais, o que significa um menor custo no desenvolvimento da pesquisa e na obtenção do produto final, o que é de extremo interesse nas condições em que se encontra o país.

Não podemos deixar de fazer constar aqui o grande prazer e até mesmo uma verdadeira paixão que envolveu a realização deste trabalho, desde a fase inicial até a possibilidade de publicá-lo com as características que aqui se apresentam. Foi unânime por parte de toda a equipe que se relatasse a beleza do contato com os grupos étnicos envolvidos, que, além de tornarem possível este trabalho, acrescentaram uma experiência rica, não só de conhecimento das potencialidades da natureza, mas também por demonstrarem uma visão mais pura e bela da vida.

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