Feromônios e Afrodisíacos na Seda

Feromônios e Afrodisíacos na Seda

março de 2007 • CIÊNCIA HOJE • 61

E N S A I O ZOOLOGIA Escolha de parceiros sexuais entre aranhas envolve diferentes pistas químicas

Os machos das aranhas fazem o que certos homens e mulheres gostariam de poder fazer. Eles conquistam as fêmeas com afrodisíacos, sabem se uma fêmea é virgem sem sequer tocá-la e identificam, por pistas deixadas pela própria fêmea, se esta é grande ou pequena e mesmo se é uma adulta bem nova ou mais idosa. Essa elaborada comunicação química – baseada nos feromônios – ajuda os indivíduos de diversas espécies de aranhas a assegurar a transmissão de seus genes para as gerações futuras.

A busca das palavras aphrodisiac ou pheromone na internet revela a existência de milhares de páginas com cada uma delas. Muitas dessas páginas vendem produtos que prometem ajudar as pessoas a conquistar um parceiro sexual. Essa idéia pode ser bastante atraente, mas – felizmente para os que consideram a ‘cantada’ a maneira mais gostosa de conquistar – não há provas científicas de que esses produtos de fato funcionem, de acordo com o livro Pheromones and animal behaviour (Feromônios e comportamento animal), do biólogo Tristam D. Wyatt, da Universidade de Oxford (Inglaterra). Embora existam evidências de que o odor possa atuar na comunicação entre seres humanos, ainda não se conseguiu isolar ou sintetizar, em pílulas ou perfumes, nenhum feromônio humano eficaz.

Enquanto aguardamos o avanço da ciência nesse sentido, por que não olharmos como os afrodisíacos e outros feromônios atuam em animais? As aranhas são um grupo interessante nesse aspecto, até porque muitos leitores talvez não imaginem que esses temidos animais possam se envolver em curiosos jogos sexuais.

O que são feromônios? Já que o texto vai tratar de feromônios e afrodisíacos de aranhas, cabe primeiro explicar esses termos. Um

Rodrigo Hirata Willemart Departamento de Ciências Biológicas, Universidade de Nebraska (Estados Unidos)

Feromônios e afrodisíacos na seda feromônio é um composto químico empregado na comunicação entre animais da mesma espécie. Se utilizado para fins reprodutivos, diz-se que é um feromônio sexual. Já um afrodisíaco pode ser definido como um tipo de feromônio sexual que o macho oferece para a fêmea após eles já terem se encontrado e que aumenta a probabilidade de eles acasalarem.

Um ponto importante para a adequada compreensão das escolhas de parceiros sexuais pelos animais é a importância da transmissão dos genes para as gerações seguintes. Ao longo da evolução, os indivíduos que maximizam seu sucesso reprodutivo, ou seja, aqueles que são mais eficientes em perpetuar seu patrimônio genético, têm maior probabilidade de ser selecionados positivamente. Em outras palavras, dentro da mesma espécie há indivíduos mais ou menos eficientes em passar seus genes adiante: os primeiros terão maior probabilidade de estar geneticamente bem representados nas gerações futuras. Por essa razão é comum que os machos de uma mesma espécie estejam em constante conflito, já que todos tentarão tirar o melhor proveito possível das fêmeas, no momento da reprodução (como uma maneira de passar seus genes às gerações futuras).

Virgens versus experientes Após uma cópula, uma fêmea de aranha pode gerar centenas de ovos, os quais podem ter sido fecundados por apenas um macho ou por vários. Em muitas aranhas, a maior parte dos óvulos da fêmea será fecundada pelo primeiro macho que acasalar com ela.

Figura 1. As fêmeas da aranha Neriene litigiosa constroem teias (seta) com o formato de uma bacia virada para baixo

Esse fenômeno fez com que, ao longo da evolução, fossem selecionados machos com uma estratégia bastante óbvia: eles tentam acasalar preferencialmente com fêmeas virgens!

O biólogo Paul J. Watson, da Universidade do

Novo México (Estados Unidos), relatou em artigo na revista científica Science, já em 1986, que um macho de Neriene litigiosa (da família Linyphiidae) não apenas detecta o odor da seda de uma fêmea que se tornou sexualmente madura entre sete e 10 dias antes e que continua virgem, mas também se dirige até ela e enrola sua teia. Ao fazer isso, reduz a emissão de feromônios voláteis pela teia e, assim, diminui a chance de ela atrair outros machos! Como a taxa de visitas às teias de fêmeas no local estudado é de um macho a cada três horas, aproximadamente, o primeiro macho a encontrar a fêmea evita ser interrompido, durante a longa cópula (de até seis horas), para ter de combater outros machos que cheguem ao local depois dele.

Grandes versus pequenas Em artigo no periódico Behavioral Ecology and Sociobiology, em 1994, o biólogo John Prenter, da Universidade da Rainha em Belfast (Irlanda do Norte) e outros mostraram que os machos da espécie Metellina segmentata (Mimetidae) distinguem, por contato, a composição química da teia de fêmeas maiores ou menores. Ao detectar a teia de uma fêmea maior e mais pesada, o macho permanece nessa teia, em postura de guarda, para evitar a aproximação de outros machos de sua espécie. Impedindo a concorrência, ele tenta ser o único a acasalar com a fêmea.

Os autores do estudo verificaram que fêmeas maiores e mais pesadas carregam maior número de óvulos maduros, sendo, portanto, mais vantajosas para um macho, já que podem, com ele, gerar um número maior de filhos. A informação sobre o tamanho da fêmea é obtida pelo macho através de feromônios presentes na seda da teia. Mesmo que o pesquisador retire as aranhas fêmeas das teias, o macho ainda é capaz de escolher as teias onde estavam as maiores. Para isso, ele não precisa penetrar até a parte mais complexa da teia: basta tocar nas áreas periféricas para fazer a escolha entre ‘guardar’ ou ‘não guardar’. Isso sugere que não é a arquitetura da teia, e sim suas propriedades químicas, que fornecem aos machos as pistas sobre o tamanho (ou seja, a ‘qualidade’) da fêmea.

Jovens versus ‘coroas’ Já na espécie Schizocosa ocreata (Lycosidae), os machos preferem as fêmeas adultas velhas, e não novas, como mostraram os biólogos J. Andrew Roberts, da Universidade Estadual de Ohio (Estados Unidos), e George W. Uetz, da Universidade de Cincinnati (Estados Unidos), em artigo no periódico Animal Behaviour, em 2005. Nessa espécie, as fêmeas adultas são mais agressivas na primeira semana após a última muda (o desenvolvimento de uma aranha é descontínuo: ela sofre mudas e, após uma determinada muda, os órgãos genitais tornam-se maduros, dizendo-se então que é adulta) e uma fêmea assim representa risco de vida para qualquer macho. Talvez por isso, os machos de S. ocreata se interessam mais por fêmeas que se tornaram maduras (adultas) há mais de uma semana.

O que é surpreendente é que os machos escolhem as fêmeas adultas mais velhas mesmo que não estejam presentes, seguindo ‘pistas’ deixadas por elas. Isso acontece porque as aranhas fêmeas, enquanto

Figura 2. Macho de N. litigiosa (seta azul) enrolando a teia (seta branca) de uma fêmea, o que reduz a liberação de feromônios e a probabilidade de a teia atrair outros machos

Figura 3. Após enrolar a teia (seta branca) da fêmea, o macho de N. litigiosa (seta azul) copula com ela (seta amarela)

Figura 4. Quando um macho de N. litigiosa não consegue enrolar a teia da fêmea (seta amarela) a tempo e outro chega, os dois machos (setas azuis) iniciam um combate

março de 2007 • CIÊNCIA HOJE • 63 caminham, deixam fios de seda por onde passam. Basta o macho tocar esses fios de seda para saber se essa fêmea é virgem e se ela é uma adulta nova ou mais velha.

Secreções afrodisíacas Além de seguir todas as ‘pistas’ já citadas, os machos de algumas espécies de aranhas desenvolveram um truque para convencer as fêmeas a acasalar com eles, completando a conquista. Eles dão uma atenção especial às preliminares – e aqui não estamos falando de danças, carícias ou exibição de cores vistosas, como fazem vários animais, inclusive aranhas. O truque mencionado é a oferta, por esses machos, de secreções que produzem em glândulas situadas perto dos olhos – pelo menos no caso da espécie Oedothorax gibbosus (Linyphiidae). Em artigo no periódico Biological Journal of the Linnean Society, em 2004, o biólogo Danny Vanacker, da Universidade Ghent (Bélgica) e outros mostraram que a fêmea acasalará com o macho após se alimentar dessas secreções. Por essa razão, tal tipo de feromônio é denominado por alguns autores de secreção afrodisíaca.

O ‘pai’ da teoria da evolução, o inglês Charles

Darwin (1809-1882), escreveu certa vez: “São os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que com tanta certeza afirmam que esse ou aquele problema nunca será solucionado pela ciência.” Portanto, não podemos perder as esperanças. Quem sabe um dia os cientistas produzirão, para os humanos, algo similar às secreções afrodisíacas das aranhas!

Produto da seleção natural Os exemplos acima mostram que, nos casos em que os machos preferem fêmeas virgens ou maiores, a escolha visa, em última instância, otimizar seu sucesso reprodutivo, ou seja, gerar o maior número possível de filhotes. Quando machos escolhem fêmeas adultas mais velhas e menos agressivas, a idéia é a mesma, já que machos mortos ou feridos não passam ou têm menor probabilidade de passar seus genes adiante. Da mesma forma, as secreções afrodisíacas auxiliam um macho a se acasalar, aumentando suas chances de propagar seus genes.

É fundamental terminar dizendo que essas escolhas não precisam ser ‘conscientes’. É mais simples pensar que têm uma base genética e são um mero produto da seleção natural. Machos que não escolheram as fêmeas virgens ou maiores deixaram menos descendentes e seus genes representaram uma proporção cada vez menor da população, até deixarem de existir após milhares de anos de evolução. Os feromônios e afrodisíacos são, portanto, de vital importância para a escolha de parceiros nessas aranhas e, em parte, graças a eles, os indivíduos podem maximizar seu sucesso reprodutivo.

Figura 6. Macho da espécie Schizocosa ocreata, que prefere fêmeas adultas mais velhas

Figura 5. Macho da espécie Metellina segmentata, que prefere fêmeas maiores

Figura 7. Imagem da porção anterior de um macho de aranha da espécie Oedothorax gibbosus (microscopia eletrônica de varredura) – o círculo indica a depressão, no cefalotórax do macho, onde se abrem glândulas que exalam secreções afrodisíacas, e a seta indica os olhos

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