APOSTILA-FERTILIDADE-DO-SOLO-E-NUTRiÇÃO DE-PLANTAS BY KDMPARANA

APOSTILA-FERTILIDADE-DO-SOLO-E-NUTRiÇÃO DE-PLANTAS BY KDMPARANA

FERTILIDADE DO SOLO E NUTRIÇÃO DE PLANTAS

by KDMPARANA

Índice

Conceitos sobre fertilidade do solo e nutrição de plantas............................................... 3 Calagem Gessagem Correção da acidez do solo ............................................................................ 7 Correção da acidez de sub-superfície ....................................................... 20

Conceitos de Adubação .................................................................................................. 28 Nitrogênio (N) ............................................................................................................... 34 Fósforo (P)...................................................................................................................... 43 Potássio (K) .................................................................................................................... 52 Macronutrientes Secundários ...........................................................................................55 Micronutrientes ..................................................................................................................59 Conteúdo Programático da Disciplina .............................................................................62

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1. Conceitos sobre fertilidade do solo e nutrição de plantas

1.1 Fatores de produção agropecuária

Dentre os principais fatores de produção agropecuária, podemos citar: o clima, o material genético, o manejo de pragas, doenças e plantas daninhas e o manejo do solo, com ênfase no manejo químico como base para a nutrição das plantas. Dentre estes fatores, o manejo químico do solo representa um dos principais aspectos para a obtenção de altas produtividades, principalmente em solos pobres em termos nutricionais como os solos de Cerrado. Vale destacar que mais de 70% dos solos brasileiros apresentam alguma limitação séria de fertilidade. O desenvolvimento da agropecuária, em termos de manejo, material genético e tecnologias, como irrigação, força o técnico a desenvolver um trabalho cada vez mais detalhado e preciso sobre correção e adubação do solo.

1.2 Fertilidade do solo e Nutrição de plantas

Conceitos: O que são nutrientes? São elementos essenciais para o crescimento e desenvolvimento das plantas. Critérios de essencialidades: 1) Na ausência do elemento químico a planta não é capaz de completar seu ciclo, ou seja, não chega a se desenvolver ou reproduzir. 2) O elemento químico é insubstituível, ou seja, na ausência a sua deficiência só pode ser corrigida através de seu fornecimento. 3) O elemento químico faz parte de uma molécula constituinte ou reação bioquímica essencial a planta. Quem são os nutrientes de plantas? Macronutrientes primários (Nitrogênio, Fósforo e Potássio), Macronutrientes secundários (Cálcio, Magnésio e Enxofre) e Micronutrientes (Boro, Cloro, Cobre, Ferro, Manganês, Níquel, Molibdênio, Níquel e Zinco). Além destes nutrientes minerais existem também os nutrientes orgânicos: Carbono, Hidrogênio e Oxigênio, que são responsáveis por 90 a 96% dos tecidos vegetais. 3

1.3 Leis da Fertilidade do Solo e da Nutrição de Plantas

Lei do Mínimo (Justus Von Liebig): O rendimento de uma colheita é limitado pelo nutriente que estiver em menor disponibilidade para as plantas. Esta lei nos indica os princípios do equilíbrio nutricional para o bom desempenho agropecuário.

Figura 1: Lei do Mínimo.

Lei dos Incrementos Decrescentes (Mitscherlich): A medida que elevamos a dose do nutrientes aplicado, reduzimos o incremento gerado na produtividade.

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Figura 2: Aumento da produção em função da dose de N aplicada (Lei dos Incrementos Decrescentes).

Lei da Restituição (Voisin, 1973): Os nutrientes exportados pelas culturas ou perdidos por erosão, volatilização, lixiviação e fixação devem ser recolocados ao solo, visando a manutenção do equilíbrio e do potencial produtivo do solo.

1.4 Aspectos econômicos

Objetivo: Buscar sempre a Produtividade Máxima ECONÔMICA. A produtividade máxima agronômica nem sempre é o mais interessante do ponto de vista econômico.

Figura 3: Gráfico da obtenção da Produtividade Máxima Econômica.

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1.5 O solo como meio de produção agropecuária

Composição do Solo

Figura 4: Esquema da composição do solo.

O ar do solo: extremamente importante para a aeração do solo, fornecendo O2 para a respiração das raízes e dos microorganismos presentes no solo. A solução do solo: Fonte imediata de nutrientes para as plantas, porém na maioria dos casos não capaz de fornecer os nutrientes demandados por um dia da planta. Os componentes sólidos do solo: Os componentes sólidos do solo são: a areia, o silte e a argila, que se diferenciam entre si pelo tamanho e atividade. A argila, por sua vez se divide em função da composição de sua estrutura mineralógica e sua atividade. A matéria-orgânica do solo: Composto muito importante do solo. Responsável por parte do complexo coloidal. Formada por resíduos animais e vegetais decompostos ou em decomposição.

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2. Calagem

Correção da acidez do solo

· Grande parte dos solos brasileiros apresentam pH abaixo de 5,5. · Esta condição química pode resultar em diversos fatores de baixa produtividade. · Calagem é a maneira mais prática, correta e econômica para se corrigir a acidez do solo na camada superficial ( camada arável ). · A calagem, feita adequadamente, corrigi a acidez do solo e aumenta a eficiência de aproveitamento dos nutrientes (Figura 1).

D I S P O N I B I L I D A D

F e r r o , C o b r e , M an g an ê s, Z i n c o

Molibdênio, Cloro

F ó sf o r o Nitrogênio, Enxôfre, Boro

P o t ássi o , C ál c i o , M ag n é si o

5,

6,

6,

7,

8,

9,

pH Figura 1: variação na disponibilidade de nutrientes em função do pH do solo.

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2.1 Benefícios da calagem bem feita · Diminuição da toxidez de H+, Al+3 e Mn+2. · Aumento da mineralização da matéria orgânica, conseqüentemente aumentando a disponibilidade de nutrientes, notadamente N, S, P e B. · Aumento na disponibilidade de cálcio e magnésio, por adição direta ao solo. · Aumento da disponibilidade de fósforo e molibdênio, presentes em formas fixadas e de menor disponibilidade no solo ácido. · Aumento da fixação não simbiótica e simbiótica do N2. · Aumento da atividade de bactérias nitrificadoras. · Aumento da CTC do solo, reduzindo problemas de salinidade e de lixiviação de cátions. · Aumento da eficiência da adubação. · Aumento da preservação de áreas de florestas ou de áreas menos propicias para a agricultura, em face da necessidade de menor área para obter a mesma produção.

2.2 Fatores que interferem no sucesso da calagem

1) de siderugia): a) b) c) d)

Características do corretivo utilizado (calcários, óxidos, hidróxidos, escórias

Velocidade de reação no solo (granulometria) Poder de correção (poder de neutralização) Teores de nutrientes (Ca e Mg) Teores de metais pesados (devendo sempre buscar corretivos com o menor

teor de contaminantes) 2) a) 3) a) Dose do corretivo utilizada: Métodos a seguir Forma e período de aplicação: Comentários a frente

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1. a) Velocidade de reação no solo · · ·

A velocidade de reação no solo, ou reatividade, depende da granulometria

do corretivo. Quanto mais fino, mais rápida é a reação no solo. A reatividade deve ser avaliada criteriosamente, sendo que para cada

situação de manejo, temos um objetivo diferente, quanto ao tempo de reação do corretivo. Ex. Na ocasião da implantação de um plantio direto ou implantação de uma

pastagem (ou seja, na última oportunidade de revolvimento do solo) o mais interessante é trabalhar com um calcário de reatividade mais lenta, para aumentar o período residual. · Já em um plantio direto estabelecido ou em uma pastagem implantada

(aplicação superficial) temos que favorecer o contato entre o corretivo e solo, ou seja, devemos trabalhar com um corretivo mais reativo (mais fino). · · O valor de reatividade representa a porcentagem das partículas que reagem

em um período de 3 meses. O Filler é um tipo de calcário que apresenta toda a sua reação em um

período de 3 meses.

1. b) Poder de neutralização · · · ·

Dado pela quantidade de ácido que o mesmo consegue neutralizar. É dependente de sua natureza química. O CaCO3 puro é tomado como padrão, ou seja, 100% de PN. Na Tabela 1 temos o PN das principais espécies químicas presentes em

corretivos de acidez.

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Tabela 1: Poder de Neutralização das principais espécies químicas presentes em corretivos da acidez do solo. Espécie Química CaCO3 MgCO3 CaO MgO Ca(OH)2 Mg(OH)2 CaSiO3 MgSiO3 PN 100 119 179 248 135 172 86 100

1. a x b) Poder Relativo de Neutralização Total · Da relação entre o Poder de Neutralização de acidez e da velocidade de reação (reatividade) surge o Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT). · O valor de PRNT é de extrema importância na determinação da dose de corretivo a se aplicar.

1. c) Teores de Cálcio e Magnésio

No passado os calcários eram divididos de acordo com o seu teor de magnésio em uma escala crescente: Calcíticos, Magnesianos e Dolomíticos. Atualmente pela nova legislação, no que se refere aos corretivos, não há mais esta divisão, e este fato aumenta a nossa responsabilidade no auxilio ao produtor quanto ao corretivos correto, ou seja, aquele que mantenha o melhor equilíbrio a seu solo. O equilíbrio ideal para cada saturação de bases desejada está expressa na Tabela 2.

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Tabela 2: Participação das bases ideal na CTC para diferentes níveis de saturação por bases.
V (%) 40 50 60 70 Ca (%) 28 35 40 48 Mg (%) 9 11 15 16 K (%) 3 4 5 5

Fonte: Vitti (1997)

1. *) Aspectos econômicos · A escolha do calcário deve levar em consideração aspectos técnicos e econômicos. · Dentre os calcários disponíveis na região deve-se selecionar aqueles que atendam os requisitos técnicos acima mencionados e dentre estes, devemos selecionar o calcário de melhor relação custo benefício (menor custo efetivo), esta relação é dada pela seguinte equação:

Custo efetivo = Custo por tonelada (posto fazenda) / PRNT · Na avaliação econômica do calcário é importante avaliá-lo como um investimento que deve ser amortizado (em anos) em função do seu efeito residual. · Considerando os custos diretos ligados a distribuição e incorporação de corretivos, geralmente é questionável a aplicação de doses inferiores a: o o 1 t ha-1 para aplicação incorporada. 0,5 t ha-1 para aplicação superficial.

2) Dose do corretivo utilizada · A dose de corretivo utilizada deve ser calculada de maneira muito criteriosa, pensando no equilíbrio do solo. · Por muitos anos buscou pH próximos a neutralidade, porém estes conceitos foram substituídos e hoje trabalhamos com pH na faixa de 5,6 a 6,0 para a maioria dos casos. Desta forma evitamos danos a estrutura do solo, pela substituição excessiva de Al+3 por

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Ca+2 nos colóides, pela redução na disponibilidade de Fósforo pela precipitação de fosfatos por cálcio, e pela redução na disponibilidade de micronutrientes catiônicos. · As doses de corretivos são calculadas para uma correção da camada de 0 a 20cm, em condições em que a camada corrigida é diferente precisa-se considerar esta diferença no cálculo utilizado. Ou seja, para se corrigir apenas 10 cm, se multiplica o valor encontrado por 0,5 e assim sucessivamente.

2.1) Método Tampão SMP · Utilizado nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina · Baseia-se na mistura do solo com uma solução composta de trietanolamina, paranitrofenl, cromato de potássio, acetato de cálcio e cloreto de cáclio, com pH inicial de 7,5. · Após a mistura e agitação, determina-se o pH do sobrenadante, que nada mais é do que o índice SMP. Quanto menor o pH SMP mais acido é o solo. · Com o valor do índice SMP (ou pH SMP) e o pH desejado cruzam-se os dados na Tabela 3 e encontra-se a quantidade de corretivo (considerando um PRNT de 100%) a ser aplicada.

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Tabela 3: Recomendação da dose de corretivo em função do índice SMP: Indice SMP < 4,4 4,5 4,6 4,7 4,8 4,9 5 5,1 5,2 5,3 5,4 5,5 5,6 5,7 5,8 5,9 6 6,1 6,2 6,3 6,4 6,5 6,6 pH em água a atingir 5,5 6 6,5

Quantidade de corretivo (t/ha) 15,0 12,5 10,9 9,6 8,6 7,7 6,9 6,2 5,5 4,9 4,4 3,8 3,3 2,8 2,3 1,9 1,4 1,0 0,6 0,2 0,0 0,0 0,0 21,0 17,3 15,1 13,3 11,9 10,7 9,7 8,9 8,0 7,2 6,5 5,8 6,1 4,5 3,9 3,3 2,3 2,2 1,7 1,2 0,6 0,2 0,0 29,0 24,0 20,0 17,5 16,7 14,2 12,9 11,7 10,6 9,6 8,7 7,9 7,0 6,2 5,5 4,8 4,1 3,4 2,7 2,1 1,6 0,7 0,0

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2.2) Método baseado nos teores de Alumínio, Cálcio e Magnésio trocáveis · Este é o método oficial recomendado pela CFSEMG (1999) para o estado de Minas Gerais, com o uso da seguinte expressão:

NC = Y Al + 3 - mt * T 100 + X - Ca + 2 + Mg + 2

[

(

)] [ (

)]

onde: NC = Necessidade de Calcário (Padrão 100% de PRNT) em t ha-1 Y = solo arenoso (argila 0-15%) = 0,0 a 1,0 solo de textura média (argila 15-35%) = 1,0 a 2,0 solo argiloso (argila 35-60%) = 2,0 a 3,0 solo muito argiloso (60-100%) = 3,0 a 4,0 Al+3 = acidez trocável (cmolc dm-3) mt = máxima saturação por Al+3 tolerada pela cultura (%) T = CTC efetiva (cmolc dm-3) X = fator variável em função do requerimento de Ca + Mg pela cultura (Tabela 4) Ca+2 + Mg+2 = teores de Ca e Mg trocáveis (cmolc dm-3)

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Tabela 4: Referências de mt, X e V2 para diferentes culturas no estado de Minas Gerais Cultura Algodão Arroz Batata Brachiaria decumbens Café Cana-de-açúcar Capim elefante Cenoura e Beterraba Citrus Eucalipto Mandioca Milho e Sorgo Soja e Feijão Tomate e Pimentão Trigo mt (%) 10 25 15 30 25 30 20 5 5 45 30 15 20 5 15 X (cmolc/dm3) 2,5 2 2 1 3,5 3,5 2 3 3 1 1 2 2 3 2 V2 (%) 60 50 60 40 60 60 50 65 70 30 40 50 50 70 50

2.3) Método baseado na Saturação por bases · Método introduzido no estado de São Paulo, porém com utilização em diversas regiões do país atualmente, baseado na seguinte expressão: NC = (V2 Onde: NC = Necessidade de calagem (t ha-1) V2 = Saturação por bases desejada (Tabela 4 + Tabela 5, com ressalvas apenas para solos com teor de matéria orgânica muito elevado, onde devemos reduzir 10 pontos nos valores acima) V1 = Saturação por bases atual T = CTC potencial PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total da cultura V1) * T / PRNT

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Tabela 5: Saturação de bases adequadas para diferentes espécies forrageiras
Espécie Grau de adaptação a baixa ferilidade Pouco Exige ntes alto alto alto médio Exigentes Capim Jaraguá Brachiaria brizanta Colonião Mombaça baixo a médio baixo muito baixo muito baixo M uito exigentes Elefante - Napier Coast-cross - Tifton muito baixo muito baixo 50 a 60 50 a 60 40 a 45 40 a 45 40 a 45 40 a 45 Saturação por Bases (%) 30 a 35 30 a 35 30 a 35 30 a 35

Andropogon Brachiaria decumbens Brachiaria humidicola Brachiaria ruziziensis

Fonte: Vilela et al. (1998) 3) Forma e Período de Aplicação

3.1) Período de Aplicação · O calcário deve ser aplicado cerca de 3 a 6 meses antes da implantação da cultura. · O calcário tipo Filler pode ser aplicado com até 1 mês de antecedência ao plantio. · A cal virgem, pela sua reação quase instantânea pode ser aplicada muito próximo ao plantio. · O parcelamento da dose de calcário em mais de uma safra se justifica quando a dose de calcário (para aplicação incorporada) é superior a 3 4 t ha-1.

3.2) Forma de aplicação · Variável em função do manejo e sistema de produção (plantio direto ou plantio convencional).

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· Para plantio convencional de culturas anuais, implantação de perenes e implantação de pastagens é desejável que a aplicação do corretivo anteceda a aração (que fará a distribuição vertical) e a gradagem (que fará a distribuição horizontal). · Para as situações de aplicação superficial é importante que se ajuste a dose a profundidade efetiva de correção. · No caso de aplicação superficial em sistema de plantio direto a profundidade efetiva de correção no primeiro ano varia de 7 a 10 cm em função da textura do solo (solos mais argilosos: correções próximas a 7 cm e solos mais arenosos correções próximas a 10 cm).

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CALCÁRIO

Obtido pela moagem de rochas calcárias. Constituintes básicos: CaCO3 e MgCO3 Reações no solo: Ca(Mg)CO3 + H2O à Ca+2(Mg+2) + CO3-2 CO3-2 + H2O ßà HCO3- + OHHCO3- + H2O ßà H2CO3 + OHH+ + OH- ßà H2O CO3-2 = BASE FRACA (REAÇÃO LENTA) Necessidade de se aplicar o calcário com antecedência.

CAL VIRGEM

Obtido pela queima ou calcinação completa do calcário. Constituintes básicos: CaO e MgO Reação no solo: Ca(Mg)O + H2O à Ca+2(Mg+2) + 2OH- + calor Obs: Reação rápida (vantagem) Calor gerado (pode ser problema para sementes, plântulas e microorganismos)

CAL HIDRATADA

Obtido pela hidratação da cal virgem. Constituintes básicos: Ca(OH)2 e Mg(OH)2 Reação no solo: Ca(Mg)(OH)2 + H2O à Ca+2(Mg+2) + 2OHObs: Reação rápida (vantagem) Manuseio complicado.

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Silicato (Escória de Siderurgia)

Obtido de resíduo da produção de aço. Constituintes básicos: CaSiO3 e MgSiO3 Reações no solo: Ca(Mg)Si3 + H2O à Ca+2(Mg+2) + SiO3-2 SiO3-2 + H2O ßà HSiO3- + OHHSiO3- + H2O ßà H2SiO3 + OHH+ + OH- ßà H2O SiO3-2 = BASE FRACA (REAÇÃO LENTA). Mais rápido que o Calcário. Necessidade de se aplicar o calcário com antecedência.

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3. Gessagem

Correção da acidez de sub-superfície

É enorme a extensão de solos ácidos no Brasil com elevados teores de alumínio trocável e baixos teores de Cálcio principalmente na região dos cerrados. O calcário corrige a acidez dos solos basicamente na superfície (camada arável) deixando o sub-solo com excesso de Alumínio e falta de Cálcio inviabilizando o crescimento de raízes e prejudicando a absorção de água e nutrientes. Com o uso do gesso agrícola (sulfato de Cálcio), possibilita a correção do ambiente que geralmente é pouco favorável às raízes, o sub-solo, diminuindo os teores de Alumínio e aumentando os de Cálcio e Enxofre.

3.1. Origem do Gesso

Segundo Vitti (2000), trata-se de sulfato de cálcio obtido como subproduto do ácido fosfórico, utilizado na fabricação de superfosfato triplo fosfatos de amônio, MAP e DAP.O processo de obtenção do ácido fosfórico baseia-se na ação de um ácido sobre a rocha fosfática finamente moída seguindo-se a separação de concentração do ácido fosfórico. O ácido empregado é o sulfúrico, que ataca a rocha, produzindo ácido fosfórico diluído, que é separado do sulfato de cálcio diidratado, formado na reação. A cada tonelada de P2O5 na forma de ácido fosfórico produzido, obtém-se de 4 a 5 t de gesso agrícola. O gesso agrícola é um pó branco pouco solúvel em água, cerca de 150 vezes mais solúvel do que o calcário e mais móvel que este, apresentando maiores efeitos em profundidade.

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3.2. Composição

A composição química do gesso agrícola deve apresentar como garantia mínima segundo a Legislação Brasileira de Fertilizantes, 16% de Ca e 13% de S, mas no mercado encontra-se facilmente produtos com garantias superiores a essa.

3.3. Emprego do Gesso Agrícola

Existem inúmeras utilizações para o gesso agrícola como segue descrito abaixo: A) B) C) D) Efeito fertilizante Correção de solos sódicos. Condicionador de sub-superfície. Condicionador de estercos.

A) Efeito fertilizante: O gesso agrícola pode ser utilizado como fonte de Ca e S.

A.1) Enxofre Os dois principais motivos da necessidade de aplicação de S, em nossas culturas são: 1-baixo teor desse nutriente no perfil dos solos tropicais; 2-Aumento significativo no uso de adubos concentrados isentos de S, como uréia, super triplo, e os fosfatos de amônio (MAP e DAP). O S desempenha na planta funções vitais por ser componente de aminoácidos essenciais, vitaminas e enzimas, além de ter a importância aumentada em leguminosas, pois participa no processo de fixação do N2 atmosférico e na transformação do N não protéico em proteína (WERNER & MONTEIRO, 1988 citado por VITTI, 2000). Para o fornecimento de enxofre, recomenda-se a dose de 500 kg ha-1 de gesso agrícola (cerca de 75 kg ha-1 de S).No caso de culturas anuais esta dosagem permite o fornecimento de S por aproximadamente três safras agrícolas (VITTI, 2000). Espera-se maiores respostas ao gesso agrícola quando os teores de S-SO42- na análise de solo revelarem os valores apresentados na Tabela 29 21

Tabela 1 - interpretação dos teores de S-SO42- do solo Classes NH4Oac.HOAc P Muito baixo Baixo Médio Adequado Fonte: Vitti (1989) 0,0-5,0 5,1-10,0 10,1-15,0 >15,0 0,0-2,5 2,6-5,0 5,1-10,0 >10,0 S-SO42-(mg.dm-3) Ca(H2PO4)2 500ppm

A.2) Cálcio Apesar de o calcário ser a principal fonte de cálcio na agricultura, o gesso agrícola pode ser usado em algumas situações de solo e cultura. Em termos de solo, recomenda-se seu uso quando a relação Ca/Mg for menor que 2,0/1,0, com níveis de Mg acima do nível crítico e valores de pH e V% adequados. Para cálculos de dosagens, é bom lembrar que a cada tonelada de gesso agrícola com cerca de 20% de umidade, eleva o teor de cálcio da análise do solo em 5,0 mmolc.dm-3 sendo muito útil para culturas altamente exigente em cálcio, como amendoim, batata, tomate, maçã, café e citros.

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B) Correção de solos sódicos

Solos sódicos são aqueles que apresentam CE > 4dS/m; pH > 8,5 e PST % Na > 15, e geralmente ocorrem em regiões áridas ou semi-áridas, como em alguns locais do Nordeste brasileiro com elevados teores de Na. Este excesso de Na, pode impedir o desenvolvimento das plantas ou pela sua toxidez, ou pelas limitações físicas que resulta em dificuldades na penetração radicular e circulação do ar e da água. Com a aplicação do gesso agrícola no solo e incorporação com posterior irrigação, torna o solo agricultável pois o Ca presente no corretivo substitui o Na adsorvido na argila. A reação de troca pode ser assim esquematizada:

Figura 1. Reação de Troca entre Na e Ca na argila Fonte Vitti (2000).

C)

Condicionador de sub- superfície

Nos solos tropicais, principalmente sob vegetação de cerrado, ocorre freqüentemente deficiência de Ca associada ou não com toxidez de alumínio, não só na camada arável como também abaixo desta onde a correção com calcário não é eficiente. Portanto, com o uso do gesso agrícola é possível aumentar os teores de Ca e a diminuir dos de Al favorecendo maior crescimento radicular e explorando-se maior quantidade de solo, deixando a planta mais resistente a pragas e doenças e em situações de déficit hídrico.

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Fonte: Embrapa CPAC. Figura 2: Distribuição relativa de raízes no perfil do solo (com e sem a aplicação de gesso agrícola).

D) Condicionador de estercos

A utilização de gesso agrícola tem apresentado bons resultados na diminuição das perdas de amônia (NH3) em estercos devido a fixação do amônio (NH4) na forma de sulfato de amônio, diminuindo portanto, a reação do NH4+ com o OH- e a conseqüente formação de NH3. Outras vantagens da combinação do gesso com o esterco é o enriquecimento em nutrientes (Ca e S) e a redução do odor desagradável do esterco puro, e auxiliar no controle de certas enfermidades dos animais presentes no local, devido a natureza antimicotica do S. É possível tal efeito ser devido ao S que por natureza é antimicótico, ou seja, produto utilizado para combater micoses (TRANI, 1982 citado por VITTI, 2000). Quanto às doses recomendadas com esta finalidade, pode ser sugerida a de 100kg de gesso agrícola por tonelada de estercos (VITTI, 2000).

3.4. Recomendações do uso do gesso agrícola (CFSEMG, 1999)

O gesso é recomendado quando na amostra de solo na profundidade de 20-40cm, ocorrer uma das seguintes situações:

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· Ca < 4 mmolc dm-3, ou; · Al > 5 mmolc dm-3, ou; · Saturação por alumínio (m%) > 30

A) Pelo teor de argila da camada sub - superficial do solo: A.1) Culturas anuais NG (kg/ha) = 50 x argila (%) ou 5 x argila (g kg-1) NG (kg/ha) = 25 x argila (%) A.2) Culturas perenes NG (kg/ha) = 75 x argila (%) ou 7,5 x argila (g kg-1) NG (kg/ha) = 37,5x argila (%) Lopes (1992) Lopes (1992)

B) Pela classificação textural Tabela 2. Recomendação de Gesso segundo a textura do solo. Dose de gesso agrícola Textura do Solo Culturas anuais kg ha-1 Arenosa (<15% argila) Média (16 a 35% argila) Argilosa (36 a 60% argila) Muito argilosa (> 60% arg.) FONTE: Souza et al., 1996 700 1200 2200 3200 1050 1800 3300 4800 Culturas perenes

B.1) Para forrageiras (somente alfafa e leguminosas do grupo I: soja perene, leucena, desmódio e trevos), segundo a seguinte expressão (Werner et al, 1996): NG (kg/ha) = 60 x argila (%) ou 6 x argila (g kg-1)

B.2) Para a cultura da cana-de-açúcar:

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Tabela 3. Recomendação de gessagem quando a V% da camada subsuperficial < 30% T (mmolc dm-3) V% < 10 <30 entre 10 e 20 entre 20 e 35 < 10 Entre 30 e 60 entre 10 e 25 entre 25 e 35 < 10 Entre 60 e 100 entre 10 e 20 entre 20 e 35 Fonte: Vitti & Mazza (1998). Gesso (t ha-1) 2,0 1,5 1,0 3,0 2,0 1,5 3,5 3,0 2,5

B.3) Para a cultura do café: Recomendar a gessagem quando Ca++ < 4 mmolc.dm-3, ou m% > 50, (VITTI, 2000). NG (kg ha-1) = Argila (g kg-1) x 6

3.5. Reações do Gesso no Solo CaSO4.2H2O + H2O à Ca+2 (sol) + SO4- (sol) + CaSO40 (sol) 60% X+ + Ca+2 (sol)à Colóides
ß à

40% Ca+2 + X+ (sol)

Colóides

Al+3 (sol) + SO4-2

AlSO4+ (sol)
ß à

Al(OH)+2 (sol) + SO4-2

AlOHSO4

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3.6. Forma de aplicação

A aplicação do gesso deve ser feita a lanço, com a distribuição o mais uniforme possível. Não é necessário incorporar devido a sua alta mobilidade, porém a incorporação tende a ser benéfica por reduzir perdas por escorrimento superficial. Tecnicamente o gesso deve ser aplicado após certo tempo da aplicação do calcário, para que este possa ter reagido (em partes), desta forma reduzindo as perdas por lixiviação de bases. Por questões econômicas, pode-se fazer a aplicações seqüenciais destes dois insumos, desde que se utilize o calcário correto e o solo não apresente baixos teores de Mg.

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4. Conceitos de Adubação A adubação é um prática de fornecimento de nutrientes para as plantas. Para a realização da adubação correta e equilibrada devemos nos basear em diversos conceitos, como seguem abaixo: Adubação=( Necessidade da Planta x Fornecimento do Solo)x F Necessidade da Planta à Perguntar: 1) 2) 3) 4) 5) O que você precisa? Por que você precisa? Quanto você precisa? Quando você precisa? Como você precisa?

1)

O que: macro e micronutrientes;

LUZ

CO2 H 2O

N Zn

P Cu Mo

K

Ca Mn B Cl

Mg F

S

Ni

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2)

Porque: Funções dos nutrientes;

Funções dos macronutrientes: NITROGÊNIO FÓSFORO POTÁSSIO CÁLCIO MAGNÉSIO ENXOFRE Crescimento e desenvolvimento das plantas Transferência de energia Turgidez da planta e ativador de enzimas Formação da parede celular Constituinte da molécula da clorofila Constituinte de proteínas

Funções dos micronutrientes: BORO CLORO COBALTO COBRE FERRO MANGANÊS MOLIBDÊNIO ZINCO Transporte de Açúcares Atua na absorção de P pelas plantas Fixação de N em leguminosas Ativação de enzimas e proteção contra doenças Constituinte da clorofila Produção de clorofila (VERDE) Atua na redutase do nitrato e na nitrogenase Ativador de enzimas

3)

Quanto: exportação e extração;

Para a definição da quantia necessária para a planta temos que definir qual a produtividade almejada e conhecer qual a exportação e a extração de nutrientes. A exportação se baseia na quantidade de nutriente que é retirada da lavoura, ou seja, que sai da propriedade junto com a colheita (nutrientes presentes na porção de interesse comercial, ex. grãos de milho, soja, café; parte área de forrageiras ou culturas para silagem; caule de espécies florestais). A extração de nutrientes se refere a quantia total de nutrientes absorvida pela planta, necessária para a formação de todos os órgãos (raiz, caule, folhas, flores, frutos).

29

Tabela 1: Quantidade em Kg de macronutrientes necessários para a produção de 1 tonelada das principais culturas CULTURAS Arroz Milho Feijão Soja Batatinha Bananeira Laranjeira Cafeeiro Fumo N 25 48 102 100 6 21 2 16 5 P 4 9 9 13 1,5 2,3 0,2 1,5 0,5 K 11 40 93 32 10 46 1,5 26 5 Ca 2 6 54 23 2 10 0,5 3,5 2 Mg 1 8 18 12 1 0,13 1,5 6 1987) S 3 7 25 8 1 0,14 1,5 -

Fonte: Malavolta (Manual de Adubação e Calagem das Principais Culturas

Tabela 2: Quantidade em Kg de macronutrientes exportados para a produção de 1 tonelada das principais culturas Cultura Algodão Arroz Feijão Milho Soja Sorgo Trigo N 24 14 39 20 60 17 25 P 4 4 4 5 7 3 5 K 17 4 21 6 18 4 5 S 5 1,5 10 2 3 2 2

Fonte: Compilado de diversos autores

30

4)

Quando: marcha de absorção, comportamento no solo e salinidade;

Para a definição do momento correto para se fazer a adubação para um dado elemento precisamos levar em consideração a marcha de absorção, ou seja, o momento em que a planta mais precisa de cada um dos nutrientes (Tabela 3).

Tabela 3: Marcha de absorção de nutrientes pela cultura do milho em função dos dias após e fenologia
Fenologia DAP N P2O5 K2O Ca Mg S

-----------------------------------(% do Total)------------------------------------

4a Folha 8a Folha 12a Folha Pendoamento Embonecam Grão Leitoso Forma Dente Maturação
Total (Kg/ha)

32 44 59 72 84 1 02 13 3 146

3, 3 9, 3 24,0 65,6 70,7 76,0 99,0 100,0
387

1,9 5,1 14,0 41,0 48,4 58,0 89,0 100,0
157

4,7 14,9 27,5 77,9 85,8 89,0 94,3 100,0
419 59

1, 7 6, 8 27, 1 66, 1 7 8, 0 84 , 8 96 , 6 100,0
44

2,3 4,5 15,9 43,2 50,0 65,9 97,7 100,0
40

1, 5 5, 0 15,0 37,5 42,5 52,5 92,5 100,0

Além da marcha de absorção, temos que avaliar também o comportamento do nutriente no solo, ou seja, a forma como é feita a sua aproximação até a raiz para a sua absorção (Fluxo de Massa, Difusão e Interceptação Radicular). Além dos dois aspectos apresentados, precisamos levar em consideração o Índice Salino do fertilizante que está sendo aplicado, para que este não cause injurias a semente ou a raiz. Este problema é comum na aplicação de Potássio, pois temos como principal fonte de K o fertilizante Cloreto de Potássio (KCl) que tem um Índice salino muito elevado, nos limitando a quantia a ser aplicada no sulco de plantio. Para as principais culturas de ciclo anual (soja, milho, feijão) devemos limitar em 50kg de K2O ha-1 a quantia a ser aplicada no sulco de semeadura.

31

5)

Como: via solo ou via folha.

Macronutrientes: pela quantidade demandada, fornecimento via solo. Micronutrientes: Combinar tecnologias, avaliar cada situação em específico. Segue, abaixo, algumas características de cada uma das formas de aplicação para micronutrientes.

Via Solo Preventivo Efeito residual Menor custo Menor dependência de insumos Via Folha Curativo Efeito imediato Aplicações freqüentes Fornecimento do Solo à Avaliar fertilidade

1) práticas); 2)

Análise de Solo: etapas: amostragem / análise / interpretação (aulas

Análise foliar: etapas: amostragem / análise / interpretação (aulas práticas);

3)

Histórico da área: verificar últimas praticas corretivas, adubações, culturas Diagnose visual à observar visualmente na planta o efeito de nosso manejo

antecessoras à definir nível tecnológico e balanço nutricional; 4)

(CUIDADO: exige experiência e pode ser tarde para intervenção). F = Fator relativo à eficiência e perdas

Eficiência média dos nutrientes:

32

1)

Nitrogênio: (50 a 70% / F = 1,5 a 2,0)

Volatilização, Lixiviação e

Desnitrificação 2) Fósforo: (20 a 35% / F = 3 a 5) Fixação (Adsorção específica e

precipitação em cálcio) 3) Potássio: (70% / F = 1,5) Lixiviação

O que são estas perdas?

Volatilização = Perda do N para a atmosfera Lixiviação = Perda do N e do K sendo levado junto com a água ao longo do perfil do solo Desnitrificação = Perda de N na forma de gás para a atmosfera Fixação = Perda do P por adsorção específica com argila e óxidos de Fe e Al + Precipitação em Ca + Interação com microorganismos Erosão = Perda de solo, levando assim uma quantia expressiva de nutrientes Grande desafio à Elevar a eficiência da adubação Como: 1) 2) 3) 4) 5) Plantio Direto Calagem Aplicação correta Fontes dos fertilizantes Entre outros

33

5. Nitrogênio (N)

Elemento chave

O N é um elemento chave, pois na maioria das culturas é o nutriente absorvido em maiores quantidades, além de ser o mais caro e o que está sujeito a maiores perdas. O nitrogênio não é um constituinte comum das rochas terrestres. Além dos adubos nitrogenados, uma fonte inesgotável desse elemento é a atmosfera, pois 78% da sua composição é representada pelo gás inerte de nitrogênio (N2), o que equivale a uma disponibilidade de 105t de N (Vitti et al., 1999). O custo energético para produção do fertilizante nitrogenado é muito alto e dificulta a sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola. Portanto, o uso e manejo do nitrogênio devem ser adequados.

5.1. Funções do N na planta

A função mais importante do nitrogênio é, talvez, a de ser um dos constituintes das moléculas das proteínas. Além disso, ele entra na formação de compostos indispensáveis às plantas, como purina, pirimidina, pafininas e coenzimas. Além da formação de aminoácidos os quais formam proteínas, o nitrogênio tem extrema importância, pois é necessário para a síntese de clorofila, estando envolvido na fotossíntese da planta. O N é ainda o principal responsável vegetação, produção de gemas vegetativas e floríferas e perfilhamento.

5.2. N no Solo

A principal fonte de N no solo é a matéria orgânica que contem entre 90 e 98% do N total do solo. O estoque de N no solo varia em função do tipo de solo, e em conseqüência do teor de matéria orgânica do mesmo, conforme pode ser observado na Tabela abaixo.

34

Tabela 1: Quantidade de matéria orgânica e de N em diferentes tipos de solo

Este N da matéria orgânica pode se mineralizar se tornando fonte de N para as plantas, porém tal processo depende de diversos fatores, sendo assim é muito difícil prever quanto de N vai se disponibilizar para as plantas em função da quantidade de M.O. do solo. Segue, abaixo, a reação de mineralização do N no solo: mineralização N-orgânico microrganismos heterotróficos N-mineral

Os teores relativos de C, N, S e P da matéria orgânica e a atividade microbiana são fatores importantes para a mineralização do N-orgânico e estão associados a fatores ambientais como: temperatura, umidade, aeração e pH da solução do solo. Ocorre também o processo de imobilização no qual o N-mineral, oriundo da decomposição da matéria orgânica ou da adubação, é transformado em compostos orgânicos participando da composição de plantas e microrganismos. Na verdade, os dois processos ocorrem simultaneamente como mostra a reação abaixo:

mineralização N-orgânico imobilização N-mineral

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Dependendo das características do meio e de suas alterações, este equilíbrio poderá ser deslocado, havendo assim, situações em que a mineralização pode ser maior, menor ou igual à imobilização, e vice versa. Um dos principais fatores que interferem no equilíbrio desta reação é a relação Carbono/Nitrogênio do material orgânico. Esta relação, C/N, é de extrema importância principalmente no Sistema de Plantio Direto pela manutenção da palhada da cultura antecessora. Esta palhada pode deixar um crédito de N, ou imobilizar temporariamente tal Nitrogênio.

Tabela 2: Relação C/N de diferentes espécies utilizadas como cobertura de solo em Sistema de Plantio Direto

Via de regra temos que as leguminosas apresentam relação C/N mais baixa, desta forma deixando um crédito de N no solo, já as gramíneas apresentam alta relação C/N imobilizando o N temporariamente, como pode ser visto na Figura 1.

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Figura 1: Ocorrência dos processos de imobilização e mineralização do N em função da relação C/N do material orgânico. Estas informações são de extrema importância para a tomada de decisão quanto a escolha das culturas que utilizaremos em rotação (seqüência) e para os ajustes da adubação nitrogenada.

5.3. Formas de absorção de N

O Nitrogênio é absorvido pelas plantas, exceto as leguminosas que fixam o N da atmosfera através de processos simbióticos com bactérias, nas formas nítrica (NO3-) e amoniacal (NH4+).

5.4. Fontes de N

As principais fontes de N são uréia, sulfato de amônio, nitrato de amônio, MAP e DAP (Tabela 3). Alguns novos produtos que visam elevar a eficiência da adubação nitrogenada estão sendo lançados no mercado.

37

Tabela 3: Teores de N, P2O5, K2O, CaO, MgO, S e índice salino dos principais fertilizantes nitrogenados Fontes DAP MAP Nitrato de amônio Sulfato de amônio Uréia N P2O5 CaO MgO S Indice Salino 34 30 105

Teores dos nutrientes (%) 16 10 33,5 48 50 -

21 45

-

-

-

23 -

69 75

Fonte: Malavolta (1987)

5.5. Processos de Perdas

A eficiência média da adubação nitrogenada está próxima a 50 a 70%, e nosso objetivo é entender os processos de perdas e através de manejo otimizar a eficiência reduzindo os custos da adubação, melhorando a rentabilidade dos produtores. Os principais processos de perdas de N são: lixiviação, volatilização e desnitrificação. a) Lixiviação Lixiviação é o processo de movimentação do elemento acompanhando a percolação da água, ou seja, perda do nutriente em profundidade. Dentre as formas de N na solução do solo, NO3- e NH4+, apenas o nitrato apresenta problemas de lixiviação. O N amoniacal fica adsorvido nos colóides do solo. Em condições de solo bem arejados e com acidez corrigida, o nitrato tende a predominar, fazendo com que a lixiviação seja um processo de perda bem significativo. A reação de nitrificação, transformação do N amoniacal em nítrico, ocorre em duas etapas, e está descrita a seguir:

38

nitritação 2 NH4+ + O2 microrganismos autotróficos gênero - nitrosomonas nitratação 2NO2 + O2 microorganismos autotróficos gênero - nitrobacter
-

2 NO2- + 2 H2O + 4 H+

2NO3-

Para que ocorra a lixiviação é necessária à presença de excesso de água (regime de chuvas), além da presença de N nítrico. O processo de lixiviação é mais intenso em solos arenosos, que apresentam menor capacidade de retenção de íons (menor estrutura coloidal). Em função destes fatores, devemos tomar as decisões quanto ao parcelamento ou não de uma adubação nitrogenada na cultura do milho, por exemplo, como segue na Tabela abaixo.

Tabela 4: Parcelamento da adubação nitrogenada de cobertura na cultura do milho em função da classe textural e da dose de N
Classe Textural Argilosa Média Arenosa Teor de argila 36 a 60% 15 a 35% < 15% Doses de N 60 a 150 > 150 60 a 100 > 100 60 a 100 > 100 Número de folhas 7-8 8 - 10 100% 50% 100% 50% 50% 40%

4-6 50% 50% 50% 40%

10 - 12

20%

Fonte: Coelho e França

Quantificando a lixiviação, pode-se dizer que a movimentação do N no solo varia entre 0,5 e 3,0 mm/mm de chuva, estando esta variação dependente principalmente da textura do solo.

39

b) Volatilização A volatilização é um processo de perda em que o N na forma de NH3 é perdido para a atmosfera. Este processo pode ocorrer com qualquer fonte de fertilizante amoniacal, Sulfato de Amônio, Nitrato de Amônio, em condições de pH alcalino, como segue abaixo, condição esta que não ocorre em nossos solos que apresentam geralmente pH mais acido.

pH ácido NH3 + H2O NH4+ + OH-

Além da volatilização das fontes amoniacais, não comuns em nossas condições de cultivo, o N pode ser volatilizado através da utilização de fontes amidicas de N, como é o caso da uréia, sendo este um problema mais sério de perda de N nas nossas condições. pH alcalino A reação de quebra da uréia, liberando NH3, forma de N sujeita a volatilização, segue abaixo. Para que ocorra esta reação é preciso que o solo tenha umidade, oriunda do próprio solo ou até mesmo do orvalho, o que transforma a volatilização um dos principais processos de perda de N.

Figura 2: Reação de quebra da uréia liberando amônia (NH3) sujeita a volatilização.

Para a uréia, o pH do solo não causa tanta interferência na volatilização e a melhor estratégia para o controle deste processo é incorporar a uréia (5 a 10cm), ou realizar a aplicação com uma boa garantia de chuvas superiores a 10 a 20mm.

40

c) Desnitrificação No solo, em caso de condições anaeróbicas pode ocorrer o processo de desnitrificação, que é um processo microbiológico realizado por microorganismos como Pseudomonas, Micrococcus, Spirillum, Thiobacillus, os quais utilizam substâncias orgânicas como doadoras de elétrons, reduzindo rapidamente o NO3- que é convertido à NO2-, e este converte-se à H2N2O2 ou a NO. O H2N2O2 transforma-se em N2O e depois em N2, cujo destino é a atmosfera. Este processo segue esquematizado abaixo: ä ä

H2N2O2 ® N2O ® N2 MO + NO3- ® NO2ä 2NO

5.6. Critérios para a Recomendação da Adubação Nitrogenada

Como a maioria do N do solo está presente na matéria orgânica, e é muito difícil prever a taxa de mineralização do N da matéria orgânica em função dos diversos fatores que interferem nesta reação, a recomendação da adubação nitrogenada deve-se balizar em outras coisas que não sejam a análise de solo. Os parâmetros que influenciam na tomada de decisão quanto à adubação nitrogenada são: Produtividade almejada: devemos ter o planejamento de qual a produtividade que pretende-se, para que em função dos valores de exportação e extração possa se balizar a necessidade da planta. Histórico da área: englobando entre outros aspectos a cultura antecessora, que pode promover créditos de N para a cultura a ser implantada, como exemplo, para cada tonelada

41

de grão de soja produzida temos um crédito de 10 a 20 kg ha-1 de N e para o cultivo de leguminosas (adubos verdes) temos um crédito de 30 a 60 kg ha-1 de N. Análise foliar: a análise foliar permite conhecer com fidelidade o aproveitamento da planta em relação a fertilidade do solo, ou seja, o que a planta absorveu do que foi aplicado ao solo.

42

6. Fósforo (P) O fósforo é o macronutriente menos exigido pelas plantas, porém é o nutriente mais utilizado em adubação no Brasil. Isso ocorre porque, em regiões tropicais e subtropicais, o fósforo é o elemento cuja falta no solo é mais freqüente, limitando a produção, principalmente das culturas anuais. Em 90% das análises de solo feitas no país encontramse teores disponíveis de P abaixo de 10 ppm. Nos solos do Cerrado, encontram-se, freqüentemente, teores abaixo de 1 ppm. Outro problema do fósforo é a fixação que este sofre, devido a forte interação com o solo, fato que reduz a eficiência da adubação fosfatada. O tamanho reduzido das reservas de rocha fosfatada, matéria prima na fabricação de adubos, e as perdas que este mineral sofre, deve nos preocupar, pois o esgotamento das jazidas do elemento e a impossibilidade de substituí-lo, pode prejudicar ou até impedir a produção agrícola (VITTI, 2005).

6.1. Funções do Fósforo O fósforo atua na fotossíntese, na respiração e na transferência de energia, na divisão celular, no crescimento das células e em vários outros processos da planta. Além de promover a formação e crescimento prematuro das raízes, o fósforo melhora a qualidade de muitas frutas e verduras, sendo vital para a formação de sementes e maturação de frutos. O fósforo também auxilia as raízes e plântulas a se desenvolverem mais rapidamente, aumenta a resistência ao frio, stress hídrico, doenças. (LOPES, 1998).

6.2. Fósforo no solo No solo o fósforo aparece nas formas orgânica e mineral. O fósforo orgânico ocorre em teores proporcionais à matéria orgânica. Vários compostos de fósforo fazem parte da matéria orgânica do solo, como por exemplo, os fosfatos de inositol, fosfolipídeos e ácidos nucléicos.

43

O fósforo mineral pode ocorrer no solo como P fixado (P-não lábil), que é aquele fortemente adsorvido, ligado ao alumínio ou que esta na rede cristalina, ou então P disponível, que é fracamente adsorvido (P-lábil) ou P na solução do solo.

FÓSFORO

ADUBAÇÃO E DINÂMICA NO SOLO

DESTINO DO P NO SOLO

FASE SÓLIDA DO SOLO P NO FERTILIZANTE

P LÁBIL P NÃO LÁBIL
Fonte: Vitti

P NA SOLUÇÃO DO SOLO

P NA EROSÃO E NA ÁGUA DE DRENAGEM

Figura 1: Interações do Fósforo no Solo.

6.3. Formas de Absorção As plantas absorvem a maior parte de seu fósforo como íon ortofosfato primário (H2PO4-) e em pequenas quantidades do íon ortofosfato secundário (HPO42-). O pH do solo influencia na relação de absorção desses dois íons. Para a absorção do Fósforo no solo a aproximação entre nutriente e raiz se dá pelo processo de difusão, o que significa que este elemento se desloca da região mais concentrada para a menos concentrada. A importância desta informação no manejo da adubação é para que façamos a adubação de maneira concentrada e próxima ao sistema radicular, ou seja, no sulco de plantio.

44

O fosfato absorvido pelas células das plantas é rapidamente envolvido em processos metabólicos; 10 minutos após a absorção deste, 80% do total absorvido é incorporado a compostos orgânicos, formando basicamente fosfo-hexases e difosfato de uridina. O transporte no xilema ocorre principalmente na forma que foi absorvido (H2PO4-), podendo ainda aparecer na seiva bruta como fosforil colina ou esteres de carboidrato. O fosfato é bastante móvel na planta sendo redistribuído com facilidade pelo floema, onde o elemento aparece principalmente como fosforil colina. Quando as plantas estão adequadamente nutridas em P, de 85 a 95% do P orgânico se encontra nos vacúolos. Ocorrendo deficiência, o P não metabolizado sai do vacúolo e é redistribuído para os órgãos mais novos cujo crescimento cessa quando acaba tal reserva. Devido a fácil redistribuição do P na planta, os sintomas de deficiência aparecem primeiramente nas folhas mais velhas. O fósforo aparece na planta em formas inorgânicas e orgânicas. Na forma inorgânica (Pi), que representa uma proporção relativamente alta do P total no tecido, aparece como ortofosfato e em menor quantidade como pirofosfato. Nas folhas a proporção de Pi para o P orgânico é maior que nos grão e dependente do estado nutricional da planta em fósforo. Plantas com suprimento inadequado tem o valor de Pi diminuído enquanto que os de P orgânico permanecem praticamente inalterados. As formas orgânicas de fósforo na planta são compostos nos quais o ortofosfato é esterificado a hidroxilas de açúcares e álcoois, ou pirofosfato ligado a outro grupo fosfato. Mais de 50 compostos formados da esterificação de fosfato com açúcares e álcoois tem sido identificados, sendo que aproximadamente 10, são presentes em concentração relativamente alta na célula. (Faquin, 1994). 0ADENINA RIBOSE O P O 00-

~

O

P O

~

O

P O

OH

O trifosfato de adenosina, ATP (cuja fórmula aparece acima), é o principal composto que serve para armazenar energia e depois transferi-la para a promoção de processos

45

endergônicos. A energia armazenada nas ligações entre os fosfatos (~) se torna disponível quando ocorre hidrólise de um ou dois radicais fosfatos terminais, liberando 7.600 Kcal/mol. Esta energia armazenada no ATP é utilizada nos processos endergônico do metabolismo, como por exemplo, a absorção iônica ativa, síntese de vários compostos orgânicos como o amido, gorduras e proteínas. Segundo Faquin (1994), embora o ATP

seja o principal composto fosforejado rico em energia, a sua energia pode ser transferida para outras coenzimas, as quais diferem do ATP somente na base nitrogenada, como por exemplo, urinida trifosfato (UTP), guanosina trifosfato (GTP), citidina trifosfato (CTP), as quais são requeridas para a síntese de sacarose, celulose e fosfolipídeos, respectivamente. Todos estes nucleotídeos trifosfatos (ATP, UTP, GTP, CTP e TTP-tiamina trifosfato), também são envolvidos na síntese dos ácidos nucléicos, o ácido ribonucléico (RNA) e o desoxiribonucléico (DNA). Os compostos que formam o fosfato orgânico indicam o universal e essencial papel do P não somente em plantas, mas também em todos os outros organismos vivos. Os fitatos são os compostos de reserva de fósforo em sementes e frutos e representam aproximadamente 50% do P total em sementes de leguminosas e de 60 a 70% em grão de cereais. É óbvia a função do fitato na germinação de sementes. Nos primeiros estágios de crescimento das plântulas, o embrião tem alta exigência de nutrientes minerais, incluindo o P, para formação dos fosfolipídeos das membranas celulares e ácidos nucléicos.

6.4. Principais fontes de Fósforo As fontes de Fósforo podem ser divididas, em função dos processos realizados desde a rocha até a sua utilização no campo, em fosfatos acidulados (Superfosfato Simples, Superfosfato Triplo, MAP e DAP), fosfatos térmicos (termofosfatos) e fosfatos naturais (de baixa reatividade como o Araxá, ou de alta reatividade como o Gafsa e o Arad). Na Tabela 1 podemos observar os teores de Fósforo e outros nutrientes nos principais fertilizantes fosfatados.

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Tabela 1: Teores de Fósforo, em diferentes extratores, de Cálcio, de Magnésio, de Enxofre e de Nitrogênio nas principais fontes de P P2O5 (%) Fontes CNA Total + água Superfosfato Simples Superfosfato Triplo Fosfato monoamônico Fosfato diamônico Termofosfato Fosfato reativo Arad Fosfato reativo Daoui Fosfato reativo Gafsa Fosfato Natural Patos Escória de Thomas Ácido Fosfórico Multifosfato magnesiano 18,5 41,5 48,5 45,5 18 33 32 29 24 18,5 52 18 41 48 45 51 18-24 Ác. Cítrico 18 41 48 45 16,5 10,5 9 10 5 12 CaO Teores (%) 18 12-14 20 37 36 32 20 32 18 15 0,12 0,5 0,9 3,5 10 1 1 3,2 11 9 16 MgO S dos N Indice Água nutrientes Salino

16 37 44 42 50 -

8 10 30 34 -

Fonte: Adaptado de Coamo Coodetec (1998).

6.5. Extratores de Fósforo no Solo Os principais métodos de avaliação do Fósforo disponível no solo são os métodos de Mehlich I e da Resina. O método da Resina é utilizado no estado de São Paulo e se baseia em uma resina que apresenta a capacidade de trocar anions. Este método apresenta boa precisão, e tem como desvantagem a sua complexidade laboratorial (necessita de 16 horas de agitação entre solo e a resina). O método de Mehlich I é utilizado nas outras regiões do país (método utilizado em Minas Gerais). Este método apresenta boa precisão, desde

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