1905 Um ano miraculoso - Enstein

1905 Um ano miraculoso - Enstein

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Einstein era um mestre na arte, que teve também expoentes em Galileu e Maxwell, de construir experimentos mentais – produzidos apenas na imaginação e que estão além de nossa capacidade de realizá-los diretamente no laboratório – para refletir sobre os princípios básicos da física. Já em 1895, com 16 anos, começou a refletir sobre a questão do éter e a propagação da luz. Concebeu de início um experimento mental que o acompanharia por 10 anos: o que ocorre se acompanharmos uma onda luminosa com a mesma velocidade dela? Ela ficaria ‘congelada’, em uma estranha forma de onda não movente? Para Einstein, esse experimento mental juvenil foi o primeiro passo para a teoria da relatividade especial. Em 1902, com dois amigos, Habicht e Maurice Solovine (1875-1958), criou um ‘clube’ informal, a Academia Olímpia. Leram e discutiram longamente vários autores clássicos, incluindo obras de físicos e filósofos. Nessa última categoria, entre os que mais o influenciaram, estavam Poincaré e o físico aus- da concentração e intensa dedicação a um mesmo problema por anos a fio. Até 1905, Einstein de certa forma corria por fora, às margens da ciência institucionalizada. Era dotado de notável autoconfiança e alta dose de rebeldia: “Sou um herético”, repetia com freqüência. A pouca reverência com as autoridades, inclusive universitárias, e a postura crítica permanente quanto às verdades adquiridas foram sempre um traço marcante de sua personalidade e podem ter contribuído para sua dificuldade em conseguir um cargo em universidades depois de formado, em 1900. Note-se que Einstein viveu na Suíça, como estudante universitário, em um ambiente no qual abundavam socialistas, anarquistas e intelectuais contestadores e inovadores.

Outro aspecto marcante em

Einstein é sua visão de ciência. Tinha profunda crença na racionalidade do mundo: o real pode ser descrito por leis científicas, e o comportamento da natureza ser entendido a partir de alguns princípios gerais e esteticamente belos. A física deveria ser formulada a partir de princípios abrangentes e ‘simples’, e as teorias deveriam naturalmente resistir ao crivo experimental. Os artigos de 1905 começam quase todos com uma insatisfação de Einstein com alguma assimetria ou incompatibilidade entre domínios da física e a necessidade de superá-las a qualquer custo. Toda a sua obra gira em torno de buscar descrições unificadoras da física. Isso ocorreu, como vimos, no caso da relatividade. Ao propor a hipótese do quantum de luz, também não foi movido por nenhum experimento particular. Partiu da constatação de uma profunda diferença formal entre a descrição da matéria e a dos campos eletromagnéticos. Enquanto a teoria da matéria pressupõe um número finito de átomos – ou seja, partí-

Membros fundadores da Academia Olímpia. Da esquerda para a direita, Conrad Habicht, Maurice Solovine e Einstein

A sincronização dos relógios – na imagem, o relógio da torre de Berna – preocupava os físicos da época de Einstein

janeiro/fevereiro de 2005 • CIÊNCIA HOJE • 41

Sugestões para leitura

STACHEL, J. (org.)

O ano miraculoso de Einstein – Cinco artigos que mudaram a face da física. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2001.

PAIS, A. Sutil é o Senhor... A ciência e a vida de Albert Einstein. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995.

FÖLSING, A. Albert

Einstein. Harmondsworth, Penguin Books, 1997.

EINSTEIN, A. A teoria da relativida de especial e geral. Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.

BRIAN, D. Einstein: a ciência da vida. São Paulo, Ática, 1998.

tríaco Ernst Mach (1838- 1916), com textos que tratavam da crítica aos fundamentos da mecânica clássica, bem como o estatístico inglês Karl Pearson (1857- 1936) e o filósofo escocês David Hume (1711-1776), com críticas sobre o procedimento da indução em ciência, além de Maxwell e do físico austríaco Ludwig Boltzmann (1844- 1906). Do ponto de vista filosófico, os avanços fundamentais que Einstein realizou em 1905 dependeram de modo crucial de sua forte adesão a uma crença na realidade das entidades físicas no nível atômico, preconizada por Maxwell e Boltzmann.

O contexto no qual Einstein se insere é também essencial para que se entenda sua obra e o impacto dela decorrente. Viveu em uma época de profunda transição na ciência: a física passava por uma crise, e os conceitos e as teorias construídos nos séculos anteriores se defrontavam com novos domínios da experiência. Entre os anos 1895 e 1904, muitas descobertas importantes foram feitas – como os raios X, a radioatividade, as ondas de rádio e o elétron – bem como novas técnicas experimentais foram desenvolvidas, permitindo perscrutar o interior da matéria. É interessante destacar que Einstein construiu sua teoria da relatividade abstrata em um contexto de um mundo material rodeado de máquinas elétricas e de mecanismos transmissores de sinais elétricos e de ondas eletromagnéticas. Patentes e invenções de novos equipamentos eletromecânicos e propostas para a sincronização de relógios – um importante problema da época – foram o seu cotidiano por anos. Até em sua caminhada diária para o trabalho, passava pelas grandes torres com relógios que determinavam a coordenação do tempo em Berna. Note-se que Poincaré também abordou a questão da sincronização dos relógios sob vários ângulos. Além de refletir filosoficamente sobre a medida do tempo, ao presidir o Bureau de Longitude ele ajudou a desenvolver métodos para cobrir o mundo com um tempo sincronizado, pela utilização de transmissões telegráficas.

Tudo isso mostra que algumas das visões predominantes sobre Einstein são parciais e incorretas. A visão empirista ingênua atribui a origem de seus trabalhos à tentativa direta de explicar experimentos – como o de Michelson-Morley, no caso da relatividade – que a física clássica tinha dificuldade em tratar. Já uma visão antipositivista vê em seus trabalhos apenas o pensamento abstrato, distante dos experimentos e do entorno material e tecnológico que o circundava. Essa última visão contribui para um dos mitos persistentes sobre Einstein: o de um pensador completamente desligado das coisas terrenas. Visões ambas parciais e que distorcem a complexidade do processo criativo na ciência.

Einstein viveu, refletiu e produziu em uma arena onde convergiam: a) a física, na tradição dos grandes mestres e que se defrontava com novos resultados experimentais intrigantes; b) a filosofia, com a crítica à natureza do conhecimento e às noções clássicas sobre o tempo e o espaço; c) a tecnologia, com os aparelhos elétricos, os relógios e as novas radiações que enchiam o final do século 19. Essa interseção tripla de fatores foi certamente um ponto importante na construção de suas teorias.

A sagrada curiosidade

Einstein nasceu em Ülm (sul da Alemanha), em 14 de março, e morreu em Princeton (Estados Unidos), em 18 de abril, aos 76 anos de idade. Viveu profundamente também as contradições políticas e sociais de seu tempo. Lutador incansável pela paz, socialista ‘emocional’ e crítico do socialismo real, opôs-se ao nazismo, ao macartismo – perseguição a supostos simpatizantes de regimes de esquerda nos Estados Unidos –, à guerra e à corrida armamentista. Pagou alto preço pessoal por isso. Quanto ao mito de gênio que o cerca, traduzido na figura de um velho cientista excêntrico e isolado, com cabelos brancos e desgrenhados, ele mesmo deu a receita: “É curioso ver como a gente aparece aos olhos dos outros. Foi meu destino que minhas realizações fossem supra-avaliadas além de todos os limites, por razões incompreensíveis. A humanidade necessita de alguns poucos ídolos românticos como spots de luz no campo da existência humana. Eu me tornei um tal spot de luz.”

perca a sagrada curiosidade.”

Ao rememorarmos o annus mirabilis de Einstein, vale encerrar lembrando o que para ele era o cerne da atitude científica diante do mundo: “A coisa importante é não parar de questionar. A curiosidade tem suas próprias razões para existir. (…) Nunca

Einstein já perto do fim da vida, na Universidade de Princeton, onde dedicou-se às suas pesquisas por mais de 20 anos

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