Preguica

Preguica

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18 • CIÊNCIA HOJE • vol. 27 • nº 161PALEONTOLOGIA 18 • CIÊNCIA HOJE • vol. 27 • nº 161

As preguiças que conhecemos hoje vivem pacificamente no topo das árvores e têm a aparência de macacos muito tranqüilos. Mas pouca gente sabe que há aproximadamente 12 mil anos, ao final do Pleistoceno, enormes preguiças, que chegavam a ter o tamanho de um elefante, perambulavam pelo cerrado brasileiro. Aparentemente monótono, esse bioma é muito diversificado, a ponto de ter acolhido numerosas espécies, que encontravam nele alimentação rica e variada, como as preguiças terrícolas, provavelmente o grupo de mamíferos mais espetacular que já palmilhou o nosso território.

Cástor Cartelle Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais junho de 2000 • CIÊNCIA HOJE • 19

Em 1787 o esqueleto de um gigantesco animal foi encontrado na essas desconhecidas

Preguiças terrícolas, cidade argentina de LujÆn, santuÆrio da padroeira da naçªo. O vigÆrio local conseguiu desenterrÆ-lo e enviou a enorme ossada ao Real Gabinete de História Natural de Madri, que acabava de se formar na Espanha. Entusiasmados, os naturalistas espanhóis prepararam os ossos e montaram o esqueleto para expô-lo no novo museu, concluindo, diante do seu tamanho, que o animal só poderia ser um elefante sul-americano.

Após admirar a peça, o rei Carlos I deu vazªo à sua exaltada curiosidade, ordenando que se organizasse uma expediçªo na entªo colônia para capturar um daqueles animais. Queria ter o prazer de contemplÆ-lo nos jardins de seu palÆcio. Se isso nªo fosse possível, desejava ao menos um exemplar empalhado.

Os desenhos feitos pelos espanhóis chegaram às mªos do cØlebre anatomista francŒs Georges Cuvier (1769-1832), diretor do Museu de História Natural de Paris. A montagem do esqueleto e conseqüentemente seu desenho estava errada, pois havia sido feita como se o animal, apoiado

Reconstrução da preguiça gigante Eremotherium laurillardi

20 • CIÊNCIA HOJE • vol. 27 • nº 161 nas plantas e palmas dos pØs e das mªos, fosse um elefante. Cuvier rejeitou a idØia de que se tratava do esqueleto de um elefante, identificando-o como sendo o de uma preguiça, por ele chamada Megatherium americanum (grande animal selvagem americano).

Desde entªo, novas preguiças terrícolas tŒm sido descobertas. Charles Darwin (1809-1882) identificou outra espØcie em 1833, tambØm na Argentina, e consta que o ex-presidente norte-americano Thomas Jefferson (1743-1826) teria encontrado uma espØcie nova em seu país. Assim, atØ meados do sØculo 19 jÆ se conheciam diversas espØcies de preguiças extintas, muito maiores que as pequenas e pacíficas preguiças arborícolas de nossa fauna atual. Aos poucos foram sendo recuperados fósseis de uma insuspeitada e rica variedade de animais, que atØ 12 mil anos atrÆs se espalhavam pela AmØrica. Hoje conhecem-se numerosas espØcies de preguiças terrícolas extintas, e novas descobertas continuam ocorrendo.

Inicialmente, os cientistas tiveram grande dificuldade para interpretar as novas formas descobertas. O primeiro achado do paleontólogo dinamarquŒs Peter Lund (1801-1880), que resultou de uma escavaçªo feita em 1835 na gruta de MaquinØ, em Cordisburgo (MG), consistiu em poucas peças da menor das preguiças extintas brasileiras. Durante 10 anos Lund esquadrinhou mais de 200 cavernas à procura de fósseis na regiªo de Lagoa Santa (MG), tendo descoberto fósseis de outras quatro espØcies de preguiças extintas. Da mais avantajada delas, chegou a encontrar dentes.

Em um trabalho em que tentava explicar esses animais extintos, imaginou que eles teriam hÆbitos semelhantes aos das atuais preguiças e defendeu a idØia de que, em tempos remotos, havia florestas com Ærvores gigantescas que serviam de trampolins para as preguiças extintas. Seria cômico imaginar o elefante sul-americano dos naturalistas espanhóis dependurado em uma gigantesca Ærvore!

Os xenartros

As preguiças incluem-se na ordem de mamíferos denominada Xenarthra, que teve sua origem e desenvolvimento no território sul-americano. Hoje, após acentuada diminuiçªo da variabilidade, restam apenas as preguiças arborícolas, os tatus e os tamanduÆs. AlØm das preguiças terrícolas, extinguiram-se tambØm os gliptodontes. Desconhecemos a origem da ordem e conseqüentemente a de seus ancestrais. O registro mais antigo de que dispomos (placas de tatus) Ø do Paleoceno, hÆ 65 milhıes de anos. Nessa Øpoca, em que a AmØrica Central estava submersa, nosso continente ainda era uma ilha. Durante milhıes de anos os xenartros diversi-

PPPPPrrrrreguiçaseguiçaseguiçaseguiçaseguiças terrícolasterrícolasterrícolasterrícolasterrícolas brbrbrbrbrasileirasileirasileirasileirasileir asasasasas do final dodo final dodo final dodo final dodo final do PleistocenoPleistocenoPleistocenoPleistocenoPleistoceno

Megaterídeos Megateríneos Megatherium americanum 4.0 RS

Eremotherium laurillardi5.000MG, RS, RJ, ES, GO, MS, MT, AC, RO, CE, PI, RN, PB, SE, PE, BA

Milodontídeos Milodontíneos Lestodon armatus 3.0 RS, SP

Ocnotherium giganteum2.000MG, BA

Mylodon darwini 1.0 RS

Mylodonopsis ibseni 1.000BA, MG

Glossotherium robustum 1.200 RS Glossotherium lettsomi 1.000MG, BA

Scelidoteríneos Scelidotherium magnum 600 RS Catonyxx cuvieri500MG, BA, PB, PI(?), CE

MegaloniquídeosNão estabelecidaIporangabradys colecti300SP, BA, MG(?) NotroteríneosNothrotherium maquinense50MG, SP, BA

* A sigla inicial assinala o estado onde ocorreu o primeiro achado brasileiro

junho de 2000 • CIÊNCIA HOJE • 21 ficaram-se em mœltiplas e espetaculares formas, alcançando nªo se sabe como a AmØrica do Norte hÆ 8 milhıes de anos. Cerca de 2,5 milhıes de anos mais tarde, quando teve fim o lento processo de elevaçªo do istmo da AmØrica Central, deu-se outra emigraçªo atØ o mesmo território e ilhas do Caribe.

AlØm da variedade ocorrida durante o isolamento da ilha sul-americana, os xenartros apresentam características que os distinguem nitidamente de qualquer outro mamífero, como a presença de carapaça rígida (os extintos gliptodontes) ou com placas (osteodermos) articuladas (tatus atuais e extintos) e pelagem espessa, presente em grande nœmero de animais, como as preguiças extintas e os atuais tamanduÆs e preguiças arborícolas.

Nos dentes, pouco numerosos e de raiz aberta, que crescem durante toda a vida, falta a camada de esmalte comum a todos os mamíferos. Algumas vØrtebras tŒm articulaçıes em nœmero maior que as das de outros mamíferos, sendo esta uma característica tªo peculiar que acabou dando nome ao grupo: xenarthra significa articulaçªo estranha .

À exceçªo de mamíferos aquÆticos, como o peixeboi e a baleia, os demais mamíferos tŒm nos ossos longos do esqueleto, como os das patas (fŒmures, œmeros, tíbias, rÆdios, entre outros), um espaço interno que os torna ocos, a cavidade medular. Nos xenartros esses ossos sªo compactos. HÆ muitas outras diferenças, mas convØm destacar ainda que as vØrtebras sacrais dos xenartros se fundem aos ossos da cintura pØlvica, formando um todo, enquanto nos outros mamíferos essas vØrtebras apenas se articulam à cintura.

As preguiças terrícolas tŒm uma longa história.

As primeiras de que se tŒm notícia sªo do Eoceno, hÆ 50 milhıes de anos. As vÆrias espØcies conhecidas agrupam-se nas famílias dos megaterídeos, milodontídeos e megaloniquídeos (ver tabela). Como jÆ dissemos, os primeiros achados fósseis de preguiças extintas no Brasil foram feitos por Lund, conhecendo-se, no país, espØcies típicas da Argentina e do Uruguai, encontradas sobretudo no Rio Grande do Sul, e, em maior nœmero, espØcies intertropicais. Referimo-nos aqui apenas às preguiças cujos fósseis foram encontrados no Brasil e se extinguiram hÆ aproximadamente 12 mil anos (Pleistoceno final), compondo um conjunto espetacular de 13 espØcies.

Os megaterídeos

A essa família pertencem os gigantes dos xenartros. De Megatherium americanum (o elefante sul-americano que nªo era elefante) foram encontradas poucas peças no Rio Grande do Sul. A espØcie tinha preferŒncia por regiıes de clima temperado. Eremotherium laurillardi Ø a espØcie de preguiça gigante que teve maior presença em nosso território e se espalhava tambØm por toda a AmØrica do Sul intertropical (Peru, Equador, Colômbia e Venezuela), chegando atØ a AmØrica Central (El Salvador) e a AmØrica do Norte (MØxico e sul dos Estados Unidos). No Brasil jÆ foram encontrados fósseis da espØcie em quase todos os estados, à exceçªo do Amazonas, AmapÆ, Roraima, ParÆ, Alagoas, Tocantins e Santa Catarina.

Foi um animal deslumbrante. Pesando cerca de cinco toneladas e medindo 6 m a cauda incluída , alcançava quase 2 m de altura em posiçªo quadrœpede e, alçado sobre as patas posteriores, atingia cerca de 4 m. Ao que parece, foi o mamífero terrícola que teve pØs e mªos mais avantajados, aqueles com uma e estas com duas garras córneas muito recurvadas, como adaga Ærabe. Incluídas essas peças, pØs e mªos de animais adultos poderiam atingir 1,5 m de comprimento. DÆ vontade de pegar carona no tœnel do tempo para observar um rebanho desses animais de longa pelagem, provavelmente marrom, avançando calmamente pelas planícies do cerrado, apoiados na borda lateral dos pØs, com as garras orientadas um tanto obliquamente para dentro, e sobre o dorso das mªos, ora arrancando touceiras de capim com sua longa e potente língua, ora alçando-se sobre as patas traseiras para puxar, com os enormes ganchos das mªos, galhos de Ærvores dos quais retiravam com a língua as folhas que consumiam.

Desenho esquemático dos dentes (molariformes) de Eremotherium laurillardi

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Os dentes eram inconfundíveis: prismÆticos e de seçªo retangular, com atØ 4 cm de lado e, como em todos os xenartros, de raiz aberta e sem esmalte. AlØm disso eram permanentes, nªo ocorrendo, como acontece conosco, a substituiçªo de dentes de leite por definitivos. A dentina, que nos nossos dentes estÆ sob a fina camada de esmalte, era o tecido predominante, ocorrendo dois tipos: a ortodentina e a modificada, aquela mais dura.

Na superfície de mastigaçªo formavam-se duas acentuadas arestas transversas, com aspecto de cunha, formadas pela dentina mais dura. Entre elas, a separÆ-las, uma depressªo ou vale pronunciado. Essas estruturas ocorrem tanto nos dentes superiores quanto nos inferiores e tŒm seqüŒncia alternada. A depressªo entre as cristas dos dentes superiores, por exemplo, era ocupada por uma das arestas do dente inferior antagônico. Essa disposiçªo fazia com que a mastigaçªo de grama e folha fosse muito eficiente, permitindo picotar o alimento em pequenos fragmentos.

Os milodontídeos

Conhecem-se numerosas espØ- cies dessa família, que se disseminou pelo território sul-americano, chegando atØ a AmØrica do Norte. Distinguem-se com facilidade das espØcies de megaterídeos por seus dentes, mªos e pØs, mais complexos.

Lestodon armatus era menor que E. laurillardi e pesaria cerca de trŒs toneladas. Viveu habitualmente em regiıes de clima temperado, razªo pela qual seus fósseis sªo mais comuns em países do Cone Sul e, no Brasil, em estados do Sul. HÆ um achado no estado de Sªo Paulo, a ocorrŒncia mais ao norte da espØcie. Outra espØcie afim, menor que L.

Reconstrução da preguiça terrícola Nothrotherium maquinense

Mão esquerda, provavelmente de fêmea jovem, de Eremotherium laurillardi (comprimento máximo: 5 cm). A mão do macho adulto chegava a medir 1,3 m. O osso arredondado na palma da mão servia para proteger os tendões

Mão direita de Ocnotherium giganteum (comprimento máximo: 40 cm) armatus, viveu na regiªo intertropical brasileira e foi descoberta em Lagoa Santa por Lund, que a chamou Ocnotherium giganteum. Mas só era conhecida atravØs de um par de dentes. HÆ pouco tempo foi encontrado um esqueleto quase completo, diferente de qualquer outro e que poderia ser o da espØcie de Lund.

As principais diferenças de Ocnotherium e

Lestodon em relaçªo a Eremotherium estªo no crânio: a entrada da boca era muito larga e, nela, os dentes, ovais, nªo tinham cristas marcantes na superfície de mastigaçªo. O primeiro par superior e inferior de dentes dava às duas primeiras espØcies uma aparŒncia feroz, mesmo sendo elas pacificamente herbívoras. Avantajados, robustos e projetados lateralmente, pareciam caninos eficientes para o ataque. Mas na prÆtica destinavam-se a desenterrar tubØrculos e arrancar casca de Ærvores. A espØcie brasileira, O. giganteum, tinha um detalhe que a diferia das demais preguiças: acentuado diastema (espaço natural entre os dentes de alguns animais,

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Mão esquerda de Mylodonopsis ibseni (comprimento máximo: 36 cm)

Mão esquerda de Valgipes gracilis (comprimento máximo: 30 cm) como se na seqüŒncia faltasse um deles) entre o segundo e o terceiro dentes superiores. Nas preguiças, tal espaço, quando existe, ocorre entre o primeiro e o segundo dentes.

Menor que a anterior, pesando cerca de duas toneladas, a espØcie Mylodon darwini foi estudada pelo anatomista inglŒs Richard Owen (1804-1892), que usou, para determinÆ-la, peças coletadas por Darwin na Argentina quando de sua viagem ao redor do mundo no navio Beagle (ver A caverna do milodonte ). Nas preguiças extintas, a borda anterior da boca que nos mamíferos Ø a regiªo onde estªo os dentes incisivos era desprovida de dentes. A esse respeito, M. darwini tinha uma peculiaridade: a porçªo anterior de sua boca era mais alongada do que a das demais espØcies, por ter perdido o primeiro dos dentes ao longo de sua história evolutiva. Nas narinas, em vez de cartilagem tinha uma ponte óssea larga e robusta que ia do alto de sua ampla abertura atØ o lÆbio superior.

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