economia regional e urbana

economia regional e urbana

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TEXTO PARA DISCUSSÃO N° 259

Rodrigo Simões Maio de 2005

Ficha catalográfica

332.1 S593m 2005

Métodos de análise regional e urbana:

Simões, Rodrigo Ferreira. diagnóstico aplicado ao planejamento / Rodrigo Simões. - Belo Horizonte: UFMG/Cedeplar, 2005.

31p. (Texto para discussão ; 259)

1. Economia regional. 2. Economia urbana. I. Universidade Federal de Minas Gerais. Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional. I. Título. I. Série. CDU

Rodrigo Simões Cedeplar/UFMG - limoes@cedeplar.ufmg.br

CEDEPLAR/FACE/UFMG BELO HORIZONTE 2005

1. INTRODUÇÃO6
DESDOBRAMENTOS7
2.1. Medidas de Localização e Especialização7
2.2. Método Shift-share (Diferencial-Estrutural)10
2.3. Modelos de Insumo-Produto12
3. ANÁLISE MULTIVARIADA16
4. DESENVOLVIMENTOS RECENTES18
4.1. Modelos de Equilíbrio Geral Computável - EGC18
4.2. Modelos de Econometria e Associação Espacial20
4.3. Fuzzy Clusters21
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS24

2. MÉTODOS TRADICIONAIS DE ANÁLISE REGIONAL E URBANA E SEUS 4

Este trabalho propõe-se a identificar o avanço que os métodos e técnicas de análise regional e urbana experimentaram nos últimos 50 anos. Não pretendemos fazer uma revisão, ou mesmo uma apresentação formal, extensiva de cada método ou técnica, senão uma análise aplicada dos principais métodos utilizados em diagnóstico e desenvolvimento regional e urbano. Para tanto iremos dividir nosso trabalho em 3 blocos, a saber: i) métodos e técnicas tradicionais de análise regional e urbana e seus desdobramentos recentes; i) métodos multivariados; ii) desenvolvimentos recentes.Para cada uma das técnicas e métodos presentes nestes blocos procuraremos enfatizar as principais propriedades e aplicações, os limites e as potencialidades, no sentido de balizar a sua utilização para formulação de políticas regionais de desenvolvimento. Indicações bibliográficas pertinentes irão acompanhar cada método, evitando replicar apresentações formais presentes à exaustão na literatura.

This paper intends to identify the most important methodological advances on urban and regional methods of analysis for the last fifty years. The aim of the paper is to carry out an applied analysis of the main urban and regional techniques in order to contribute to diagnosis and economy policy on urban and regional economic development. These techniques are divided into three parts: 1) traditional methods; 2) multivariate analysis applied on urban and regional economics; and 3) recent developments. For each technique we will emphasize the most important properties, limits and potentialities to urban and regional development economic policies.

JEL CODE: R 0 0

1. INTRODUÇÃO

Entre a publicação de Methods of Regional Analysis (ISARD, 1960) e Methods of

Interregional and Regional Analysis (ISARD et al., 1998) a dimensão dos métodos e técnicas de análise regional e urbana cresceu, tal qual a maioria dos ramos da economia, de forma exponencial.

Se o livro-texto de 1960 se propunha, e de certa forma conseguia, cobrir aprofundadamente o estado da arte dos métodos e técnicas de análise da então autodenominada “ciência-regional”, a recente publicação organizada pelo mesmo autor não apenas não intenciona cobrir os diversos métodos desenvolvidos nos últimos anos, como muito menos aprofundar os desenvolvimentos recentes em análise regional e inter-regional.

O texto de 1960 possuía uma visão, podemos afirmar, exegética, formadora. Apresentava e desenvolvia técnicas e métodos de análise regional a partir de bases de informação já difundidas em países desenvolvidos - marcadamente os USA - tais como Sistemas de Contas Nacionais, Censos Populacionais, Censos Econômicos, Matrizes de Insumo-Produto, etc; mas preocupava-se explicitamente com indicações e instruções para a construção de tais bases. Cada um dos 10 capítulos temáticos possui pelos menos uma seção que trata especificamente das dificuldades e possíveis soluções para a construção de sistemas de informações em bases regionais e por vezes interregionais.

Esta preocupação não se encontra na publicação de 1998, face tanto ao desenvolvimento dos sistemas de estatísticas econômicas em outros países que não os EUA1 , como ao refreamento da dimensão formativa ideológica que permeava a regional science no início dos anos de 1960.

Outra característica que difere as duas publicações dá-se nas escolhas de técnicas e métodos apresentados, i.e.,

“(...) the relative importance assigned to the several methods has changed. Analysis of population (…) has been de-emphasized and migration analysis has come to be explored by several methods of analysis – econometrics, gravity and spatial interaction models, microsimulation [etc.] – thus finding a split home among them.”(ISARD, 1998:xi) e principalmente nas ênfases temáticas:

“(...) while the 1960 book fully recognized the need for interregional analysis, it tended to concentrate on single region problems and effective attacks on them; [1998] book places greater weight on interregional analysis (…) and on greater understanding of the questioning of a system of regions, whether within a nation, or a global or a continental community at one extreme or a small region comprising a set of urban communities at the other. [And] general equilibrium analysis (in 1960 a formally conceptual framework) have come to the fore as a result of the computer revolution (...)” (ISARD, 1998: xi)

1 A análise da questão das estatísticas regionais requereria um estudo próprio. Não vamos nos aprofundar nisto aqui.

Contudo, cabe ressaltar que as estatísticas de base inter-regional são ainda virtualmente inexistentes no Brasil.

Por fim, outra diferenciação é a revolução pela qual passou a econometria, dos anos 50 até hoje, chegando aos modelos recentes de econometria regional.

Esta pequena introdução vem no sentido de precisarmos o avanço que os métodos e técnicas de análise regional experimentam nos últimos 50 anos, i.e., os anos de sua consolidação. Assim não pretendemos fazer uma revisão, ou mesmo uma apresentação formal, extensiva de cada método ou técnica, senão uma análise aplicada dos principais métodos utilizados em diagnóstico e desenvolvimento regional.

Para tanto iremos dividir nosso trabalho em 3 blocos, a saber:

i) métodos e técnicas tradicionais de análise regional e urbana e seus desdobramentos recentes; i) métodos multivariados; i) desenvolvimentos recentes.

Para cada uma das técnicas e métodos presentes nestes blocos procuraremos enfatizar as principais propriedades e aplicações, os limites e as potencialidades, no sentido de balizar a sua utilização para formulação de políticas regionais de desenvolvimento. Indicações bibliográficas pertinentes irão acompanhar cada método, evitando replicar apresentações formais presentes à exaustão na literatura.

2. MÉTODOS TRADICIONAIS DE ANÁLISE REGIONAL E URBANA E SEUS DESDOBRAMENTOS2

2.1. Medidas de Localização e Especialização

Um conjunto de medidas descritivas e de natureza eminentemente exploratórias – uma primeira aproximação a uma grande massa de informações – são comumente utilizados em diagnósticos introdutórios para políticas de descentralização industrial e, principalmente, caracterizações de padrões regionais da distribuição espacial de atividade econômica.

Tais medidas podem ser divididas entre medidas de localização, de natureza setorial, que “(...) se preocupam com a localização das atividades entre as regiões” (HADDAD et al. 1989:231-32), procurando verificar padrões de concentração ou dispersão espacial; e as medidas de especialização, que se concentram na análise da estrutura produtiva de cada região objetivando analisar o grau de especialização regional, assim como sua diversificação interperíodos.

Dentre tais medidas de localização e especialização podemos destacar na literatura duas como as mais utilizadas, a saber, o Quociente Locacional (QLij) e o Coeficiente de Associação

Geográfica(CAik)3 . O Coeficiente de Associação Geográfica, notado como (CAik), compara

2 As técnicas de regionalização talvez sejam os mais tradicionais dentre os métodos de análise regional. Não serão tratados aqui por serem objeto de um tópico próprio, a ser realizado em etapa posterior do trabalho.

3 ISARD (1960) apresenta ainda o Coeficiente de Localização, O Coeficiente de Redistribuição, a Curva de Localização (em tudo análoga à Curva de Lorenz), o Coeficiente de Especialização e o Coeficiente de Reestruturação, com utilização menos comum em estudos aplicados de análise regional no Brasil. Para mais detalhes e algumas aplicações ver HADDAD et al. (1989).

distribuições percentuais dos setores i e k entre duas regiões quaisquer. Pela formulação, quanto mais próximo de zero o valor de CAik, mais associados geograficamente estarão os 2 setores. Estendendo o cálculo do CAik para todos os pares 2 a 2 possíveis, na base regional em estudo, pode-se, por exemplo, construir padrões de associação setorial regional, estabelecendo sub-cadeias setoriais orientadas espacialmente. ALBUQUERQUE et al. (2002), por exemplo, utilizam o CAik ao analisar a vinculação entre indicadores de ciência e tecnologia e amenidades urbanas, em bases municipais para o Brasil.

Sua principal vantagem é a facilidade de aplicação e de interpretação e sua limitação primordial a mesma de todas as medidas descritivas, i.e., embora (...) “possam indicar certas regularidades estatísticas entre fatos empíricos relacionados com as economias regionais, elas são intrinsecamente incapazes de gerar relações explicativas para os fenômenos observados” (HADDAD et al., 1989:243).

Quanto ao Quociente Locacional, o QLij, este pode ser considerado a principal e mais difundida medida de localização e especialização utilizada em estudos exploratórios de economia regional, urbana e até mesmo setorial. O QL compara a participação percentual de uma região j qualquer em um setor i com a participação percentual da mesma região j na economia de referência. Formalmente:

QLij =

Sua utilização mais comum é na definição, mesmo que introdutória e inicial, de atividades básicas e não-básicas, oriundas das Teorias de Base de Exportação, Base Econômica e Base Urbana

(SCHICKLER, 1972). Vale dizer, valores de QLij superiores à unidade, na região j indicariam setores mais importantes, relativamente aos outros, na economia de referência, identificando possibilidades de exportação para o “Resto do Mundo”. Não apenas os trabalhos sobre as Teorias de Base utilizam-se do

QLij como medida regional e exploratória. Caracterizações iniciais em trabalhos sobre redes interurbanas (FERREIRA, 1995); redes intermetropolitanas (ALVIM, 1996); potencialidades microrregionais (LEMOS e SIMÕES, 1992); além de todo o aparato de construção de matrizes interregionais de insumo-produto a partir de matrizes nacionais. FLEGG et al. (1994) apresentam uma excelente resenha sobre o uso de QLs na adaptação de coeficientes técnicos nacionais para a construção de matrizes regionais.4 Também FESER & BERGMAN (2002) utilizam o QL para analisar clusters regionais a partir de matrizes de insumo-produto.

Recentemente, com a emergência da temática dos clusters, ou distritos industriais, ou ainda

Arranjos Produtivos Locais (APLs) na terminologia adotada pela REDESIST que adotaremos aqui, várias metodologias utilizam os QLs afim de identificar especializações produtivas locais, com pequenas variações metodológicas. BRITO & ALBUQUERQUE (2002), IEDI (2002), SEBRAE (2003), SUZIGAN et al. (2003) atribuem ao QL um papel central na identificação dos APLs, sendo os mesmos indicadores de especialização produtiva regional – seja como arranjos potenciais, seja como arranjos consolidados, seja utilizando dados de pessoal ocupado, seja utilizando informação de número de estabelecimentos.

4 Para outras indicações da utilização de QLs na construção de modelos inter-regionais de insumo-produto a partir da utilização de QLs ver HADDAD (1995), FERNANDES (1997), ISARD (1960), ISARD et al. (1998).

Contudo, como destacam CROCCO et al. (2003), há que se tomar muito cuidado com a utilização direta deste indicador como identificador de arranjos produtivos. Um QL superior à unidade – indicação teórica e genérica de especialização – não garante concentração, mas apenas diferenciação produtiva. Face à enorme desigualdade regional brasileira é de se esperar que o montante de localidades com QL>1 seja muito elevado, não significando necessariamente a existência de qualquer tipo de APL. Mais que isto, para escalas territoriais muito pequenas – com estrutura produtiva pouco diversificada – o QL sobrevaloriza qualquer diferenciação interna. Por sua vez, com escalas territoriais maiores – metropolitanas, por exemplo – a diversificação intensa subvaloriza a real importância dos setores dado o pequeno valor dos QLs, mesmo que estes tenham peso percentual relevante no contexto nacional (CROCCO et al., 2003).

A fim de propor uma alternativa para estes problemas estes autores propõem um índice alternativo, chamado Índice de Concentração Normalizado (Icn), que mescla o próprio QL com uma versão do Índice de Hirschman – Herfindahl (que compara a importância do setor i da região j com a importância relativa da região j na economia de referência como um todo) e um indicador de escala (PR), i.e., de participação relativa do setor na economia de referência. Formalmente:

ICnij = ∅1 QLnij + ∅2 HHnij + ∅3 PRnij

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