José de Alencar Porradas Literárias

José de Alencar Porradas Literárias

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Museu do Imaginário IndígenaMuseu do Imaginário Indígena INTELIGÊNCIAINSIGHT

OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO 2003 alvez nenhum grande nome da literatura brasileira esteja tão assinalado pela fama de polemista quanto o de José de Alencar. A reputação não é, de fato, gratuita: justificamna as páginas de contendas obstinadas, que se tornaram públicas em artigos jornalísticos regulares. Alencar não discutia apenas com seus pares: dirigia-se aos profissionais da imprensa, aos representantes do poder público, aos historiadores, filólogos e — se bem que em tom mais diplomático e conciliatório — dirigia-se também ao público. A imprensa diária não seria o veículo exclusivo para as controvérsias.

O tísico

José de Alencar

Rita de Cássia Elias professora

Museu do Imaginário Indígena150

Alencar deixou registrada sua vocação para o debate num conjunto de escritos, publicados como apensos aos romances, de prólogos, notas esclarecedoras, advertências aos leitores, cartas cujas mensagens se desviavam sutilmente dos destinatários patentes para atingirem um público mais amplo. Mas as respostas às objeções podiam também se expressar sob a forma literária, num jogo com o leitor, na “ficcionalização” da crítica, como veremos. Tal vocação, além de original — talvez não haja no século XIX nenhum escritor tão empenhado no debate público —, também demonstra a diligência de Alencar em esclarecer o leitor, categoria que começava a se formar, fato que, talvez, possa explicar o didatismo do narrador alencariano. Diria, até mesmo, que o conjunto extenso de notas de alguns dos romances, como O guarani, Iracema, Ubirajara e O gaúcho, teria como função elucidar para o leitor um universo cultural e lingüístico que lhe era estranho.

Com a publicação “aos pedaços” de O guarani, no Diário do Rio de Janeiro, de fevereiro a abril de 1857, José de Alencar conquistaria o prestígio do reduzido público leitor da época1, embora não fosse um estreante nos expedientes do mundo jornalístico. Seu acesso ao leitor fluminense já estava garantido pelo Correio Mercantil, em que escreve de setembro de 1854 a julho de 1885, e pelo Diário do Rio de Janeiro, entre outubro e novembro de 1855, periódicos nos quais o autor, recém-formado em Direito, ensaiava sua pena de futuro romancista e iniciava sua vocação para a reflexão do fenômeno literário. Embora no século XIX a imprensa brasileira pudesse ser caracterizada como “literária”2, as gazetas e revistas, cada vez mais presentes no cotidiano da vida da Corte, deveriam atender a um público de interesses heterogêneos, ainda que nascido de um mesmo segmento social — se considerarmos que a burguesia se associava às classes senhoriais —, segmento que buscava entretenimento e informação, conselhos úteis, erudição, discussão política. Os periódicos deveriam conquistar, especialmente, o público feminino e os estudantes, um mercado incipiente, mas promissor e fiel, que começava, na metade do século XIX, a sofrer os impactos dos primeiros programas de modernização.

Se considerarmos o teor dos folhetins de

José de Alencar, concluiremos que o autor já conhecia o funcionamento dos periódicos e de seu valor na vida da Corte e percebia a importância do consórcio entre literatura e imprensa. Em seus escritos de iniciante já se insinua a percepção do lugar ocupado pelo escritor profissional em uma sociedade em transformação, sua relação com o público leitor e a compreensão do significado da noção de mercado.

Seu primeiro folhetim, de 3 de setembro de 1854, se inicia com uma pequena estória — “um conto fantástico” —, aparentemente despretensiosa e ingênua, mas que justifica, alegoricamente, o título da seção “Ao correr

Espécie de escriba decaído, o escritor se adaptará, com alguma resistência, a condições que o ultrapassam e sobre as quais não detém nenhum controle

OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO 2003 da pena”: um rodapé com textos para serem lidos “ao correr dos olhos”3, segundo a recomendação expressa de seu autor. Na abertura, Alencar dirige-se ao leitor numa comunicação direta e explicita-lhe a natureza daquela escrita, ligeira, mecânica, destituída de inspiração. O escritor, sem musa, ou, por outra, dominado pela “musa industrial”4, não passaria de um autômato, de um escrevinhador. Espécie de escriba decaído, o escritor se adaptará, com alguma resistência, a condições que o ultrapassam e sobre as quais não detém nenhum controle.

Ao correr da pena, portanto, Alencar, por dever de ofício, passará em revista assuntos diversificados, característicos dos rodapés dos jornais. Deverá falar de forma bemhumorada e leve a respeito de tudo, exibindo alguma propriedade ao comentar os assuntos mais diversos: de questões relativas à política internacional à limpeza da cidade, de problemas econômicos e financeiros a assuntos dos mais prosaicos, como as indumentárias femininas nas festas e espetáculos teatrais; deverá, em uma seção, transitar sutilmente de assuntos amenos a graves para não cansar o leitor. Como folhetinista, Alencar não sustentará nenhuma polêmica, a não ser algumas repreensões ao avaliar o cotidiano da cidade, com suas transformações e mazelas, e os rumos da política e da economia do país.

erá em 1856, antes da publicação do romancefolhetim O guarani, que Alencar fará sua entrada na arena propriamente literária. Sob o codinome de Ig, pseudônimo que, como afirma o próprio Alencar, “fez quebrar a cabeça de muita gente”5, o autor ficcionaliza um leitor, um senhor reservado e afastado da bulha da Corte, que enviará cartas destinadas a “um amigo”, a quem pede desculpas pelo tom familiar e a quem concede o direito de publicá-las, desde que mantido o caráter epistolar, em vez do tom de artigo, que exigiria certa dose de gravidade e erudição6. Com efeito, trata-se de um jogo com o leitor e, sobretudo, com seu verdadeiro interlocutor. Afinal, José de Alencar era o próprio redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro, gazeta em que serão publicadas as “Cartas”. O destinatário oblíquo, portanto, longe de ser “um amigo”, um suposto editor, seria o próprio autor do poema A confederação dos Tamoios, o escritor Domingos Gonçalves de Magalhães, um dos idealizadores do romantismo.

A ousadia seria sem precedentes. Além de marcar os pródromos do romantismo no Brasil com a edição, na França, em 1836, da Revista Niterói e do poema Suspiros poéticos e saudades, Gonçalves de Magalhães, nome já consagrado e respeitado, era protegido por Dom Pedro I, que arcaria com os custos da segunda edição do poema. Gonçalves de Magalhães evita a contenda, mas seus paladinos — Araújo Porto-Alegre, Monte- Alverne e o próprio imperador, além de outros anônimos, cujas identidades não foram descobertas — preparam, dois meses depois de publicadas as primeiras cartas de Ig, a defesa do poeta no Correio da Tarde e no Jornal do Commercio. Alencar conta com o apoio de um tal senhor Ômega, provavelmente Pinheiro Guimarães, segundo hipótese de José Aderaldo Castelo7.

A confederação dos Tamoios inspira-se num episódio histórico, a reunião de várias tribos para a primeira reação organizada dos autóctones contra a ocupação portuguesa. É muito provável que os franceses tenham sido grandes colaboradores na tentativa de expulsão dos colonizadores. Sob a intervenção dos jesuítas, firma-se um tratado de paz, que não é cumprido pelos portugueses, o

Museu do Imaginário Indígena152 que resulta num dos grandes massacres da história da colonização européia nos trópicos.

Brito Broca considera possível que as investidas de Alencar contra o poema de Gonçalves de Magalhães tenham sido a expressão de uma “vaidade ofendida”. Com as Cartas, Alencar teria respondido à exclusão de seu nome da relação de convidados para a leitura do poema no Palácio de São Cristóvão. Ainda segundo o crítico, Alencar teria se sentido “roubado” no seu propósito de escrever sobre o indianismo8. A apreciação de Brito Broca é discutível, em primeiro lugar porque reduz a importante iniciativa, que Alencar levará a sério, de se fazer a crítica da produção contemporânea, uma “crítica viva”9, a questões de ressentimentos; em segundo, porque, sob a perspectiva de uma disputa pessoal, Brito Broca desqualifica um conjunto de reflexões em que estarão em jogo a análise estilística do poema de Gonçalves de Magalhães e também uma teoria da mímesis, da verossimilhança, da construção do personagem, do enredo, dos gêneros e do estatuto da criação na composição da obra de arte, estando em questão, também, a formulação do indianismo, das propostas nativistas e da afirmação do antilusitanismo.

Ig inicia sua primeira carta afirmando que, por não possuir habilitações para uma análise, não pretende fazer um juízo crítico sobre o poema, mas tão-somente registrar as impressões de uma leitura pessoal, de um leitor comum10. Ao contrário do que diz o pseudônimo Ig, contudo, Alencar promove uma análise minuciosa da obra, a partir dos padrões analíticos da época: uma crítica que, hoje, chamaríamos de impressionista, mas que revela perspicácia na reflexão teórica.

José de Alencar convoca bom número de autores, de Homero a Gonçalves Dias, não a título de demonstrar erudição, mas a fim de estimular um debate sobre a constituição da literatura brasileira em relação à “estrangeira”. Alencar recorre à tradição literária ocidental para apontar como nossa literatura pode, a partir de suas especificidades e particularidades, se submeter aos cânones, sem perder, contudo, a originalidade ou a ambição de um projeto próprio. Por isso, a crítica ao poema é contundente tanto a respeito da linguagem empregada por Gonçalves de Magalhães, que, afetado pelo “estudo da poesia estrangeira”, teria perdido o gosto apurado e a suavidade e cadência do verso português”1, como a propósito da construção épica do poema. Segundo Alencar, os enredos das grandes obras no gênero possuem como “causa, ou um grande infortúnio, ou um sentimento poderoso como a nacionalidade e a religião, ou um acontecimento importante como a descoberta de um novo mundo”12. O poema de Magalhães, porém, se serviria “da vingança, mas uma vingança motivada por um fato trivial, um fato bem comum, como era a morte de um índio”, (...no) “tempo de hostilidades constantes entre os invasores e os indígenas”13. Antecipando sua capacidade para a montagem de grandes cenas, Alencar anuncia que, tivesse sido o autor do poema, teria iniciado pelo conselho dos chefes Tamoios e, a partir daí, explicaria a razão da confederação, para fazer “valer o sentimento nacional, a liberdade e o cativeiro dos índios”14. No entanto, seguindo Alencar, no poema de Magalhães,

Não é pelo ódio instintivo da cor, não é pelo opróbrio e a vergonha de homens livres reduzidos à escravidão, não é pelo seu belo país, dominados por filhos de terras estranhas; não é para vingar as cinzas de seus pais, não é por nenhum desses incentivos nobres, que os Tamoios se confederam; é unicamente para acabar com os ataques reiterados dos Lusos.15

OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO 2003

Araújo Porto-Alegre será o primeiro “amigo do poeta” a refutar as críticas de Ig- Alencar. Exatamente como amigo do poeta, tenta descaracterizar os argumentos e imprimir-lhes a marca de uma ofensa pessoal. Além disso, distorce o raciocínio do debatedor e, lançando mão de argumentos ad hominem, transforma as proposições de Ig em “provas” que desqualificariam suas idéias. Segundo Porto-Alegre, ao recorrer à tradição literária ocidental, Ig criticaria a obra por não seguir os cânones, promovendo uma comparação inadequada, em que a literatura brasileira estaria marcada pela falta. Resumindo, Ig não valorizaria a originalidade de nossa produção estética e tampouco trataria com respeito a “pátria” e o zelo daqueles que cantaram sua liberdade.

grande princípio, o pensamento edificador que preside ao todo desta obra nacional, não pode ser avaliado por homens cujo coração está vazio; e a quem não importa o futuro daquela grande entidade que denominamos PÁTRIA, enquanto podem viver nos gozos materiais, e refocilar-se nas frioleiras de uma nunca interrompida infância.16

E continua “o amigo do poeta”: Se um brasileiro escreve aqui uma tragédia, é logo comparada com todos os primores conhecidos (...); se escreve um poema, é lançado no barato porque não escureceu Homero (...); e no entanto queremos já, vaidosos madraços, falar em literatura brasileira, e nos nossos grandes homens da época atual, que se parecerão todos no futuro com estátuas mutiladas e remendadas, tais foram as pedradas que levaram da mão daqueles que os deviam acolher e venerar, e circundá-lo de uma bem merecida estima.

Na quinta carta, Alencar-Ig, decepcionado com o “debate” na imprensa, despede-se do suposto amigo-editor, sem dar muita atenção aos contra-argumentos dos debatedores, quando aparecem no Jornal do Commercio as reflexões a propósito das cartas sobre “A confederação dos Tamoios”, assinadas por um “outro amigo do poeta”, na verdade, Dom Pedro I. Reagindo a essas “reflexões”, Ig volta à cena porque reconhece nelas uma polêmica literária, “que tem sempre a vantagem de estimular os espíritos a produzirem alguma coisa de novo e de bom”17. De fato, o “outro amigo do poeta” não se arma com o objetivo de “travar uma luta mesquinha e baixa”18, mas, ao contrário, propõe uma discussão fundamentada e, sobretudo, polida, a respeito das objeções de Ig ao poema de Magalhães, tal como se pode verificar na abertura de suas reflexões:

Ocupava-me tranqüilamente com as minhas obrigações quando me fizeram ler as Cartas sobre a confederação dos Tamoios, assinadas por Ig. Não desgostei do seu estilo, e as censuras me abalaram; mas não deparando senão com um ou outro louvor a

Araújo Porto-Alegre será o primeiro “amigo do poeta” a refutar as críticas de Ig-Alencar.

Exatamente como amigo do poeta, tenta descaracterizar os argumentos e imprimirlhes a marca de uma ofensa pessoal

Museu do Imaginário Indígena154 certas passagens do poema, assaltou-me a curiosidade de examinar se os Suspiros Poéticos, que tanto me agradam, tinham sido os últimos do poeta. Procurei o poema, obtive-o enfim, com algum custo, pois só há pronta a edição imperial, e, estudando-os, assim como a crítica, julguei dever apresentar estas reflexões, ainda que escritas com pena mal aparada: sigo a ordem das censuras.19

Alencar dará continuidade à discussão com a publicação de mais três cartas.

As Cartas sobre a confederação dos

Tamoios não podem ser reduzidas a uma vindita. Trata-se de uma reflexão que repercutirá em toda a obra de Alencar, especialmente nos romances indianistas, nos quais ele recusa o nativismo, o antilusitanismo, característicos dos primeiros românticos. Para alguns críticos, a obra de Alencar ocultaria uma história de extermínio. Contudo, a lógica da fundação da nacionalidade nos romances de Alencar não comportaria o herói indígena decaído, embora ele não negasse as atrocidades cometidas contra os nativos. Essa era a história, mas o escritor pretendia, utopicamente, criar uma “nova nacionalidade”20, na qual não poderiam faltar os elementos europeu e o autóctone. Note-se que, com as Cartas sobre a confederação dos Tamoios”, a questão indianista ganhará nuanças, que estarão presentes em O guarani, Iracema e Ubirajara. Ou seja: a proposta indianista de Alencar difere da de seus antecessores. Por mais que pareça estranho, nos romances indianistas se insinuarão, simbolicamente, os traços do ideário liberal. A liberdade do autóctone não é um mero lugar-comum romântico, mas o ideal de um mundo destituído de hierarquias, subordinações e relações de dependência, como é o universo, por exemplo, da família Mariz, cujo líder, um fidalgo, é a expressão de uma suposta vontade coletiva. A recuperação do passado e do mundo medievo são redimensionados na obra de Alencar. Não é por acaso que o solar dos Mariz implode, e Ceci e Peri, solitários, sobre a copa de uma palmeira, desaparecem no horizonte após o dilúvio.

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