As Simpáticas Focas da Antártida

As Simpáticas Focas da Antártida

(Parte 1 de 3)

ECOLOGIA POLAR Seis espécies, muito caçadas no passado, vivem nos mares gelados do Sul

As simpáticas focas da Antártida

Mamíferos adaptados ao frio e ao ambiente marinho, onde buscam seu alimento, as focas são ótimas nadadoras e algumas podem mergulhar a grandes profundidades. Das 34 espécies existentes no mundo, apenas seis vivem na Antártida. As focas da região já foram muito perseguidas, por causa de sua pele ou sua gordura, mas hoje as populações estão se recuperando, protegidas por leis internacionais. Por Edison Barbieri, Vicente Gomes e Phan Van Ngan, do Laboratório de Ecologia Polar, do Instituto Oceanográfico, da Universidade de São Paulo.

ªo hÆ lugar na Terra onde a vida seja mais difí-cil do que na AntÆrtida, o mais frio e mais secoSeu sucesso deve-se ao corpo hidrodinâmico e aos membros transformados em nadadeiras eficien-

tes, com membranas entre os dedos. TambØm sªo bem protegidas contra perdas de calor, pois um mamífero perde mais calor na Ægua do que fora dela. Um animal de sangue quente nªo sobrevive por muito tempo no mar se nªo tiver pŒlos espessos, ou uma camada de gordura ou os dois, como as focas.

As focas pertencem à ordem dos carnívoros e à subordem Pinnipedia (termo que significa pØs em forma de nadadeiras ). Sªo conhecidas no mundo 34 espØcies, distribuídas em trŒs famílias: Odobenidae (inclui apenas a morsa, restrita à regiªo Ærtica), Otariidae (as focas-de-orelha, com 14 espØcies) e Phocidae (as focas verdadeiras, com 19 espØcies).

Seis espØcies de Pinnipedia vivem na AntÆrtida: uma de Otariidae e cinco de Phocidae. O otarídeo (figura 2) Ø o lobo-marinho-antÆrtico (Arctocephalus gazella). É identificado, como outros otarídeos, pela

Figura 1. Apenas seis espécies – uma delas a foca-deweddell – habitam a Antártida dos continentes. Varridos pelo vento, seus relevos gelados incluem vales em que o ar Ø mais seco que no deserto do Saara e as temperaturas mØdias nªo passam dos 50° C abaixo de zero. Em tais condiçıes a vida torna-se quase impossível para organismos nªo-adaptados, como o homem.

Ao contrÆrio das regiıes Ærticas, a AntÆrtida nªo Ø habitada por grandes animais terrestres desde a Øpoca em que esfriou, hÆ mais de 25 milhıes de anos. Mas vÆrias espØcies de aves, como pingüins, albatrozes e petrØis, e de mamíferos, como focas, vivem no continente. Atraentes e simpÆticas, as focas passam parte da vida em terra, mas sªo consideradas animais marinhos (figura 1), pois dependem diretamente do mar. Elas evoluíram a partir de ancestrais semelhantes às lontras e sªo, depois das baleias, os mamíferos mais bem adaptados à vida em Æguas geladas.

6 • CIÊNCIA HOJE • vol. 25 • nº 149 orelha externa e por membros posteriores projetados para fora do corpo, permitindo que andem e atØ corram em terra. As fŒmeas tŒm quatro glândulas mamÆrias e amamentam as crias por quatro meses (na espØcie antÆrtica).

Os focídeos locais sªo a foca-leopardo (Hydrurga leptonyx), a foca-caranguejeira (Lobodon carcinophagus), a foca-de-ross (Ommatophoca rossi), a foca-deweddell (Leptonychotes weddelli) e o elefante-marinho (Mirounga leonina). Maiores que os otarídeos e chamados de focas verdadeiras, os focídeos nªo tŒm orelha externa e os membros posteriores ficam quase inteiramente dentro do corpo. Em terra, arrastam o corpo de modo lento e desajeitado. As fŒmeas tŒm só duas glândulas mamÆrias e os filhotes sªo amamentados por 20 a 50 dias, dependendo da espØcie.

Adaptações muito especiais As focas tŒm uma camada espessa de gordura sob a pele, e a grande rede de vasos sangüíneos dessa camada assegura trocas de calor, mantendo a temperatura do corpo tanto na Ægua gelada quanto ao Sol, em terra (figura 3). Outros mecanismos as ajudam a armazenar oxigŒnio e realizar longos mergulhos: seu volume de sangue Ø em geral maior que o dos mamíferos terrestres e seus mœsculos apresentam alta con- centraçªo de mioglobina, um derivado da hemoglobina capaz de reter o gÆs.

Em mergulho, o oxigŒnio Ø distribuído de preferŒncia para órgªos como coraçªo e cØrebro, e para os mœsculos, quando nadam. Graças a essas e outras adaptaçıes os focídeos sªo, em geral, capazes de mergulhar a grandes profundidades, por períodos longos. A foca-de-weddell, por exemplo, atinge 700 m de profundidade e pode permanecer submersa por mais de uma hora.

As focas nªo tŒm um órgªo específico para retirar o excesso de sais do sangue, como a glândula de sal das aves marinhas.

O teor dessas substâncias Ø regulado pelos rins, como nos demais mamíferos, mas as focas produzem uma urina bem mais concentrada. Com isso, eliminam o excesso de sais ingerido nos alimentos na Ægua.

A mªe foca ainda conserva Ægua variando o alto teor de gordura em seu leite. Na foca-de-weddell, esse teor aumenta, durante a lactaçªo, para atØ 57% (o dobro do teor de gordura do creme de leite), enquanto o de Ægua diminui atØ 2% (um terço do da carne magra comum). Assim, a foca fornece nutrientes ao filhote e retØm Ægua: para cada grama de Ægua perdida, a transferŒncia de alimento Ø 10 vezes mais eficiente que nos mamíferos terrestres.

O lobo-marinho-antártico EspØcie gregÆria, o œnico otarídeo antÆrtico costuma vir à terra em grupos de centenas de indivíduos, em especial na Øpoca da reproduçªo. A maioria da populaçªo (95%) vive na ilha Geórgia do Sul (ao sul do oceano Atlântico), mas hÆ colônias na península AntÆrtica e no arquipØlago Juan Fernandez (no Chile). É comum observar indivíduos solitÆrios tomando sol em praias próximas à Estaçªo AntÆrtica Comandante Ferraz, do Brasil, na ilha Rei George, das Shetlands do Sul.

Os machos atingem 1,8 m e 188 kg e tŒm pŒlo mais comprido. As fŒmeas nªo passam de 1,2 m e 40 kg e o pŒlo Ø curto e uniforme. É um animal agressivo e Ægil em terra, graças aos fortes membros que sustentam o peso do animal. Na Ægua, as longas nadadeiras garantem grande propulsªo e estabilidade. Podem mergulhar a atØ 45 m, por cerca de cinco minutos. Alimentam-se de krill (crustÆceo semelhante ao camarªo) e peixes, mas às vezes atacam pingüins. No mar, seus predadores sªo a baleia orca e a foca-leopardo; albatrozes podem atacar seus filhotes em terra.

A procriaçªo começa em outubro, quando os machos adultos chegam às praias e definem, em lutas violentas, os territórios em que instalam seu harØm. As fŒmeas chegam em novembro ou dezembro, e dªo à luz o filhote concebido no ano anterior.

Figura 3. O pêlo e a camada de gordura sob a pele protegem as focas do frio antártico

Figura 2. Os lobosmarinhos são vistos perto da estação de pesquisas brasileira

Os recØm-nascidos sªo amamentados por uma semana e cuidados por cerca de 117 dias. Após esse período, ocorre novo acasalamento e os animais se dispersam.

As cinco espécies de focídeos A foca-leopardo (figura 4) tem esse nome por sua cor e ferocidade. A fŒmea, em geral maior que o macho, alcança 4 m e atØ 450 kg. Habita todas as Æreas em torno da AntÆrtida, mas no verªo segue o pingüim-de-adØlia atØ seus locais de procriaçªo. Essa foca jÆ foi vista na Nova Zelândia, em ilhas do Pacífico Sul e atØ no sul do Brasil. Às vezes Ø vista em blocos de gelo, perto da estaçªo antÆrtica brasileira. Estima-se que existam entre 200 mil e 400 mil indivíduos.

É um predador solitÆrio, com afiados caninos e fileiras de dentes de trŒs pontas, alØm de adaptaçıes que permitem engolir grandes pedaços de alimento. Alimenta-se de krill, peixes e cefalópodes (polvos e calamares), e pode atacar os filhotes de outras focas, mas Ø mais conhecido por ser grande devorador de pingüins: jÆ foi achado um pingüim-imperador de 70 kg no estômago de uma fŒmea de foca-leopardo. O animal retira a pele das vítimas para comer a carne: nas praias da AntÆrtida sªo encontradas peles de pingüins inteiras, ainda com os pØs. Entre setembro e dezembro, as fŒmeas dªo à luz um filhote cinza com manchas brancas, que pesa cerca de 28 kg e recebe cuidados por 30 dias. O acasalamento ocorre em janeiro.

JÆ a foca-caranguejeira (figura 5) mede atØ 2,6 m e pesa em torno de 255 kg. Vive no gelo flutuante ao redor da AntÆrtida, mas hÆ maior concentraçªo em torno da península AntÆrtica e junto ao mar de Ross. Estima-se que existam entre 30 e 70 milhıes de indivíduos metade da populaçªo de focas do mundo. Sªo vistas nos blocos de gelo flutuantes próximos à estaçªo brasileira. Capturam seu principal alimento, krill, usando os dentes laterais como uma espØ- cie de filtro. Com a ajuda da língua, o animal força a Ægua do mar a sair e esse filtro mantØm as presas na boca.

Corpos dessas focas mumificados pelo ar frio e seco foram encontrados em vales antÆrticos, e testes de carbono-14 comprovaram que alguns tŒm mais de dois mil anos de idade. As fŒmeas dªo à luz apenas um filhote, em outubro. O grupo familiar inclui o macho, a fŒmea e o filhote, que permanecem juntos na praia atØ o desmame, entre duas e trŒs semanas, quando hÆ novo acasalamento. Seus maiores predadores sªo a foca-leopardo e a baleia orca.

Outra espØcie, a foca-de-ross, tem esse nome em homenagem ao explorador esco- cŒs James Clark Ross, que capturou dois exemplares em 1839. Raramente vista, vive na regiªo de gelos consolidados, em especial no mar King Haakon VII e no mar de Ross, e permaneceu quase desconhecida por mais de 100 anos. Sua populaçªo Ø hoje estimada em cerca de 200 mil exemplares. É a menor das focas antÆrticas, com cerca de 2,5 m e de 200 a 210 kg. Tem listras cinzas nas costas e peito e ventre pÆlidos, e a cabeça Ø curta, com olhos grandes, focinho curto e boca pequena. O tórax resistente à pressªo, as grandes nadadeiras posteriores e os dentes finos, curvados e agudos permitem supor que essa foca faz mergulhos profundos para capturar calamares, seu principal alimento. As fŒmeas dªo à luz apenas um filhote, sobre o gelo, em novembro. Seu œnico predador Ø a foca-leopardo.

A mais adaptada ao ambiente polar Ø, sem dœvida, a foca-de-weddell (figura 6). Seu nome homenageia o navegador britânico (nascido na Holanda) James Weddell, primeiro a descrevŒ-la, em 1822. Atinge pouco mais de 3 m e atØ 600 kg. Existem entre 250 mil e 800 mil em volta da AntÆrtida, mas a concentraçªo Ø maior no mar de Weddell, com pequenas colônias no arquipØlago Órcadas do Sul e na ilha Georgia do Sul. É a espØcie mais abundante nas imediaçıes da estaçªo brasileira.

Figura 4. Predadora solitária, a foca-leopardo é grande devoradora de pingüins

Figura 5. A focacaranguejeira vive em bancos de gelo e tem a maior população

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A pele cinza, com manchas mais claras, a ajuda a se camuflar com as pedras, quando estÆ em terra. A espØcie permanece no continente e em ilhas próximas mesmo no inverno, e usa os dentes caninos e incisivos como uma serra: girando a cabeça em semi círculo, a foca estilhaça o duro gelo que cobre o mar, para cavar aberturas que usa como respiradouros. Sªo encontrados buracos de 40 a 50 cm de diâmetro em locais onde o gelo tem 1 m de espessura. A perda desses dentes Ø um provÆvel fator de mortalidade dessa foca, predadas tambØm por orcas e focas-leopardo.

No inverno, a foca-de-weddell vive e atØ dorme na Ægua, onde a temperatura, em torno dos 2°C negativos, Ø mais agradÆvel que os 20° a 40°C negativos da atmosfera. A espØcie comunica-se por cantos modulados, que ecoam no fundo e no teto de gelo e sªo ouvidos a quilômetros de distância. Um sonar biológico permite que nade quase 2 km sob o gelo e depois ache seu respiradouro. Mergulha a mais de 700 m e por mais de uma hora, em busca de peixes, cefalópodes, krill e outras presas. Alimenta-se e acasala-se na Ægua, e os filhotes nascem sobre o gelo, com cerca de 30 kg. A mªe só volta à Ægua em trŒs semanas, quando a cria jÆ pode nadar. O recØm-nascido ganha atØ 15 kg por semana, graças ao alto teor de gordura (60%) do leite materno.

O elefante-marinho tem esse nome por causa do focinho dos machos, em forma de tromba (figura 7). Esse apŒndice, erguido de modo ameaçador quando o animal estÆ irritado, amplifica os sons emitidos para assustar os adversÆrios. Na espØcie antÆrtica, o macho chega a 4 ou 5 m e a quatro toneladas, e a fŒmea, mais clara e sem tromba, atinge 2 a 3 m e atØ 800 kg. A espØcie habita todos os mares da AntÆrtida, as ilhas próximas e o sul da Argentina. Existem hoje cerca de 600 mil indivíduos.

As fŒmeas formam colônias, dominadas por um macho que defende ferozmente seu harØm. O filhote, coberto por espesso pŒlo negro, nasce em setembro e outubro, com atØ 45 kg e 1 m. É cuidado pela mªe por cerca de 20 dias e ganha atØ 140 kg nesse período. O filhote nasce quase cego e incapaz de se locomover, sendo às vezes esmagado durante as lutas dos machos adultos.

Acidentes, doenças e falta de comida matam cerca de um terço das crias antes que completem um ano. Bom mergulhador, o elefante-marinho alcança 850 m de profundidade e pode permanecer atØ duas horas submerso, ao fugir de predadores. Alimentase de peixes e lulas. Quando adulto, só Ø atacado pela orca, mas indivíduos jovens sªo predados pela foca-leopardo.

Caçadas no passado, hoje protegidas As focas antÆrticas foram intensamente caçadas no passado, o lobo-marinho por causa da qualidade da pele e as demais pela gordura. Após James Cook descrever as colônias desses animais nos mares do sul, em 1775, europeus e norte-americanos começaram a explorÆ-las nas Malvinas, na Georgia do Sul e nas Shetlands do Sul. Por mais de dois sØculos, os navios que buscavam o óleo de foca dizimaram populaçıes inteiras desses animais, em especial lobos-marinhos e elefantes-marinhos.

A caça aos lobos-marinhos terminou em 1907, mas a história registra episódios de grande matança. Em 1822, foram mortos mais de um milhªo, o que quase extinguiu a espØcie. JÆ o elefante-marinho foi capturado atØ 1964, principalmente nas Æreas de procriaçªo: a gordura de um macho adulto pode fornecer atØ 350 litros de óleo fino. Na ilha Georgia do Sul, essa espØcie quase foi extinta. Os poucos animais restantes foram poupados porque a exploraçªo deixou de ser lucrativa.

focas da AntÆrtidan

Hoje, todas as focas que habitam Æreas a latitudes maiores que 60° Sul estªo protegidas por normas internacionais, como o Tratado da AntÆrtida, de 1961, e a Convençªo da Foca AntÆrtica, em vigor desde 1978. A proteçªo vem permitindo a recuperaçªo das espØcies. A legislaçªo atual prevŒ ainda uma futura regulamentaçªo de locais de completa proteçªo das

Figura 6. Mais adaptada ao frio, a foca-de-weddell permanece na Antártida no inverno

Figura 7. O elefantemarinho macho (ao centro) protege ferozmente seu harém

maio de 1999 • CIÊNCIA HOJE • 69 aumento dos casos de envenenamentos resul-tantes do contato de pessoas com lagartas detam a reduçªo do fibrinogŒnio ou atravØs de reposiçªo com plasma falharam e, às vezes, atØ agravaram o quadro de incoagulabilidade. Síndromes semelhantes ocorreram em 1967 na Venezuela, descrita por Carmem L. Arocha-Piæango e M. Layrisse na revista The Lancet (v. 7.599, p. 810, 1969), e em 1983 no norte brasileiro, descrita por Habib Fraiha- Neto e outros, do Instituto Evandro Chagas, de BelØm (PA). A taturana responsÆvel pos esses acidentes foi identificada como a da mariposa Lonomia obliqua, a mesma dos casos posteriores no Sul do Brasil (figura 2).

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