conhecimento e necessidade de aprendizagem dos estudantes de fisioterapia sobre hanseniase

conhecimento e necessidade de aprendizagem dos estudantes de fisioterapia sobre...

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Hansen Int 2007; 32 (1): 9-18.Hansenologia Internationalis |

INTRODUÇÃO: A hanseníase se constitui importante problema de Saúde Pública no Brasil, tendo, no entanto, negligenciada sua importância e valorização na formação das profissões da saúde, mesmo nos países endêmicos. No caso específico do fisioterapeuta, faz-se necessário o ensino da hansenologia nos cursos de graduação no Brasil, para se atuar nas condições de saúde da população diante da problemática da Hanseníase. OBJETIVO: descrever e analisar conhecimentos de estudantes de fisioterapia sobre hanseníase, antes do contato formal na Universidade/Faculdade com a temática. METODOLOGIA: estudo qualitativo, realizado com 51 estudantes de graduação em fisioterapia do quarto ano de escola do interior do estado de São Paulo, em 2004. Na coleta dos dados, utilizou-se questionário auto-aplicado, com questões abertas. A partir da análise qualitativa das respostas realizou-se a categorização das mesmas. RESULTADOS: identificou-se que estudantes do último ano do curso de fisioterapia expressaram desconhecimento e/ou conceitos incompletos ou inadequados, frente a literatura, sobre hanseníase e os seguintes aspectos devem ser enfatizados no ensino da hansenologia: doença hanseníase; preconceito que os doentes vivenciam e como enfrentá-lo; educação em saúde e atuação do fisioterapeuta na hanseníase. Em relação à organização do ensino, identificou-se que Universidades/Faculdades devem construir estratégias para valorizar a hanseníase como um problema de Saúde

Pública. CONCLUSÃO: evidenciou-se a necessidade de aprimoramento do ensino da hansenologia no curso de graduação em Fisioterapia, com abordagem do tema desde o início da formação, para que fisioterapeutas possam prestar o cuidado adequado frente a problemática da hanseníase e contribuir com o Programa de Controle da Hanseníase. Palavras-chave: ensino superior; hanseníase; preconceito; fisioterapia.

INTRODUCTION: The Leprosy constitutes a significant problem of Public Health in Brazil, however its importance and valuation in the preparation of the health professions has been neglected, even in the endemic countries. In the specific case of the physiotherapist, the hansenology teaching in the graduation’s course in Brazil becomes necessary, to deal in the future with the health conditions of the population with the Leprosy’s problematic. OBJECTIVE: To describe and analyze the previous knowledge of physiotherapy’s students on

COnhECiMEnTOS E nECESSidAdES dE ApREndizAgEM dE ESTUdAnTES dE fiSiOTERApiA SOBRE A hAnSEníASE

Knowledge and necessities of learning of physiotherapy’s students about Leprosy.

1 Professora Doutora Assistente. Departamento de Saúde Pública. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) Distrito de

Rubião Junior,s/n, Faculdade de Medicina de Botucatu, S/P, CEP:18618-0 2 Professor Assistente Doutor- Departamento de Dermatologia - Universidade Estadual Paulista-Júlio de Mesquita Filho (UNESP)-Destrito de Rubião Junior,s/n, Faculdade de Medicina de Botucatu,S/P,CEP:18618-0

Dias A, Cyrino EG, Lastória JC. Conhecimentos e necessidades de aprendizagem de estudantes de fisioterapia sobre a hanseníase. Hansen Int. 2007;32(1): 9-18.

artigos originais

Andréia Dias1

Eliana Goldfarb Cyrino1 Joel Carlos Lastória2

10Hansen Int 2007; 32 (1): 9-18.| Hansenologia Internationalis leprosy during the professional preparation of the physiotherapist. METHODOLOGY: It is a qualitative study on leprosy knowledge among 51 students of physiotherapy in a Sao Paulo State school, in 2004. For the survey an auto-applied questionnaire with guided questions was used to collect the data. A qualitative analysis was done by categorization. RESULTS: It was identified unfamiliarity and/or inadequate concepts about leprosy and the following aspects must be emphasized in the hansenology teaching: the hansen’s disease; the preconception that the sick people live and how to face it; the health education and the performance of the physiotherapist in leprosy. In relation to the organization of education, it was identified that the Universities/Colleges must construct bigger strategies of motivation, valuing leprosy as a Public Health’s problem. CONCLUSION: It was proven the necessity of the hansenology’s education in the undergraduation courses of physiotherapy, so that the physiotherapists can give adequate assistance to the problematic of leprosy and contribute with the Program of Leprosy Control. Key Words: high education; leprosy (hansen’s disease); prejudice; Physical Therapy.

inTROdUÇÃO

perfeitos, como os de outra pessoa qualquerde-

“...A minha pele, os cabelos, as mãos e os pés eram pois, não sei precisar exatamente quando, as mãos foram atrofiando, os dedos encurtando e endurecendo. Hoje as minhas mãos não seguram mais nada, prego, martelo, talheres. Para comer já está difícil e para escrever o nome, então, é uma briga. Só funcionam os três primeiros dedos da mão esquerda e eles ainda não são perfeitos”¹.

A hanseníase é uma doença de alto potencial para produzir deformidades e incapacidades físicas. Estas, por sua vez, além de impedirem que o indivíduo possa trabalhar, estigmatizam-no e são responsáveis por sua marginalização social²,³.

Moreira (2003) 4, aponta que, até 2003, a Índia era considerada o país com maior número de casos de hanseníase no mundo, ocupando o Brasil o segundo lugar. O objetivo do programa lançado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) era eliminar a hanseníase até 2005. A meta brasileira, nesse prazo, era reduzir a incidência da doença a até menos de um caso por dez mil pessoas. A partir de 2005, a Índia anunciou a eliminação da hanseníase como um problema de saúde pública 5.

As deformidades, as incapacidades físicas e demais conseqüências da hanseníase, decorrentes do comprometimento neurológico, poderão estar presentes no doente justamente porque o Mycobacterium leprae

(bacilo de Hansen), causador da doença, possui uma predileção no acometimento de nervos periféricos. Tais nervos, por serem mistos, quando comprometidos, geram alterações sensitivas como hipoestesia e anestesia, as quais favorecem o aparecimento de mal perfurante plantar e ou palmar; alterações motoras como as atrofias, paralisias, bloqueios articulares, os quais favorecem o aparecimento de deformidades e incapacidades físicas e, também, geram alterações autonômicas como pele seca, sem flexibilidade e com fissuras6,7.

Como apresenta Cavaliere (2006) 8 , o doente de hanseníase passa por inúmeros conflitos como perda da capacidade laborativa, modificação do corpo com o aparecimento das deformidades, discriminação, preconceito e alteração da sua auto-estima.

Para Opromolla (1988)2, para enfrentar a problemática da hanseníase em nosso país como um problema de saúde pública, exige-se a melhor formação dos profissionais de saúde, seja na graduação, seja durante a prática profissional. No ensino de graduação nas diferentes áreas e profissões da saúde, o autor sugere que, pelo fato de a doença acometer o paciente de diferentes formas e em diversos aparelhos, todas as profissões da área da saúde deveriam promover sua aprendizagem. Complementa enfatizando que, se diferentes áreas de atuação e especialidades, nas profissões da área da saúde nas Universidades, discorressem sobre sua participação no controle da hanseníase, os alunos e futuros profissionais estariam mais preparados para enfrentar os problemas que envolvem essa doença.

Oliveira (1987)9 , Lastória et. al (2003)10 e Eidt (2004)1 complementam que a qualificação do ensino da hansenologia durante a formação profissional na área da Saúde pode contribuir para o diagnóstico precoce, suas conseqüências e seqüelas e para a melhoria da qualidade do cuidado ao doente.

Eidt (2000)1 observa, em sua vivência diária, a importância da participação de profissionais da saúde de diferentes formações como fisioterapeutas, enfermeiros, médicos generalistas e especialistas para diagnóstico e acompanhamento dos doentes de hanseníase.

Para Moreira (2003)4, com a implantação da estratégia do Programa de Saúde da Família no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, nos últimos anos, a hanseníase, que sempre foi trabalhada como uma especialidade médica, passa a ter sua inserção dentre as ações básicas de saúde. “Trata-se de uma mudança cultural, uma mudança de comportamento. Então, aquele médico generalista que não foi preparado para trabalhar com a hanseníase, tuberculose, Aids e todas as ações básicas de saúde, tem que assumir, de uma hora para outra, uma gama de procedimentos específicos para cada área”4.

Assim, vários autores destacam que, dentre os vários fatores que têm dificultado o controle da hanseníase, o baixo nível de conhecimento sobre a doença entre

Hansen Int 2007; 32 (1): 9-18.Hansenologia Internationalis |1 alunos e profissionais de medicina e de outras áreas da saúde é preponderante, considerando-se que o ensino sobre hanseníase tem sido negligenciado nas escolas que oferecem cursos na área de saúde, mesmo nos países endêmicos2,10,1,12.

No caso específico da formação do fisioterapeuta, faz-se necessário o ensino da hansenologia nos cursos de graduação em Fisioterapia, para que o profissional da saúde possa, no seu cotidiano, ser capaz de lidar com as condições de saúde da população diante da problemática da Hanseníase. Para Rebelatto (1999)14, “lidar”, nesse contexto, significa ir além de uma atuação que objetive somente curar doenças ou auxiliar na recuperação de indivíduos já lesados, ou seja, executar um trabalho cujo objetivo maior consiste em propiciar um “estado” de condições de saúde que permitam um elevado grau de cuidado e segurança à população. Para isso, é necessária a promoção à saúde, além da assistência curativa e reabilitadora.

No presente estudo, identificou-se, na literatura examinada, uma ausência de pesquisas no Brasil que abordassem conteúdos e metodologias de ensino da hanseníase para as profissões da saúde e, especificamente, para a formação de fisioterapeutas, após extensivo trabalho de pesquisa nas fontes Biremi, Medline, Lilacs, Scielo, Usp, Unesp, Unicamp. Embora se tenha o conhecimento de que várias instituições de ensino superior, em nosso país, privilegiem o ensino da hanseníase, não se encontrou pesquisa ou relato sobre o processo de ensino-aprendizagem da hanseníase nas graduações das profissões da saúde.

Justifica-se, assim, a realização de estudos que abordem a temática, chamando-se a atenção das escolas de ensino superior das diversas profissões da saúde sobre a necessidade de qualificação da formação profissional para o trabalho com a hanseníase.

A presente pesquisa investigou conhecimentos de estudantes de fisioterapia sobre hanseníase, antes de os mesmos terem contato formal na Universidade/Faculdade com a temática em questão. Objetivou-se, assim, descrever e analisar o conhecimento dos estudantes sobre a doença e sobre a atuação do fisioterapeuta no cuidado ao paciente com hanseníase, e, a partir da análise do material, levantar tópicos sobre a hanseníase para serem abordados no processo de ensino-aprendizagem da Hansenologia durante a formação profissional do fisioterapeuta, com vistas a aperfeiçoar o conteúdo programático sobre o tema.

METOdOLOgiA

Esse artigo foi concebido a partir do projeto de pesquisa: “O processo de ensino-aprendizagem da hansenologia na formação profissional de graduandos de fisioterapia”, desenvolvido no programa de Pós-Gra- duação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (parecer nº. 148/2003).

A presente pesquisa utilizou-se da metodologia qualitativa aplicada à saúde, concepção trazida das Ciências Humanas, segundo a qual “não se busca estudar o fenômeno em si, mas entender seu significado individual ou coletivo para a vida das pessoas” 15.

Minayo16, aponta as metodologias qualitativas como: “[...] aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas”.

A presente pesquisa utilizou-se da metodologia qualitativa para buscar entender mais profundamente certos significados, idéias e comportamentos de um grupo de estudantes de graduação em fisioterapia em relação a hanseníase e o trabalho do fisioterapeuta na atenção à saúde do paciente portador da referida doença.

A coleta dos dados ocorreu em 2004, durante o desenvolvimento da disciplina de Fisioterapia Preventiva com a participação do grupo de 51 alunos regularmente matriculados no quarto ano de graduação em Fisioterapia de uma instituição de ensino superior do interior do estado de São Paulo.

A escolha do local e do grupo de estudantes, sujeitos desse estudo, se deve ao fato de um dos pesquisadores ser docente na instituição, possibilitando, assim, um maior contato e participação integrativa com os sujeitos da pesquisa. A direção da escola pesquisada foi esclarecida sobre os objetivos da pesquisa, e a instituição emitiu parecer favorável a sua realização.

Para a coleta dos dados, utilizou-se questionário auto-aplicado (anexo 1), com questões abertas, para o levantamento dos conhecimentos, motivações e interesses dos estudantes de fisioterapia sobre a hanseníase e seu processo de ensino- aprendizagem. O questionário foi aplicado em estudo piloto, anteriormente ao início da presente pesquisa e foram feitas as necessárias modificações para sua melhor adequação.

Após a aplicação do questionário, foi feita análise do material por categorização para melhor compreensão e interpretação das respostas dos estudantes. Realizada leitura das respostas dos estudantes, selecionaram-se palavras e frases que foram repetidas com maior freqüência ou enfatizadas pelos estudantes; as palavras e as frases que se relacionaram entre si ou que possuíram características ou aspectos em comum foram agrupadas, estabelecendo-se categorias, procedendo-se à análise e interpretação dos dados. Foram “agregados em um discurso- síntese os conteúdos discursivos”17 que se assemelhavam nas respostas dos sujeitos distintos.

12Hansen Int 2007; 32 (1): 9-18.| Hansenologia Internationalis

Cada estudante, sujeito da pesquisa “contribuiu com sua cota de fragmento de pensamento para o pensamento coletivo”18 . As categorias de análise estabelecidas foram: a definição e ou concepção sobre a doença hanseníase; o preconceito que os doentes vivenciam e como enfrentá-lo; a educação em saúde e a atuação do fisioterapeuta na hanseníase.

RESULTAdOS E diSCUSSÃO

Responderam ao questionário 51 estudantes de fisioterapia com idade entre 20 a 25 anos, que estavam, em 2004, cursando o 4º ano de graduação, podendo ser, assim, considerado um conjunto de indivíduos pertencentes a uma determinada coletividade e que, apesar de se expressarem de forma individualizada, a análise dos dados guardam grande semelhança.

A percepção dos estudantes sobre a hanseníase

A primeira categoria relaciona-se a definição/concepção da doença pelos estudantes, sendo possível observar respostas, que mesmo parcialmente incompletas, estão de acordo com os referenciais teóricos que apontam a hanseníase como nova terminologia dada à antiga lepra19,20, como doença infecto-contagiosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, também conhecido como bacilo de Hansen, que se manifesta, principalmente, por meio de sinais e sintomas dermatoneurológicos21,225, identificado nas respostas “...uma doença que afeta a inervação periférica do indivíduo”; “pode levar à alteração de sensibilidade (acomete nervos periféricos)”; “... doença que afeta principalmente a pele do paciente...”; “... é uma patologia relacionada com a pele do paciente...”; “é uma doença infecto-contagiosa...”; “uma patologia causada por um bacilo chamado Bacilo de Hansen”; “é uma doença curável”; “um novo nome dado a doença Lepra”.

A partir de 1982, a Organização Mundial de Saúde recomendou um novo tratamento quimioterápico para a hanseníase, que passou a ser adotado pelo Ministério da Saúde: a poliquimioterapia (PQT), que leva os doentes à cura.

Chamam a atenção respostas como “...é uma doença que aparece silenciosa...”, visto que a hanseníase se manifesta através de sinais e sintomas dermatoneurológicos, ou seja, nos ramos sensitivos cutâneos e nos troncos nervosos periféricos, provocando diminuição ou ausência de sensibilidade de pele e incapacidades ou deformidades respectivamente (Brasil, 2001)23. Moreira (2003)4 cita que, no entanto, como a doença pode se iniciar como uma mancha, que não dói, pode levar, entre o intervalo de aparecimento dos sintomas até o diagnóstico, em média, de um ano e meio a dois anos.

Alguns alunos demonstram confusão entre os termos infecto-contagiosa e auto-imune ao mencionarem, “é uma doença auto-imune, a qual poderá ser adquirida pelo meio em que se vive (de outra pessoa contaminada)”ou “é adquirida de outra pessoa contaminada”, identificando-se uma compreensão superficial e ou incompleta sobre o conceito dessa doença.

Fisioterapia, no momento do estudo

Sobre o contato anterior a realização da disciplina com um doente de hanseníase, com o tema e com a prática do cuidado com o paciente, portador dessa doença, pode-se perceber que poucos alunos o tiveram, tendo sido o mesmo próximo à realização da pesquisa, depreendendo-se assim que o mesmo ocorreu poucas vezes, com poucos alunos e de forma tardia, uma vez que esses estudantes cursavam o 4º e último ano de

Dentre os alunos que mencionaram ter tido contato, o mesmo ocorreu em campo de estágio, no hospital, na vida pessoal e na Unidade Básica de Saúde.

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