Preguica

Preguica

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Mylodonopsis ibseni Ø uma espØcie só conhecida no Brasil, muito próxima de M. darwini. AlØm do tamanho semelhante, apresentava osteodermos e arco ósseo na frente do crânio. Mas nªo lhe faltava o primeiro dente superior, embora este fosse bem atrofiado. É como se a espØcie brasileira permanecesse no estÆgio primitivo pelo qual M. darwini passara.

Entre os glossotØrios, diversas espØcies distribuíam-se pela Argentina, pelo Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia (Glossotherium robustum e Glosso- therium lettsomi), pelo Equador (Glossotherium wegneri) e pelos Estados Unidos (Glossotherium harlani). O crânio era mais curto e alto que o de Mylodon, o focinho mais largo e o corpo mais robus-

Relíquia dentro da gruta

Dos muitos esqueletos de Nothrotherium maquinense identificados no Brasil, merece destaque o que encontrei certa vez no interior de uma gruta. Nem era preciso escavar, pois os ossos estavam soltos na superfície. Ao chegar à parte posterior do esqueleto, percebi que a bacia e os fêmures estavam fixados aos sedimentos. Para não danificá-los, abri uma pequena vala, tentando chegar de baixo para cima aos ossos enterrados. Avancei com cuidado, pois o sedimento felizmente não estava compactado. Ossinhos insignificantes começaram a cair na palma de minha mão, até que uma peça um pouco maior se desprendeu. Antes de vê-la, reconheci-a imediatamente pelo tato. Na minha mão estava uma pequena tíbia, o osso da canela. A sorte permitia-me recuperar o feto mais perfeito de um mamífero extinto até hoje encontrado. Consegui extraí-lo quase completo e ainda com a maior parte dos delicadíssimos ossos, com consistência de isopor, não só completos mas articulados em posição fetal. Depois disso e de um cuidadoso trabalho de extração, limpeza e endurecimento, poderemos fazer um impensável estudo embriológico de animal extinto. Prenhe, a mãe foi arrastada pelas águas para o interior da gruta. Milagrosamente, fossilizaram-se mãe e feto.

24 • CIÊNCIA HOJE • vol. 27 • nº 161 to. No Brasil ocorreram as duas primeiras espØcies citadas: G. robustum, no Rio Grande do Sul, e G. lettsomi, na Bahia. Ao que parece, ambas procediam de regiıes temperadas e, diante da queda da temperatura nos territórios de origem, hÆ aproximadamente 12 mil anos, ter-se-iam refugiado em ambiente menos agressivo como o do Brasil intertropical. A descoberta de G. lettsomi no Brasil Ø de grande importância porque introduz um dado novo: no crânio da espØcie hÆ diferenças que permitem diferenciar machos e fŒmeas. Outras espØcies poderiam apresentar tal dimorfismo sexual, permitindo a conclusªo equivocada de que se estaria diante de espØcies distintas e nªo da mesma espØcie.

Na família dos milodontídeos hÆ ainda as espØ- cies da subfamília Scelidotheriinae. Durante sua famosa viagem, Darwin encontrou o primeiro desses animais, na Argentina, que foi denominado Scelidotherium magnum. Era um animal esguio e magro. Os dentes, de contorno variado, foram triangulares ou ovais, e o crânio, alongado, seguia o parâmetro geral do corpo. Peças isoladas da espØcie jÆ foram encontradas no Rio Grande do Sul.

Milodontídeos brasileiros

No tocante às espØcies brasileiras, os milodontídeos provocam controvØrsias. O que fazer quando se encontram fósseis que aparentemente pertencem a uma espØcie desconhecida mas sªo insuficientes para um amplo conhecimento: aguardar o surgimento de mais material ou dar a conhecer o que se tem? E se surgirem sucessivamente peças que nªo permitem interligaçıes, como, por exemplo, um dente, uma vØrtebra e uma peça da mªo? Foi o que aconteceu com Catonyx cuvieri, espØcie menor que G. lettsomi. AlØm de terem aparecido numerosas peças isoladas, que recebiam denominaçıes à medida que iam sendo descobertas, pesquisadores que nªo tiveram contato direto com elas emitiam suas opiniıes. Conclusªo: a espØcie chegou a receber 40 nomes diferentes.

Duas outras espØcies tambØm participam da barafunda. Em 1864 o pesquisador Gervais encontrou nas coleçıes do Museu de História Natural de Paris o calcâneo (osso do pØ) de uma preguiça extinta enviado do Brasil àquela instituiçªo. Como diferia de outros que se conheciam, Gervais determinou uma nova espØcie, a que chamou Valgipes deformis, introduzindo no nome a raridade que a peça apresentava. E assim permaneceu durante 130 anos: uma espØcie que se conhecia a partir de um œnico osso que se pensava disforme. Mas a confusªo nªo pÆra por aí. Herluff Winge,

A caverna do milodonte

A gruta de Buena Esperanza, no sul do Chile, que se tornou famosa como ‘caverna del milodonte’, foi palco de uma série de equívocos. A história começa no século 19 na Prússia. O soldado Eberhardt, cansado do serviço militar, decidiu radicalizar, desertando. Tempos depois a polícia de seu país capturou-o na China. Devolvido à Alemanha, foi julgado e condenado a longos anos de prisão. Seguindo um roteiro tipicamente germânico, o tribunal que o condenou fora presidido por um coronel do exército que, coincidentemente, era seu pai. Indultado, deixou a pátria anos depois, indo viver nas terras geladas do sul do Chile, onde se tornou criador de ovelhas.

Em sua propriedade, abria-se uma gruta na qual acabou penetrando em 1895. Semi-enterrada, Eberhardt encontrou uma pele de pelagem ruiva cuja face interna continha grande quantidade de pequenos ossos esbranquiçados. Pensou tratar-se da pele de um animal marinho e, como estava recoberta de sal, estendeu-a em um galho de árvore para que a chuva a lavasse.

Pouco tempo depois passou pela região o paleontólogo Francisco Moreno (1852-1919), então diretor do Museu de La Plata, na Argentina. Ele nada encontrou dentro da gruta, mas recebeu de presente o que restara da pele ainda desfraldada ao vento. Moreno ficou perplexo com a excepcional preservação do material. Sabia que algumas preguiças extintas tiveram, na intimidade da pele, pequenos ossos, denominados osteodermos, que eram reminiscências da antiga carapaça de seus ancestrais. Transferido para La Plata, o achado ficou durante algum tempo encaixotado em um dos corredores do museu.

Mais tarde, a caverna foi visitada por arqueólogos que fizeram escavações e coletaram utensílios humanos, ossos, fragmentos de pele e fezes fossilizadas de Mylodon. Afoitamente, concluíram que antigos moradores viveram no local, tiveram rebanhos de milodontes e, à maneira do que fazia Eberhardt com suas ovelhas, usavam a gruta como estábulo. Essa fantasiosa hipótese foi posteriormente considerada falsa.

A caixa depositada no corredor do Museu de La Plata não ficou incólume. Consta que, no silêncio sem testemunhas da noite, um desafeto de Moreno, o célebre antropólogo e paleontólogo argentino Florentino Ameghino (1854-1911), teria examinado a pele, chegando à conclusão de que pertencera a uma preguiça. Mas a peça estava tão bem conservada que ele concluiu que o animal era recente e poderia ser encontrado naquelas desérticas paragens chilenas. Adiantando-se ao adversário, convocou os jornalistas para anunciar o sensacional achado de uma preguiça terrícola que se pensava extinta. Não foi fácil para Ameghino desconversar ao perceber que a excepcional preservação da pele se devia especialmente ao ambiente da gruta e ao clima frio da região do achado. Os gênios também cometem erros grotescos.

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Sugestões para leitura:

Horizonte,

Tempo passado - Mamíferos do Pleistoceno em Minas Gerais. Belo

Brasileira de

Palco, 1994, 132 p. PAULA COUTO, C. de. Tratado de paleomastozoologia. Rio de Janeiro, Academia

Instituto

Ciências, 1977, 590 p. PAULA COUTO, C. de. Memórias sobre a paleontologia brasileira. Rio de Janeiro,

Nacional do Livro, 1950, 592 p.

paleontólogo dinamarquŒs que estudou o material enviado por Lund do Brasil à Dinamarca, publicou um trabalho sobre uma espØcie de preguiça cujo crânio era muito semelhante ao de C. cuvieri, a espØcie com hiperinflaçªo de nomes. Como o resto do esqueleto era bastante diferente, denominou-a Catonyx giganteus. AtØ que outro autor resolveu corrigir Winge. Na sua opiniªo, este errara ao colocar na mesma espØcie um crânio que seria de C. cuvieri e o restante do esqueleto que sequer pertenceria ao grupo. E assim surgiu Ocnopus gracilis, mais um nome para identificar o esqueleto.

Recentemente encontramos dois esqueletos no salªo de uma gruta. Esbranquiçados, destacaram-se no chªo escuro quando a luz incidiu sobre eles. Visªo maravilhosa! HÆ 12 mil anos a própria natureza tinha preparado a soluçªo para tantas incertezas. Um esqueleto era de C. cuvieri, a espØcie de tantos nomes; o outro acabou com a balbœrdia. Nele reconhecemos o crânio de C. giganteus, o esqueleto de O. gracilis e o solitÆrio calcâneo de V. deformis. TrŒs espØcies em uma. E como hÆ regras previstas para esses casos, finalmente deverÆ denominar-se Valgipes gracilis.

Os megaloniquídeos

A terceira família com representantes brasileiros Ø uma das mais primitivas entre as preguiças terrícolas, a dos megaloniquídeos. No Brasil, ocorrem duas espØcies. De uma só se conhece o crânio, o qual, pensava-se, podia completar o esqueleto de O. gracilis. Mas hoje jÆ se sabe que Ø uma espØcie diferente, denominada Iporangabradys colecti. O resto de seu esqueleto, no entanto, ainda nªo Ø conhecido.

A outra espØcie Ø Nothrotherium maquinense, que Peter Lund encontrou em sua primeira escavaçªo na Gruta de MaquinØ. Do tamanho de uma ovelha de 50 kg aproximadamente, tinha cinco dedos nas mªos e nos pØs (fato raro entre as preguiças, que em geral tinham reduzido nœmero de dedos) e apenas 14 dentes (oito superiores). Trata-se de um animal emblemÆtico da paleontologia brasileira por ter sido o primeiro achado fóssil de Lund. JÆ foram encontrados atØ agora mais de 20 indivíduos dessa espØcie, alguns deles quase perfeitos (ver Relíquia dentro da gruta ).

Das 13 espØcies de preguiças terrícolas que se conhecem no Brasil, nove viveram no cerrado. Elas nªo poderiam competir pelo mesmo alimento, devendo ter tido diferentes especializaçıes. Isso Ø visível nos fósseis, sendo possível fazer uma esquematizaçªo geral. Nªo sabemos se havia espØcies noturnas. Se houvesse, estariam automaticamente excluídas da competiçªo direta com as diurnas. Os diversos tamanhos que assinalamos respondiam por diferenças notÆveis na escolha de alimentos. Percebe-se ainda que algumas espØcies (Nothrotherium, por exemplo) tinham mªos e pØs que lhes permitiam subir em Ærvores. O formato anterior da boca Ø tambØm outro elemento de diversificaçªo: hÆ bocas largas (Ocnotherium), afiladas (Mylodonopsis) e intermediÆrias (Glossotherium). Pode-se deduzir, por comparaçªo com espØcies herbívoras atuais, que a boca larga fazia com que o animal fosse um herbívoro generalista: abocanhava o alimento sem selecionÆ-lo, ao contrÆrio do que faz um animal de focinho alongado e estreito, que pinça exatamente o que lhe interessa.

Observam-se adaptaçıes tambØm nos dentes.

pelo mesmo tipo de alimenton

Tanto na forma como na superfície de mastigaçªo (face oclusal), hÆ padrıes muito variados: dentes eficientes para picotar, esmagar ou arrancar raízes e tubØrculos, por exemplo. As superfícies tŒm arestas cortantes ou degraus lisos, irregulares e atØ formato de talhadeira. Tais especializaçıes mostram que houve grande diversidade de hÆbitos alimentares entre esses animais, que, embora dividissem o mesmo território, nªo deviam competir diretamente

Mão direita de Nothrotherium maquinense (comprimento máximo: 18 cm)

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