Trabalhogerenciamento

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UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA

ÁREA DAS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE

CURSO DE FISIOTERAPIA – V FASE

Mayra Gabriela Fachini

RESENHA CRÍTICA: FILME THE DOCTOR: UM GOLPE DO DESTINO

JOAÇABA, SC

FEVEREIRO DE 2011.

Segundo Frankena (1981) apud. Marcolino e Cohen (2008), a ética é um ramo da filosofia, é a filosofia moral ou pensamento filosófico acerca da moralidade, dos problemas morais e de juízos morais. Consiste em saber o que é correto ou incorreto, virtude ou vício, bondade ou maldade na conduta do homem ou entre um grupo de indivíduos. Neste sentido, a ética chega a todas as profissões fazendo valer os conceitos ético-morais na relação entre profissional e paciente respeitando todos os aspectos humanos.

Oliveira e Filho (2010) sugerem que o Código de Ética Médica, fixa os limites morais de comportamento e atitudes do médico em diversas situações da sua prática profissional, a exemplo de códigos de ética médica de outros países, contempla princípios éticos fundamentais, como respeito pelo ser humano, por não utilização de uma medicina fútil, pela obrigação de aprimorar continuamente os conhecimentos e manutenção do sigilo profissional. Dantas e Souza (2008) destacam que as transformações tecnológicas, sociais, legais, econômicas e morais ocorridas de forma acelerada nas últimas décadas incentivaram o surgimento de uma comunidade global mais integrada e esclarecida, com impacto no exercício das profissões de saúde. Na Medicina, novas questões éticas são constantemente incorporadas, levando a uma contínua necessidade de renovação e atualização de seu ensino indo de encontro com a afirmação de Taquette et. al. (2005), em que a atuação dentro da medicina necessita de respeito aos valores e aos indivíduos em todos os seus aspectos. Não só dentro da medicina, mas em todas as profissões da área da saúde devem ser regidas por ética e valores. Porém sabe-se que nem sempre é isso que ocorre, sabe-se que existe certa desumanização da prática médica, que pode ser entendida como uma violação do ser humano e de sua humanidade. Agir com desconsideração ao outro, seja por ignorá-lo seja por não valorizar suas necessidades, caracteriza uma prática que merece uma análise ética.

Por diversos momentos no filme, observa-se essa desumanização com os pacientes, caracterizam-se profissionais não envolvidos, residentes aprendendo dentro de uma atuação errônea, anti-ética e depreciada. Ainda de acordo com Taquette et. al. (2005), a não observância dos princípios éticos pode ser facilmente constatada nos diversos cenários de atendimento à saúde e, também, na própria escola médica, nas relações entre colegas de classe, entre os professores e seus alunos e entre médicos e pacientes. Ou seja, os profissionais já são formados dentro de um modelo biomédico, não tendo uma visão de que o paciente vive dentro de um contexto, tem nome, família, vida social, não quer ser tratado por um número ou pela sua patologia. Quando alguém procura por ajuda médica, é de atuação ética que se trate a pessoa e não a doença, agir com ignorância, mecanicidade ou desconsideração fere todos os princípios e valores que regem a profissão e a promoção de saúde ao paciente. Serodio e Almeida (2008), salientam que a percepção atual é de que o médico está cada vez mais distante do paciente, priorizando excessivamente o aspecto técnico da profissão.

No filme, o médico se mostra inerte na relação com os pacientes, o “doente deve ser tratado objetivamente, corta, entra e sai, sem nenhum envolvimento”, paciente não entende de sua doença, a melhor decisão é do médico. Essa é uma visão que vai completamente ao oposto do que de fato se deveria ter, de que o paciente tem a autonomia para decidir se quer ou não passar por determinado tratamento, Tahka (1988) apud Marcolino e Cohen (2008) afirma que o paciente não se vê mais no papel tradicional de se submeter sem queixas e sem perguntas a quaisquer medidas que o médico supostamente infalível ache melhores. O paciente deve se sentir bem na sua escolha, é dele a decisão de se submeter a qualquer prática clínica, afinal é a saúde dele que está em questão. Por diversas vezes, pacientes são cercados por residentes que se dizem profissionais tratando-os por suas doenças, números dos leitos ou quartos, sequer sabem o nome dos pacientes, mas se dizem capazes de tratá-los. Essa situação é muito mais comum que se imagina, é lamentável, mas é real e fere o princípio ético da beneficência que se ocupa da procura do bem-estar e interesses do paciente por intermédio da ciência médica e de seus representantes ou agentes.

Não demonstrar preocupação com o estado psicossocial do paciente, não levar em consideração como o paciente está se sentindo frente a um tratamento é estagnar-se dentro de técnicas e não transmitir humanização. O profissional deve levar em consideração as queixas do paciente, no filme o médico ignora o sentimento de uma paciente diante de uma cicatriz e uma frustração do marido, tornando a situação irônica e mesquinha, fazendo a paciente se sentir como um objeto da prática médica, não pensando em seu bem-estar. Neste caso, o profissional feriu o princípio da não maleficência, provocando o mal estar à paciente além de não resolver o seu problema. Ainda dentro deste princípio, o médico ao tentar realizar uma cirurgia mesmo quando não estava se sentindo bem, expôs o paciente a um risco que poderia trazer muitas conseqüências.

As pessoas só percebem como tratam os outros e como esse tratamento gera impacto na vida alheia, quando são tratadas de igual forma. Para o médico do filme descobrir que tinha câncer, que teria que enfrentar filas, sentir dor, fazer o tratamento que o seu médico escolheu, sentir seu casamento ruir foi muito desagradável e só neste momento é que ele se deu conta de como tratava seus pacientes. Ele começa a observar como seus colegas tratavam seus pacientes e o tratavam. O princípio da justiça e equidade está presente quando ele não pôde ser atendido em um quarto privado, tem uma visão de que por ser médico do Hospital deve passar a frente nas filas, ser atendido com urgência, com individualidade quando ele mesmo não tratava assim seus pacientes.

Foi só depois de ser tratado como paciente por profissionais que valorizavam mais a clínica que a ética é que o médico percebeu que estava fazendo tudo errado. Um profissional com conhecimento sem a sensibilidade necessária para utilizar-se deste mesmo, o torna um profissional fútil, prático e mecânico. Fazer os residentes serem tratados como pacientes é sem dúvida uma experiência ímpar de aprendizado prático, mostrando que médicos e outros profissionais da saúde não estão acima de ninguém, são pessoas iguais aos pacientes, com anseios, receios e dificuldades, e devem dispor de seu conhecimento a favor de saúde com ética, respeito e consideração.

REFERENCIAS

DANTAS, Flávio; SOUSA, Evandro Guimarães de. Ensino da deontologia, ética médica e bioética nas escolas médicas Brasileiras: uma revisão sistemática. Rev. bras. educ. med.,  Rio de Janeiro,  v. 32,  n. 4, dez.  2008 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022008000400014&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  22  fev.  2011.  doi: 10.1590/S0100-55022008000400014.

MARCOLINO, JA M; COHEN, C. Sobre a correlação entre a bioética e a psicologia médica. Rev. Assoc. Med. Bras.,  São Paulo,  v. 54,  n. 4, ago.  2008 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302008000400024&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  22  fev.  2011.  doi: 10.1590/S0104-42302008000400024.

OLIVEIRA RA, JORGE FILHO I. A bioética na cirurgia. Bioética clínica: como praticá-la? Rev Col Bras Cir. [periódico na Internet] 2010; 37(3). Disponível em URL: http://www.scielo.br/rcbc

SERODIO, A M B; ALMEIDA, J A M. Situações de conflitos éticos relevantes para a discussão com estudantes de Medicina: uma visão docente. Rev. bras. educ. med.,  Rio de Janeiro,  v. 33,  n. 1, mar.  2009 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022009000100008&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  22  fev.  2011.  doi: 10.1590/S0100-55022009000100008.

TAQUETTE, S. et al . Situações eticamente conflituosas vivenciadas por estudantes de medicina. Rev. Assoc. Med. Bras.,  São Paulo,  v. 51,  n. 1, fev.  2005 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302005000100015&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  22  fev.  2011.  doi: 10.1590/S0104-42302005000100015.

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