Comunicação científica

Resumo

Apresentação dos conceitos de comunicação científica, sua evolução, padrões e diferentes canais de comunicação. A literatura científica pode ser traduzida como parte da comunicação científica, expressa em veículos formais, isto é, livros, artigos de revistas especializadas etc. Porém há também veículos informais de comunicação entre pares na comunidade científica. O propósito deste artigo é destacar, em especial, o periódico científico e o “colégio invisível”.

Palavras-chave Comunicação científica; Periódico científico; Colégio invisível.

Um dos requisitos mais importantes para caracterizar a maturidade de uma área do saber e o desenvolvimento da ciência nessa área é a literatura científica, sendo esta tão importante quanto o próprio trabalho de pesquisa que lhe deu origem. Para Ziman, a forma como a pesquisa é apresentada à comunidade científica, o trabalho escrito em que são apresentados pela primeira vez seus resultados, as críticas e as citações de outros autores, tudo isso constitui uma parte tão importante da ciência quanto o embrião da idéia que deu origem a tudo [07]. Sem a literatura e a comunicação científica em geral, a disseminação do conhecimento científico seria muito limitada e, sem ela, não haveria ciência.

A literatura científica pode ser traduzida como a parte da comunicação científica expressa em veículos formais, isto é, livros, artigos de revistas especializadas etc. Porém há também veículos informais de comunicação entre pares na comunidade científica, como os colégios invisíveis, por exemplo. Antes de descrever os diferentes canais de comunicação, é preciso definir o que vem a ser comunicação científica.

Definições e conceitos de comunicação científica

A comunicação científica pode ser definida como a troca de informações entre membros da comunidade científica, incluindo, segundo Garvey, atividades associadas à produção, disseminação e uso da informação, desde o momento em que o cientista concebe uma idéia para pesquisar, até que os resultados de sua pesquisa sejam aceitos como constituintes do conhecimento científico [01].

A comunicação científica tem como principal função dar continuidade ao conhecimento científico, já que possibilita a disseminação desse conhecimento a outros cientistas que podem, a partir daí, desenvolver outras pesquisas, para corroborar ou refutar os resultados de pesquisas anteriores, ou estabelecer novas perspectivas naquele campo de interesse. A comunicação científica também é capaz de definir e legitimar novas disciplinas e campos de estudos, institucionalizando o conhecimento e rompendo suas fronteiras.

Por meio da comunicação científica, os membros dessa comunidade se mantêm informados sobre as tendências da área, os estudos já realizados e seus resultados. A partir da crítica e das citações de outros autores a um determinado trabalho científico, os pesquisadores têm maiores condições de verificarem a confiabilidade das informações nele contidas.

O ato de publicar, por exemplo, assume ainda outras funções, como a de estabelecer prioridade da descoberta científica, reconhecer e promover o cientista de acordo com a qualidade e importância de suas descobertas, e como prova definitiva de efetiva atividade em pesquisa científica.

Evolução da comunicação científica

A comunicação científica, entretanto, até meados do século XVII, se restringia a cartas entre os pesquisadores e publicações esporádicas de panfletos e livros, e não havia um centro que se responsabilizasse pela transmissão dessas publicações. Com isso, muitos trabalhos deixavam de ser conhecidos por outros cientistas. Ziman considera que a revista científica, criada pelas Sociedades Reais e Academias Nacionais, tem um papel importantíssimo na disseminação da literatura científica, por seu caráter de publicação regular, proporcionando divulgação rápida e garantida dos resultados de um número maior de pesquisas que, se tomadas separadamente, não teriam grande significação, mas que, ao serem reunidas umas às outras, são capazes de estimular novos trabalhos e promover avanços científicos [07].

Devido ao crescimento da ciência, do número de cientistas e da literatura científica, entretanto, a comunicação científica se tornou cada vez mais dependente das funções de recuperação de informação. Mueller ressalta que o grande problema é simplesmente o enorme aumento de volume da literatura científica e técnica, mais conhecido como explosão bibliográfica ou explosão da informação [05]. Apesar de terem se desenvolvido, ao longo dos últimos anos, sistemas de recuperação de informação e publicações de resumos, revisões e comunicados de alerta, Mueller não acredita que a situação tenha melhorado. Pelo contrário, a autora destaca que não só a pressão para publicar mais permanece, como também as novas tecnologias de comunicação têm facilitado ainda mais as possibilidades de disseminação de informações [05].

Por outro lado, Meadows lembra que, apesar do crescimento acelerado e da explosão bibliográfica, o crescimento da ciência, e de sua comunicação, não ocorreu de forma caótica. Esse autor acredita que, pelo contrário, a ciência tem crescido de forma relativamente ordenada, assim como a própria comunicação científica [02]. Pode-se atribuir esse fato às regras e práticas, estabelecidas e seguidas pela comunidade científica, para a comunicação entre seus membros.

Padrões da comunidade científica

A forma de disseminação do conhecimento científico obedece padrões consensuais da comunidade científica, a qual prima pela qualidade, confiabilidade e credibilidade do que é divulgado. Um cientista, ao desenvolver seu trabalho de pesquisa, precisa manter contato com seus pares e consultar a literatura da área, para saber o que já foi dito sobre aquele assunto e o que está sendo pesquisado no momento. Por isso, a qualidade, a confiabilidade e a credibilidade do que é divulgado pela comunidade científica, assim como as críticas e avaliações feitas por outros cientistas da área, são vitais para a consecução de pesquisas científicas consistentes.

Comunicação formal e informal

Na literatura sobre a comunicação científica é comum, apesar de não ser unânime, encontrar dois tipos complementares de comunicação: comunicação formal e comunicação informal. Em seu livro Communication in science [02], Meadows traça paralelos entre essas duas abordagens, enfocando aspectos mais característicos de um ou outro tipo de comunicação. De acordo com Meadows, enquanto a comunicação formal é direcionada a um público potencialmente grande, porém proporcionando pouca interação entre esse público e o pesquisador, a comunicação informal apresenta um público mais restrito, porém com maior capacidade de feedback ao pesquisador [02]. Na comunicação formal, a informação normalmente é mais antiga, podendo ser armazenada permanentemente e recuperada. A comunicação informal é mais atual, mais redundante e, em geral, não pode ser armazenada ou recuperada.

Os instrumentos formais de comunicação científica caracterizam-se pela linguagem escrita, sendo os periódicos, livros, teses, dissertações e anais de reuniões científicas os meios mais utilizados.

Vale lembrar que existem outros meios formais (escritos) voltados para a divulgação da ciência, tais como as informações escritas veiculadas em redes eletrônicas públicas, revistas de popularização da ciência, artigos de jornal em seções especializadas, entre outros. A diferença entre esses dois conceitos de difusão da ciência é que a divulgação está ligada à popularização da ciência, levando os conhecimentos científicos ao público leigo em geral, enquanto a comunicação científica ocorre entre um grupo seleto formado de especialistas.

O periódico científico

Em estudos promovidos por Mueller, Campello e Dias [06], sobre a disseminação da pesquisa em ciência da informação e biblioteconomia, foi constatado que, no Brasil, os principais canais de disseminação dos trabalhos realizados nessa área são os periódicos, livros e monografias; anais de encontros científicos e profissionais; e as teses e dissertações produzidas por doutorandos e mestrandos dos programas de pós-graduação na área. Apesar de não terem encontrado, à época, estudos ou dados quanto ao uso comparativo desses canais, a experiência prática desses autores apontou os periódicos como os mais difundidos e conhecidos.

O periódico científico tem se configurado como veículo formal de comunicação tanto para divulgação do conhecimento como para comunicação entre os pares da comunidade científica. Outros instrumentos formais de comunicação científica têm sido incorporados em seções específicas do próprio periódico ou reunidos e republicados em revistas especiais, tais como os resumos indexados e os artigos de revisão da literatura.

O periódico é considerado o arquivo oficial da comunidade científica, já que a avaliação e crítica prévias, por editores e bancas de especialistas, dos textos submetidos à publicação, considerando a plausibilidade e a importância da argumentação, sem nenhuma deferência especial à identidade do autor ou da empresa para a qual trabalha, lhe conferem uma base mais sólida para a ciência.

Ziman destaca que um artigo publicado em uma revista conceituada não representa apenas a opinião do autor, mas leva também o selo de autenticidade científica outorgado pelo editor e os examinadores por ele consultados [07]. É claro que existem boas e más revistas. Cabe ao pesquisador escolher aquelas com maior potencial para apresentar trabalhos desenvolvidos por pesquisadores conceituados e que possam contribuir significativamente para o enriquecimento de seus conhecimentos científicos.

Assim como existem trabalhos de pesquisa divulgados antes de sua publicação em revistas especializadas, conhecidos como preprints (cópias distribuídas a colegas e pesquisadores da área, a fim de receber críticas antes de sua publicação oficial), também existem os artigos de revisão.

O artigo de revisão é um instrumento formal de comunicação científica cujo objetivo é apresentar a opinião crítica especializada de seu autor, a respeito dos trabalhos e atividades de pesquisas desenvolvidas na área por ele enfocada, comparando pontos de vistas convergentes e divergentes, e levando o leitor a outras publicações sobre o assunto. Com isso, o leitor identifica a importância e a credibilidade de cada trabalho analisado na revisão e consegue ter uma visão geral do estágio atual das pesquisas naquela área do conhecimento.

A comunicação informal e o “colégio invisível”

Quanto aos instrumentos informais de comunicação científica, pode-se dizer que normalmente são representados por canais de comunicação oral, tais como conversas entre colegas pesquisadores (pessoalmente, por telefone ou via correio eletrônico), e entre pequenos grupos reunidos em encontros, almoços, visitas a laboratórios etc. A comunicação informal, interpessoal, ocorre mais na fase inicial ou conceitual do trabalho de pesquisa.

Sob a camada superficial das publicações científicas oficiais, Ziman destaca a atuação das redes de comunicação informal constituídas pelo chamado “colégio invisível” [07]. Os membros desse “colégio invisível” são profissionais dedicados a uma mesma área de pesquisa, colegas ou rivais, espalhados por todo o mundo, com vínculos não formais, dificilmente percebidos por quem se encontra fora do grupo. Os elos que unem esses profissionais são, por exemplo, as conferências e congressos, as correspondências via correio tradicional ou eletrônico e as viagens para estudos cooperativos.

Mueller considera que no início do período de crescimento de uma determinada área, os membros do “colégio invisível” emergente se consideram e são aceitos como as principais autoridades no assunto [04]. Suas opiniões sobre todos os trabalhos de pesquisa na área são decisivas e suas idéias prevalecem. À medida que aumenta o número de cientistas interessados na área, acabam se formando grupos menores, com idéias diferentes, dentro desse grupo maior, que, nesse momento, talvez já não seja tão invisível assim.

Considerações finais

Pode-se concluir que, dentre os diversos canais de comunicação científica, há que se dar destaque ao periódico científico e às redes de comunicação informal do “colégio invisível”. O período científico, além de sua função principal de comunicação entre os pares da comunidade científica, na busca de informações e de seu reconhecimento e prestígio, também atua como registro público da informação, relacionado à prioridade e à propriedade das descobertas científicas.

Quanto ao “colégio invisível”, seria relevante, para as pesquisas na área de comunicação científica, identificar o quanto as novas tecnologias, como a informática, as telecomunicações e mais recentemente a Internet, têm intensificado de forma significativa a comunicação científica informal promovida entre esses diversos grupos de especialistas.

Referências bibliográficas

[01] GARVEY, W. D. Communication : the essence of science facilitating information among librarians, scientists, engineers and students. Oxford: Pergamon Press, 1979.

[02] MEADOWS, A. J. Communication in science. London: Butterworth, 1974.

[03] MIRANDA, Dely. O periódico científico como veículo de comunicação : uma revisão de literatura. Ciência da Informação. v.25, n. 3, 1996.

[04] MUELLER, Suzana. O impacto das tecnologias de informação na geração do artigo científico : tópicos para estudo. Ciência da Informação. v.23, n. 3, p.309-317, set./dez. 1994.

[05] MUELLER, Suzana. O crescimento da ciência, o comportamento científico e a comunicação científica : algumas reflexões. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG. v.24, n. 1, p.63-84, jan./jun. 1995.

[06] MUELLER, Suzana et al. Disseminação da pesquisa em ciência da informação e biblioteconomia no Brasil. Ciência da Informação. v.25, n. 3, 1996.

[07] ZIMAN, John. Community and communications. In:Public knowledge, the social dimension of science. London :

Cambridge University Press, 1968.

Communication in science

Abstract

Analysis of the concepts of scientific communication, its evolution, rules and different communication channels. The scientific literature may be considered as part of the scientific communication, expressed in books, journals etc. However, other informal communication vehicles are also used by members of the scientific community. The purpose of this article is to point out the scientific journal and the “invisible college” as important vehicles of communication in science.

Keywords Scientific communication; scientific journal; invisible college.

Cláudia Augusto Dias Mestranda em ciência da informação na Universidade de Brasília (UnB).

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