Tradução de A Economia Argentina

Tradução de A Economia Argentina

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Tradução de A ECONOMIA ARGENTINA, de Aldo Ferrer

Orelha: ALDO FERRER é professor de Estrutura Econômica Argentina na Universidade de Buenos Aires. Exerceu a função de ministro de Economia e Fazenda da Província de Buenos Aires, ministro de Obras e Serviços Públicos e ministro da Economia e Trabalho. Foi presidente do Banco da Província de Buenos Aires e presidente da Comissão Nacional de Energia Atômica. Serviu como conselheiro econômico da Embaixada da Argentina em Londres e foi funcionário da Secretaria Geral das Nações Unidas e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Coordenou a Comissão Organizadora do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais, da qual foi o primeiro Secretário Executivo.

Quarta capa: A ECONOMIA ARGENTINA é um clássico da literatura econômica sobre o desenvolvimento da Argentina. A primeira edição surgiu no início de 1963; desde então foram esgotadas trinta reimpressões, com mais de cem mil exemplares, e a obra foi traduzida para o inglês e o japonês. A aplicação de um enfoque histórico ao estudo das diferentes etapas do processo econômico argentino, em conexão com a evolução do sistema capitalista mundial, e a análise do intrincado contexto político e social em que se desenvolveu esse processo, produziram uma versão original e transcendental da formação econômica argentina, de seus impasses e fracassos mas também de suas possibilidades de mudança e crescimento.

Quarenta anos depois da primeira edição, o livro de Aldo Ferrer continua a ser uma obra de referência inestimável para estudantes e profissionais das disciplinas sociais e econômicas, e também para um público mais amplo interessado em compreender os problemas globais na flutuante e desconcertante trajetória econômica da Argentina.

Nesta nova edição aumentada e atualizada até princípios do século XXI, o autor incorporou análises que tratam das transformações ocorridas nas últimas décadas, tanto na ordem mundial quanto no âmbito nacional. A globalização, o auge do modelo neoliberal e e sua derrocada posterior são abordados a partir de uma perspectiva histórica e comprometida com a busca de soluções para os antigos e os novos dilemas do desenvolvimento argentino.

A ECONOMIA ARGENTINA De suas origens ao início do século XXI

Aldo Ferrer Tradução de S. Duarte

Para Susana, Carmen,

Amparo e Lucinda

Prefácio desta edição

As razões que motivaram a redação desta obra estão expostas nos prefácios de suas versões de 1963 e 1973, e continuam válidas.

A última delas foi publicada quando se avizinhavam acontecimentos que, pouco depois, provocariam uma mudança drástica na evolução da economia argentina. A atual, concluída no início de 2004, contém uma análise de um longo e conflitivo trajeto de mais de trinta anos. As etapas anteriores foram revistas e apresentam perspectivas resultantes de meu trabalho posterior, vinculado à globalização e a diversos problemas do desenvolvimento.

desenvolvimento e densidade nacional, freqüentemente mencionadas no texto

As duas versões anteriores terminavam com uma reflexão sobre o futuro, visto a partir de seus respectivos momentos. É possível que estejamos convivendo agora com o encerramento da etapa da hegemonia neoliberal e às vésperas de novo trajeto, de destino ainda incerto. A parte final da obra trata dessa questão e também de precisar o sentido que atribuo a categorias tais como a globalização,

A.F. Buenos Aires, agosto de 2004

Prefácio da segunda edição

Nesta oitava edição de A Economia Argentina, revi e atualizei a quarta parte da obra, isto é, o período que vai de 1930 aos tempos atuais. A primeira versão, concluída em 1962, definia a etapa do desenvolvimento argentino iniciada em 1930 como de economia industrial não integrada. A década de 1960 explicitou diversas tendências do desenvolvimento do país, as quais revelam que o baixo grau de integração da estrutura industrial é apenas um dos problemas básicos. Aparecem agora, com maior clareza, outros problemas centrais, como o da dependência, o deficit de divisas do setor industrial, a concentração do poder econômico em subsidiárias de empresas estrangeiras e em um Estado burocratizado e divorciado das necessidades do desenvolvimento nacional. Esses problemas exigem nova caracterização. Assim, a etapa iniciada em 1930 agora é definida como de economia semi-industrial dependente.

As três primeiras partes, destinadas a analisar o desenvolvimento econômico do atual território argentino, desde as primeiras colonizações até 1930, permanecem praticamente sem modificações. Na última década, a análise histórica trouxe contribuições substanciais sobre este período da economia argentina. No entanto, preferi limitar a revisão da obra à etapa iniciada em 1930. Isso decorre de dois motivos principais. Primeiro, porque meu trabalho se refere, fundamentalmente, aos problemas atuais da economia argentina. Minha incursão no passado, como se explica no prefácio da primeira edição, teve o objetivo principal de restrear nos tempos de ontem as raízes dos problemas contemporâneos. Segundo, porque penso que as linhas principais das três etapas que identifico no desenvolvimento do país até 1930 continuam válidas. As importantes contribuições à história econômica argentina da última década me sugerem ampliações possíveis da análise realizada, porém não mudanças fundamentais do método analítico empregado, e nem nas conclusões.

Em contraposição, a etapa iniciada em 1930 exige atualização a fim de incorporar a década de 1960, e também uma revisão do conteúdo dos diversos capítulos. Mantém-se a estrutura analítica mas faz-se dentro de cada capítulo uma nova avaliação dos fatos. Em substituição ao capítulo que tratava da política econômica a partir de 1950, encontra-se um novo, destinado a analisar o tema em todo o período, isto é, desde 1930. Como tive, durante breve período, responsabilidade direta na condução econômica do país, procuro explicitar, no momento correspondente, os objetivos e resultados da política seguida. Várias das conclusões expressas aqui se consubstanciaram em medidas governamentais durante essa gestão. Acredito que seu tratamento, além de cumprir o requisito cronológico, contribui para esclarecer meus pontos de vista.

Em sua origem, esta obra teve um propósito de compromisso com os problemas atuais do desenvolvimento do país. A Argentina é excepcionalmente dotada para um grande destino nacional. Nesse sentido, a tomada de consciência do formidável potencial econômico argentino e da magnitude de seu desperdício é uma questão central, à qual a quinta parte dedica algumas considerações. Acima de tudo, o livro ratifica a convicção de que a Argentina pode iniciar já um processo acelerado de crescimento, de afirmação de sua identidade nacional e de melhoria sustentada das condições de vida de seu povo. Na conclusão da obra, procura-se identificar as condições que tornariam isso possível no quadro de uma economia industrial avançada.

A acolhida dispensada a este livro coroa todas as aspirações que um autor dedicado à análise dos problemas econômicos argentinos poderia nutrir. Sete edições foram esgotadas. Isso revela o acerto da avaliação contida no primeiro prefácio, ao assinalar a crescente preocupação da opinião pública com os problemas centrais do desenvolvimento argentino. O livro teve também ampla acolhida nos círculos estudantís, especialmente na área das ciências sociais.

Ao depositar em mãos dos leitores esta nova versão, quero manifestar a esperança de que continue a servir como material de referência para as novas turmas de estudantes de ciências sociais e a estimular a análise dos problemas econômicos argentinos. O debate permanente sobre a realidade argentina e o futuro do país é requisito indispensável para romper as ideologias arraigadas nas estruturas do sistema semi-industrial dependente e abrir caminho para a formação de um sistema econômico e social mais maduro.

A.F. Buenos Aires, janeiro de 1973

Prefácio da primeira edição

A economia argentina é um dos casos mais contraditórios da experiência econômica contemporânea. Apesar de contar com todas as condições consideradas necessárias para um desenvolvimento acelerado e auto-suficiente, o aumento da produção a partir de 1948 somente conseguiu compensar o incremento da população do país, e as condições de vida de amplas camadas sociais não experimentaram avanço algum ou, o que é pior, se deterioraram. Além disso, tem-se produzido nos últimos tempos uma pronunciada contração da atividade econômica, com o conseqüente desemprego da mão de obra e da capacidade produtiva, e a queda dos níveis de renda. Há pouca dúvida de que essas tendências têm relação direta com a prolongada crise e a instabilidade política do país, tanto quanto com a crescente perda do sentido de um destino comum nos diferentes grupos da população argentina.

Estou convencido de que é impossível chegar a uma compreensão adequada das causas do estancamento (inclusive os problemas atuais de curto prazo) sem analisar as raízes históricas da atual situação e as mudanças ocorridas na economia mundial, os quais, tradicionalmente, têm desempenhado papel preponderante no desenvolvimento argentino. Em última instância, a explicação dos problemas atuais se encontra na incapacidade do país de realizar, no tempo devido, os reajustes em sua estrutura econômica necessários para adaptar-se às condições do desenvolvimento econômico moderno e à cambiante realidade internacional.

Procuro efetuar neste livro uma primeira aproximação à análise da formação econômica da Argentina. Cerca de duas décadas de trabalho sobre os problemas do país, tanto no plano acadêmico como em funções no governo, convenceram-me de que o enfoque histórico é o único que permite uma compreensão sistemática e global dos problemas do desenvolvimento nacional, e conseqüentemente a formulação de uma política de fortalecimento da estrutura econômica, de aceleração do ritmo de desenvolvimento e de elevação das condições de vida das maiorias do país. Minha aspiração é que esta obra contribua para estimular a pesquisa empírica e a análise do desenvolvimento argentino com um critério dinâmico, suficientemente amplo para permitir compreender suas correntes profundas e definir metas de realização nacional nesta segunda metade do século X.

Existe na Argentina um interesse crescente pelos temas econômicos, particularmente os que se referem às condições atuais. É claro que a compreensão das relações de causalidade do processo de crescimento, no quadro de uma interpretação objetiva e coerente, constitui condição prévia e indispensável para consolidar uma mentalidade de desenvolvimento nas maiorias do país, sem a qual é inconcebível qualquer processo intenso de crescimento e de afirmação nacional. Procurei fazer com que esta obra contribua para satisfazer essa preocupação crescente da opinião pública do país, tratando de torná-la acessível ao leitor não especializado nos temas nela abordados. Com a mesma finalidade, incluí no final do livro uma nota sobre os termos mais freqüentes da análise macroeconômica, dos quais é difícil prescindir sem obscurecer o discurso. Os economistas verão, portanto, que muitos trechos estão elaborados mais além do que seria necessário em uma obra destinada aos especialistas, e que outros carecem de adequado refinamento analítico.

A bibliografia disponível sobre temas econômicos argentinos não possui até agora material siuficiente e adequado que permita aos estudantes de ciências econômicas e sociais ter acesso aos problemas globais do desenvolvimento argentino em sua perspectiva histórica. Independentemente do grupo mais amplo de leitores a que se destina, esta obra pode contribuir para preencher parcialmente este vácuo, estimulando as novas turmas de estudantes e profissionais das disciplinas sociais e econômicas a integrar um quadro referencial capaz de aplicar proveitosamente as ferramentas da análise econômica à realidade concreta do país.

A.F. Washington, D.C., dezembro de 1962

Introdução

Este livro analisa a formação da economia argentina no decurso de etapas históricas, dentro das quais se desenvolve e se orienta o sistema econômico conforme linhas suscetíveis de determinação. No caso argentino é possível definir com certa precisão linhas divisórias que contêm estruturas e comportamentos perfeitamente diferenciáveis.

Os trabalhos de Celso Furtado sobre a economia brasileira1 me convenceram da utilidade desse tipo de enfoque do processo formativo de uma economia. A definição de etapas, ou, se quisermos, de modelos, permite aos economistas aplicar, ao conjunto de dados e de estimativas básicas de que dispõem, os instrumentos analíticos modernos a fim de descrever o processo de desenvolvimento em termos inteligíveis para o leitor contemporâneo. Por outro lado, esse tipo de enfoque tem a vantagem inestimável de penetrar profundamente nas causas da situação presente e de observar de que maneira estas foram se desenvolvendo, com o correr do tempo, até chegar à atualidade. Desse modo, os problemas cuja análise de curto prazo oferece respostas limitadas surgem com muito mais clareza e se colocam na perspectiva que lhes corresponde. Finalmente, esse método obriga os economistas a considerar o comportamento das forças sociais no processo de desenvolvimento. Tal dimensão costuma ficar fora do âmbito dos problemas que os economistas abordam e apesar disso é indispensável incorporá-la a fim de interpretar corretamente a formação de uma economia.

A primeira das etapas analisadas nesta obra abarca o período compreendido entre o século XVI e o final do século XVIII. Está definida aqui como a etapa das economias regionais de subsistência. Caracteriza-se pela existência de vários complexos econômico-sociais, nas diferentes regiões do país, que produziam basicamente para o consumo interno e a níveis muito baixos de produtividade. Essas

1 Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura Econômica, 1959, e A Economia Brasileira, Rio de Janeiro, A Noite, 1954. Da primeira das obras citadas existe tradução para o espanhol pelo Fondo de Cultura Económica, 1962.

economias regionais permaneceram alheias à ampliação dos mercados por meio do comércio inter-regional e internacional.

O segundo período abarca desde o final do século XVIII até cerca de 1860, e o definimos como etapa de transição. Durante esse período surge pela primeira vez na história do atual território argentino uma atividade que foi cada vez mais se integrando no mercado mundial: a produção de couros e outros produtos da pecuária. Além disso, com a liberalização do regime comercial espanhol no fim do século XVII e a independência conseguida em 1810, o porto de Buenos Aires pôde aproveitar totalmente sua localização geográfica e converter-se em ponto de intermediação do comércio exterior.

A terceira etapa, que definimos como de economia primária exportadora, se iniciou em torno de 1860, quando a Argentina começou a incorporar-se ao comércio internacional em expansão, e terminou por ocasião da crise econômica mundial de 1930. Durante esse período, a expansão das exportações agropecuárias, a chegada de numerosos contingentes migratórios e o aporte de capitais estrangeiros transformaram em poucas décadas a estrutura econômica e social do país.

A quarta etapa, definida como de industrialização não concluída, vai de 1930 ao princípio de 1976. Em meados da década de 1970 o sistema político explodiu e produziu-se uma mudança radical na orientação da política econômica. Esses fatos deram fim a uma etapa que se caracterizou pela existência de uma estrutura econômica e social diversificada e comparável, em alguns aspectos, às das economias avançadas modernas, mas que não havia conseguido formar uma economia industrial moderna.

No último período, inaugurado com o golpe de estado de março de 1976, instalou-se o paradigma neoliberal, com peso decisivo da especulação financeira e um aumento dramático da vulnerabilidade externa. Essa etapa apresenta uma profunda deterioração da taxa de crescimento da produção e das condições sociais. Nela ocorreu também o retorno ao regime democrático, em 1983, encerrando a alternância de governos civis e militares que havia começado em 1930.

Atualmente, no início do século XXI, após a queda da estratégia neoliberal e as mudanças na ordem mundial, a Argentina volta a enfrentar seu problema antigo e ainda não resolvido: construir uma economia viável e assumir o comando de seu próprio destino dentro do sistema internacional.

Nos tempos da primeira (1963) e da segunda (1973) versões desta obra, ainda não se utilizavam as expressões globalização e ordem global, que pretendem abarcar as extraordinárias transformações do sistema internacional nas últimas décadas, às quais dediquei parte de minhas publicações de então a esta parte2 . Na introdução daquelas edições lê-se o seguinte:

Os fatores externos desempenharam permanentemente um papel decisivo no desenvolvimento do país. Por isso, no início de cada parte, procuro traçar a moldura dentro da qual transcorrerá a etapa cuja análise se

2 Ver Historia de la globalización; orígenes de orden económi co mundial, 1966; Historia de la globalización: la revolución industrial y el Segundo Orden Mundial, 1999; Hechos y ficciones de la globalización, 1997; De Cristóbal Colón a Internet: América latina y la globalización, 1999, todos publicados pelo Fondo de Cultura Económica. .

inicia, e isso leva, necessariamente, a fornecer uma série de dados e avaliações sobre a economia mundial de cada período.

Temos agora tantos motivos, e talvez mais, do que naquela época, para vincular a evolução da economia argentina às transformações da ordem mundial. Nas últimas décadas, a aceleração da revolução científico-tecnológica aprofundou a globalização canalizada através do comércio, das finanças, os investimentos transnacionais e as comunicações. Esses fatos multiplicaram os riscos e oportunidades que o comércio externo apresentou à Argentina ao longo de sua história.

As respostas a semelhantes desafios constituem o tecido da formação da economia argentina e de seus problemas no início do século XXI. Portanto, são parte essencial da narrativa desta obra e estão presentes desde sua concepção inicial, há mais de quarenta anos.

As economias regionais de subsistência (séculos XVI e XVII)

I. As vésperas da globalização

Os acontecimentos que culminariam com a formação do primeiro sistema mundial começaram muito antes do desembarque de Cristóvão Colombo no Novo Mundo. A viagem de Colombo, como também a primeira chegada de navios portugueses à costa da Índia sob o comando de Vasco da Gama, ambos na última década do século XV, resultaram do processo de expansão comercial dos povos cristãos da Europa durante a Idade Média e da ampliação simultânea do conhecimento científico e de suas primeiras aplicações à navegação, às artes da guerra e, gradualmente, à produção de bens e serviços. O início da globalização obedeceu, portanto, à formação de uma rede de viagens e comércio que abarca todo o planeta e à abertura das fronteiras, até então inéditas, do conhecimento e da tecnologia. Nesse panorama mundial ocorreram a conquista, o povoamento e as atividades econômicas do atual território argentino. Examinemos, primeiro, o comércio às vésperas da globalização.

1. Papel dinâmico do comércio

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