Como Fazer uma Dissertação

Como Fazer uma Dissertação

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Como fazer uma Dissertação de Mestrado em Informática na Educação: Uma Análise Reflexiva sobre a Ironia do Processo

Raul Sidnei Wazlawick, Dr. (Autor especialmente convidado: Luiz Fernando Jacintho Maia, Dr.)

1 Introdução

Após acompanhar o processo de desenvolvimento de várias dissertações de mestrado e várias bancas avaliadoras, após conversar com alguns colegas e perceber que todos enfrentam situações semelhantes com seus orientados, chegamos à conclusão de que seria necessário escrever um pequeno ensaio sobre o processo de realização de um mestrado, especificamente na área de informática na educação.

Este trabalho utiliza a ironia, o que para quem não sabe, é uma forma de discurso que busca usar o humor para trazer uma mensagem. Como existe muita gente sem senso de humor é necessário deixar bem claro que os conselhos deixados abaixo não são para ser seguidos em sua forma literal. Eles trazem mensagens implícitas, que se você olhar com discernimento poderá perceber fatos e situações que acreditamos são quotidianas na vida acadêmica. Outros fatos e situações são completamente irreais, mas nós os achamos engraçados e incluímos assim mesmo.

Este trabalho é direcionado aos estudantes de mestrado, especialmente aos de informática na educação, que poderão achar aqui excelentes dicas sobre o que não se deve fazer durante o mestrado.

identificar com alguma das situações descritas abaixo, bemquem mandou

Não pretendemos aqui ridicularizar pessoas reais, mas se você se você agir assim? Não nos culpe!

2 O Processo de Orientação

2.1 Como se Comunicar com o Orientador

Durante o mestrado é interessante que você desapareça por uns três ou quatro meses, e depois telefone para o seu orientador, de preferência em um sábado à noite ou domingo pela manhã, para dizer que está desesperado com o seu trabalho. Orientadores adoram ouvir que seus alunos estão desesperados. Isso os deixa satisfeitos, pois cumpriram seu primeiro dever, que é o de desesperar os alunos. Você já deve ter percebido isso, quando após a primeira conversa seu orientador lhe passou 45 artigos em inglês e 2 livros em eslovaco para você ler e apresentar uma análise crítica em duas semanas.

Bem, depois de ficar feliz com sua condição atual, seu orientador vai perguntar o que você fez nestes três ou quatro meses. Diga que você não teve muito tempo (ou seja, nenhum tempo) para dedicar à dissertação porque:

a) O serviço na firma tem lhe ocupado muito; b) Você viajou muito; c) Você teve problemas em casa; d) Você está com fobia de dissertação e a psicóloga ainda não conseguiu tratar isso; e) O cachorro comeu seu trabalho; ou f) Qualquer outra desculpa esfarrapada.

Outra forma interessante de abordar seu orientador é lhe enviar um e-mail e quinze minutos depois ligar para ele perguntando se ele leu o seu e-mail. Como ele certamente não leu, porque estava fazendo coisas menos importantes, isso já o deixa na defensiva.

Mas se você realmente quer ficar por cima, faça o seguinte:

a) Envie e-mails para seu orientador a partir de um endereço falso. Sempre que ele tentar responder, vai receber seu e-mail de volta.

b) Telefone para o escritório dele nos horários em que você sabe que ele está em aula. Faça isso durante umas duas semanas. Deixe sempre recado para ele retornar a ligação e um número de telefone que não existe.

c) Finalmente, descubra quando seu orientador viaja e vá ao seu escritório nestes dias. Reclame com todo o mundo que você nunca o encontra e que ele não responde os seus e-mails nem seus telefonemas.

Pronto, você já conseguiu um respeito profundo pelo seu orientador e a partir de agora ele vai deixa-lo em paz.

2.2 O que Ler

Quando o orientador exigir que você leia alguma coisa, não faça isso. É melhor tentar tirar a dissertação da sua imaginação, pois a leitura de textos científicos pode poluir suas idéias com coisas estranhas como “estado da arte”, “trabalhos relacionados”, etc. Lembre-se, não estamos interessados em arte, nem em relacionamentos, mas em informática na educação.

Se o orientador lhe pedir para ler alguma coisa em inglês, diga que isso leva muito tempo e exija bibliografia em português. Sempre existe alguma tão boa quanto, mesmo que seja de 15 anos atrás.

Outra coisa fundamental: jamais leia qualquer material que tenha menos de 10 anos de idade. Lembre-se que o tempo traz a maturidade. Assim, as idéias de 10 anos atrás são muito mais sólidas do que qualquer coisa que foi publicada semana passada. Uma bibliografia bem antiga e respeitável: isso é o que dá substância a uma dissertação na área de computação.

3 O Título da Dissertação

O título da dissertação é um ponto muito importante. É a primeira coisa em que o leitor vai colocar os olhos. Portanto, faça ele grande. Três linhas de texto e não se aceita menos! Coloque no título toda a informação possível sobre o seu trabalho. Mesmo que o trabalho depois acabe sendo desenvolvido de uma forma diferente que não tenha nada a ver com o título, é absolutamente proibido mudar o mesmo, e você deve mantê-lo a todo o custo. Muitos alunos perguntam se podem mudar o título do trabalho depois que registraram o projeto no seu ingresso no mestrado e a resposta é claramente “NÃO!”.

Sobre o formato do título, ainda é importante frisar que ele deve ter obrigatoriamente dois pontos (“:”) em algum lugar, dividindo o título principal do subtítulo. Você viu o título deste artigo? À guisa de exemplo, considere a correta colocação dos dois pontos no título abaixo:

“Influência da salivação das formigas nas rachaduras das calçadas: um estudo comparativo entre os métodos de diagonalização simples e triangulação complexa”

Você não sabe, mas o título deste artigo tinha apenas duas linhas. Isso não é desejável, mas colocado em fonte 20, como fizemos, conseguimos o efeito apropriado, com o texto em três linhas.

Outra forma muito elegante de usar os “dois pontos” é quando você desenvolveu um software/modelo/proposta/etc., que tenha como nome uma sigla engraçadinha. Coloque o acrônimo antes dos dois pontos e o nome por extenso logo depois. É possível ainda adicionar um subtítulo, mas a maioria vai achar suficiente apenas o acrônimo e sua explicação por extenso. Veja o exemplo abaixo:

“PATETA: Parâmetros Associados de Testes Empíricos para Tratamento Alternativo”

Observação: a palavra “empírico” é muito empregada em dissertações na nossa área. Procure usa-la sempre que possível. “Dialético” também é importante; mesmo que você não saiba o que é isso, use!

Se você for louco para publicar seu trabalho em inglês, use siglas charmosas como: “SHIT: Software & Hardware Integration Technology”, ou “CACA: Computer-Aided Cognitive Adaptation”.

Se você não conseguir produzir um título longo, use o algoritmo a seguir. Escreva o assunto. Ex.: “Hipermídia adaptativa”

Acrescente no início: “um modelo de”. Ex.: “Um modelo de hipermídia adaptativa”.

Acrescente no fim: “para uso no processo de ensino/aprendizagem”. Ex.:

“Um modelo de hipermídia adaptativa para uso no processo de ensino/aprendizagem”.

Acrescente no início: “um estudo prático visando uma proposta de”. Ex.:

“Um estudo prático visando uma proposta de um modelo de hipermídia adaptativa para uso no processo de ensino/aprendizagem”.

Acrescente no final o famigerado “dois pontos” e a frase “uma nova abordagem”. Ex.: “Um estudo prático visando uma proposta de um modelo de hipermídia adaptativa para uso no processo de ensino/aprendizagem: uma nova abordagem”.

está chegando lá

Use todas as regras ou apenas um sub-conjunto delas. Tanto faz! Você

4 Tempos Verbais

Todos sabem que uma dissertação de mestrado é um trabalho individual.

Por isso use sempre o plural majestático. Veja abaixo alguns exemplos interessantíssimos:

“Nós vos concedemos o título de Sir

“Nossa proposta visa construir um sistema que...” “Acreditamos que a interação dos alunos com o sistema...”

Outra coisa que dará muita credibilidade ao trabalho é o uso da mesóclise pronominal. Seguem exemplos:

“A experimentação do processo far-se-á através de...” “Nossas hipóteses confirmar-se-ão após...” “Fi-lo porque qui-lo.

O último exemplo não consiste de uma mesóclise, mas mostra o efeito fantástico que se pode obter usando ênclise no final de uma frase. É de muito bom gosto e elegância.

Outra coisa, que você já deve ter observado, se leu uma dissertação em informática na educação, é que primeiro parágrafo da introdução deve ter necessariamente um adjetivo megalomaníaco, que mostre a grandeza do seu trabalho. Seguem exemplos:

“O impressionante crescimento da Internet nos últimos anos...” “É cada vez maior o interesse pela informática na educação...”

“A cada dia mais e mais pessoas se conectam ao maravilhoso mundo da era digital...”

Segue normalmente ao parágrafo com o adjetivo megalomaníaco um parágrafo ressaltando as famigeradas “novas tecnologias”. Todos sabem que essas “tecnologias”, sejam quais forem, tem mais de 20 anos, mas como você está lendo a bibliografia de 15 anos atrás, continue dizendo que elas são novas.

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