Ergonomia

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Introdução à Ergonomia Página 16 Prof. Mario Cesar Vidal

GENTE - Grupo de Ergonomia e Novas Tecnologias CESERG - Curso de Especialização Superior em Ergonomia.

Para uma ordenação desse campo empregamos uma classificação destes conteúdos, sugerida pela International Ergonomics Association (IEA): ergonomia física, cognitiva e organizacional. Para simplificar essa divisão subdividiremos a ergonomia física em ergonomia do posto e ergonomia ambiental, formando assim nossa divisão de conteúdos (figura 5).

Esta classificação tem apenas finalidades didáticas para compreensão de conceitos. Uma realidade de trabalho é um sistema complexo onde cada um dos aspectos intervêm a seu modo porém de forma interdependente ou sistêmica.

Figura 5 : Campos da ergonomia contemporânea

Assim sendo, podemos formar uma base de conhecimento em ergonomia através dos constituintes físicos, cognitivos e organizacionais, mas sem esperar que cada um destes elementos influa de forma isolada e comportada na realidade complexa do trabalho.

Por ergonomia física entenderemos o foco da ergonomia sobre os aspectos físicos de uma situação de trabalho. E eles são inegavelmente reais: trabalhar engaja o corpo do trabalhador exigindo-os de várias formas ao longo da jornada de trabalho. A ergonomia física busca adequar estas exigências aos limites e capacidades do corpo, através do projeto de interfaces adequadas para o relacionamento físico homem-máquina : as interfaces de informação (displays) as interfaces de acionamentos (controles). Para tanto são necessários diversos conhecimentos sobre o corpo e o ambiente físico onde a atividade se desenvolve.

Numa primeira simplificação, consideremos que o corpo tem um sistema músculoesquelético movimentado por uma central energética. O sistema esquelético confere ao corpo suas dimensões antropométricas: estatura, comprimento dos membros, capacidades de movimentação limitadas, alcances mínimos e máximos. Por óbvio que possa parecer, um dos aspectos mais importantes da Ergonomia é que o posto de trabalho, seus utensílios e elementos estejam de acordo com as dimensões do ocupante do posto de trabalho. Nisto consiste o capitulo da antropometria como disciplina fundamental da ergonomia. A inadequação antropométrica produz o desequilíbrio postural estático, fator causal das LER/DORT, mas igualmente a de lombalgias, ciáticas e outros problemas fisiátricos.

Para que o sistema esquelético se movimente e se mantenha em determinadas posições, a ele está acoplado o sistema muscular que pode ser primariamente assimilado a um conjunto de cabos extensores em oposição. O sistema muscular tem a propriedade de poder se contrair e inversamente se distender e essa propriedade requer consumo de energia, provida ao corpo pelo metabolismo, que é a maravilha da natureza que transforma alimento e ar em energia no interior do organismo. A atividade de trabalho deve estar adequada às possibilidades musculares e do metabolismo humano e nisto consiste o segundo capítulo da ergonomia física, a saber a fisiologia do trabalho. Retomando um exemplo já citado, o desconhecimento da fisiologia produziu problemas para os aviadores, mas o mesmo se deu com mineiros, empregados em linhas de monta-

Organizacional Cognitiva

Fisica Posto de Trabalho

Ambiente Fisico

Individual Coletiva

Normalidade Anormalidade

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gem e mais recentemente no pessoal de escritório. As inadequações fisiológicas agravam e ampliam os problemas de inadequação antropométrica já aludidos.

Finalmente este organismo músculo-esquelético e dotado de um sistema de transformação de energia, um metabolismo interage com o ambiente em que se encontra realizando uma homeostase, suando no caso de temperaturas elevadas, sentindo odores e sabores, sendo facilitado ou dificultado nessa integração ao locus da atividade pela qualidades acústicas e lumínicas deste ambiente. Estabelece-se um domínio de conhecimentos de ergonomia ambiental, também podendo ser chamado de ecologia humana.

Trata-se de um grande capítulo da ergonomia e que responde pela maior parte dos trabalhos e livros até hoje publicados. Exatamente por isso é uma tarefa quase impossível sintetizar este campo. Neste sentido nossa opção é de , neste momento, ilustrar o campo com o esquema global proposto por Grandjean (1977).

Figura 6 : O "caldeirão" da Fadiga de Grandjean

Os temas mais freqüentemente estudados pela ergonomia física têm sido: (a) Posturas desfavoráveis (b) Força excessiva demandada (c) Movimentos repetitivos (d) Transporte de cargas

A utilidade da ergonomia física está na contribuição decisiva que fornece a muitos problemas verificados nos sistemas de trabalho. No campo dos postos de trabalho, problemas antropométricos e posturais efetivamente se verificam numa grande quantidade sejam eles industriais, agrícolas ou de serviços. Nos dois primeiros a atividade é em geral agravada pelo fato das tarefas comportarem igualmente uma importante parcela de manuseio de materiais. As contribuições da ergonomia física, nesse aspecto, têm sido muito grande, tanto que o Governo dos EUA acaba de promulgar um vasto programa de ação ergonômica a nível governamental, com uma série de incentivos para as empresas que adotarem programas de ergonomia com uma forte conotação neste campo da ergonomia física12.

No campo ambiental, aqui significando o meio-ambiente de trabalho, a ergonomia tem igualmente grandes contribuições para o agenciamento adequado desses ambientes. A mais importante delas está em que ao se colocar as mudanças necessárias a partir de seu ponto de vista -

12 Naturalmente não se trata de altruísmo ou consciência ergonômica pura. Os custos sociais dos distúrbios músculoesqueléticos pularam, naquele país, de 2,1 bilhões de dólares em 1997 para cerca de seis milhões em fins de 1999. Somadas com as lombalgias e outras disfunções fisiátricas, a conta já ultrapassa os 9 bilhões de dólares. Por outro lado existe o poderoso lobby das seguradoras que vêem aumentar seus custos sem poderem repassá-los aos segurados de forma mecânica. Quanto a nós, brasileiros, e guardadas as devidas proporções, nada existe que nos poupe de estarmos diante de um quadro no mínimo análogo ao dos americanos do norte.

Fadiga

Intensidade e duração da atividade física e mental

Componentes Psicossomáticos

Ritmos

BiológicosAmbiente Físico

Recuperação

Nutrição

Dores e doenças

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o da atividade - e com sua orientação tecnológica - adequação das interfaces , pode prevenir problemas decorrentes das mudanças apenas parciais e por isso mesmo seus efeitos se situam entre insuficientes e inócuos.

No campo dos postos de trabalho, as especificações da Ergonomia física se orientam para modificações do contexto físico do trabalho que evitem a produção de esforços excessivos ou inadequados como os movimentos repetitivos. Essas especificações colocam como exigência, em geral, reconfigurações do posto de trabalho que irão implicar em mudanças na tecnologia física que muitas vezes podem se tornar inviáveis do ponto de vista financeiro, como, por exemplo, elevar ou abaixar uma plataforma, ou ainda modificar toda uma instalação.

Algumas vezes isso é feito pois a previsão positiva de resultados o permite. Em algumas fábricas da Renault Veículos o automóvel em linha de montagem é rebatido sobre o plano vertical de forma a facilitar o acesso do operário para tarefas na parte inferior do mesmo. Em outras situações até mesmo o tipo de fornecimento dos componentes técnicos pode vir a se tornar um entrave. Num estudo para reforma da cabine de uma ponte rolante (Bezerra e col., comunicação pessoal) chegaram a propor uma alternativa de desenho que satisfazia a uma série de requisitos ergonômicos. Isso envolveria o redesenho da console de comando, incluindo a reconcepção do cabeamento inserido dentro de uma carenagem semicilíndrica que se posicionava exatamente entre as pernas do operador. Mesmo o protótipo tendo sido aprovado com sucesso nos testes experimentais, o fabricante da console não aceitou as modificações propostas e o projeto teve de ser ajustado a esse tipo de contrante.

No campo dos ambientes as especificações da ergonomia física desaguam em recomendações relativas à higiene - manter o ambiente em um estado que não agrida a integridade do organismo - mesmo do conforto ambiental, buscando as melhores condições possíveis para o desempenho da atividade. Em certos casos o aspecto de eficiência ambiental se torna crucial. Normativamente esse tema vem sendo tratado pelo estabelecimento de padrões ambientais que estabelecem níveis de ruído, temperatura, iluminamento, qualidade do ar e demais aspectos aparentemente de fácil normalização. No entanto é enorme a dificuldade de se trabalhar, sob o prisma da adequação com limites de tolerância a agentes agressores, já que entre as faixas de conforto e as faixas de tolerância de um parâmetro ambiental se estabelece uma região de nebulosidade: os limites superiores de conforto jamais coincidem com os limites de tolerância. Tomemos o exemplo acústico: um limite de tolerância estabelecerá um patamar abaixo qual não existiriam danos à pessoa. Como sustentar que um local de trabalho com nível de ruído próximo a este limite permita o bom desempenho da atividade?

Uma especificação adequada de ambientes físicos, naturalmente terá como balizamentos os padrões ambientais normalizados - que é para que servem as normas - mas procurará enriquecê-las com considerações ergonômicas relativas à atividade, como no exemplo já citado. Na prática a cooperação entre ergonomistas e higienistas industriais é de inegável interesse para ambas as partes, ganhando com isso tanto a empresa como seus empregados.

Assim sendo a praticidade das especificações de Ergonomia Física, sempre necessária, nem sempre é trivial e automática, decorrente das constatações do diagnóstico ergonômico. Ela vai requerer uma boa combinação de criatividade, argumentação e pertinência da parte do ergonomista. Pertinência de tratar problemas existentes e inequívocos; argumentação para convencer, sensibilizar e demonstrar as vantagens da proposta; e criatividade para encontrar boas soluções, propostas que não resolvam um problema criando outros desconhecidos ou inesperados.

O campo da ergonomia física, do ponto de vista de sua aplicabilidade, vai se consubstanciar na realização de especificações relativas ao posto e ao método de trabalho, bem como sobre o ambiente.

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Essas aplicações se destinam primariamente ao projeto de novos postos de trabalho e especificações ambientais. Uma segunda ordem de aplicações tem se situado no campo normativo, com vários trabalhos de ergonomistas sendo incorporados pelos comitês e comissões de normalização. Numa terceira linha de aplicações, estudos e propostas de ergonomia têm sido mobilizados para sensibilização das esferas dirigentes, conscientização e envolvimento dos funcionários e mesmo orientações específicas sobre o agenciamento do posto pelos próprios operadores, tal como um operário mais qualificado regula seu equipamento e instrumentos de trabalho. Num último porém crescente campo de aplicações, análises ergonômicos têm subsidiado a elaboração de programas de atividades compensatórias como escalonamento de pausas para repouso, exercícios e alternâncias de várias ordens - lazer, yoga, etc.

A cognição trata da ergonomia dos aspectos mentais da atividade de trabalho de pessoas e indivíduos, homens e mulheres. O olhar do ergonomista não se contenta em apontar características humanas pertinentes aos projetos de postos de trabalho ou de se limitar a entender a atividade humana nos processos de trabalho de uma ótica puramente física. Nesse movimento de idéias apreende-se - o que os filósofos gregos já discutiam - a importância dos atos de pensamento do trabalhador na consecução de suas tarefas. E com isso, apreendemos que os trabalhadores não são apenas simples executantes, são capazes de detectar sinais e indícios importantes, são operadores competentes e são organizados entre si para trabalhar. E que, nesse contexto, podem até cometer erros.

Errar é humano ! Mas...de quem é o erro? Que erro é esse? Como é que se produziu e como evitá-lo? São as questões para as quais a Ergonomia Contemporânea, particularmente a Ergonomia Cognitiva tenta produzir para eles alguns elementos de respostas. Esses elementos de resposta projetual partem de três premissas básicas e sine qua non: (a) como fundamento técnico a rejeição do absurdo que é projetar um sistema de produção a custos vultosos onde as decisões operacionais chaves estejam na dependência de operadores colocados diante de um quadro complexo, do qual não têm os elementos necessários e que se encontram num contexto de elevada solicitação e carga de trabalho. Tão mais complexo e perigoso seja o sistema, tanto mais os operadores devem estar aptos para tomar a boa decisão nos bons momentos. Esta aptidão deve estar nas pessoas (formação) nos sistemas (tecnologia) mas sobretudo nas interfaces entre uns e outros (ergonomia); (b) como fundamento ético a premissa de que os trabalhadores num processo nem se caracterizem como insanos suicidas capazes de realizarem atos absurdos que lhes custe a própria integridade física, mental e espiritual e tampouco como sórdidos sabotadores dos engenhos físicos e sociais que constituem uma dada tecnologia de produção. Nesse sentido a ergonomia pode desapaixonar a questão do Erro humano contribuindo com elementos decisivos para uma perícia eficaz; (c) Com fundamento moral, a crença de que as pessoas tentam cumprir seu contrato de trabalho nas situações de trabalho onde se encontram e , exatamente por isso, cabe aos projetistas assegurar uma situação de trabalho correta. A Ergonomia nesse sentido é indispensável para um bom projeto.

A figura 7 esquematiza o processo cognitivo. Em termos cognitivos o ser humano transforma as informações de natureza física em informações de natureza simbólica e a partir desta em ações sobre as interfaces. Sua concepção nos é trazida pelo campo das ciências cognitivas, que visa ao estudo do conhecimento virtual, ou seja , foca o conjunto das condições estruturais e funcionais mínimas que permitem perceber, se representar, recuperar e usar a informação. (Tiberghien).

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