Evidencia??o s?cio-ambiental um reflexo da evolu??o hist?rica da Contabilidade

Evidencia??o s?cio-ambiental um reflexo da evolu??o hist?rica da Contabilidade

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Evidenciação sócio-ambiental: um reflexo da evolução histórica da Contabilidade e dos conceitos de homem, organização e meio ambiente

Resumo

O presente trabalho objetiva apresentar a evidenciação sócio-ambiental como tendo decorrido de uma evolução histórica da Contabilidade, e de seus próprios usuários, tendo acompanhado a evolução social, através da perspectiva da evolução de conceitos de homem, organização e meio ambiente, que se desenvolveram paralelamente com a Teoria das Organizações. Desta forma, alinham-se as demandas dos usuários das comunicações organizacionais, incluindo-se as demonstrações contábeis, e os padrões éticos mais contemporâneos dos cidadãos conforme a visão de Guerreiro Ramos, que trata de um novo modelo de homem, o homem parentético. Para fundamentar este alinhamento, são também apresentadas e discutidas questões como ética, ideologia, mudança de paradigmas e responsabilidade sócio-ambiental, consideradas fortemente relacionadas. Por fim, são tecidas considerações a respeito da relevância do tema como pauta nas discussões acadêmicas, no ensino e na prática contábeis, a fim de acompanhar essa dinâmica social. Trata-se, portanto, de um trabalho interdisciplinar, com abordagem sociológica, abrangendo conceitos e temas que são continuamente rediscutidos no meio acadêmico.

Palavras-chave: evidenciação sócio-ambiental; evolução da Contabilidade; conceitos de homem, organização e meio-ambiente.

1 Considerações iniciais

A Contabilidade se desenvolveu, ao longo da História da humanidade, estando associada à sua evolução. Sendo assim marcado pela evolução da Humanidade, o desenvolvimento da Contabilidade pode ser alinhado ao desenvolvimento de conceitos como os de homem, organização e meio ambiente, que foram se modificando ao longo do tempo, para acompanhar a dinâmica social e, portanto, embasando as ciências ditas sociais.

Assim como outros estudiosos, Iudícibus (2009, p. 29) ressalta a importância de se conhecer a evolução histórica da Contabilidade e entender a evolução da sociedade, incluindo a evolução dos usuários da informação contábil e suas necessidades informativas, conforme segue:

é importante conhecer qual foi a evolução histórica da disciplina. A Contabilidade é uma ciência essencialmente utilitária, no sentido de que responde, por mecanismos próprios, a estímulos dos vários setores da economia. Portanto, entender a evolução das sociedades, em seus aspectos econômicos, dos usuários da informação contábil, em suas necessidades informativas, é a melhor forma de entender e definir os objetivos da Contabilidade.

Associação semelhante é ressaltada por Sá (1997, p.16), em sua obra, informando que “a Contabilidade nasceu com a civilização e jamais deixará de existir em decorrência dela; talvez, por isso, seus progressos quase sempre tenham coincidido com aqueles que caracterizam os da própria evolução do ser humano”.

Entretanto, apesar de haver clara ligação entre a evolução da Contabilidade e a evolução social como um todo, para entendimento do desenvolvimento do usuário da informação contábil, que gera necessidades diferenciadas a serem atendidas, uma compreensão básica da evolução do próprio ser humano, o contexto em que se relaciona e toma suas decisões se faz necessária. Assim, para esse artigo, elegeu-se alguns aspectos que foram considerados intimamente relacionados e que, de forma conjunta, resultam na maior demanda contemporânea por evidenciação sócio-ambiental, em maior ou menor grau, em todo o mundo.

Diversos são os autores que consentem a respeito de que o surgimento da

Contabilidade esteja atrelado ao aparecimento da própria civilização, e seus desenvolvimentos tenham sido concomitantes. Desta forma, vale ressaltar que, tanto em termos geográficos como temporais, a Contabilidade não evolui de forma uniforme, ao longo da História. Porém, alguns autores defendem que com a Globalização muitas barreiras vêm sendo vencidas, inclusive culturais, sendo possíveis as trocas de conhecimentos entre os diversos grupos sociais, e assim, a própria academia vem adotando práticas de pesquisa em parcerias internacionais.

Disso decorre que, ainda que a evolução histórica não seja comum a todos os povos, e muito esse trabalho vislumbre, sobretudo, a evolução da parte majoritariamente ocidental do mundo, não será discutida a validade ou não dessas bases, por não ser esse o objetivo da pesquisa. Entretanto, registra-se que o que poderíamos chamar de ‘estágio’ evolutivo da Contabilidade é diferenciado por todo o mundo, apesar dos esforços cooperativos entre as diversas nações, uma vez que muitos são os fatores que o influenciam.

Outra questão a ser ressaltada é a natureza da Contabilidade dentre os ramos do conhecimento. Para este trabalho, assume-se a Contabilidade como sendo tratada como ciência social. Não no sentido de defendê-la como ciência, mas tomando por base o fato de ser tratada como uma ciência e, considerada social aplicada, no meio acadêmico brasileiro. Contextualiza-se pois a Contabilidade como possuidora de características e desafios comuns às ciências sociais: aspectos subjetivos dos sujeitos, ideológicos e éticos.

Estes aspectos, que serão expostos ao longo do trabalho, contextualizam as diferentes demandas dos usuários da Contabilidade, ao longo do tempo, refletindo na forma como a Contabilidade os provê de informações que consideram úteis para sua tomada de decisão ou para simplesmente exercerem alguma forma de vigilância/controle sobre as ações organizacionais.

2 Aspectos metodológicos

No primeiro capítulo de sua obra, Iudícibus (2009) trata dos objetivos e metodologia da Contabilidade, apresentando algumas das várias abordagens da teoria contábil, dentre elas a abordagem sociológica:

“A Contabilidade, nesta abordagem, é julgada por seus efeitos no campo sociológico. [...] no sentido de que os procedimentos contábeis e os relatórios emanados deveriam atender a finalidades sociais mais amplas, inclusive relatar adequadamente ao público informações sobre a amplitude e a utilização dos poderes das grandes companhias. [...] Uma variante desta abordagem é a chamada Contabilidade Social, que consiste em ampliar a evidenciação contábil para incluir informações sobre os níveis de emprego da entidade, tipos de treinamento, demonstração de valor adicionado, etc. Outra ramificação importante é a Contabilidade Ecológica (Ambiental).” (IUDÍCIBUS, 2009, p. 9-10)

De forma inversa, o que se procura nesse trabalho é identificar a influência da evolução dos conceitos de homem, organização e meio ambiente de forma a culminar na maior demanda, e portanto, prática de evidenciação sócio-ambiental. Trata-se, portanto, de uma abordagem teórica, apresentando e tecendo ligações entre diversos conceitos e sua evolução.

Pode-se considerar o trabalho como interdisciplinar, uma vez que reúne conceitos inerentes às diversas áreas das ciências sociais aplicadas. São apresentados conceitos de homem, organização e meio ambiente, como sendo conceitos que evoluíram junto à Teoria das Organizações, dando-se relevância ao modelo de homem apresentado por Guerreiro Ramos (2001), o que leva à necessidade de algumas discussões sobre ética, ideologias e paradigmas, que estão estritamente relacionadas.

Desta forma, pretende-se que as considerações apresentadas contextualizem a evolução da Contabilidade, para ao final tecer os alinhamentos entre sua evolução e as dos conceitos apresentados, de forma a verificar os reflexos desta ligação na atual prática de evidenciação sócio-ambiental, como resposta à demanda dos atuais e potenciais ‘novos usuários’ da informação contábil.

3 Fundamentação teórica

A Contabilidade é tão antiga quanto a história da civilização, e com ela evoluíram várias outras áreas do conhecimento e seus conceitos. Enquanto ciência social aplicada, a Contabilidade tem então por base conceitos como os de homem, organização e meio ambiente, que se desenvolveram com o passar do tempo. Os usuários da informação contábil, enquanto seres humanos, se desenvolveram, de forma a gerar ao longo da história diferentes demandas e, por consequência, evoluções na Contabilidade. Por sua vez, essa evolução humana e social também acompanha a compreensão de questões éticas e ideológicas, que serão igualmente apresentadas nos subitens a seguir.

Na obra organizada por Ribeiro Filho, Pederneiras e Lopes (2009), na unidade 19, José

Maria Dias Filho tece considerações acerca dos novos delineamentos teóricos em Contabilidade, defendendo que as políticas de evidenciação contábil podem ser influenciadas pelo sistema de crenças e valores predominantes na sociedade. Nesse contexto, a Teoria da Legitimidade, derivada da Teoria dos Contratos, considera que as organizações “estariam sempre procurando estabelecer congruência entre as suas atividades e as expectativas da sociedade” (RIBEIRO FILHO, PEDERNEIRAS E LOPES, 2009, p. 323).

Dessa forma, a evidenciação contábil seria influenciada por fatores associados ao meio ambiente em que as organizações operam, sendo um desses fatores a crescente preocupação com problemas de caráter sócio-ambiental, ligados ao desenvolvimento sustentável e questões éticas como a tão discutida responsabilidade social das organizações.

3.1 Evolução da Contabilidade ligada à evolução social

Martins e Lopes (2007, p.2) afirmam que “o entendimento do papel da contabilidade dentro da sociedade e sua evolução pressupõem um entendimento mais amplo da sociedade e de suas inter-relações”. Assim, “se pode estabelecer claramente uma disciplina das ciências sociais que nasceu das demandas e anseios dos agentes operando em sociedade”.

Nesse sentido, desde as práticas mais longínquas e o método das partidas dobradas de

Luca Pacioli (Itália – séc. XV) até os dias atuais, a Contabilidade se desenvolveu no sentido de acompanhar as necessidades de seus usuários. Os usuários, por sua vez, também foram se modificando. Nessa evolução, criam-se e recriam-se diversos demonstrativos com a finalidade de prover as informações demandadas à Contabilidade.

Martins e Lopes (2007, p. 23-27), ao tratar de uma linha de pesquisa que se consolidou na década de 80 e que denominaram como escola britânica, explicam como os estudiosos relacionados encaram a Contabilidade como uma prática institucional e social. Os usuários podem ser os mais diversos, internos ou externos, e a demanda por informações também, a depender por exemplo do local e momento histórico.

Os diversos autores citam que, ao longo do tempo, percebe-se que a contabilidade se desenvolveu impulsionada por alguns fatores, como aumento da capacidade produtiva, da complexidade das relações comerciais, da necessidade de se obter investimentos, a legislação local, dentre outros. As estruturas organizacionais se desenvolveram, de pequenos grupos de autônomos que se juntavam às manufaturas, depois às grandes indústrias e atualmente com as sociedades abertas cujas ações são negociadas em bolsas de valores.

Assim, os usuários foram se modificando. Inicialmente, era o proprietário o único interessado em suas contas, não havendo necessidade de serem complexas. Posteriormente sendo necessário aprimorar as formas de controle à medida que expandia e diversificava suas atividades, necessitava de informações para tomar decisões e pagar tributos que lhe fossem cobrados e posteriormente, inclusive, prestar contas para obter empréstimos ou investimentos por parte de terceiros. Os usuários externos, sobretudo Fisco e investidores, figuram há mais tempo como usuários das informações contábeis.

Com o passar do tempo, as relações sociais se desenvolveram, bem como as organizações se tornaram mais complexas, de forma que diversos usuários internos passaram a necessitar de informações contábeis organizadas, como os administradores dos diversos setores da organização e os demais funcionários em geral.

Outros usuários externos, como os próprios consumidores, foram passando a se interessar pelas políticas de gestão socioambiental das organizações, por conta de uma evolução social, do próprio entendimento do homem sobre sua relação com as organizações e o meio ambiente, como será visto adiante. Através da evidenciação sócio-ambiental, é possível controlar a distribuição de riquezas, os impactos ambientais; enfim, evidenciar os benefícios e prejuízos advindos da atuação das organizações.

3.2 Evolução dos conceitos de homem, organização e meio ambiente

Motta e Vasconcellos (2006) sistematizam e disponibilizam o desenvolvimento dos conceitos de homem, organização e meio ambiente, que foram mudando ao passar do tempo e são base da Teoria das Organizações. Passou-se da visão de homo economicus (o foco estava nas estruturas organizacionais, na Escola Clássica de estudo da Teoria das Organizações) para a de homo socialis (quando se passou a um foco interno e relacional, com a Escola de Relações Humanas). Posteriormente, com o advento das Teorias de Motivação e Liderança, aperfeiçoou-se o modelo de homem para o homo complexus, que tentava hierarquizar as necessidades psicológicas humanas. Então, aperfeiçoou-se ainda tal visão, passando-se a estudar a construção social da realidade, a influência de fatores inconscientes na ação dos indivíduos (quebra da idéia de previsibilidade da ação humana), numa visão não-determinista do comportamento humano.

Então, há um homem que decide, segundo uma racionalidade limitada, devido à multiplicidade e complexidade de motivações de uma decisão de um ator social. E então, entende-se também a forte vinculação entre a estrutura formal e a organização informal, o que inclui na discussão a dimensão política da organização (homem organizacional). Por fim, falase em homem funcional, ao se tratar do homem que vive cotidianamente os conflitos de papéis.

Todas essas evoluções conceituais de homem acompanharam as evoluções conceituais de organização, classicamente vista como máquina (foco interno e estrutural – sistema fechado), passando a ser considerada esfera cultural, simbólica e política (sistema aberto e adaptativo), e chegando-se à concepção em que um grupo organizacional é encarado como ator social, ativo na construção do ambiente onde atua.

Enfim, junto ao desenvolvimento dos conceitos de organização, foram se desenvolvendo os conceitos de meio ambiente, à medida que se tornavam menos claras as fronteiras da organização. Por volta de 1960, a corrente denominada “contingência estrutural” traz o meio ambiente ao grupo de temas centrais em estudos de Teoria das Organizações, dando origem às diversas áreas de estudo que culminaram em temas como gestão ambiental e responsabilidade social, fortemente marcadas pela transdiciplinaridade que sua complexidade requer.

Resumidamente, com a teoria dos sistemas abertos, considerou-se que a organização se adaptava ao ambiente sócio-técnico e econômico. Posteriormente, com a consideração dos aspectos políticos da organização, os estudos das relações entre a organização e o seu meio ambiente de negócios levaram ao desenvolvimento de um modelo que a encarava como ativa e influenciadora na sua construção. Quer dizer, o conceito de meio ambiente se ampliou, chegando a ser visto como resultado da interação e negociação dos diversos grupos organizacionais, que por sua vez são marcados pelas interações entre indivíduos (MOTTA E VASCONCELLOS, 2006, p. 283).

Nesse sentido, as ações organizacionais são encaradas cada vez mais como forte impactantes na sociedade, no ambiente, o que torna muito importante o estudo desses impactos e de como os diversos profissionais devem tomar suas decisões. Para tanto, busca-se o entendimento de Ramos (2001), que em seu texto defende que o homem contemporâneo tem consciência de carências críticas que vão além do nível da mera sobrevivência e tenta reavaliar a evolução das teorias das organizações usando os seguintes modelos de homem:

- Operacional: que equivale a outras denominações como ao homo economicus, ao homo sociologicus, e ao homo politicus, sendo o modelo predominantemente empregado na ciência política vigente. Este homem conforma-se aos critérios inerentes ao sistema social industrial. Ele é visto como um recurso mensurável e maximizável, que deve ser ajustado à organização.

- Reativo: aparece com a Escola das Relações Humanas, que considera sua complexidade, analisa mais sofisticadamente suas motivações e ligações com o ambiente social externo, bem como considera o sistema social aberto, e a influência dos valores e sentimentos sobre a produção. Este homem reativo dos humanistas continua a ser foco de integração à organização. Perde de vista fatores éticos e valorativos.

- Parentético: considera o homem com uma faculdade específica de ter uma reflexão crítica que o impede de obedecer cegamente a requisitos de eficiência. Trata-se da racionalidade noética, um atributo intrínseco ao indivíduo, que julga a organização, numa sociedade informada, com novas situações sociais que fazem com que estes indivíduos sejam capazes de distanciar-se do meio como um espectador e romper raízes para compreender circunstâncias externas e internas, visualizar oportunidades e buscar sentido à sua própria vida, além de buscar influenciar o ambiente e satisfazer-se com tarefas criativas, inovadoras e que renovem positivamente a realidade social.

Com esse novo modelo de homem, o parentético, as organizações e as relações profissionais precisam desenvolver-se e renovar-se para que representem e possibilitem às pessoas uma participação social verdadeira. Nesse contexto, se amplia a noção de que a tomada de decisão se baseia em informações sobre suas possíveis consequências imediatas ao homem e à organização, para uma noção real de ligação em essência entre homem, organização, sociedade e meio ambiente. Assim busca-se redefinir prioridades e metas, uma revolução na sociedade moderna. Isso porque, como expõe o autor, o homem parentético, muito bem identificável em muitos jovens atualmente, tem grande dificuldade em se adaptar às estruturas tradicionais, visto que tem uma grande reflexão crítica em relação à realidade social, às relações de poder e às ações organizacionais.

O homem parentético estaria então sofrendo com conflitos face às contradições que encara, advindas de conflitos morais e estruturais. Ele já teria internalizado em si valores como responsabilidade sócio-ambiental, de participação efetiva na comunidade local e visão globalizada em suas decisões. Assim, para ele, as irregularidades e disfunções da modernidade estariam bem claras, ao mesmo tempo em que tem uma grande capacidade criativa. As estruturas organizacionais precisam agora, então, renovar-se para acompanhá-lo e ter proveito dessa evolução. Se o homem se modifica, temos novos perfis de usuários para a Contabilidade, e inclusive de operadores.

3.3 A ética na tomada de decisões e sua influência sobre a evidenciação sócioambiental das organizações

As organizações devem lealdade aos chamados stakeholders, aos investidores em geral, ou devem pensar na humanidade e na vida como um todo, numa linha de responsabilidade sócio-ambiental? E como ficaria a credibilidade do sistema financeiro, se não fossem atendidos os interesses dos investidores? Mas, será que esses investidores não são cada vez mais homens parentéticos? A própria criação de índices como o Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISE da Bolsa de Valores de São Paulo - BOVESPA, e seus correlatos estrangeiros não seria um indício nesse sentido? Aí, faz-se necessário apresentar um conceito muito ligado à questão da evidenciação de impactos sócio-ambientais, que seria o de responsabilidade social das organizações.

Usando a definição de Fernandes (2000, p. 06):

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