Evolucionismo 256

Evolucionismo 256

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36 • CIÊNCIA HOJE • vol. 43 • nº 25636 • CIÊNCIA HOJE • vol. 43 • nº 256 Aceitação e rejeição no século 21 criacionismocriacionismocriacionismo Evolucionismo

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Aceitação e rejeição no século 21

A ideia da evolução biológica provocou uma mudança radical na maneira como enxergamos a natureza e a nós mesmos. Após o surgimento dessa ideia, a semelhança entre espécies distintas passou a ser explicada pelo fato de compartilharem ancestrais em comum. Da mesma forma, a diversidade genética dentro de uma espécie deixou de ser vista como um ‘defeito de fabricação’, tornando-se a matériaprima da evolução. E, sobretudo, a evolução de caracteres adaptativos – desde a melanina que determina a cor da nossa pele até a visão aguçada de uma águia – começou a ser interpretada como fruto da sobrevivência e da reprodução diferencial de indivíduos geneticamente distintos.

Entretanto, no momento em que se comemoram os 150 anos da publicação do livro A origem das espécies, do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), um dos autores da teoria da evolução das espécies pela seleção natural, o debate criacionismo versus evolucionismo parece não ter arrefecido. Na verdade, em diferentes países (em especial os Estados Unidos), um movimento de cunho fortemente religioso tem, nos últimos anos, tentado impor ao sistema público de ensino uma visão religiosa da origem e evolução da vida. De modo simplificado, podemos dizer que esse movimento criacionista envolve grupos religiosos radicais que rejeitam a teoria da evolução biológica em favor de um criador sobrenatural, tendo a Bíblia como única fonte de indícios para

Embora o evolucionismo darwiniano, que está completando 150 anos, seja tido como uma das mais relevantes teorias da história da ciência, organizações de cunho religioso vêm tentando incluir no currículo escolar a concepção criacionista – descrita na Bíblia – da origem da Terra e da vida. Esse movimento está presente em vários países, inclusive no Brasil, onde, mesmo entre estudantes universitários, a credibilidade da teoria da evolução biológica, e também de outras realizações científi cas, ainda é baixa. Foi o que revelou uma pesquisa realizada com alunos da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná.

Rogério F. de Souza Rogério F. de Souza criacionismoMarcelo de Carvalho Departamento de Biologia Geral,

Centro de Ciências Biológicas,

Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Tiemi Matsuo

Departamento de Estatística e Matemática Aplicada,

Centro de Ciências Exatas, UEL

Dimas A. M. Zaia

Departamento de Química

(Laboratório de Química Prebiótica), Centro de Ciências Exatas, UEL

Embora o evolucionismo darwiniano, que está completando 150 anos, seja tido como uma das mais relevantes teorias da história da ciência, organizações de cunho religioso vêm tentando incluir no currículo escolar a concepção criacionista – descrita na em vários países, inclusive no Brasil, onde, mesmo entre estudantes universitários, a credibilidade da teoria da evolução biológica, e também de outras realizações criacionismocriacionismocriacionismocriacionismocriacionismo

Evolucionismo janeiro/fevereiro de 2009 • CIÊNCIA HOJE • 37

38 • CIÊNCIA HOJE • vol. 43 • nº 256 explicar essa concepção. Entretanto, é preciso destacar que a rejeição à evolução biológica pode partir de grupos que não têm, necessariamente, uma base cristã – como o Hare Krishna.

Neste cenário, destaca-se o papel de algumas organizações criacionistas norte-americanas, como o Instituto para a Pesquisa da Criação (The Institute for Creation Research – ICR) e o Centro para Ciências e Cultura do Instituto Discovery (Discovery Institute’s Center for Science and Culture). Essas instituições pronunciam-se de forma mais incisiva, muitas vezes trazendo à mídia questões polêmicas, como a de que a evolução é uma teoria em crise inclusive na comunidade científica, ou a de que ela carece de provas experimentais, ou a de que os próprios evolucionistas não chegam a um consenso sobre a evolução. Por esse caminho ardiloso, tentam justificar o ensino de outras teorias, além da evolução biológica, como forma de incentivar o debate e o senso crítico dos alunos. Com essa estratégia, os criacionistas têm conseguido avanços significativos dentro do sistema público de ensino em alguns estados daquele país.

Esse sucesso pode ser creditado, ao menos em parte, a alguns fatores intimamente relacionados. Um deles é a formação insuficiente ou inadequada de muitos professores a respeito da teoria evolutiva (muitos não compreendem o que significa ‘teoria científica’, ou seja, não sabem como a ciência é fei ta). Outro é o desconhecimento das questões legais referentes ao ensino do criacionismo nas escolas públicas dos Estados Unidos (os professores tornam-se, assim, vulneráveis às pressões de pais, estudantes, diretores de escolas e comitês de ensino). Por fim, e não menos

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Figura 1. Informações socioeconômicas sobre os estudantes entrevistados em 2006 e 2007 – a renda familiar é dada em salários mínimos e a opção ‘Outra’, no item

‘Formação dos pais’, inclui analfabeto, ensino fundamental (incompleto e completo) e ensino médio incompleto importante, as próprias convicções religiosas de alguns professores os levam a ser criacionistas.

Seguindo essa estratégia e liderados pelo professor de direito Philip Johnson, da Universidade de Berkeley, os criacionistas norte-americanos fundaram, no início dos anos 90, um movimento denominado Desenho Inteligente (ID, de Intelligent Design). O principal objetivo desse movimento é dar uma roupagem científica a seus argumentos, para transformar o criacionismo em uma teoria respeitável e, de preferência, no meio desse processo, desacreditar a teoria da evolução. Eles esperam, desse modo, criar um sentimento geral de que o criacionismo merece o mesmo tratamento do evolucionismo, inclusive no sistema público de ensino.

Pode-se dizer que o maior êxito dos criacionistas norte-americanos não tem sido obtido dentro dos Estados Unidos, mas sim na repercussão do movimento mundo afora, influenciando outros países, inclusive o Brasil. Uma pesquisa realizada em 34 países e publicada em agosto de 2006 pela revista científica Science mostra que, na Islândia, na Dinamarca, na Suécia e na França, mais de 80% dos adultos aceitam como verdadeira a teoria da evolução, percentual que fica em 78% no Japão. Nos Estados Unidos, porém, somente cerca de 40% dos adultos acham essa teoria válida – os outros 60% não têm certeza sobre sua veracidade ou acreditam que é falsa. Já em países como Turquia, Bulgária, Grécia, Romênia, Áustria, Polônia e Suíça, mais de 40% da população acham que a teoria da evolução é falsa ou não têm certeza sobre sua validade.

O debate criacionismo/evolução, portanto, é complexo e parece estar longe de um fim. Essa

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O criacionismo no Brasil

O movimento criacionista não é, no Brasil, tão forte quanto nos Estados Unidos, mas não se pode dizer que é inexpressivo. O primeiro grupo criacionista nacional de que se tem notícia, a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), foi fundado em Brasília em 1972. Em Belo Horizonte (MG), em 1979, surgiu a Associação Brasileira de Pesquisa da Criação (ACBP) e, mais recentemente, em Campinas (SP), o Núcleo Brasileiro de Design Inteligente. Essas sociedades, bem como instituições de Ensino Superior ligadas a grupos religiosos, realizam regularmente congressos, patrocinam livros criacionistas e mantêm páginas sobre essa concepção na internet.

Em 1999, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, o depu tado

Carlos Dias apresentou projeto de lei propondo o ensino religioso ‘confessional’, no qual o professor se declara de determinado credo religioso e direciona os ensinamentos de acordo com as premissas desse credo. Em 2000, o projeto foi aprovado pela Assembléia e, em 2004, a então governadora do estado, Rosinha Garotinho, surpreendeu a todos ao contratar, com dinheiro público, 500 professores para o ensino de religião. Obviamente, dentro desse ensino religioso, abriu-se espaço para o ensino do criacionismo.

Uma pesquisa encomendada ao Instituto Brasileiro de Opinião

Pública e Estatística (Ibope) e publicada em janeiro de 2005, pela revista Época (nº 346), mostrou que 3% dos brasileiros creem que o ser humano foi criado por Deus há cerca de 10 mil anos, enquanto 54% acreditam que este surgiu há milhões de anos, mas por um processo dirigido por Deus. O mais preocupante é que 89% dos entrevista dos concordam que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas e 75% acham que essa concepção deve substituir o evolucionismo.

discussão, porém, é absolutamente necessária, já que pode determinar o futuro educacional de nossa própria sociedade (ver ‘O criacionismo no Brasil’).

As opiniões dos universitários

O tema suscita um debate mais amplo e envolve a comunidade científica. Por isso, considerando que muitos dos atuais universitários poderão no futuro ser professores de escolas públicas e privadas, decidimos, em 2006 e 2007, investigar as opiniões sobre a evolução biológica de alunos do primeiro e do quarto anos de vários cursos – ciências biológicas, filosofia, física, geografia, história e química – da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. O projeto de pesquisa e o questionário aplicado foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Humanos da UEL.

Participaram da pesquisa 920 universitários. O questionário incluiu, em sua primeira parte, um levantamento socioeconômico dos estudantes (figura 1), constatando-se que mais de 50% deles vieram de escolas públicas e de famílias com renda entre um e cinco salários mínimos. Na segunda parte, eles responderam algumas questões de múltipla escolha referentes ao grau de aceitação/rejeição de temas ligados à origem e evolução do universo e da vida, assim como perguntas relacionadas a temas científicos mais comuns.

A primeira questão (figura 2) visou avaliar se os universitários acreditam ou não na evolução, bem como a forma como situam esse tema diante de di-

Figura 2. Diferentes opções de resposta oferecidas aos estudantes em relação ao tema evolução biológica – os entrevistados podiam optar por uma ou mais afi rmativas, e as barras indicam os percentuais de estudantes que optaram por cada afi rmativa

Aceito, porque as provas para a evolução biológica são claras e nem um pouco incertas

Não aceito, pois penso que existem outras boas alternativas para a evolução biológica que possam explicar a origem e a distribuição das espécies

Aceito a evolução biológica e acredito que isso não descarta a existência de um deus

Não aceito, pois as evidências para a evolução são cheias de confl itos e contradições

Tenho dúvidas, pois não tive informações sufi cientes durante a minha vida acadêmica para poder estabelecer uma opinião sobre esse assunto

Aceito por não acreditar que existam outras boas alternativas para a evolução biológica que possam explicar a origem e a distribuição das espécies

Tendo a aceitar o que o meu professor diz; ele conhece as provas bem melhor do que eu

Não aceito, pois acredito na criação do mundo conforme descrito na Bíblia

40 • CIÊNCIA HOJE • vol. 43 • nº 256 ferentes alternativas. Foram oferecidas oito opções de resposta que iam desde a aceitação total da evolução biológica, sem nenhuma relação direta com alguma crença religiosa, até sua rejeição total e aceitação apenas da criação como descrita na Bíblia. Os estudantes podiam optar por uma ou mais respostas. Verificamos que 8,9% dos entrevistados não aceitam a teoria evolutiva e acreditam na versão da Bíblia para a criação. Por outro lado, 16,1% acreditam que as provas da evolução biológica são claras e nem um pouco incertas. No entanto, 57,3% aceitam a evolução biológica e acreditam que isso não descarta a existência de um Deus. Portanto, aparentemente, a grande maioria dos entrevistados não vê conflito entre evolucionismo e religião, mas isso não permite inferir se concordam ou não com o ensino, ao mesmo tempo, do criacionismo e do evolucionismo em escolas públicas.

Embora a idade da Terra seja ponto de conflito entre as duas concepções, a afirmação de que o universo seria bastante antigo e de que nosso planeta teria cerca de 4,5 bilhões de anos teve baixa rejeição: a maior ocorreu entre estudantes de química (9,9%) e a menor entre os de ciências biológicas (6,3%). Mais de 90% dos entrevistados aceita ram como verdadeiras afirmações como as de que a evolução biológica vem ocorrendo por tempo bastante longo e de que existem processos de mi croevo lução (como aumento da resistência a inse ticidas e/ou antibióticos etc.) e de macroevolu ção (como origem de novas espécies). Entretanto, os estudantes tenderam a rejeitar mais os processos ma croevolucioná - rios do que os microevolucionários.

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