(Parte 3 de 5)

Luiz Claudio Di Stasi

Sobre a primeira edição do livro (1989)

Quando a consciência de uma nação inteira parece despertar para a preservação do santuário ecológico mundial que é a Amazônia; quando se constata, apesar disso, o enorme risco de extinção que correm fauna e flora; quando se sabe que milhares de informações populares sobre o uso de plantas medicinais estão desaparecendo; e, por fim, quando as pessoas parecem querer retomar suas raízes buscando nas plantas a cura de seus males, surge o livro Plantas medicinais na Amazônia.

nal(Cena I, Ato I de Romeu e Julieta - William Shakespeare, 1564-1616)

Oh! imensa é a graça poderosa que reside nas ervas e em suas raras qualidades, porque na terra não existe nada tão vil que não preste à terra algum benefício especial. Dentro do terno cálice da débil flor residem o veneno e o poder medici-

A utilização de plantas com fins medicinais era comum na Idade Média, mas os primeiros registros remontam a milênios. Acredita-se que a flora mundial esteja entre 250 mil e 500 mil espécies. O Brasil contribui com 120 mil espécies, a grande maioria na região amazônica, das quais o saber popular selecionou cerca de duas mil como medicinais. Dessas, apenas 10% foram cientificamente investigadas do ponto de vista químico-farmacológico. Observa-se, portanto, uma disparidade entre a quantidade e a diversidade da flora medicinal, de um lado, e a ausência de levantamentos etnofarmacológicos

criteriosos, de outro. Quando dizemos criteriosos, chamamos a atenção para levantamentos etnofarmacológicos nos quais constem identificação taxonômica das plantas envolvidas, descrição botânica objetiva da espécie citada e usos, posologia, efeitos observados, enfim, dados que auxiliem o usuário final na busca de conhecimento que tais levantamentos oferecem. Esses requisitos estão plenamente satisfeitos neste livro.

Levantamentos etnofarmacológicos, como este que aqui se apresenta, são raros e induzem-nos a pensar que é possível ou que ainda há tempo de resgatar a memória nacional na utilização de plantas medicinais. Sua importância é tanto maior por tratar-se da região amazônica.

Por último, vale salientar que este trabalho representa um pequeno passo diante do extenso caminho que se tem a percorrer na recuperação de todas as informações relativas às plantas medicinais. Mas o passo foi dado, a distância vencida, e isso é o que importa.

Profa. Dra. Alba Regina Monteiro Souza Brito (UNICAMP - Campinas)

Apresentação do trabalho em 1 989

A Amazônia constitui um dos mais completos ecossistemas da Terra, que, apesar da pobreza dos solos, atingiu um equilíbrio graças à interação de fatores como umidade, alta precipitação e reciclagem de seu próprio material orgânico. Dada a fragilidade desse equilíbrio, qualquer atividade descontrolada pode acarretar processos irreversíveis de destruição da floresta.

Não é difícil justificar a necessidade de manejo dessa vegetação. Basta lembrar que as florestas têm papel importante na regulação do ciclo hidrológico e que, no caso da Amazônia, esta contribui com cerca de 50% de vapor d'água para a formação de chuvas, provenientes da evapotranspiração.

Atualmente, a situação em relação às áreas perturbadas é deveras preocupante, apesar da exploração madeireira ainda representar pequena fração dos seus cinco milhões de quilômetros quadrados. No entanto, conforme aponta Philip M. Fearnside, a taxa de desmatamento é o que realmente preocupa, por se tratar de uma importante fonte de perturbação. De fato, a ação predatória do homem na Floresta Amazônica vem ocorrendo numa velocidade espantosa, que chama a atenção de cientistas de várias partes do mundo.

A exploração madeireira, que outrora era restrita às margens dos rios navegáveis, atualmente assume proporções alarmantes graças ao desenvolvimento de vias rudimentares e com estas o avanço da colonização, que para sua subsistência demanda áreas de cultivo e criação de gado.

O setor industrial tem também colaborado com o desmatamento na medida em que depende de matéria-prima florestal para manter o seu nível de industrialização.

De qualquer maneira, por trás do uso inadvertido da área estão interesses industriais e políticos que concorrem para o desaparecimento da flora, riquíssima em espécies, das quais poucas foram estudadas, e, levando-se em conta a preocupante taxa de predação feita pelo homem, muitas provavelmente sucumbirão antes mesmo de qualquer conhecimento de seu potencial.

A importância da Amazônia não se restringe apenas às espécies animais e vegetais, mas diz respeito também à riqueza do conhecimento popular acerca do uso terapêutico de plantas, que se origina tanto da necessidade de uma terapêutica alternativa pelo baixo poder aquisitivo e pelo difícil acesso à assistência médica como da grande influência cultural dos arborícolas da região.

Somada a isso, a carência de estudos sobre a vegetação brasileira e orientação popular, visando à preservação da memória histórica dos usos e costumes, acarreta duas situações que, do ponto de vista social, ecológico e histórico, julgamos altamente preocupantes: por um lado, as falhas no fluxo informativo e conseqüente perda do conhecimento sobre a terapêutica empregada pelos diferentes grupos étnicos e, por outro, o uso indiscriminado de material vegetal na cura de doenças, em vista do desconhecimento das conseqüências reais que disso possam advir.

Sinto-me, portanto, honrado em apresentar esta obra, fruto de um trabalho sério de pesquisa, tendo à frente toda a dedicação e coordenação do Prof. Luiz Claudio Di Stasi. Plantas medicinais na Amazônia, pelos cuidados com a parte gráfica e as ilustrações, sua redação simples e facilidade de acesso para consulta, coloca às mãos dos leitores, desde o leigo ao mais especializado, informações importantes sobre as 59 espécies mais utilizadas pelos grupos étnicos estudados para fins terapêuticos.

Trata-se de uma obra de capital importância no assunto e que se sobrepõe aos freqüentes receituários para se dedicar ao resgate do patrimônio etnofarmacológico e às valiosas informações técnicas que certamente servirão de apoio a novas pesquisas no campo das ciências naturais.

Prof. Dr. Osvaldo Aulino da Silva (UNESP - Rio Claro)

Metodologia de pesquisa

Apresentamos, resumidamente, a seqüência de estudos realizados para melhor compreensão das atividades de campo realizadas desde 1987, pois não consideramos ser este o espaço para pormenorizar todos os métodos utilizados.

Local da pesquisa

A pesquisa foi realizada em duas regiões e em várias localidades de cada uma delas:

Amazônia • Município de Humaitá, sul do Estado do Amazonas;

• Comunidades ribeirinhas do Rio Madeira e seus afluentes, no Amazonas;

• Aldeia dos Tenharins, localizada a 120 quilômetros do município de Humaitá, pela Rodovia Transamazônica em direção ao Norte.

Mata Atlântica • Comunidades rurais e urbanas dos municípios de Eldorado, Jacupiranga e Sete Barras, Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo.

Entrevistas

Entrevistas semi-estruturadas foram realizadas em ambas as regiões, conforme descrito a seguir:

Amazônia • Noventa entrevistas com habitantes de Humaitá - Amazonas (realizadas em todos os domicílios onde foram encontrados habitantes e que consentiram em participar do trabalho);

• Vinte entrevistas com habitantes de comunidades ribeirinhas do Rio

Madeira e seus afluentes, Amazonas, cujo acesso era feito por meio de barcos cedidos por lideranças locais (realizadas em todos os domicílios onde foram encontrados habitantes e que consentiram em participar deste projeto);

• Duas entrevistadas (tuxaua "Kuarrã", Chefe da Aldeia dos Tenharins e sua esposa foram entrevistados várias vezes por diferentes membros da equipe e por meio de quatro viagens para a aldeia).

Mata Atlântica • Cem entrevistas com habitantes urbanos dos municípios de Eldorado e

Jacupiranga (realizadas em todos os domicílios onde foram encontrados habitantes e que consentiram em participar da entrevista);

• Setenta entrevistas com habitantes rurais de Eldorado (18), Jacupiranga (21) e Sete Barras (31) (realizadas em todos os domicílios onde foram encontrados habitantes e que consentiram em participar da entrevista);

• Noventa questionários aplicados a professores voluntários da rede oficial de ensino (escolas rurais e urbanas) e para líderes comunitários voluntários do município de Sete Barras.

Coleta de material e identificação taxonômica

As espécies referidas nas entrevistas foram sempre coletadas pela indicação do entrevistado e na sua presença, evitando-se, assim, a coleta errada do material. No caso de material em fase de floração, exsicatas foram preparadas e enviadas para identificação. Para materiais fora da fase de floração, novas visitas foram realizadas aos entrevistados até sua obtenção. Em alguns casos o material vegetal florido não foi coletado.

Para as espécies da Amazônia, as exsicatas foram enviadas ao Herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), ao Herbário "Irina Delanova Gemtchujnikov", Departamento de Botânica do Instituto de

Biociências da UNESP - Botucatu, e ao Herbário do Instituto de Biociências da UNESP - Rio Claro, para sua identificação.

Para as espécies coletadas na Mata Atlântica, as exsicatas foram enviadas aos Herbário "Irina Delanova Gemtchujnikov", Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UNESP - Botucatu e ao Herbário "Barbosa Rodrigues", Itajaí - Santa Catarina.

Revisão bibliográfica

Uma vez identificadas as espécies, foram realizadas pesquisas bibliográficas nos seguintes índices:

• Biological Abstracts; • Chemical Abstracts;

• Index Medicus (Med-line);

• Banco de dados da Fundação Brasileira de Plantas Medicinais (FBPM);

• Sites da Internet.

Depois da compilação dos dados foram selecionados aqueles de interesse para as características do trabalho aqui apresentado, priorizando-se os relatos de farmacologia que confirmassem ou não o uso tradicional das espécies vegetais; os dados químicos e os de toxicidade que orientassem o uso das espécies. Outras informações (agronômicas, ecológicas e botânicas) foram sendo adicionadas conforme a organização de cada um dos capítulos.

Organização do livro

Para permitir que os dados das diferentes espécies medicinais referidas pelos habitantes de ambos os ecossistemas florestais pudessem ser avaliados comparativamente, as espécies não poderiam mais ser apresentadas por ordem alfabética de nomes populares, como havia sido feito na primeira edição deste livro. Uma nova forma de apresentação das espécies teve que ser analisada e, com o tempo, verificou-se que agrupar as espécies de forma sistemática considerando os grupos taxonômicos seria a melhor estratégia. Optou-se por apresentar as espécies dentro de suas famílias, mas considerando especialmente a Ordem Botânica à qual pertenciam. Isso tornaria fácil analisar a importância de cada família vegetal como fonte de espécies medicinais para estudos, assim como enriqueceria os dados disponibilizados no livro, incluindo-se assim pequenas introduções e informações sobre cada uma das ordens e das famílias botânicas incluídas neste trabalho.

Utilizou-se o sistema de classificação botânica adotado por Cronquist (1981) e modificado por Kubitzki em seu sistema de arranjo das plantas vasculares adotado por Mabberley (1997). Incluem-se no livro apenas espécies de Angiospermae.

Os capítulos se distribuem em duas partes:

• Parte I - incluindo as monocotiledôneas medicinais;

• Parte I - incluindo as dicotiledôneas medicinais, as quais se subdividem em cinco seções: - Seção 1: Medicinais da subclasse Magnoliidae

- Seção 2: Medicinais da subclasse Caryophyllidae

- Seção 3: Medicinais da subclasse Dillenidae

- Seção 4: Medicinais da subclasse Rosidae

- Seção 5: Medicinais da subclasse Asteridae

Cada uma das partes inclui diversos capítulos montados a partir da ordem botânica das espécies vegetais referidas. Das Dicotyledonae não foram referidas espécies das famílias, respectivas ordens e respectiva subclasse Hamamelidae, pois não foram citadas espécies vegetais desta subclasse em nenhuma entrevista. Também não é referida nenhuma espécie de Pteridophyta e Gymnospermae.

Para cada capítulo, tem-se a seguinte estrutura-padrão:

• Introdução sobre a ordem botânica, especialmente apontando-se o valor da ordem como fonte de espécies medicinais;

• Introdução sobre a família botânica ou, em vários casos, das diversas famílias incluídas em uma determinada ordem;

• Monografias de espécies medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica, incluindo:

- nomes populares da espécie na região de estudo ou de acordo com outras referências bibliográficas pesquisadas;

- dados botânicos e outras informações (quando for o caso), que compreendem uma descrição botânica, dados ecológicos e distribuição, significado do nome do gênero e dados sobre o gênero;

- dados da medicina tradicional que incluem os dados decorrentes das entrevistas realizadas pelos pesquisadores do projeto, às quais foram adicionadas (quando existiam) outras referências de dados de uso popular;

• Dados químicos, incluindo-se os principais grupos e classes químicas já descritos na literatura científica para cada um dos gêneros ou espécie referida no texto. Para várias espécies e gêneros não há estudos na literatura e esse tópico não existe;

• Dados farmacológicos, incluindo as principais referências sobre as atividades farmacológicas já descritas para uma espécie ou gênero. Para várias espécies e gêneros não há estudos na literatura e esse tópico não existe;

• Dados toxicológicos, apontando os principais efeitos tóxicos ou adversos de cada uma das plantas ou gênero. Para várias espécies e gêneros não há estudos na literatura e esse tópico não existe;

• Em alguns capítulos todos esses dados estão agrupados em um único tópico;

• Ilustrações: para algumas das espécies são apresentadas ilustrações, de vários tipos: - desenhos escaneados: incluem ilustrações realizadas por L. C. Di Stasi a partir da exsicata do material coletado ou a partir de outras ilustrações indicadas nas legendas. Essas ilustrações constavam do livro Plantas, medicinais na Amazônia e foram escaneadas, formatadas e montadas para inclusão no livro;

- fotos escaneadas: incluem fotos de várias origens (todas com a autoria) cedidas para esta publicação e que também foram escaneadas, formatadas e montadas para inclusão no livro;

- escaneratas: técnica desenvolvida no Laboratório de Fitofármacos ( ) do Departamento de Farmacologia, Instituto de Biociências de Botucatu, UNESP, para o armazenamento de imagens de exsicatas depositadas nos herbários. O material após coleta ou por empréstimo dos herbários foi escaneado, formatado e montado para a inclusão neste livro.

- Todas essas imagens fazem parte do Banco de imagens - organizado com apoio da Fapesp.

No final do livro, além de uma extensa bibliografia atualizada, encontram-se um glossário de termos botânicos, químicos e médicos usados no livro e um índice de nomes científicos que ajudam na compreensão dos diferentes tópicos abordados em cada um dos capítulos.

Parte I

Monocotiledonae medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica

1 Commelinidae medicinais

C. A. Hiruma-Lima

E. M. Guimarães

C. M. Santos L. C. Di Stasi

(Parte 3 de 5)

Comentários