Otelo o Mouro de Veneza

Otelo o Mouro de Veneza

(Parte 1 de 13)

O Mouro de Veneza William Shakespeare

ATO I Cena I

Cena I

Cena I

ATO I Cena I

Cena I

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Cena I

ATO I Cena I

Cena I

Cena I

Cena IV

ATO IV Cena I

Cena I

Cena I

ATO V Cena I

Cena I

Personagens

O Doge de Veneza. BRABÂNCIO, senador. Outros senadores. GRACIANO, irmão de Brabâncio. LUDOVICO, parente de Brabâncio. OTELO, mouro nobre, a serviço da República de Veneza. CÁSSIO, seu tenente. IAGO, seu alferes. RODRIGO, fidalgo veneziano. MONTANO, governador de Chipre antes de Otelo. BOBO, criado de Otelo. DESDÊMONA, filha de Brabâncio e esposa de Otelo. EMÍLIA, esposa de Iago. BIANCA, amante de Cássio. Marinheiro, oficiais, gentis-homens, mensageiros, músicos, arautos, criados.

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Cena I

Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.

RODRIGO - Cala-te! Não me fales. Aborrece-me demais verificar que justamente tu, Iago, que dispunhas à vontade de minha bolsa, como se teus fossem seus cordões, conhecesses isso tudo...

IAGO - Mas escuta-me, ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. RODRIGO - Dito me havias que lhe tinhas ódio.

IAGO - Despreza-me, se não for assim mesmo. Três pessoas de grande influência aqui vieram falar-lhe, chapéu na mão, com humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha fé de homem, tenho plena consciência do que valho; não mereço posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultando somente o orgulho e os próprios interesses, furtou-se com fraseado bombástico, recheado só de epítetos de guerra. Em conclusão: não entendeu aos meus intercessores. "Pois já escolhi meu oficial", lhes disse. E quem é ele? Ora, por minha fé, um matemático, um tal Micael Cássio, um florentino, um tipo quase pelo próprio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que nunca comandou nenhum soldado um campo de batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudição de livros, simplesmente, sobre o que podem dissertar com a mesma proficiência que a dele os nossos cônsules togados; palavrório sem sentido, carecente de prática: eis sua arte. No entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, que aos próprios olhos dele provas cabais já dera em Chipre e Rodes e em muitos outros pontos habitados por cristãos e pagãos, terei de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, só por causa do dever-e-haver de um simples calculista, que - oh tempos! - vai tornar-se tenente, enquanto que eu - Deus me perdoe! - continuarei sendo do Mouro o alferes.

RODRIGO - Pelo céu, preferira ficar sendo carrasco dele.

IAGO - Já não há remédio. É a maldição do ofício: as promoções se obtêm só por pedidos e amizades, não pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do primeiro. Ora, senhor, ajuizai vós mesmos se razões tenho para amar o Mouro.

RODRIGO - Assim, eu não ficara sob suas ordens.

IAGO - Ó senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens é só em proveito próprio. Mestres nem todos podem ser, nem todos os mestres podem ter bons servidores. Já tereis visto por aí bastantes sujeitos obsequiosos, de flexíveis joelhos que, apaixonados pela própria escravidão, o tempo todo gastam como o asno do amo, só pela comida; e, quando ficam velhos: despedidos. Chicote nessa gente muito honesta! Outros há que sabendo a forma externa revelar do dever, as feições próprias, o coração conservam sempre atentos no proveito pessoal; enquanto aos amos dispensam mostras de serviço, apenas, prosperam muito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes forram, a si próprios prestam boa homenagem. Esses tipos têm alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afiançar-vos. Pois senhor, tão certo como serdes Rodrigo, se em verdade eu fosse o Mouro, não queria um Iago so minhas ordens, pois seguindo-o, apenas sigo a mim próprio. O céu é testemunha: não me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, só o interesse. Se as mostras exteriores de meus atos me traduzissem os motivos próprios do coração em traços manifestos, carregaria o coração na manga, para atirá-lo às gralhas. Ficai certo: não sou o que sou.

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RODRIGO - Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se puder, realmente, levar isso até ao fim.

IAGO - Chama o pai dela; desperta-o; corre atrás do Mouro, põe-lhe veneno na alegria; o nome dele proclama pelas ruas, os parentes dela deixa excitados, e ainda que ele more em clima adorável, atormenta-o com praga de mosquitos. Muito embora sua alegria seja verdadeira, com tais contrariedades e persegue, que a cor a perder venha.

RODRIGO - Fica aqui mesmo a casa do pai dela; vou chamar em voz alta.

IAGO - Mas com vozes de medo e uivos terríveis, como quando por negligência, à noite, o fogo estala num burgo populoso.

RODRIGO - Olá, Brabâncio! Senhor Brabâncio, olá!

IAGO - Ladrões! Brabâncio! Brabâncio, despertai! Ladrões! Ladrões!, Cuidai de vossa casa, vossa filha, de vossos cofres! Acordai! Ladrões!

(Brabâncio aparece na janela.) BRABÂNCIO - Qual é o motivo de tão grande bulha? Que aconteceu? RODRIGO - Senhor, tendes aí dentro toda vossa família? IAGO - Vossos quartos estão fechados? BRABÂNCIO - Ora, qual a causa de perguntardes isso?

IAGO - Com mil diabos, senhor, fostes roubados; por vergonha, ide vestir a toga; arrebentado tendes o coração; metade da alma já vos foi alienada. Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro etá cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do contrário, o diabo vos fará ficar avô. Despertai! E o que eu digo.

BRABÂNCIO - Mas que é isso! Perdestes o juízo? RODRIGO - Venerável senhor, reconheceis-me pela voz? BRABÂNCIO - Não; mas quem sois? RODRIGO - Rodrigo; assim me chamo.

BRABÂNCIO - Pior nome não podias revelar-me. Não te proibi de me rondar a casa? Não me ouviste dizer, com leal franqueza, que para ti não era minha filha? Por que me vens agora, transtornado pela ceia e os vapores da bebida, com tua tratantagem maliciosa perturbar-me o repouso?

RODRIGO - Meu senhor, senhor, senhor...

BRABÂNCIO - Mas podes ficar certo de que minha coragem e meu posto na república têm poder bastante para fazer-te amargurar por isso.

RODRIGO - Paciência, bom senhor. BRABÂNCIO - Por que me falas em roubo? Estamos em Veneza; minha casa não é uma granja. RODRIGO - Venerável senhor, vim procurar-vos com lisura.

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IAGO - Ora, senhor! Sois uma dessas pessoas que se negariam a servir a Deus, se fosse o diabo que lhes ordenasse. Por que viemos prestar-vos um serviço e nos tendes na conta de velhacos, quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos netos relinchem atrás de vós? Quereis ter cordeis como primos e ginetes como parentes?

BRABÂNCIO - Quem és tu, miserável licencioso?

IAGO - Sou um homem, senhor, que vim revelar-vos que vossa filha e o Mouro se acham no ponto de fazer o animal de duas costas

IAGO - E vósum senador.

BRABÂNCIO - Sois um vilão. BRABÂNCIO - Vais pagar-me. Conheço-te, Rodrigo.

RODRIGO - Responderei por tudo. Mas pergunto-vos, senhor, se foi com vosso assentimento, vosso sábio conselho - como quase fico a pensar - que vossa linda filha, na calada de noite tão escura, saiu em companhia de um sujeito nem melhor nem pior do que um velhaco por qualquer alugado, num gondoleiro, para aos abraços torpes entregar-se de um Mouro luxurioso; se, realmente, sabeis de tudo e concordais com isso, bem: nesse caso é certo vos fazermos inominável e atrevida ofensa. Mas se desconheceis o que se passa, ensina-me o costume que não tendes razão de censurar-nos desse modo. Não creiais que tão falho eu me revele de cortesia, para vir agora zombar de vossa grande reverência. Vossa filha - de novo vos declaro - se não lhe destes permissão, mui grave pecado cometeu, unindo o espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro andejo e desgarrado daqui e de toda parte. Convencei-vos neste momento: se no quarto dela fordes achá-la, ou mesmo em toda casa, entregai-me à justiça da república por vos ter enganado desse modo.

BRABÂNCIO - Acendei fogo! Olá! Dai-me uma vela! Despertai todo mundo. Este incidente não destoa dos sonhos que já tive. Só de pensar em tal, me sinto opresso. Luz, repito! Um vela! (Retira-se da janela.)

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