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Introdução

A subclasse Commelinidae de espécies vegetais inclui sete ordens, algumas com importantes famílias botânicas e diversas espécies vegetais de valor medicinal e econômico. A ordem Commelinales inclui as famílias Rapateaceae, Xyridaceae, Mayacaceae e Commelinaceae, das quais devemos destacar apenas algumas espécies do gênero Tradescantia (Commelinaceae), pelo seu grande valor ornamental. Na ordem Eriocaulales estão incluídas apenas as espécies da família Eriocaulaceae, destacando-se o gênero Paepalanthus com centenas de espécies popularmente denominadas sempre-vivas e amplamente usadas como ornamentais. Outras ordens botânicas como Juncales, Typhales, Restionales e Hydatellales são pouco importantes nos ecossistemas brasileiros. A ordem Cyperales inclui as famílias Cyperaceae e Graminae (Poaceae), e dessa segunda é que se destacam várias espécies de valor medicinal e econômico, algumas delas descritas neste capítulo.

A família Poaceae, também denominada Gramineae, inclui cerca de 668 gêneros e aproximadamente 9.500 espécies distribuídas universalmente e com grande importância econômica. A família é dividida em quarenta tribos, que estão distribuídas em seis subfamílias botânicas:

• Bambusoideae, que inclui alguns importantes gêneros, como o Bambusa e suas 120 espécies popularmente denominadas bambus, reunindo inúmeras utilidades, e o gênero Oryza, cujo representante principal é o arroz, um dos mais importantes alimentos da população brasileira;

• Pooideae, que inclui os gêneros Secale e Avena, do famoso centeio e da aveia, respectivamente;

• Centothecoideae, Arundinoideae e Chloridoideae, que incluem vários gêneros, mas sem importância medicinal, excetuando-se as espécies do gênero Eleusine;

• Panicoideae, subfamília que, do ponto de vista de espécies medicinais, é a mais importante, visto que inclui inúmeras espécies dos gêneros Andropogon, Cymbopogon, Paspalum, Saccharum e outros. Nessa subfamília também encontramos importantes espécies e gêneros de valor econômico e alimentar, como Sorghum do sorgo, Zea, principalmente Zea mays (milho), e a cana-de-açúcar {Saccharum officinale).

Essa família botânica inclui plantas herbáceas com raízes fibrosas e rara ocorrência de arbustos ou árvores. As espécies de Poaceae contêm uma grande variedade de constituintes químicos, e uma grande proporção desses produtos é utilizada na indústria de gêneros alimentícios, amido, açúcar e óleos essenciais. Os outros constituintes incluem alcalóides, saponinas, substâncias cianogênicas, ácidos fenólicos, flavonóides e terpenóides (Evans, 1996).

O principal valor econômico das espécies dessa família é o fornecimento de grãos, ferragem, gêneros alimentícios como bebidas, açúcar e trigo. Várias espécies possuem importância terapêutica, e na Amazônia identificou-se o uso popular de quatro espécies distintas dessa família: Andropogon leucostachys, Andropogon nardus, Cymbopogon citratus e Saccharum officinarum. Dessas quatro espécies devemos destacar a Saccharum officinarum e a Cymbopogon citratus, também referidas como medicinais na região da Mata Atlântica e cujos dados passamos a apresentar.

Espécies medicinais

Andropogon leucostachys H.B.K.

Nomes populares

Na região amazônica a espécie é chamada de Rabo-de-cavalo. Na Mata

Atlântica não foi referida como medicinal. Em outras regiões do país, a planta também é conhecida como Capim-membeca.

Dados botânicos

A espécie é uma erva que atinge até 80 cm de altura com rizomas bastante oblíquos; os colmos são finos, glabros e curvados, possuindo um grande número de ramos, os quais, por sua vez, também são ramificados e terminam em uma panícula de espigas digitadas; bainhas foliares cobrem a base dos ramos e das lâminas foliares com 10 a 20 cm de comprimento e aproximadamente 3 cm de largura; espigas digitadas e com uma coroa de pêlos compridos; espiguetas sésseis e fruto cariopse.

Dados da medicina tradicional

A decocção das folhas secas é utilizada como antitérmico e analgésico. Não foram encontradas outras referências de uso medicinal dessa espécie.

Andropogon nardus L.

Nomes populares

Na região amazônica a espécie é chamada de Capim-cheiroso e Capimlimão. Não foi referida como medicinal na região da Mata Atlântica. Em outras regiões do país, a espécie também é chamada de Capim-de-cheiro e Citronela.

Dados botânicos

A espécie é uma erva de colmo ereto que atinge até 1,5 m de altura, com folhas invaginadas bastante agudas, podendo atingir até 2 m de comprimen-

to; as inflorescências são panículas lineares compostas de espigas pequenas e escuras. Alguns autores afirmam que essa espécie possui muitas variedades, tais como flexuosus, marginatus e validus, respectivamente sinônimos de Cymbopogon citratus, Cymbopogon marginatus e Cymbopogon validus (Watt & Breyer- Brandwijk, 1962). Corrêa (1984) refere que das folhas se pode obter um óleo essencial denominado óleo de citronela, com grande valor econômico.

Dados da medicina tradicional

Na região amazônica, a decocção das folhas passada sobre a pele serve como repelente para insetos. O uso oral dessa decocção é útil como antitérmico e para o alívio de gases intestinais.

Corrêa (1984) refere que as folhas são febrífugas, sudoríficas e carminativas, ao passo que o óleo possui importante ação para espantar mosquitos, formigas e traças.

Cymbopogon citratus (DC.) Stapf.

Nomes populares

Na região amazônica e na Mata Atlântica a espécie é chamada de Capimsanto, Capim-cheiroso, Capim-cidreira, Vervena, Erva-cidreira, Patchuli-falso, Capim-cidrão, Sídró, Capim-sidró, Capim-marinho, Capim-limão.

Dados botânicos

Erva perene com caule do tipo colmo, com nós e entrenós, formando uma touceira robusta; rizoma semi-subterrâneo; folhas alternas, lineares, compridas; eretas, ásperas em ambas as faces, bainha larga e lígula na base do limbo; nervação paralela e nervura central saliente na face dorsal; flores reunidas em inflorescências do tipo espigueta com glumas vermelhas (Figura 1.1).

Dados da medicina tradicional

O chá das folhas é utilizado na região amazônica contra qualquer tipo de dor, problemas estomacais e febre.

Na região da Mata Atlântica, a infusão das folhas é usada internamente como sedativa e contra diarréia, gripes fortes, dores de cabeça e dores musculares, reumatismo e febre. O suco das folhas gelado é consumido como sedativo e como refrigerante. A decocção das raízes é usada contra gripes fortes e reumatismo.

Outras indicações de uso medicinal incluem o uso do chá das folhas, no

Ceará, como calmante e antiespasmódico (Matos et al., 1982); no Rio Grande do Sul, como calmante e contra pressão alta e esterilidade (Simões et al., 1986); em Brasília, como diurético, carminativo, calmante e antiespasmódico (Barros, 1982; Matos & Das Graças, 1980); no Mato Grosso, como calmante e antiálgico (Van den Berg, 1980); no Pará, contra gripes, dores de cabeça e disenteria, na forma de banho (Amorozo & Gély, 1988).

Saccharum officinarum L.

Nomes populares

A espécie é chamada em todo o Brasil de Cana-de-açúcar ou, simplesmente, Cana.

Dados botânicos

Planta herbácea de raiz geniculada e em parte fibrosa; colmo arqueado na base, cilíndrico, simples, articulado e um pouco mais grosso nos internós, carnoso e com epiderme lenhosa de cor amarelada, verde ou violácea; folhas amplexicantes, 1 dísticas, planas, lineares, ápice agudo, ásperas, nervura central saliente e bainha espinescente; espiguetas com flores pequenas, hermafroditas; fruto do tipo cariopse ovóide, pequeno (Figura 1.2).

Dados da medicina tradicional

Na região amazônica, o suco do colmo da planta, duas vezes ao dia, é utilizado para aumentar a lactação e para tratar a insônia.

Na região da Mata Atlântica, a infusão das folhas é usada como antidiurético, ao passo que a decocção das raízes é amplamente usada como

diurético e contra hipotensão. A decocção dos bulbos é usada contra distúrbio dos rins e para expulsão de parasitas intestinais.

Outras indicações incluem a referência de que a espécie é útil, internamente, contra resinados e anginas e, externamente, contra úlceras da córnea, rachas dos seios, aftas, envenenamento com arsênico, chumbo e cobre, além de o açúcar servir para o combate à pneumonia, tuberculose, escarlatina, erisipela, cólera, febres, vômitos da gravidez (Corrêa, 1984).

Dados químicos

O óleo essencial de Cymbopogon citratus é constituído de mirceno, neral, geranial e outros compostos não identificados (Craveiro et al., 1981). Esse óleo possui grande quantidade de citral (75% a 85%), além de seus isômeros geralúal e neral; vários aldeídos, como citronelal, isovaleraldeído e decilaldeído; cetonas e alcoóis, como o geraniol, nerol, metil-heptenol, farnesol; terpenos e dipenteno (Costa, 1986).

O óleo essencial de C. citratus das Filipinas foi obtido de suas folhas, sendo determinados os principais constituintes: citral (69,4%), geraniol, mirceno, a- e b-pineno, laurato de etila, 1,8-cineol, limoneno, felandreno, metil-heptenona, citronelal, linalol, cariofileno, mentol, terpineol e citronelol (Torres & Ragadio, 1996; Ming et al., 1996), neral, ácido nerólico e ácido gerânico (Sargenti & Lanças, 1997). Estudos foram feitos no intuito de avaliar a variação sazonal da composição do óleo (Chagonda & Chalchat, 1997).

Dados farmacológicos

O óleo essencial de Cymbopogon citratus possui atividade antibacteriana

(Cimarga et al., 2002; Onawunmi et al., 1984; Onawunmi & Ogunlana, 1986; Onawunmi, 1988). Foram observadas as atividades de diminuição da atividade motora (Ferreira & Raulino Filho, 1988), aumento do tempo de sono (Ferreira & Fonteles, 1985) e anticonvulsivante (Ferreira & Raulino Filho, 1986 e 1987).

Carlini (1985) realizou um amplo estudo farmacológico, toxicológico e clínico com essa espécie, não observando propriedades de interesse terapêutico. Di Stasi et al. (1985), e Di Stasi (1987), relatam, no entanto, uma potente atividade analgésica detectada pelos métodos de contorções abdominais e imersão da cauda; enquanto Ferreira et al. (1983) referem atividade antiespasmódica. O efeito analgésico foi confirmado por Lorenzetti et al. (1988) e atribuído à presença do mirceno nessa espécie (Sarti et al., 1988).

Com as folhas de C. citratus já foram constatadas as atividades: sedativa

(Ferreira & Fonteles, 1985), depressora do SNC (Ferreira & Raulino Filho, 1988), anticonvulsivante (Ferreira & Raulino Filho, 1986 e 1987; Pinho et al., 1988), analgésica (Viana et al., 2000; Lorenzetti et al., 1988) antimicrobiana (de Sá et al., 1990), anti-helmíntica (Jourdan, 1989) e antioxidante (Lopes et al., 1998). Tanto a atividade depressora do SNC quanto a atividade analgésica de C. citratus foram atribuídas aos constituintes do óleo essencial citral e mirceno (Ferreira et al., 1983 e 1989a).

O citral apresentou atividade citotóxica contra células leucêmicas P388 de camundongos (Dubey et al., 1997) e o extrato de C. citratus inibiu a hepatocarcinogênese (Puatanachokchai et al., 2002). Os principais constituintes das folhas de C. citratus, mirceno (12,8%), geranial (45,9%) e neral (3,5%) apresentaram atividade antibacteriana e antifúngica (Chalchat et al., 1997). O óleo essencial foi incorporado a cremes antifúngicos tendo bons e significativos resultados (Wannissorn et al., 1996). O extrato metanólico de C. citratus foi testado quanto à sua atividade antinematoidal, porém apresentou atividade muito fraca (Mackeen et al., 1997). A atividade antibacteriana de C. citratus parece ser afetada pelo conteúdo de citral existente no óleo (Syed et al., 1995).

Em relação a outras espécies do mesmo gênero, o extrato hidroalcoólico das folhas de C. citriodorus, também conhecido como Capim-cidrão, apresentou atividade analgésica (Di Stasi et al., 1986a).

Para a espécie Saccharum officinarum, Corrêa (1984) relata a presença de inúmeros compostos de interesse industrial. Hikino et al. (1985) relatam que a fração polissacarídica dessa espécie foi capaz de inibir a acumulação de peróxidos lipídicos no soro de ratos, e Di Stasi (1987) demonstrou um discreto efeito analgésico do extrato hidroalcoólico. De S. officinarum foram obtidos polissacarídeos pécticos (Saavedra et al., 1988), ligninas e ácidos fenólicos, ácidos p-coumárico, ferúlico e sinápico (He & Terashima, 1990). Do extrato das raízes foi isolado éter glicosídeo aromático denominado vaniloil-1-O- beta-glucosídeo acetato (Yadava & Misra, 1989). Foi isolado também o policosanol, um álcool alifático com alto peso molecular, capaz de diminuir os índices de colesterol em voluntários hipercolesterolêmicos. O policosanol também foi capaz de prevenir as lesões espontâneas ateros-cleróticas e na isquemia cerebral em animais. O efeito antioxidante do policosanol foi observado sobre a peroxidação lipídica de membrana do fígado (Fraga et al., 1997; Menendez et al., 1999). Além de hipocolesterolêmico, é antiplaquetário e não apresentou efeito tóxico (Gomez et al., 2000).

Dados toxicológicos

O óleo de C. citratus possui ação irritante sobre a pele de animais (Opdyke, 1976) e o hidrolato dessa espécie provocou um quadro de hipocinesia, ataxia, bradipnéia, perda de postura, sedação e defecação (Ferreira et al., 1983). Não consideramos importante relatar os estudos químicos e farmacológicos de outras espécies desse gênero, visto o grande número de trabalhos com C. citratus.

FIGURA 1.1 - Cymbopogon citratus: a) base da planta com bainhas; b) inflorescências com os numerosos estames (redesenhado por Di Stasi a partir da Flora Costaricensis); c) vista geral da touceira (Banco de imagens - ).

FIGURA 1.2 - Saccharum officinarum. Vista geral da planta com a inflorescência (redesenhado por Di Stasi a partir de Corrêa (1984) - Banco de imagens - ).

2 Zingiberidae medicinais

C. M. Santos

E. M. Guimarães

C. A. Hiruma-Lima L. C. Di Stasi

A subclasse Zingiberidae inclui duas grandes ordens: Bromeliales e

Zingiberales. Na ordem Bromeliales se encontra apenas a família Bromeliaceae, importante fonte de espécies de grande interesse ornamental e econômico e cuja exploração comercial na região da Mata Atlântica representa um grande problema ambiental e uma fonte de recursos para as populações locais. Tal uso não é comum na região amazônica. Na ordem Zingiberales estão incluídas as famílias Musaceae, da qual há vários representantes popularmente denominados Banana, importante produto de comercialização; Zingiberaceae, entre outras o famoso gengibre (Zingiber officinale); Lowiaceae, Cannaceae e Marantaceae, todas com pouco valor nos dois ecossistemas em questão. De todas essas famílias, referiremos espécies medicinais apenas da ordem Zingiberales, especificamente das famílias Zingiberaceae e Musaceae. As espécies da família Bromeliaceae, apesar de sua intensa ocorrência e exploração na região da Mata Atlântica, não inclui espécies referidas popularmente como medicinais.

Plantas medicinais da família Zingiberaceae

Introdução

A família Zingiberaceae, descrita por Ivan Ivanovic Martinov, inclui 52 gêneros, nos quais estão distribuídas 1.100 espécies tropicais espontâneas; destas, várias são ervas com rizomas aromáticos e células secretoras com óleos etéricos de amplo uso. Os gêneros estão distribuídos em duas subfamílias:

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