Desflorestamento: pausa para o lanche?

Desflorestamento: pausa para o lanche?

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Negócios, mentiras e pilha gens andam juntos com bas tante frequência. No caso de grandes negócios, parece haver uma lei: só prosperam – prin cipalmente em países onde a acumulação de capital é recen te – se forem sustentados por uma cadeia de atividades sujas e ir regulares.

Vejamos o exemplo da indús tria metalúrgica, notadamente a siderurgia. A base da cadeia de negócios em cujo topo situa se a indústria siderúrgica está na mi neração, um empreendimento essencialmente sujo. Nas pala vras do erudito alemão Georg Bauer (1494 1555), conhecido como Georgius Agricola, “os campos são devastados por ope rações de mineração (...) as flo restas e os bosques são derruba dos, pois há necessidade de uma quantidade interminável de ma deira para construções, máqui nas e fundição de metais. E. quando se abatem as florestas e os bosques, os animais são exter minados. (...) Além disso, quan do os minérios são lavados, a água usada envenena os regatos e os rios e destrói os peixes ou os afugenta”.

Quase cinco séculos mais tar de, os efeitos negativos da mine ração permanecem praticamente os mesmos, embora em uma es cala muitíssimo maior. Isso por que a maquinaria utilizada hoje pode concluir em horas o traba lho que homens e animais de carga levavam anos para fazer na época de Agricola. Os avanços tecnológicos também permitiram que a produção mundial atingis se patamares inimagináveis na quela época, o que reduziu cus tos e barateou produtos. Todo esse ‘progresso’ levou ao excesso de consumo e ao desperdício, ampliando em muito os danos e a degradação ambiental.

Além de gerar degradação am biental e altos níveis de poluição, a siderurgia está comumente li gada a uma cadeia de negócios ilegais ou criminosos, desde fa zendas que exploram o trabalho escravo e a mão de obra infantil até carvoarias que promovem desflorestamentos ilegais.

O país conta hoje com dezenas de usinas siderúrgicas, produto ras de aço e ferro gusa, alimen tadas por milhares de carvoarias. A cadeia produtiva que atende a demanda de uma grande siderúr gica abrange dezenas ou cente nas de fornecedores, todos bus cando em primeiro lugar a maxi mização dos lucros, a despeito de operar ou não dentro dos li mites da lei ou da civilidade. À medida que essa mentalidade

A exploração anárquica dos recursos naturais é uma das características da economia mundial. Nos dias de hoje, porém, o funcionamento da engrenagem que promove esse regime de exploração está subordinado aos centros de decisão do mundo econômico. A ‘moratória da soja’ serve para ilustrar essa afirmativa: a denúncia de que grandes multinacionais de alimentos financiavam a derrubada da floresta amazônica fez com que empresas exportadoras anunciassem a decisão de não mais adquirir grãos produzidos em áreas recém-desflorestadas. Um avanço, sem dúvida, embora ainda não esteja claro se esse compromisso está de fato sendo cumprido e, em caso afirmativo, se será mantido em futuro próximo.

Felipe A. P. L. Costa

Biólogo, autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003) e A curva de Keeling e outros processos invisíveis que afetam a vida na Terra (2006) meiterer@hotmail.comopinião

Desflorestamento: pausa para o lanche? opinião

‘selvagem’ se impõe, as irregula ridades tendem a prosperar. Não é de se estranhar, portanto, que ‘progresso econômico’ e ‘desen volvimento social’ estejam em geral tão distantes entre si.

Outra atividade econômica famosa pelos tentáculos sujos que ostenta é o chamado agrone gócio – grandes empreendimen tos agrícolas voltados basicamen te para a exportação. Vejamos o caso da soja, uma leguminosa de pequeno porte, aparentemen te frágil, mas cuja cultura é po derosa o suficiente para eleger prefeitos, deputados e até gover nadores – além de grilar terras e dizimar qualquer trecho de vegetação nativa que encontre pela frente.

Poucos anos atrás, a opinião pública brasileira foi informada sobre a cadeia de negócios irre gulares e criminosos que susten tava boa parte da cultura da soja no país, particularmente nas re giões Norte e Centro oeste. Foi revelado, entre outras coisas, que o dinheiro que fazia a engrena gem do desflorestamento funcio nar em boa parte da Amazônia provinha da indústria de alimen to, incluindo fabricantes de óleo de cozinha e ração animal. Detalhes dessa história apare ceram no relatório ‘Comendo a Amazônia’, divulgado em 2006 pela organização não governa mental internacional Greenpea ce. Graças a esse trabalho, fica mos sabendo como gigantes da indústria de alimentos – com destaque para Cargill, ADM (Ar cher Daniel Midland Company) e Bunge, segundo o Greenpeace – financiavam a engrenagem do desflorestamento no Brasil. O caso repercutiu na imprensa in ternacional, principalmente em países importadores da soja ama zônica. Essa repercussão fez com que a indústria local, digamos, ‘se mexesse’.

Assim, em meados de 2006, as empresas afiliadas à Associa ção Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais e à Associação Nacional dos Exportadores de Cereais divulgaram um comuni cado conjunto sobre o assunto. Os signatários do comunicado condenavam o trabalho escravo e prometiam não comprar soja proveniente de áreas recém des florestadas, pelo menos até 2008. Cabe notar que os termos dessa nota atestavam, antes de tudo, que as empresas estavam, até então, envolvidas em atividades irre gulares e criminosas.

A ‘moratória da soja’, como ficou conhecida, já foi estendida mais de uma vez, a última delas até julho de 2010. É preciso, no entanto, continuar de olhos aber tos: nos últimos anos, mesmo com a moratória em vigor, surgi ram denúncias de que algumas empresas estariam desrespeitan do o acordo. No fim das contas, a pergunta que a indústria da soja precisa responder é bem simples: as empresas do setor vão mesmo trilhar o caminho da legalidade ou a moratória foi apenas uma ‘cortina de fumaça’ – uma pausa para o lanche, antes de voltar aos negócios sujos e irregulares de antes? maio de 2010 • CiênCia Hoje • 69

Não é de se estranhar que ‘progresso econômico’ e ‘desenvolvimento social’ estejam em geral tão distantes entre si opinião

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No Brasil, estamos no tempo de ‘viver a vida’, título da atual telenovela em horário no bre. Ao nosso estilo, comemora mos algumas datas importantes em almoços ou jantares em gran des churrascarias. Pois bem, nes ses restaurantes bem ao gosto dos brasileiros, com muitos espelhos nas paredes e poderoso ar condi cionado, consumimos proteína animal – picanhas, maminhas etc. – em quantidades muito além das nossas necessidades. Já no Japão, mudando a cena, sem pre se consumiu pescado em quantidades bem acima da média dos ocidentais. Na cultura japo nesa, tanto baleias quanto golfi nhos podem ser considerados itens alimentares do dia a dia, ou preciosa iguaria, como os caran guejos toque toque que tanto apreciamos nos restaurantes à beira mar em Fortaleza ou no Re cife. Evidentemente, não pode mos generalizar: assim como o Brasil, o Japão também apresen ta enormes diferenças culturais e hábitos alimentares regionais.

Este ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos deu o Oscar de melhor documentário ao filme The cove (A enseada, em tradu ção literal). Produzido e lançado nos Estados Unidos, vencedor de vários prêmios em festivais de cinema pelo mundo, o filme mos tra a matança de golfinhos reali zada anualmente em uma peque na cidade japonesa chamada Taiji. Essa localidade ficou fa mosa pela exportação de golfi nhos para oceanários do mundo inteiro, mas pouca gente sabia que ali, todos os anos, centenas de golfinhos são conduzidos como gado para uma pequena enseada – um ‘curral da morte’. Nesse local, esses animais per manecem em um cerco flutuante até o momento em que alguns pescadores os matam com arpões e os transportam, muitos ainda agonizantes, para ser cortados e embalados. Os japoneses apren deram a realizar essa caça dire cionada aproveitando se da pas sagem anual, junto à costa, de grupos contendo dezenas e até centenas de golfinhos.

Em meio a tanto sangue, que mancha de vermelho escarlate a bela enseada de Taiji, o filme é precioso por apontar uma ques tão atual: a contaminação dos oceanos. Os mamíferos marinhos (baleias, botos, golfinhos e ou tros) são predadores do topo da cadeia alimentar. Como suas pre sas habituais também estão con taminadas, eles tendem a acumu lar elevadas concentrações de poluentes em seus organismos. Podem ser chamados de ‘vítimas finais’ dos processos de contami nação química. Um grande nú

Um documentário sobre a matança anual de golfinhos em uma cidade japonesa ganhou este ano o Oscar, o prêmio máximo do cinema. O filme expõe cenas chocantes de pescadores arpoando friamente os animais, cujo sangue tinge toda uma enseada de vermelho. Na verdade, é mostrado um aspecto da cultura humana que pode ser visto como tabu: o que cada povo come e por que come. Mas levanta outra questão importante: a contaminação dos grandes predadores marinhos por poluentes e os riscos que o consumo de sua carne traz para os humanos.

Salvatore Siciliano Escola Nacional de Saúde Pública (Fundação Instituto Oswaldo Cruz) e Instituto Oceanites

Um mar de insensatez opinião

maio de 2010 • CiênCia Hoje • 71 mero de substâncias químicas, produzidas e liberadas no am biente por atividades humanas, além de alguns compostos natu rais, podem alterar a função do sistema hormonal de animais, incluindo a nossa espécie.

Entre essas substâncias estão compostos orgânico persistentes (de eliminação lenta, o que faz com que se acumulem no orga nismo), organo halógenos (que têm em suas moléculas flúor, clo ro, bromo ou iodo), alguns agro tóxicos, metais e outros produtos sintéticos. A maior parte deles liga se a gorduras ou pode ser depositada no músculo, o que torna os mamíferos marinhos particularmente vulneráveis a seus efeitos. Dessa forma, golfi nhos e baleias são considerados importantes indicadores de qua lidade dos ambientes em que se encontram.

As consequências de altos ní veis de contaminação por metais, por exemplo, têm sido demons tradas em muitas aves aquáticas. A contaminação por mercúrio leva à redução na produção e re sistência dos ovos e à diminuição na força e tamanho das garras e bicos. Alguns autores constata ram menor eficácia na chocagem de ovos em patos mallards e em patos negros. Contaminações por mercúrio também são responsá veis, em laboratório, por ovos com uma casca mais fina em águias e codornizes japonesas.

A contaminação dos oceanos está presente em The cove. O do cumentário é claro ao apontar que existe um assunto ainda mais grave relacionado ao con sumo de carne de golfinhos, com o qual o público e os governos devem se preocupar. Estudo feito em amostras de cabelo de 30 ho mens e 20 mulheres residentes na área de Taiji, coletadas entre dezembro de 2007 e julho de 2008, revelou que os níveis de mercúrio, em pelo menos três casos, eram de 50 partes por mi lhão, valor alto o suficiente para causar danos ao sistema nervoso, como os observados na doença de Minamata, também no Japão (causada, nos anos 1950, pelo lançamento no ambiente de re jeitos industriais contendo mer cúrio, o que contaminou grave mente os peixes de uma baía e as pessoas que os consumiam). Essa vitória inicial o filme conseguiu: conselheiros da prefeitura local, sensibilizados com os riscos as sociados ao consumo da carne de golfinhos por crianças, em esco las da região, retiraram o produ to do cardápio escolar, o que deve ter reduzido a demanda por essa carne.

mero de substâncias químicas, As consequências de altos ní À esquerda o poster francês do fi lme The cove e a direita a capa do DVD opinião

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Não percam os desafi os propostos em

Estes 40 enigmas são um aperitivo para aqueles que veem na matemática uma atividade criativa e divertida

Em essência, o documentário expõe um aspecto da cultura hu mana que pode ser tratada como tabu: o que comemos e por que comemos. Sobre esse aspecto, os padrões culturais podem exercer importante papel no que é con siderado adequado para comer. Em alguns países da Europa con some se carne de cavalo em gran de quantidade. No Brasil, comer jacarés, pacas e capivaras é con siderado plenamente aceitável. Não discutiremos aqui os méto dos de captura ou matança, seja de animais selvagens ou domés ticos, e a legalidade ou ilegalida de dessas práticas, mas, para um povo que aprendeu a cultuar o golfinho Flipper em seriados da televisão, deve parecer horrível comer um hambúrguer feito com a carne de um simpático amigo. Com produção quase holly woodiana, The cove expõe ao mundo um desses eventos de captura direcionada em Taiji, que resultam na matança de um gru po inteiro de golfinhos. As cenas chocantes causam no mínimo repugnância, diante da frieza com que os pescadores arpoam os golfinhos (talvez um dos mais belos representantes da família Delphinidae).

Mas por que toda essa indig nação de nossa parte? Voltando ao Ocidente, mais precisamente à América Latina, pode ser apon tado como pouco inteligente e economicamente insustentável destruir milhares de hectares de floresta virgem na Amazônia, to dos os anos, para criar gado e transformá lo depois em picanha de churrascaria. O pior é que ain da não sabemos por que fazemos isso: se é porque nossa cultura alimentar pede mais carne de boi no almoço ou porque não somos capazes de administrar uma flo resta com aquela extensão e por te. Esse antigo ‘filme’ de destrui ção em larga escala de ecossiste mas naturais certamente traz mais prejuízos do que lucros. Basta ler o excelente livro A ferro e fogo, do historiador norte ame ricano Warren Dean (1932 1994), para perceber que essa destrui ção traz ainda o risco de extinção para muitas espécies de animais e plantas. No caso dos mamíferos marinhos, não há como caçar ba leias e golfinhos para suprir uma demanda crescente da humani dade por proteína animal. As populações de muitas espécies logo entrariam em colapso e po deriam se extinguir, em um filme que estaria se repetindo. Basta ver o que a caça comercial de ba leias causou, no século passado, em várias populações desses ani mais.

Hoje, algumas culturas idola tram baleias e golfinhos, e esse parece ser o nosso caminho, en quanto outros povos os veem com outros olhos. Entre questões éticas, culturais e econômicas, deve prevalecer aquela que nos sa consciência apontar. A meu ver, baleias e golfinhos também merecem ‘viver a vida’.

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Para um povo que aprendeu a cultuar o golfi nho

Flipper em seriados da televisão, deve parecer horrível comer um hambúrguer feito com a carne de um simpático amigo

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